O Som do Vidro

O objetivo deste artigo é de informar sobre as diferenças entre os amplificadores à válvulas e amplificadores à transistores, de uma forma muito genérica e simples, além de dar uma visão geral das diferenças do som de diversos tipos de válvulas. Muito já foi dito à respeito, mas poucos têm sido os artigos honestos e esclarecedores.

No Brasil, então, se você quiser ficar completamente louco e não entender nada sobre o assunto, vá a Rua Teodoro Sampaio ou Santa Efigênia, em São Paulo, e fale com qualquer um das centenas de vendedores incompetentes destas lojas ridículas, que só sabem cobrar preços altos e não dão informação nehuma. O máximo que um destes idiotas saberá fazer é grunhir alguma coisa parecida com "Peavey Transtube", "Marshall Valvestate", "Crate" e terminar a frase com alguma idiotice sem sentido como "puta som". Aí ele vai te dar uma guitarra desafinada com cordas enferrujadas e timbrar o ampli com ganho, agudos e graves no máximo, e tirar todos os médios, e você não vai entender nada do que sai do alto-falante... .

Você já deve ter notado que os amplificadores a válvula são obviamente mais caros do que os amplificadores a transistores, principalmente com os preços altos/ estupendos/ absurdos que temos de pagar no Brasil (devido as taxas de importação, principalmente). Apesar de não achar justo pagar mais de R$ 1.000,00 por um valvulado (que nos EUA custa geralmente menos de U$ 500,00 NOVO e U$ 250,00 usado), posso lhe garantir uma coisa: Há várias razões para o preço. Não sou dono de loja, não falo isto por interesse, mas sim pela simples razão de gostar do som dos valvulados. Tenho vários, e cada um deles vale cada centavo daquilo que paguei. Realmente, um bom valvulado vale cada centavo que se paga por ele, e se bem cuidado, dura mais do que você.

Para matar sua curiosidade, tenho um Giannini Duovox 50G (que está comigo há 15 anos), um Palmer 80 modificado (coloquei um circuito de Hiwatt DR100 dentro dele), um Fender Dual Showman Reverb (que já emprestei para o Chuck Berry e o Dick Dale, por exemplo) e um Trace Elliot Velocette. Todos estão falando alto e bem. Já tive vários Fenders e alguns Marshalls, e acho os Fenders obras de arte. Os Marshalls, em minha opinião, sofrem com problemas de confiabilidade, por motivos de projeto.



Além do mais quer saber por que os antigos soam melhor do que os novos? Vamos à algumas razões:

1) Design

Compare um FIAT Mille 0 KM com uma Mercedes-Benz 1955. Sentiu a diferença? É a mesma coisa. Os caras antigos faziam coisas para durar, tendo a CONFIABILIDADE como o fator de maior importância depois do timbre. Os Americanos e Ingleses poderiam até fazer porcarias se quisessem, mas são tão orgulhosos de seus trabalhos que jamais deixariam um cara perfumadinho da área de "marketing" esfolar o produto.

2) Transformadores entrelaçados

Um ampli a válvula usa dois tipos de transformadores: Um para converter a tensão de 110 v da tomada em voltagens apropriadas para a operação das válvulas (em torno de 500 volts) e outro para converter o sinal que sai das válvulas de saída (que são aparelhos de alta impedância) para os alto falantes (que são aparelhos de baixa impedância). Transformadores trabalham ACOPLANDO voltagens, e por isto, quanto mais perto os fios dos enrolamentos estão uns dos outros, melhor é o trabalho do transformador e melhor é a fidelidade.

Antigamente os transformadores eram ENTRELAÇADOS, ou seja, se enrolava um pouco do fio primário, depois um pouco do fio secundário, depois mais um pouco de fio do primário, depois mais um pouco de fio do secundário, e assim sucessivamente, como se fosse um sanduíche de várias camadas. Isto possibilitava um acoplamento MUITO bom nos trafos. Hoje em dia, por causa de rapidez de produção, se enrola TODO o primário e depois TODO o secundário, o que significa engenharia inferior e timbragem aquém do desejável.

3) Transformadores com baixo isolamento

Os enrolamentos dos transformadores dos amplis antigos eram isolados por papel. Sim, papel é suficiente para este trabalho (isolar o primário do secundário). Isto significa que um enrolamento está muito próximo do outro, e a transferência de energia é muito alta. Nos amplis de hoje, os isolantes são plásticos grossos, que fazem com que haja perda de resposta em várias frequências. Isto também é engenharia inferior, e tem resultado no som.

4) Transformadores Ultralineares

EM ALGUNS CASOS a Fender e outros fabricantes usaram transformadores UL em amplis do topo da linha (como no caso do meu Dual Showman Reverb). Um transformador UL é difícil de fazer, e poderei explicar as diferenças num próximo artigo. O fato é que um ampli com uma configuração UL pode tirar 135 watts de 4 6L6GCs, o que não é pouco. Ninguém hoje em dia usa isto. O som do UL também distorce pouco (pouco com qualidade é melhor do que muito sem qualidade) e pode ser que os punks e grunges não apreciem isto, assim como nunca devem ter aberto uma garrafa de vinho. Dá-lhe Peavey, Crate e Marshall Valvestate!

5) Fiação ponto a ponto

Se você já abriu um ampli antigo, deve ter ficado horrorizado com a bagunça de fios lá dentro, já que o fabricante soldou todas as peças umas nas outras, ao invés de colocar as peças em uma placa bonitinha de circuito impresso. Pois bem, temos um monte de problemas com placas de circuito impresso. O primeiro deles é o efeito de capacitância da placa, já que quando você coloca dois fios numa superfície coplanar, existe uma perda de agudos e harmônicos. Amplis modernos feitos com placas de CI sofrem deste efeito. Os amplis antigos eram soldados com montagem ponto a ponto, o que significa que não existiam superfícies coplanares, e nem efeito de capacitância entre as peças, resultando num timbre de mais alta fidelidade, e com mais harmônicos. Além disso, a soldagem à mão é mais durável e mais fácil de se consertar do que montagem via placa de CI, e é mais fácil para se fazer "mods". A maior prova de que as fiações ponto a ponto são melhores é o fato de que a Fender, só para citar um exemplo, usa este tipo de "wiring" nos seus melhores amplis, deixando placas de CI para os "populares". Além disso, quando os fabricantes usam placas de CI, geralmente substituem várias peças discretas por um Circuito Integrado barato, cujo resultado não é bom. Marshall Valvestates, Crates e Peaveys tem dezenas de circuitos integrados. Fenders, às vezes, usam CIs para mudar canais.

Existem mais razões, mas vou citar conforme for me lembrando.

[]s

Wille Walter

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