A RETÓRICA GRECO-LATINA

E A SUA PERENIDADE

Volumes I e II

ACTAS DO CONGRESSO

Instituto de Estudos Clássicos

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

 

 

                Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra

                Senhores Presidentes dos Conselhos Directivo e Científico da Faculdade de Letras

                Senhor Presidente da Fundação Eng. António de Almeida

                Excelentíssimas Autoridades

                Senhores Congressistas

 

               

                É-me grato saudar as autoridades que nos deram a honra da sua presença e os congressistas que, aderindo em tão elevado número ao Congresso Internacional A Retórica Greco-Latina e a sua Perenidade, vieram até Coimbra para reflectir sobre a importância da eloquência em vários domínios da literatura, da arte, do ensino, do saber. Estou certo de que dos trabalhos se vão colher os esperados frutos.

                A arte de bem falar, a retórica ou a eloquência dos Romanos, ultrapassou nas últimas décadas a desconfiança, anátema mesmo, em que o século XIX a lançara e que está bem explícita neste passo do volume IX das Farpas de Ramalho Ortigão (Lisboa, 1944, p. 13):

                Não somos dos beatos da palavra, dos gulosos de figuras e de tropos, que dão à eloquência — no sentido vulgar desta palavra —, uma adoração que ela não merece. Consideramos Longino e Quintiliano como uns pobres instrutores de pedantes, pelos quais professamos um respeito extremamente comedido.

                Nas sociedades modernas a utilidade prática dos retóricos vai-se tornando cada vez mais restrito, e é natural que dentro em pouco nos seja absolutamente impossível aturá-los...

                Nascida no mundo helénico, a retórica deu aí os primeiros passos, no momento em que, na Sicília, Tísias, e Córax lançaram, nos inícios do século V a.C., os começos da sua teorização. Desenvolvida pelos Sofistas, ao longo desse século, e considerada por eles como uma disciplina fundamental do seu currículo de estudos, ganhou relevo e tornou-se na arte de bem falar. Esta sua aquisição de carta de alforria deriva de uma exigência da democracia ateniense, que tinha na Assembleia de todos os cidadãos, no Conselho dos Quinhentos e nos Tribunais Populares da Helieia, órgãos de massas, as instituições chave do sistema. Oferecia por isso um campo privilegiado à arte de bem falar e convencer. Convém lembrar e acentuar que nessa época não havia o que hoje se chama os media e encontrávamo-nos, portanto, no mundo da palavra, da oralidade e não da escrita. Sendo a democracia ateniense directa e plebiscitária, nela o povo, o dêmos, tinha o direito de decidir soberanamente em todos os domínios e de, constituído em tribunal, julgar toda e qualquer causa — civil ou política, pública ou privada —, por mais importante que fosse. Estas características da democracia ateniense, que colocam a tónica na oralidade, obrigam os governantes e dirigentes a relações directas com os governados. Daí que a arte de bem falar e convencer, a retórica, se torne essencial para os que aspiram exercer cargos na pólis.

Se Platão não a considera e a mimoseia com crítica severa, naturalmente sugestionado pela má utilização que dela faziam os Sofistas, já Isócrates a colocou no centro do seu sistema educativo, pois era seu objectivo principal ensinar a falar bem, através da formação retórica e do convívio e prática dos bons autores. Graças a esse método os discípulos adquiriam uma sólida cultura literária que lhes dava a necessária preparação para desempenharem papel de relevo na pólis. O êxito de Isócrates levou Cícero a declarar que ele «ensinou a Grécia a falar». Mas a retórica por Isócrates propugnada e ensinada, ao contrário da dos Sofistas, submetia-se a princípios éticos, ao considerar que uma vida virtuosa confirma as palavras do orador: escreve, por exemplo, no Nícocles 7: Pela palavra formamos as pessoas incultas e damos a aprovação às inteligentes, pois o falar de forma adequada fornece o melhor testemunho do pensar com justiça: a palavra verídica, conforme à lei e à justiça, é a imagem de uma alma boa e leal.

A mesma postura ética encontraremos depois em Cícero e Quintiliano. É do último a seguinte afirmação (Institutiones oratoriae 2. 15. 34):

A definição que melhor caracteriza a substância da retórica é a de «ciência de dizer bem», porque ela abrange ao mesmo tempo todas as perfeições do discurso e a conduta moral do orador. É que não pode falar bem quem não for um homem bom.

Estruturada e sistematizada a eloquência solidamente por Aristóteles, o seu tratado A Retórica ficará como modelo para os tempos vindouros, exercendo um magistério poderoso que se manifesta, quer nos autores do período helenístico, quer entre os Romanos, quer entre os modernos, com uma influência crescente desde o Renascimento ao século XVIII. ...,... (de: Discurso de Abertura proferido pelo Presidente do Congresso Prof. Doutor José Ribeiro Ferreira)

 


SUMÁRIO

VOLUME I

 

Comissão de Honra

Comissão Organizadora

Entidade Promotora

Entidades Patrocinadoras

Entidades Apoiantes

Programa

SESSÃO DE ABERTURA

Discurso de Abertura pelo Prof. Doutor José Ribeiro Ferreira

Intervenção do Magnífico Reitor

COMUNICAÇÕES

— Os Caminhos da Persuasão na Ilíada – M. H. Rocha Pereira

— Innovación y Modernidad de la Retórica Aristotélica – A. López Eire

— Complementaridade e Expansão na Retórica Helenística – Manuel Alexandre Júnior

— Rhétorique et Philosophie: de Cicéron a nos Jours – Alain Michel

El Arte de la Persuasion en la Poesia Lirica Griega Femenina – M. A. María Esther Conejo Aróstegui

— Retórica y Filosofia en Platón – Pablo García Castillo

— Crónica de Costumes Femininos num Orador Ático – Ana Lúcia Amaral Curado

— Sobre a Vertente Retórico-Produtiva da Mimese Poética em Aristóteles – M.ª da Penha Campos Fernandes

O Confronto de Exércitos em Eurípides: A Retórica do Extracénico – Carmen Soares

— Elementos Retóricos no Héracles de Eurípides: O Debate sobre o Arqueiro e o Hoplita – Carlos Ferreira Santos

— Sophos, to Sophon e Sophia em As Bacantes de Eurípides – Marta Várzeas

— O Retrato de Protágoras no Diálogo Homónimo de Platão – Ana Elias Pinheiro

— Quintilien, Lecteur de Cicéron – Colette Nativel

— Retórica y Filosofía en Tres Modelos Clásicos : Gorgias, Aristóteles, Cicerón – António M. Seoane Pardo

— La Retórica Antigua y la Articulación del Lenguage – Jesús Luque Moreno

— La Imitación en Dionisio de Halicarnaso: Estética y Retórica – Ricardo Piñero Moral

— Retórica, Música y Crítica Literaria en Dionisio de Halicarnaso – Concepción Lopez Rodríguez

— A Função do Encómio da Caracterização de Personagens Bíblicas em Flávio Josefo: O Exemplo de Saúl – Nuno Simões Rodrigues

— A Paráfrase como Exercício Preparatório na Educação Retórica: Potencialidades Literárias e Didácticas – Rui Miguel de Oliveira Duarte

— Poesia e Propaganda Política: Metonímia, Sinédoque e Metáfora nos Epigramas de Marcial – Maria Cristina Pimentel

— Retórica y Estilo en Tácito: Historiae, 2,76-77 – Ángel Ballesteros Herráez

— El Proemio en la Literatura y Retórica Clásicas y su Pervivencia: M. De Unamuno – Belén Trobajo de las Matas

— O Conceito de Diegema (Narratio) na Retórica Antiga e na Moderna Crítica Literária — Marília P. Futre Pinheiro

Volume II

— Los Recursos Retóricos de los Carmina Burana — Luciana Sparisci

— A Retórica em Santo António de Lisboa no Contexto Português e Europeu da Idade Média – Henrique Pinto Rema

Retórica do Naufrágio e da Morte no Romance de Petrónio – Walter de Medeiros

— Gíton ou a Arte da Ambiguidade – Delfim Ferreira Leão

— El Discurso de Pablo Ante al Areópago (Hechos 17, 22-31): Un Ejemplo de la Adaptación de la Retórica Cristiana al Estoicismo – Manuel Guillén de la Nava

— Entre a Gramática e a Retórica: As Figuras na Gramática Portuguesa de João de Barros – Américo da Costa Ramalho

— El Ritmo en Prosa – De Cicerón a El Brocence – E. Sánchez Salor

— La Educación en la Antiguedad Tardía: El Panegírico de Eumenio – Eduardo Otero Pereira

— A Retórica Clássica e a Homilética Cristã – Paula Barata Dias

— Los Topica Ciceronis de Francisco Sánchez El Brocense – Manuel Mañas Núñez

— El De Oratore de Cicerón como Fuente del De Poeta de Minturno – Carlos de Miguel Mora

— Teatro Jesuítico: Miguel Venegas, Dramaturgo e Mestre de Retórica – Margarida Miranda

— Naceo e Amperidónia: Função Retórica dos Fragmentos Proemiais — Maria Paula Santos Soares da Silva Lago

— A “Retórica da Imaginação” dos Exercícios Espirituais de Stº Inácio numa Oração de Sapiência do Séc. XVII – Carlota Miranda Urbano

— O Persuasor Cristão Segundo Erasmo – Jorge A. Osório

— Aires Barbosa e os Seus Cem Exórdios Retóricos – Sebastião Tavares de Pinho

— Retórica e Pedagogia Humanistas: A Obra de D. Jerónimo Osório – Nair de Nazaré Castro Soares

— A Veia Retórica de Inácio de Morais ou os Tons Ovidianos de um Infelix Vates – Virgínia Soares Pereira

— La Oratio de Instituenda Adolescentia del P. Andrés Rodríguez en el Contexto Inaugural de las Clases de Gramática en Granada – Alejandro Borrego Pérez

— A Presença das Categorias do Discurso Retórico na Construção dos Sonetos de Tradição Petrarquista – Maria Micaela Ramon Moreira

— Da Retórica Clássica à Música no Barroco – Aires Rodeia Pereira

— Persuadir e Deleitar: Presença da Retórica na Nova Floresta do Padre Manuel Bernardes – Mafalda Ferin Cunha

— O Escritor e o Falastrão: Retórica e Anti-Retórica no Modernismo Brasileiro – Maria Aparecida Ribeiro

— O Riso em Maria Velho da Costa e Nélida Piñon – Beatriz Weigert

— Retórica e Oratória nos Media – Carlos leone

— Vestígios da Retórica Clássica na Comunicação Social – José Esteves Rei

— Entre Cícero e Aristóteles – A Retórica em Portugal, do Renascimento ao Barroco – Aníbal Pinto de Castro

— As Margens e o Rio (da Retórica Jurídica à Metodonomologia) – Fernando José Bronze

— Retóricas da Comunicação – Do Jornalismo às Telecerimónias – Mário Mesquita

SESSÃO DE ENCERRAMENTO

— Paenultima Uerba – Sebastião Tavares de Pinho

— O Uso da Retórica na Vida Política e Parlamentar – António de Almeida Santos

Data de Ed. – Março/2000 - Dep. Legal nº 149355/00 — ISBN 972-8386-31-1


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