Homenagem à Farias Brito

Alceu  Amoroso de Lima

 

Foi Farias Brito discípulo de Tobias Barreto, na Faculdade do Recife. Mas sua obra representou exatamente uma reação contra o naturalismo especulativo, literário e prático, que através da “Escola do Recife” se espalhou por todo o Brasil.

Ao pensamento do determinismo cego, que as correntes evolucionistas, positivistas, materialistas e agnósticas do seu tempo procuravam divulgar, vinha de Farias Brito, desde os seus primeiros escritos, opor o sentido da Finalidade, que tudo no mundo revela e que é muito diferente da caricatura finalista com que os seus adversários costumavam representá-la.

Ao pensamento empiricamente progressista que o transformismo limitado da época procurava disseminar, opunha Farias Brito o pensamento da Queda, que sempre o obcecou e que ele teria estudado mais a fundo num inédito seu que se perdeu ou está desaparecido.

Ao primado da Natureza que o cientismo da época espalhara por tantos ambientes, desde a vida econômica (com o industrialismo republicano) à vida intelectual, com o naturalismo – veio Farias Brito opor o primado do Espírito, que por sua vez ia ser o fundamento filosófico do movimento intelectual e literário de que ele pode se apresentado como sendo o filosofo representativo – o Simbolismo. Farias foi o filosofo do Simbolismo como Tobias o do Naturalismo.

Essas e outras características de sua obra bem mostram que não é exagerado falar de sua obra como representando, não só uma verdadeira revolução intelectual contra as tendências dominantes no seu tempo, mas ainda o pórtico de uma nova fase do pensamento brasileiro, em tantos pontos oposta à precedente.

A geração que ia fazer o modernismo intelectual, e que sob tantos aspectos continuava a obra do simbolismo, ia ter por iniciador filosófico no Brasil, esse mesmo filosofo que os próprios discípulos de Tobias Barreto apontavam como sendo o mais original e autentico dos filósofos brasileiros. É o testemunho de Silvio Romero num documento precioso que o sr. Jônatas Serrano nos revela em apêndice ao seu livro. Trata-se do parecer dado por Silvio Romero, a pedido da congregação do Colégio Pedro II, para nomeação de Farias para a famosa cátedra de Lógica, a que concorrera, vaga pelo trágico desaparecimento de Euclides da Cunha.

Já é tempo, portanto, que uma critica objetiva e profunda venha separar o joio, que é grande, do trigo, que é muito, revelando-nos o verdadeiro valor da obra filosófica do genial cearense que representa, digamos assim, a Serra de Caparaó de nosso pensamento metafísico. Pois lá de cima abriu às gerações vindouras novos horizontes até então ocultos pela estreiteza dos preconceitos ou pela limitação dos engenhos.

 

TRISTÃO DE ATHAYDE (RIO, 18-02-1940)  

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