O Rio Barigüi é, e foi muito mais, condutor de poesia
“Mas se o Rio Barigüi é hoje em função da modernidade, um condutor de fatores de contaminação hídrica, ele o é – e ainda foi muito mais – de poesia.
Foi especialmente ao longo dessa bacia que os meus contemporâneos do fim dos anos 40 e início dos 50 vivemos as mais intensas aventuras ao longo dos seus numerosos acidentes que tinham denominações folclóricas: quem pegasse a ponte sobre o rio na estrada no Cerne, em direção à Santa Felicidade, teria à esquerda os pontos de banho denominados “Princesinha”, “Carniça”, e finalmente o mais procurado de todos a “Panela”, onde desaguava um braço do Rio Uvu que forma a represa da Cascatinha pouco acima; à direita tínhamos “O Toco” e logo depois da barragem que acionava o moinho do Weigert vinha a famosíssima “Volta Funda”.
Por que Princesinha? A designação poética deve ter vindo num estalo como o de Vieira: as condições de luz, solarização intensa – e talvez, quem sabe, até a floração dos vegetais – tinham a majestade não opulenta de uma rainha, mas a graça de uma princesa. E assim foi com a “Carniça”, onde certamente os banhistas, poetas que se confundiam com os gnomos da floresta, que hoje é o Parque do Barigüi, viram os urubus devorando restos de um animal ou ainda o cheiro forte da carcaça; o “Toco” era o alertamento de que ali havia um, capaz de acertar como uma lança o descuido de um nadador ou o improvisado trampolim para saltos pouco ornamentais; a “Panela” e a “Volta Funda” eram os pontos de maior profundidade.
E nesta uma lenda, balbuciada nos lábios dos piás, sugeria que havia até submerso um pinheiro e que os banhistas mais temerários chegavam a bater com os pés em sua copa. A alegria dos piás que embora pareça incrível, se banhavam, felizes, em suas águas e pescavam inenarráveis lambaris e acarás e apontavam mistérios como o boi Ta-tá que se deslocava em fogo entre os pinheiros, a Mãe d’água, e eram também um convite à reflexão do filósofo diante da corrente ou da água parada em torno do transitório e do permanente.”
Luís Geraldo Mazza – Jornalista
Trecho tirado do livro Memória da Curitiba Urbana.
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