VIAGEM A PORTO ALEGRE

Vicente - 50 anos
Guarujá-SP
Sahara NX350 98

 

Sábado, Novembro, 22, 2003

    No primeiro dia de viagem (sai às 05:00 hs. De Guarujá), peguei tempo nublado e chuva fina até Registro.
    Depois da subida da serra, chegando em Curitiba, abriu o sol.
    Para evitar desgaste físico desnecessário, a cada 100 km parava em um posto para completar o tanque e dar uma esticada no esqueleto.
    Já na saída de Curitiba, parando em um posto, para um lanche rápido, encontrei e bati um papo com o jornalista Ari Moro que edita o jornal “Cheiro de Cano de Escape” especializado em carros antigos, picapes, carreteiras e esportes sobre rodas. O Ari com sua picape-show 1951, falou-me de suas aventuras pelo Brasil a bordo de uma Yamaha DT 180. Ele já foi de norte a sul nessa máquina e seu sonho é chegar de moto até a Califórnia apesar de já não ter mais os seus 25 anos.
    Ari, meu Irmão, espero que consiga!
    Bem, engatada a sexta, aumentou a adrenalina e a viagem que deveria terminar em Joinville, só foi terminar em Laguna; terra de Anita Garibaldi. Resultado: quase 850 km no primeiro dia.
    Exagerei heheheheheh!
    Não sem pagar um precinho pelo excesso.
    Pela BR 101, logo após Florianópolis, quando a pista torna-se simples (uma pista em cada direção), começou um vento muito forte, derrubando vários outdoors, e que batia na frente e lateral da Sahara.
Quando os “Scaneas” da vida passavam em sentido contrário, formava o efeito “pistão” e cada caminhão era uma pancada no peito, desestabilizando a moto. Duas vezes precisei ir para o acostamento, porque o "prédio" que vinha na contramão ultrapassando outro caminhão, não saiu do caminho. Imagine se iriam se preocupar com uma simples moto!
    Durante todo o tempo, tive que segurar a moto no braço, literalmente para não perder o equilíbrio.
    Isso desgasta fisicamente, além do erro de rodar demais em um só dia sem estar acostumado, resultou que, uns 40 km antes de Laguna, em uma rotatória que, não era rotatória, era um cotovelo na pista e para piorar, a minha amiga Sahara é péssima de curva, não conseguimos inclinar o suficiente ou virar o guidão e entrei no barranco.
    Minha sorte é que o barranco era baixo e estava coberto de vegetação. A moto embicou em uma valeta, me jogou para o lado e caiu em cima das minhas duas pernas.
    A dor do tranco nas costas (estava com uma costela quebrada e não sabia) e da moto em cima das pernas estava forte e quase apaguei; mas, percebi que não poderia dar uma de “dondoca desfalecida” no meio da estrada se não ainda ia acabar sendo roubado.
    Consegui me arrastar para fora da moto; mas a dor nas costas impedia que conseguisse levantá-la do barranco, pois, a máquina, que estava com excesso de bagagem (outro erro).
    Pedi ajuda a vários motoristas que olhavam para o outro lado e aceleravam.
    O único que me ajudou foi um ciclista que passava no local.
    Moto em pé, engatei a primeira e saí do barranco sem dificuldades, pois a Sahara tem um bom motor e estava com pneus tipo cross.
    Os prejuízos foram poucos: espelhinho, carenagem desalinhada, calça e casaco de couro (santo casaco de couro, me salvou a pele) rasgado, as pernas roxas e a costela quebrada pela pancada . Na moto, a mesa das bengalas saiu de posição e uma bengala torta, além da carenagem desalinhada.
    Do jeito que deu, fui até Laguna e me hospedei em um hotelzinho muito barato e de frente para o mar.
    Dois dorflex, uma aplicação de Kollagenase na perna que estava esfolada e roxa e uma noite de sono para continuar a viagem.
    Antes do sono uma reflexão: no primeiro dia, realmente fiz várias coisas erradas e que devo evitar nas próximas viagens:
        1 – Excesso de bagagem
        2 – Rodar demais em um dia sem estar acostumado (ideal: 600 km/dia)
        3 – Se estiver rodando com uma Sahara, não adianta inclinar, virar guidão, rezar, que ela não faz curva fechada em alta velocidade; então, o jeito é diminuir mesmo a velocidade.
        4 – A Sahara possui um bom motor, mesmo com excesso de peso não negou fogo morro acima (ou barranco acima: o). É uma boa moto para viajar, dentro de seus limites.
        5 – Uma atitude correta foi o uso do casaco de couro. Salvou a minha pele. Mas, ficou faltando uma proteção mais efetiva para cotovelo e joelho. Falando nisso, algo que aconteceu logo na saída de Florianópolis e que me impressionou muito: era um sábado e tinha muitos motociclistas de Floripa na estrada indo para a praia. Em uma curva, transito parado, cheguei mais perto e vi um acidente com uma 125 e um veículo. Os dois motociclistas, de bermudas e chinelos foram jogados da moto no asfalto e estavam muito mal. Após a retirada dos dois com helicóptero da PM, foi necessário limpar a pista dos pedaços de moto e joelhos (é isso mesmo; de arrepiar!) que impediam o tráfego. Antes da próxima viagem estarei adquirindo joelheiras utilizadas por pilotos de competição (à base de titânio).

Domingo, Novembro, 23, 2003

    No segundo dia (hoje) foi mais tranqüilo; só 350 km de Laguna até Porto Alegre.
    A Sahara é uma grande máquina. mesmo com desalinho das bengalas, não teve problemas para rodar a 100 km/h. E o mais importante, o chassi amorteceu a pancada e não saiu do esquadro.
    A cerca de 100km de Porto Alegre, é uma beleza! Pista tripla! Só que moto paga (R$ 1,10).
    Estou no Hotel Metrô e já acertei com o dono de deixar a moto estacionada enquanto faço o resto da viagem até Buenos Aires de ônibus. Tinha intenção de pelo menos chegar em Uruguaiana; mas, a dor nas costas não me larga. Resolvi dar um tempo à carcaça para se recuperar das burradas do dia anterior.
    Mantive nestes dois dias, uma velocidade média de 100 km. O motor da Sahara é muito bom, responde bem e é confiável nas ultrapassagens.

Segunda, Novembro, 24, 2003

    O ônibus de Porto Alegre até Buenos Aires leva cerca de 20 horas (não sei como suportar tanta adrenalina!).
    A estrada de Porto Alegre a Uruguaiana é muito bonita, com fazendas em ambos os lados da pista.
    Temos, porém problemas no asfalto, após umas 4 horas de viagem. O ônibus precisou trafegar em primeira, indo de uma faixa a outra para escapar dos buracos. Quem for de moto para esses lados, fique ligado porque o tamanho das crateras é considerável. Se passar sem atenção, é chão com certeza!
    Do lado argentino também temos excelentes paisagens.
    Problema para quem for de carro ou moto para Uruguai ou Argentina, são os Hermanos de la Milícia.
    Conversei com várias pessoas que já fizeram esses trajetos e todos me contaram como tiveram problemas para poder continuar a viagem.
    Exige-se extintor e estojo de socorros em motos (!?), a tal Carta Verde (seguro internacional), os carros têm que ter dois triângulos, corda para reboque dentro dos padrões exigidos pela legislação local e aí vai...
    E parece que temos problemas dos dois lados. Estava conversando com um Argentino que costuma vir ao Brasil de carro para vendas de equipamentos e ele disso o mesmo de “nosotros brasileiros”. A Policia brasileira também gosta de arrumar "pelo em ovo". Basta ter uma placa da Argentina para ser abordado.
    Não sei se isso é dessa forma no Brasil. O que eu sei é que falta bom senso para a Policia Rodoviária do Brasil. Após essa viagem, fui com minha família até Iguape de carro. Na volta, em um comando, descobri que o licenciamento foi esquecido. Resultado, a Policia Rodoviária de Pariquera Açu deixou a mim e à minha família à pé a quase 400 km de casa e recolheram o veículo. O "desejo" de cumprir a lei foi muito mais forte do que o bom senso. Fui obrigado a voltar na minha cidade, arrumar a documentação e voltar em Pariquera Açu para resgatar o carro. Por aí, já fico pensando se o argentino não tinha razão sobre "nosotros brasileños".
Não sei . De qualquer forma, só viaje com o seu veículo, conhecendo muita bem a legislação local.

Terça, Novembro, 25, 2003

    Buenos Aires é uma cidade muito bonita, com uma população muito educada e muito cordial com os turistas.
    Temos a impressão de que não seremos bem recebidos por causa da rivalidade nos campos de futebol entre Brasil e Argentina; mas, é uma falsa idéia.
    O argentino tem a idéia correta sobre o assunto: turistas trazem divisas e devem ser bem tratados por isso.
    E assim foi, em Shoppings Centers, casas comerciais, Metro (ou Subte, como chamam), sempre que percebiam que eu era estrangeiro, tinha um tratamento diferenciado para melhor.
    Não tive problemas com a língua espanhola, pois, o argentino de Buenos Aires, em geral, fala mais devagar que o das Províncias e após um ou dois dias, já entendemos tudo. Em compensação, o português não é muito fácil de ser entendido por eles. Os argentinos dizem que falamos cantando e é difícil entender todas as palavras.
    Então, nada de discursos! Saiba o que quer e peça sem rodeios.
    Uma observação a todos os que visitam BA, é a quantidade de táxis. Perto de 70.000 veículos pretos com capotas amarelas rodam pelas ruas.
    Além deles ainda existem empresas que se utilizam veículos particulares para esse fim através de cooperativas. Os veículos são particulares, filiados a essa empresa.
    Praticamente todos os produtos, têm seus preços iguais aos similares brasileiros, o que incentiva a compra.
    A vida em Buenos Aires é tão cara quanto em qualquer cidade capital do Brasil. Come-se muito bem por R$ 12,00 ~R$ 15,00 (um peso = 1,1 real).
    Um Hotel simples na Zona Norte da Cidade, fica em R$ 35,00 com café simples.
    É claro que, nos Shoppings Centers, o problema é idêntico ao nosso; produtos incompráveis.

Segunda, Dezembro, 01, 2003

    Hora de pegar o ônibus de volta.
    Mais 20 horas de ônibus.
    Não vou me deter nos detalhes da viagem, pois sei que os amigos não agüentariam tantas emoções :o)))))

Terça, Dezembro, 02, 2003

    Voltando! Finalmente ar!!!!
    Depois de 17 horas no ônibus de Buenos Aires ate Porto Alegre, mesmo sem dormir, precisei pegar a moto no estacionamento e me mandar para a estrada.
    Nos primeiros kilômetros, já comecei a respirar novamente!
    Impossível sentir prazer em viajar de ônibus ou carro (coche).
    Nada substitui uma motocicleta!
    Meu destino foi Torres-RS (~180 km de POA).
    Muito bom!
    Estes 180 Km tiraram a dormência do Bus.
    Viagem tranqüilas, com uma media de 90km por hora sem forçar a máquina, que já estava com excesso de peso (não o meu, claro; da bagagem :o)))
    Um pequeno problema no meio do caminho com a corrente (ficou larga e saiu da roda). Mas, nada que não pudesse ser resolvido. Apenas suja as mãos de graxa :o).
    Outro probleminha, ou mais um erro de pilotagem. Como estava muito calor, e muito Sol e a viagem era curta, decidi (erradamente) a não colocar as luvas de couro.
    Resultado, queimadura de Sol em ambas as mãos!
    Em Torres, estou aproveitando para bater umas fotos e descansar.

Quarta, Dezembro, 03, 2003

    Pé na estrada logo de manhã com destino a Joinville.
    No caminho, entrei novamente em Laguna para bater umas fotos e tentar comprar a tampa da caixa de fusíveis da Sahara que tinha sumido na queda.
    Não consigo a peça, mas, fiquei sabendo do encontro de Motociclistas que terá em 06 e 07 de dezembro. Pena não poder ficar para participar. Mas, a grana já esta no final.
    De Torres-RS até Joinville-SC (~600 km) sem grandes novidades a não ser o grande prazer de pilotar.
    A Sahara, como disse acima, é muito boa de estrada, sendo seu único problema as curvas. Em alta velocidade, ela é ruim de curvas, algumas vezes, sendo necessário usar toda a pista ou frear antes. Não faz curva fechada em alta velocidade!
    O problema da carenagem desalinhada e a falta do espelhinho direito não estão atrapalhando a pilotagem; não quero parar para realinhar, pois isso tomaria um dia inteiro em uma Concessionária.
    De Torres-RS até Florianópolis-SC, a coisa pega um pouco. Pista única e muito caminhão; mas, a Sahara é boa de retas. É só abaixar na moto e de um tiro só deixo para trás uma fila de caminhões.
    Mas... Lá na frente tem outra fila e começa de novo.
    A partir de Florianópolis, é só alegria. Pista dupla e uma média de 110 km/h com segurança. Poucas curvas (a Sahara é alérgica a curvas e eu fiquei alérgico a acostamentos sem asfalto :o).
    De Torres a Joinville (~700 km), deu 7 horas de viagem sem forçar.
    Vou descansar em Joinville e amanhã encontro o Mano Alan em Curitiba do Moto Clube Bodes do Asfalto. Se não der para almoçar (pelo horário, tomamos um café).
    Amanhã é a última etapa de 600km e já estou começando a planejar a próxima viagem. Quem sabe, para o nordeste.

Quinta, Dezembro, 04, 2003

    De Joinville a Curitiba, foi meio molhada (tava uma chuva de molhar até a alma), mas, tranqüila.
    Pouco trânsito, a Sahara é boa morro acima. Tomando-se sempre o cuidado das curvas.
    Em Curitiba, tomei um café com o Mano Alan e sua esposa, do nosso Moto Clube Bodes do Asfalto, estreitando os laços de amizade que já tínhamos pela Internet.
    Passamos um bom tempo jogando conversa fora.
    Excelente esse contato pessoal.
    Aliás, bela moto a do mano, uma Suzuki 1500 tipo Custon.
    A partir de Curitiba, me senti como Noé, sem a Arca.
    Chovia tanto que chegava a doer :o) E eu estava de casaco de couro e capa de chuva.
    Foi água durante 500 km. Minha mais baixa média horária 80km/h.
    Mas, não há risco algum em andar na chuva com moto. Basta ter cabeça fria. E o que não faltava era água para esfriar a cabeça :o))))
    Molhou até o s....

    Bem, findou mais uma aventura.
    Uma aventura que foi planejada e preparada durante 10 meses.
    Foram ~2.400 km de moto e ~ 2.400 km de ônibus. No controle da viagem, somei:
    TOTAL:  2.391,4 km; 120,0 litros de gasolina comum; R$ 249,38 de gasolina com uma média de 19,93 km/litro.

    De certa forma, foi uma peregrinação, pois, todo o trajeto de ida e volta, foi feito sozinho e foi possível entrar em harmonia com meu Mestre Interior, colocando todos os demais problemas no seu devido lugar; na sua devida importância.
    Durante estes dias, a preocupação era a do dia a dia, resolvendo os problemas do momento, sem me preocupar se isso a médio ou em longo prazo teria alguma importância.
    Estamos tão acostumados a aumentar os pequenos problemas do dia a dia, que nos esquecemos de exaltar o que é realmente importante.
    E o que é importante?
    Viver o dia de hoje resolvendo todos os desafios pequenos ou grandes desse dia, sem se preocupar com os problemas que foram ou não resolvidos ontem e com os que serão ou não resolvidos amanhã!
    Viver o dia a dia, indo para cama, contente consigo mesmo por ter enfrentado e resolvido bem ou mal, todos os problemas do dia, da melhor forma que foi possível.
    Isso nos dá a oportunidade de perceber também, que, quando estamos em sintonia com nosso Mestre Interior, no meu caso o Mestre Jesus, percebemos o quanto somos ajudados, a cada momento, em nossas dificuldades.
    Quantas vezes isso nos acontece todos os dias, mas, não percebemos porque, não damos importância aos problemas resolvidos; somente aos que não o foram ainda.
    Bem, já estou começando a planejar a próxima aventura...
    Um abraço a todos e obrigado pela companhia virtual durante a viagem, pois sempre que era possível, entrava em um Ciber Caffé e trocava mensagens.

Vicente Soares
Guarujá-SP
Sahara NX 350
Moto Clube Bodes do Asfalto

 


Mano Alan e Esposa Curitiba-PR
MOTO CLUBE BODES DO ASFALTO
Mano Alan e Vicente Curibita-PR
 
Laguna-SC
 

Laguna-SC
 
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