Sexta-feira, Março 11, 2005

Estudo considera mata atlântica "pronto-socorro" da biodiversidade

"A pressão do desmatamento sobre o mais ameaçado dos ecossistemas brasileiros ficou menos severa, e a iniciativa privada está se envolvendo de maneira inesperada na sua preservação.
São boas notícias surpreendentes sobre a mata atlântica, que acompanham a segunda edição de um estudo internacional sobre as áreas com mais diversidade biológica e mais devastadas do planeta.

O livro "Hotspots Revisitados", produzido pela organização não-governamental CI (Conservação Internacional) e lançado hoje nos Estados Unidos, também apresenta nove outras regiões que são prioridade absoluta para proteção ambiental --ou "pronto-socorros da biodiversidade", como diz Russell Mittermeier, presidente do órgão.

Com a atualização, agora são 34 "hotspots", como essas áreas são chamadas. Duas delas ficam no Brasil: além da mata atlântica, o cerrado.

Aliás, a situação do segundo mostra que por aqui ainda não há motivos para comemorar. "Há o risco de alcançarmos rapidamente a situação atual da mata atlântica [apenas 7% da cobertura vegetal original] no cerrado", disse à Folha o biólogo Ricardo Bonfim Machado, 42, diretor da CI para o cerrado.

Ao mesmo tempo, há regiões da mata atlântica que continuam sofrendo pressões destrutivas sérias, como as florestas de araucária da região Sul e os fragmentos que ainda resistem ao norte do rio São Francisco.

Pouca mata, muitas espécies

O conceito de "hotspots" (literalmente "pontos quentes") foi criado pelo ecólogo inglês Norman Myers e mede não apenas a diversidade de espécies animais e vegetais de um lugar, mas também o quão únicas --e ameaçadas-- essas espécies são.

Para ser considerado um "hotspot", um ecossistema precisa ter pelo menos 1.500 espécies de planta endêmicas (ou seja, que só existem ali) e ter perdido pelo menos 75% de sua cobertura vegetal. É por causa desse segundo critério que a Amazônia não entra na atual lista de 34.

A mata atlântica está entre os "hotspots" mais ameaçados e, apesar dos sinais animadores, o biólogo Luiz Paulo Pinto, 42, diz que há "bolsões de pressão" sobre remanescentes importantes do ecossistema. "A mata de araucária, por exemplo, corre sério risco de desaparecer. Só resta 3% do bioma", afirma o cientista, diretor da CI para a mata atlântica.

Quando se leva em consideração apenas os remanescentes da floresta de araucária em bom estado, a situação é ainda mais séria. "No Paraná, verificamos que eles correspondem a apenas 0,8% da área original", afirma o agrônomo Fernando Veiga, 41, coordenador de florestas e sistemas agroflorestais da ONG The Nature Conservancy do Brasil.

Nas áreas do Nordeste acima do rio São Francisco, o problema é a ocorrência de espécies em apenas um ou dois fragmentos --que seriam literalmente riscadas do mapa se essas áreas fossem desmatadas. Estão nessa situação, por exemplo, 178 espécies de árvore.

Para Luiz Paulo Pinto, um dos grandes avanços nos últimos anos foi o crescimento de RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) nas regiões de mata atlântica. "Hoje temos um número expressivo, 443 reservas, o que corresponde a 60% desse tipo de área protegida no país", afirma.

No cerrado, os trechos protegidos também cresceram, mas ainda protegem apenas uma área inferior a 2% do ecossistema, segundo Machado. "Passamos de nada a duas vezes nada", ironiza. A maior causa de desmatamento ali é o avanço da soja."

(REINALDO JOSÉ LOPES - Free-lance para a Folha de S.Paulo)


5 Comentários:

  • eu queria aproveitar pra agradecer a galerinha que vem entrando aí no blog, aos poucos mas semrpe tão por aqui, e a galerinha nova que está entrando pra dar uma olhadinha.
    Valeu!

    By Kamila Kuromiya, at Sexta-feira, Março 11, 2005 2:50:16 PM  

  • E pensar que apenas 7% ou menos dessa preciosidade restou do que tínhamos a 500 anos atras... isso é muito triste e sério!!! Deveríamos ter programas de preservação sérios, antes que seja tarde demais!!!

    By Carlos, at Segunda-feira, Março 14, 2005 8:14:02 PM  

  • Não é de hoje que o Cerrado vem sofrendo uma intensa pressão do agronegócio. O cultivo de soja na região já corresponde a uma grande porcentagem do total plantado no país. É no cerrado que se encontra o maior produtor de soja do país.

    Além da soja, há o problema das queimadas criminosas, que destroem grandes áreas e matam animais que não tem para onde fugir.

    O tema cerrado deveria estar na agenda de discussão dos nossos "representantes" políticos. Porém, todos sabem o que a maioria pensa a respeito....

    Valeu galera!!

    By Cleverson, at Terça-feira, Março 15, 2005 2:33:47 AM  

  • 7% não é quase nada !!!! o problema é sério mesmo hein?

    By Marcela, at Terça-feira, Março 15, 2005 9:58:44 PM  

  • A Marcela fica assustada com a porcentagem pequena do que resta da Mata Atlântica? Ficará horrorizada, assim como eu, quando souber o que resta da Mata com Araucária!!!! 0,8%!!!!! Bota fé???
    Eu não acreditei, fora isso mais um monte de coisa errada!!! Eles estão para faer uma barragem onde será destruída vários hectares de Floresta com Araucária!!!
    UM ABSURDO!!!!

    By Luciana, at Quarta-feira, Março 16, 2005 5:40:23 PM  

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