NA VIOLÊNCIA, A VELHICE DA JUVENTUDE
Gustave Thibon
GUSTAVE THIBON, o autoditada genial de Sant-Marcel-d’Ardèche (França), onde nasceu em 2 de setembro de 1903, foi sempre um lavrador. Sua tez bronzeada manifesta desde logo o homem do campo, ligado à terra, familiarizado com o silencio e afeito aos ritmos primordiais da vida. Não é um homem de diplomas e de títulos. Estudou por si só o grego e o latim, os “Diálogos” de Platão e a filosofia de Aristóteles, a “Suma Teológica” de Santo Tomás. Refletiu longamente em torno da obra de Nietzsche, e o contato com os sistemas da filosofia moderna, tantas vezes eivados de um abstracionismo irrealista, não o fez perder o senso das realidades humanas. Depois de ter publicado um ensaio sobre a caracterologia de Klagges, deu-nos essas paginas luminosas de “Diagnósticos de Fisiologia Social”, “O que Deus Uniu”, “A escada de Jacob” e outros volumes de aforismos penetrantes, que são como flechas agudas atiradas para todos os lados. Poucos como ele compreenderam tão profundamente o homem e a mulher, o amor humano e o casamento. Thibon é o testemunho que se oculta para deixar brilhar a verdade em todo o seu esplendor. Por isso mesmo, é a negação do subjetivismo, esse pecado original do pensamento moderno. Ele mesmo o disse: “Eu não aspiro iluminar os homens com minha lanterna: minha única ambição é ajuda-los a melhor contemplar o sol”.
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A
Raiz Metafísica da Fuga na Violência
Se
procurarmos a raiz metafísica dessa fuga na violência, nós a encontraremos no
declínio da vida interior e dos valores especulativos, donde provêm em linha
reta, os dois grandes pecados do mundo moderno: a idolatria da ação exterior e
o culto da novidade.
A idolatria da ação. É um elogio incondicional dizer de alguém que é
um homem de ação ou que é “dinâmico”. Só que nos esquecemos de precisar
qual o gênero de ação ou a qualidade de força de que se trata.
O culto da novidade. O valor se define não em relação a modelos
transcendentes (bem ou mal, verdadeiro ou falso, belo ou feio), mas em termos de
“para frente” e “para trás”. Sêneca, falando dos representantes da
“nouvelle vague” romana, já escrevia: “mutantur non in melius, sed in
aliud”: eles procuram não o que há de melhor, mas o que há de novo.
Não há nada mais fácil de se admitir do que esses dois desvios
conterem o germe e a justificação do espírito de violência.
Começamos pelo ativismo. Toda ação, visando à modificação do mundo
exterior e à afirmação de nosso poder sobre os seres e as coisas, não será
sadia e fecunda se não for iluminada e guiada por uma luz interior que se situa
acima do tempo. O homem que não age seguindo um modelo ideal cai na mania da ação
pela ação: o movimento não tem mais outro fim que ele mesmo. Afinal, a ação
se torna como uma droga: um excitante para o “eu” (no sentido pascaliano do
termo) e um narcótico para a alma. Não há mais fim e, por conseguinte, não há
mais critério.
Podemos dizer outro tanto da inovação e da moda. A novidade não é nem
um bem nem um mal em si mesma; ela é bem ou mal conforme nos aproxime ou nos
afaste de nossa própria natureza e de nosso destino. Mas, se esse critério se
esvanece, onde encontraremos nós a justificação par uma mudança senão na própria
mudança?
E eis aí a porta aberta à violência sob todas as suas formas. Aquele
que é incapaz de se afirmar por uma ação positiva e criadora tem sempre o
recurso de se refugiar numa ação negativa e destruidora. A violência é o
melhor álibi do impotente e do mal sucedido. É, com efeito, mais fácil
estuprar uma jovem do que constituir um lar, pisar um acelerador do que dirigir
a existência pelas rudes avenidas do trabalho e do devotamento, massacrar
formas e cores do que pintar uma tela de Wermer ou de Velásquez. Mutilar,
devastar, destruir dão, sem grande custo, a embriaguez da força podem mesmo
conduzir à glória – essa falsa glória publicitária que se prende hoje ao
escândalo e ao crime mais do que à beleza e à virtude. Renovando a façanha
de Eróstrato, o jovem americano que acaba de massacrar covardemente seis moças
responde aos inquisidores: “eu quis ser alguém”. Cito um caso limite, mas
perfeitamente lógico. Num século em que o dinamismo e a eficácia se tornaram
os valores supremos, os fautores da violência forçam até às ultimas conseqüências
a lei dum mundo sem lei – tanto mais que neste mesmo século em que a renúncia
e a esperança são cada vez menos ensinadas e praticadas, em que cada um quer
auferir quanto antes os resultados de sua ação, os efeitos da violência são
mais satisfatórios, por seu caráter imediato e espetacular, do que os dum
trabalho positivo e de largo fôlego. O efeito dum soco inscreve-se
instantaneamente no rosto de quem o recebe, mas longos meses têm de decorrer
entre a semeadura e a colheita. Demais, a colheita esta sempre ameaçada, é
incerta, ao passo que a violência atinge infalivelmente o seu objetivo.
Provindo duma erosão da substancia humana, o recurso à violência se
faz acompanhar necessariamente duma queda vertical da liberdade. Fala-se, sem
cessar, de evasão, de libertação. Mas, evadir-se de onde? Libertar-se do que?
A força das coisas é una como Deus é um: não há nada que possa ser estranho
ao universo e às suas leis. Langlade-Demoyen faz notar muito justamente que, em
nosso mundo, encontramos cada vez mais revoltas e cada vez menos liberdade. Nada
mais normal: é contra a liberdade que se revolta! Pois a verdadeira liberdade
é antes de tudo obediência a uma ordem ao mesmo tempo interior e superior ao
homem: parece Deo libertas est, dizia Sêneca. Basta
ver de que miseráveis conformismos são presas esses jovens que não
cessam de berrar e de imitar os outros; basta ver por que servilismo eles
trocaram a disciplina; basta ver a que modas infelizes e nati-mortas eles imolam
os costumes seculares. É ser livre repelir a tradição e agitar-se a qualquer
impulso da propaganda, gritar atrás de Johnny ou deixar crescer o cabelo como
Antoine, ler “Play-Boy” e repudiar os clássicos? Não quero intrometer-me
em domínios muito diversos mas ao mesmo tempo afins no que concerne à
influencia da moda: senão eu poderia falar desses cristãos de vanguarda que
devoram, sem uma sombra de senso crítico, vagos trechos de Tailhard de Chardin
e torcem o nariz diante de Santo Tomás, ou para os quais a obsessão da pílula
substitui a meditação sobre os mistérios da fé.
Não resisto ao prazer de citar as seguintes linhas em que Bossuet descreve admiravelmente essa instabilidade da escravidão que dá a ilusão da liberdade. Bossuet fala do “mundano”: “Esse movimento perpétuo que lhe acarreta mil dificuldades não deixa de satisfaze-lo pela impressão que lhe dá de uma liberdade errante. Como a árvore que o vento parece acariciar brincando com suas folhas, embora esse vento não a acaricie sem agitá-la e joga-la ora de um lado ora de outro, com grande inconstância, vós diríeis que se alegra com a liberdade de seu movimento, igualmente, embora os homens do mundo não tenham liberdade verdadeira, sendo quase sempre constrangidos a ceder aos diversos usos que os impelem como o vento, eles julgam, contudo, gozar, duma certa liberdade e paz, fazendo vagar de um e de outro lado seus desejos confusos e incertos”.
REVISTA HORA
PRESENTE, P. 204-207, ANO III – MAIO/1971 – N 09.