A POÉTICA DA GERAÇÃO

 DA MENSAGEM

Por Salvato Trigo

 

            A «geração da Mensagem» da Literatura Angolana de Expressão Portuguesa formou-se na continuidade do «Movimento dos Novos Intelectuais», cujo lema — «Vamos Descobrir Angola!» — operaria uma revolução decisiva na sociedade colonial dos fins da década de 40.

            Mensagem — órgão catalisador de um punhado de jovens angolanos dispostos a assumirem uma atitude de combate frontal ao sistema sócio-cultural vigente na época —, foi, sem dúvida, o maior e mais seguro passo em frente na busca de uma cultura, mergulhada em letargia de séculos, sobre a qual se arquitectaria uma literatura autêntica, uma literatura social, uma literatura participada, como o é aquela que hoje possui já um lugar de destaque e em cuja passarela é possível fazer desfilar nomes de real capacidade artística. De facto, a pequena Revista do Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA), ainda que lhe tivessem permitido viver apenas um ano — entre Julho de 1951 e Outubro de 1952 —, carismaria o evoluir de uma literatura tão cheia de interesse, mas, infelizmente, mal conhecida e, por vezes, mal tratada, entre nós.

            «A voz dos Naturais de Angola» — subtítulo com que Mensagem se apresentou ao público — ganharia um registo ainda hoje gravado na mente daqueles que, então, se encontravam na linha da partida para a «descoberta» de Angola e cujo eco se propagou até aos nossos dias.

            Foi, na verdade, significativo que, numa época em que o estatuto da voz pertencia em exclusivo aos «não naturais», que dele se serviam para fins atrabiliários e não consentâneos com as aspirações legítimas dos «filhos do país», tivesse aparecido um grupo destes últimos — reduzidos ao silêncio em nome da «civilização e da fé» — decidido à disputa estatutária, assumindo a fala que, embora pertencesse à mesma linguagem codificada do dominador, era uma fala outra, porque germinada no terreno oposto.

            Aceitar a condenação ilimitada ao estatuto do silêncio corresponderia no africano a suportar resignadamente uma dor pungente e inesgotável. Porque esse silêncio era opressivo; era um silêncio estrangeiro. Era um silêncio que constrangia homens para quem a fala é a vida: «Être vivant, c´est parler». Era, pois, necessário franquear as barreiras do silêncio, desafiando o colonizador na sua própria língua — instrumento que manejado pelo colonizado passaria de opressor a libertador.

            Afrontar o sistema colonial na língua, que o sustentava ideologicamente, representava para o colonizado, antes de mais, dar livre curso à explosão do drama linguístico e cultural que o habitava, fazendo-o comparticipar de dois universos afectivos distintos e antagónicos. Mas era também um gesto extraordinariamente válido pelo que traduzia de reivindicação de liberdade e de manifestações criativas de uma inteligência, que não lhe reconheciam, disposta a ferir de morte o maniqueísmo do sistema e a denunciar a «paz necrotérica» da vasta literatura colonial da época.

            Ao assumir o estatuto dessa fala outra pelo grito altissonante do «Vamos descobrir Angola!» esse grupo de jovens recusou, pois, o tratamento, que lhes davam, de «mestiços» da colonização, regimentalmente «assimilados» para compreenderem tudo e todos, repartindo sua vivência pelos dois mundos em conflito, como pertencentes a ambos, mas aos quais não pertenciam de facto.

            Mensagem, ao fixar na escrita essa fala dos «rebelados» contra o sistema, criou uma profunda ruptura entre as «cidade de asfalto» e essoutra de «terra batida» do universo colonial angolano dos anos 50.  (de: Prólogo)

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