A POESIA DA PRESENÇA

E O APARECIMENTO

 DO NEO-REALISMO

Por Fernando Guimarães

 

 

              FERNANDO GUIMARÃES nasceu no Porto, em 1928. Publicou vários estudos sobre teoria da literatura — alguns deles recolhidos em Linguagem e Ideologia — e sobre a poesia Portuguesa moderna. Neste domínio organizou um volume contendo a poesia completa dum dos colaboradores da revista modernista Orpheu, Ângelo de Lima, a qual se encontrava dispersa e, em parte, inédita. É colaborador da revista Colóquio/Letras — sendo aí assídua a sua presença como crítico literário —, do Grande Dicionário de Literatura Portuguesa, dirigido por João José Cochofel, e da nova edição (a publicar) do Dicionário de Literatura, dirigido por Jacinto do Prado Coelho. Obteve o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian da Academia das Ciências de Lisboa, atribuído a Poesia Romântica Inglesa (Byron, Sheley, e Keats). É autor de vários livros de poesia. Faz parte do Centro de Literatura da Universidade do Porto.

 

 

           O leitor certamente verificará, depois de ler este livro, que ele procura situar e delimitar um certo processo de escrita entrevisto, dentro do respectivo contexto cultural, como um momento da nossa linguagem literária.

            Seguindo aproximadamente o esquema mais usado pelos críticos e antologistas de língua inglesa, estabeleceu-se uma periodização correspondente a duas décadas: os anos 20 e 30. Mas neste espaço de tempo visámos, sobretudo, detectar as suas constantes, as suas incidências expressivas ou  de criação poética. Isto quer dizer que tudo é contemporâneo nos anos 20 e 30? Se se analisar atentamente o capítulo relativo à bibliografia, onde se enumeram os principais livros publicados nesses anos e alguns dos colaboradores de revistas do mesmo período, aí se encontram nomes ligados ao Simbolismo, ao Saudosismo, ao Nacionalismo Literário, ao nosso primeiro Modernismo, à Presença ou ao Neo-Realismo. Em face disto, talvez o leitor achasse preferível seguir outro processo para periodizar: o método das gerações. E é curioso notar que será nos anos 20 que essa teoria mais se divulga, graças sobretudo a Ortega y Gasset que em El Tema de Nuestro Tiempo (1923) a propõe já como a mais adequada para que se descubra na história, sem se cair numa classificação formal, as suas sucessivas unidades culturais.

            Este sistema, entre nós, foi todavia mal acolhido por determinados sectores da crítica, pois surgiu o problema de saber até que ponto seria preferível falar em ideologia em vez de geração, na medida em que ambos os conceitos podem exprimir um complexo material-espiritual, muito embora a partir de dois métodos diferentes. João Pedro de Andrade, por exemplo, logo no início de um livro que escreveu sobre este período, A Poesia da Moderníssima Geração, reconhece: «o conceito de geração é insuficientemente claro», e Mário Dionísio coloca-se numa posição  mais radical  ao apontar polemicamente,  em Ficha 14,  o que designa por pressupostos idealistas de J. P. de Andrade, «visto que não segue um conceito neo-humanista» quando «parte do conceito de geração para explicar um movimento literário».

            O outro método, ligado sobretudo a uma perspectiva dialéctica ou marxista, consistiria em articular os conteúdos ideológicos com a própria história social. Mas, como apontou Roland Barthes, as formas que permitem essa articulação mantêm-se ainda presas, como acontece em Lukács ou Brecht, ao campo dos géneros literários,  tais como o romance,  a épica ou a tragédia. Não alcançam, portanto, a própria linguagem da literatura.

            Ora o que se tem aqui em vista é a determinação de uma certa linguagem poética que — nomeadamente com os autores que ficaram ligados à Presença — marca uma maior vinculação à tradição da nossa poesia, ainda presente nos últimos ecos de um Saudosismo a que, aliás, alguns mais novos foram sensíveis, e, ao mesmo tempo, um verdadeiro contraste em relação ao nosso primeiro Modernismo, o da geração de Orpheu. Poder-se-ia então, para assinalar esse movimento pós-Orpheu, optar por uma designação que entretanto se generalizou e que também foi já objecto de críticas, a de Segundo Modernismo. Mas, sem que a rejeitemos, alargou-se suficientemente o seu âmbito para que nela também caibam, por um lado, alguns dos poetas ainda vinculados a certos ideais do Nacionalismo Literário e, por outro, aqueles que, na passagem da década de 30 para a de 40, aparecem aderindo ao movimento neo-realista. Porquê? Porque, passando por alto várias intenções diferentes ou conteúdos divergentes, que não podiam deixar de ser mal absorvidos pelo contexto de criações demasiado ligadas a esses múltiplos pressupostos, se descobre aí, como veremos, a incidência em formas e valores expressivos idênticos, comuns...  

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