A NOSSA VIDA SEXUAL

Por Fritz Kahn

 

 

 

 

            Duas razões levaram o autor a escrever este livro: experiência e simpatia pela humanidade.

            Em mais de  25 anos de prática como médico especialista pôde acompanhar o futuro sexual de milhares de pessoas, o que significou, na maioria dos casos, partilhar-lhes o sofrimento. Quantas vezes não pode o médico verificar como a ignorância das questões sexuais vem a ser fonte de sofrimentos ilimitados! É numa ignorância quase completa desses assuntos que os adolescentes deixam a escola ou a casa dos pais para verem abertas as portas das seduções, da prostituição, das enfermidades venéreas, da imoralidade e de todas as corrupções que envenenam a vida sexual. Entregam-se uns a excessos que lhes minam a saúde; outros, na ânsia de permanecerem castos, entram em desesperada luta contra um instinto que julgam condenável; outros, ainda, gastam as suas melhores forças no combate ao «vício solitário».  Na ignorância do verdadeiro problema sexual, as raparigas vêem-se ameaçadas de perigos físicos e morais emanados da sexualidade masculina amoral. Não se passa uma semana sem que o médico assista à tragédia de donzelas vítimas da perseguição masculina, das doenças venéreas ou da gravidez, ou sem que seja chamado à cabeceira de um ser ameaçado de perder a saúde ou mesmo a vida em consequência de tentativa de aborto. Como o vidro que se dilata num  espaço  insuficiente,  quantas  vezes a felicidade  conjugal, durante tanto tempo sonhada, não é destruída logo nos primeiros arroubos da lua de mel, tudo porque os noivos se aproximaram do matrimónio sem os conhecimentos mais elementares da vida e da psicologia do amor. Quantas mulheres não sofrem, ao lado de um marido brutal ou ignorante das questões sexuais, um perpétuo martírio físico e psíquico em lugar das esperadas alegrias do amor; a milhões de outras a ameaça, sobre elas pendente, da gravidez priva-as dos prazeres da vida amorosa. Lado a lado encontram-se nos consultórios médicos os dois bem conhecidos tipos de mulher: a estéril, que anseia por um filho, e a excessivamente prolífera que sofre com desespero inevitável o encadeamento de partos e abortos. Sem conta é a série das vítimas das doenças venéreas e ainda maior o número dos doentes morais, que não podem amar, e são incapazes de alçar o menor voo para o céu azul das alegrias dos sentidos por terem os pés presos a pesados grilhões, por terem sido transformados, por métodos bárbaros de educação, em aleijados psíquicos; por terem sido envenenados por concepções erróneas da vida e por neles o maquinismo vital ter sido embaraçado por «complexos». E, por último, vem o cortejo dos pais, da mãe chorosa e do pai consternado, que não podem compreender como «tais coisas se passaram com o seu João» ou como «a sua filha pôde esquecer-se assim de si mesma»... sem se lembrarem, entretanto, de que a culpa foi deles, os pais, que não souberam dar aos filhos a necessária educação sexual.

            E o médico, depois de ter ministrado os seus conselhos e a sua ajuda, ouve sempre o refrão estereotipado: «Quem me dera que alguém me tivesse dito isso antes! Por que é que meus pais, em vez de tantos outros livros inúteis, não me puseram entre as mãos um que me explicasse as questões da vida sexual?»

            Mas quando se reclamava ao autor deste livro o guia desejado, ele procurou em vão em toda a copiosa  literatura  um livro que satisfizesse as necessidades verdadeiras dos que procuram informações úteis, um livro que, em forma simples e acessível, orientasse sobre todas as questões práticas da vida sexual, prestando os mesmos serviços que um guia oferece aos viajantes. Por isso o autor chamou a si a tarefa de escrever um tal guia da vida sexual, um livro que, escrito de maneira facilmente compreensível, limitado às questões práticas, livre de política e metafísicas do mundo, servisse de conselheiro para todos os que iniciam a viagem através da vida sexual. Um livro como ele quisera ter lido nos seus anos de juventude. E que torne senhores do seu próprio futuro e das alegrias da vida todos quantos, por ignorância, estavam ameaçados de sofrimentos inúteis.

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