A POESIA DA PRESENÇA
E O APARECIMENTO
DO NEO-REALISMO
Por Fernando Guimarães

O
leitor certamente verificará, depois de ler este livro, que ele procura situar
e delimitar um certo processo de escrita
entrevisto, dentro do respectivo contexto cultural, como um momento da nossa
linguagem literária.
Seguindo aproximadamente o esquema mais usado pelos críticos e antologistas de língua inglesa, estabeleceu-se uma periodização correspondente a duas décadas: os anos 20 e 30. Mas neste espaço de tempo visámos, sobretudo, detectar as suas constantes, as suas incidências expressivas ou de criação poética. Isto quer dizer que tudo é contemporâneo nos anos 20 e 30? Se se analisar atentamente o capítulo relativo à bibliografia, onde se enumeram os principais livros publicados nesses anos e alguns dos colaboradores de revistas do mesmo período, aí se encontram nomes ligados ao Simbolismo, ao Saudosismo, ao Nacionalismo Literário, ao nosso primeiro Modernismo, à Presença ou ao Neo-Realismo. Em face disto, talvez o leitor achasse preferível seguir outro processo para periodizar: o método das gerações. E é curioso notar que será nos anos 20 que essa teoria mais se divulga, graças sobretudo a Ortega y Gasset que em El Tema de Nuestro Tiempo (1923) a propõe já como a mais adequada para que se descubra na história, sem se cair numa classificação formal, as suas sucessivas unidades culturais.
Este sistema, entre nós, foi todavia mal acolhido por determinados sectores da crítica, pois surgiu o problema de saber até que ponto seria preferível falar em ideologia em vez de geração, na medida em que ambos os conceitos podem exprimir um complexo material-espiritual, muito embora a partir de dois métodos diferentes. João Pedro de Andrade, por exemplo, logo no início de um livro que escreveu sobre este período, A Poesia da Moderníssima Geração, reconhece: «o conceito de geração é insuficientemente claro», e Mário Dionísio coloca-se numa posição mais radical ao apontar polemicamente, em Ficha 14, o que designa por pressupostos idealistas de J. P. de Andrade, «visto que não segue um conceito neo-humanista» quando «parte do conceito de geração para explicar um movimento literário».
O outro método,
ligado sobretudo a uma perspectiva dialéctica ou marxista, consistiria em
articular os conteúdos ideológicos com a própria história social. Mas, como
apontou Roland Barthes, as formas que permitem essa articulação mantêm-se
ainda presas, como acontece em Lukács ou Brecht, ao campo dos géneros literários,
tais como o romance, a épica
ou a tragédia. Não alcançam, portanto, a própria linguagem
da literatura.
Ora o que se tem aqui em vista é a determinação de uma certa linguagem
poética que — nomeadamente com os autores que ficaram ligados à Presença
— marca uma maior vinculação à tradição da nossa poesia, ainda
presente nos últimos ecos de um Saudosismo a que, aliás, alguns mais novos
foram sensíveis, e, ao mesmo tempo, um verdadeiro contraste em relação ao
nosso primeiro Modernismo, o da geração de Orpheu.
Poder-se-ia então, para assinalar esse movimento pós-Orpheu,
optar por uma designação que entretanto se generalizou e que também foi já
objecto de críticas, a de Segundo
Modernismo. Mas, sem que a rejeitemos, alargou-se suficientemente o seu âmbito
para que nela também caibam, por um lado, alguns dos poetas ainda vinculados a
certos ideais do Nacionalismo Literário e, por outro, aqueles que, na passagem
da década de 30 para a de 40, aparecem aderindo ao movimento neo-realista.
Porquê? Porque, passando por alto várias intenções diferentes ou conteúdos
divergentes, que não podiam deixar de ser mal absorvidos pelo contexto de criações
demasiado ligadas a esses múltiplos pressupostos, se descobre aí, como
veremos, a incidência em formas e valores expressivos idênticos, comuns...