ENGENHARIA GENÉTICA APLICADA NA AGRICULTURA VERSUS AGRICULTURA ORGÂNICA
Estima-se que atualmente 815 milhões de pessoas passem fome no mundo. Nenhuma revolução agrícola jamais resolveu o problema da fome. A fome é um problema social e político, e não um problema de técnicas de produção. É produzida no mundo muito mais comida do que o necessário, sendo grande o desperdício.
Este texto vai abordar dois modos de produção de alimentos bastantes divergentes, duas visões de mundo contraditórias, duas diferentes filosofias, as duas principais opções para o futuro.
A engenharia genética é uma nova tecnologia que envolve a manipulação de genes. Os geneticistas podem transferir genes de uma espécie para outra, mesmo entre espécies muito diferentes entre si. Isso é possível por causa da "linguagem do gene", o código genético que é o mesmo para todos os seres vivos, sejam animais, plantas fungos ou microorganismos. Por exemplo, genes de um peixe podem ser transferidos para um tomateiro para torná-lo mais resistente à geada. O tomateiro modificado geneticamente (trangênico) é forçado a produzir uma substância anticongelante que o peixe produz normalmente para sobreviver em água fria congelante.
Por meio da engenharia genética é possível romper os limites da espécie estabelecidos por milhões de anos de evolução. Nunca fora antes possível transferir genes de animais, bactérias ou vírus para plantas. Quase a totalidade dos produtos transgênicos (98%) é cultivada nos EUA, Canadá e Argentina. Grandes empresas destes países vêem patenteando as sementes e animais geneticamente modificados, os produtores têm que pagar “royalties” pelas sementes patenteadas, por galinha patenteada e também pelos pintinhos produzidos por essa galinha. Os seres vivos são colocados no mesmo nível de um aspirador de pó ou um remédio.
Os genetiscistas freqüentemente afirmam que eles estão fazendo a mesma coisa que o melhoramento genético convencional, apenas mais rapidamente e com mais precisão. É verdade que transferências de genes também ocorrem no melhoramento vegetal convencional, porém apenas entre indivíduos da mesma espécie, ou entre espécies estreitamente relacionadas. Uma espécie de arroz pode cruzar com outra espécie de arroz, mas não com uma noz. A engenharia genética não se restringe a esses limites, por exemplo o arroz com vitamina A geneticamente modificado contém genes de narcisos, vírus e bactérias, como resultado criou-se uma nova forma de vida. Esse arroz está sendo oferecido para o Terceiro Mundo como um remédio para a disseminada Deficiência de Vitamina A, mas aí ocorre um problema fundamental, um homem adulto precisaria comer 9Kg de arroz cozido por dia para ingerir a quantidade necessária de vitamina A, ao passo que a ingestão de apenas duas cenouras orgânicas seria suficiente.
A produção de sementes geneticamente modificadas e o uso destas para o plantio e posterior alimentação, traz muitos riscos para mundo sobre vários aspectos. A contaminação genética é um deles, no México e no Peru, de onde o milho é originário, pode-se encontrar a maior diversidade de cultivares de milho e de espécies nativas, essa diversidade genética é essencial para o futuro do cultivo do milho, mas estudos revelam que até mesmo os mais remotos vales mexicanos as variedades locais de milho contém genes de milho Bt, isso significa que uma espécie inteira em seu estado natural pode tornar-se geneticamente contaminada. As pragas podem desenvolver resistência à toxina Bt das plantas transgênicas, necessitando de mais intervenção humana para o desenvolvimento de uma toxina mais forte e assim ad infinitum. Plantações de plantas geneticamente modificadas também põe em risco a biodiversidade, um exemplo disto é que a produção maciça de plantas geneticamente modificadas resistentes a herbicidas pode acarretar a extinção da já ameaçada cotovia e de outros pássaros que se alimentam de sementes de ervas nativas. Outras técnicas de intervenção como a aplicação de pesticidas e herbicidas sintéticos também trazem esses riscos. A engenharia genética aplicada na agricultura representa uma nova dimensão numa agricultura industrial com forte tendência para mais monoculturas. Logo, uma contínua perda de biodiversidade.
O desenvolvimento de alimentos a partir de plantas geneticamente modificadas pode ou não trazer sérios riscos à saúde humana. Alimentos desse tipo são novos, com novas proteínas que nós nunca comemos. Nós nunca comemos proteínas bacterianas no milho, nem proteínas de peixe em tomates, nem proteínas virais em batatas. Nossos corpos não têm nenhuma experiência com elas e não existe nenhuma maneira de prever se o novo alimento causará ou não alergias ou outras doenças crônicas dentro de cinco ou dez anos. Genes para resistencia a antibióticos, freqüentemente usados na engenharia genética podem ser transferidos para patógenos no intestino e as doenças provocadas por esses patógenos não mais poderiam ser tratadas por esses antibióticos. Peixes estão sendo “melhorados” para crescerem mais rapidamente, esses peixes podem facilmente escapar de fazendas piscícolas, e se infiltrar no meio natural competindo com espécies naturais e até mesmo extingui-las
A agricultura orgânica é uma forma sustentável de produção. Promove e estimula a biodiversidade, os ciclos biológicos e a atividade biológica do solo. Baseia-se no uso mínimo de insumos externos e em métodos que recuperam, mantêm e promovem a harmonia ecológica. O cultivo orgânico não utiliza pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos sintéticos, ao contrário, empenha-se em desenvolver um solo saudável, fértil e sadias rotações de culturas. Desse modo a fazenda permanece biologicamente equilibrada, com uma ampla variedade de insetos úteis e outros organismos que agem como predadores naturais de pragas e um solo pleno de microorganismos, minhocas e outros que mantém sua vitalidade. Se for necessário adotar medidas diretas de controles para evitar danos sérios às culturas, podem-se usar diferentes agentes como extratos de Nim e piretro, retirados diretamente da natureza e agentes de controle biológico como por exemplo joaninhas contra afídeos. Já existe um conjunto desses funcionando com alta eficácia e segurança, é a própria natureza ao nosso redor, é só olhar em volta e conferir.
A criação orgânica de animais enfatiza o bem-estar animal e métodos de manejo que dispensam tratamentos veterinários. É um método de produção agrícola de baixo impacto ambiental que exige altos padrões de bem-estar animal, trazendo benefícios à saúde das pessoas. A agricultura orgânica reconhece que a saúde humana está diretamente relacionada com a saúde do alimento que ingerimos e consequentemente com a saúde do solo, das plantas e de todo o ecossistema. Apoia-se nos vastos conhecimentos e habilidades dos produtores e na moderna pesquisa que gera tecnologias inovadoras como a adubação verde, consorciação de plantas, rotações de culturas, agrossivicultura, integração das atividades animais e vegetais dentro da propriedade agrícola.
Um dos exemplos de como as soluções mais eficientes são as mais baratas e aquelas que a própria natureza nos oferece é a consorciação de plantas. A lagarta-do-cartucho em combinação com a erva Striga pode destruir plantações inteiras de milho, para resolver esse grande problema, planta-se três carreiras da gramínea Napier em torno do milho, essa gramínea atrai as lagartas para fora da plantação onde a maior parte delas é eliminada na sua seiva viscosa. Entre as linhas de milho planta-se a leguminosa Desmodium, a qual elimina a erva Striga, fixa nitrogênio ao solo, proporciona uma forragem adicional para o solo e exala um aroma que repele as lagartas.
Precisamos estar atentos às peculiaridades que natureza possui na hora de combater certas “doenças” que são naturais. O mofo cinza é a pior “doença” que afeta os morangos, um controle que a natureza encontrou, e que cabe a nós apenas usá-lo, é a abelha mangangava. Quando essa abelha sai da colmeia, ela passa por um pedilúvio que contém um antídoto para o mofo cinza, um fungo inofensivo. Quando as mangangavas polinizam as flores do morango, elas inoculam o fungo inofensivo exatamente dentro das flores, este evita a infecção pelo mofo cinza. As abelhas além de servirem como “médicos voadores”, aumentam a taxa de polinização das flores, consequentemente aumentando o número de morangos produzidos e ainda podemos usar o seu mel.
Para os problemas existentes a própria natureza já tem muitas vezes sua solução e é papel do homem procurar e aplicar essas soluções em suas plantações, de forma a se manter em equilíbrio com o todo.
A principal questão que a agricultura orgânica e sustentável enfrenta é: como os agricultores podem aumentar sua produção com tecnologias simples baratas e disponíveis no local, sem danificar o meio ambiente? Há muitos exemplos de que a agricultura orgânica pode render uma produção grande de alimentos. Entre eles há o exemplo de uma agricultura muito tradicional em Cuba, a agricultura-das-três-irmãs, com milho, feijão e mandioca. As plantas de milho funcionam como estacas para o feijão que fixa nitrogênio no solo, enquanto isso a mandioca ajuda a eliminar ervas daninhas e cresce bem em condições sombreadas e úmidas proporcionadas pelo milho e pelo feijão. Uma agricultura dessas produz duas vezes mais do que a soma de cada uma em monocultura.
Alimentos para todos é um projeto a longo prazo e somente a proteção da biodiversidade e a diversidade cultural da agricultura adaptada às condições locais podem assegurar o sucesso.
7 Comentários:
Eu achei esse texto muito interessante, apesar de ser parcial, ele explica muito bem os dois lados da moeda, a engenheria genética e a agricultura orgânica. Achei muito interesante inclusive você citar métodos de como consorciar plantas, muito legal mesmo. Continuem assim.
By Eduardo , at Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 10:46:28 AM
Apesar de bem argumentado eu tenho que discordar com o seu texto, não acredito que a produção de alimentos atraves da agricultura orgânica execeda o que se pode produzir atraves de agriculturas trangênicas.
By Rafael Oliveira, at Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 1:51:53 PM
Gostaria de ler uma reportagem sobre os estudos que comprovem(?) que os transgênicos não são maléficos aos seres humanos!!!
By Buchudo, at Domingo, Fevereiro 20, 2005 2:51:57 AM
Esses estudos não existem Buchudo, acredita que mesmo assim eles insistem em vender produtos transgênicos para a gente? E as empresas nem têm a coragem de colocar em seus rótulos avisos de trangenia, pois sabem que a venda vai cair muito se eles fizerem isso.
By Eduardo, at Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005 9:42:24 AM
A quetão dos transgênicos é extremamente polêmica porque toca nos interesses de diversos grupos de pessoas das mais diversas classes sociais e de diferentes niveis educacionais.
Enquanto o trabalhador rural só quer poder plantar e vender seus produtos, multinacionais como a Monsanto quer cobrar royalties sobre suas sementes, coisa que o trabalhador rural não pode pagar.
Do outro lado tem os consumidores, preocupados com a sua saúde e como o corpo vai reagir entrando em contato com esses produtos!
Devia-se sim ser mais discutido esse tema, conhecer todos os lados da moeda por essa moeda tem bem mais de 2 lados!!!
Acho interessante esse espaço que a UFPR está abrindo para que todos nós que tivermos interesse discutirmos assuntos tão relevantes.
By Érica, at Terça-feira, Fevereiro 22, 2005 4:15:51 PM
O que a Érica disse é verdade, nada como muita discussão para se esclarecer questões como essa!!!
A monsanto cobra royalties altissimos pelas suas sementes, mas nunca pagou 1 centavo aos maias que por meio de uma seleção genética empirica e rudimentar que levou milhares de anos transformou a espiga de milho em algo comestível.
Eu citei aí seleção genética, que é BEM diferente de modificação genética, os maias simplesmente escolhiam sempre plantar as sementes de espigas de milho mais bonitas e é assim que temos o milho que conhecemos hj!
By Leandro, at Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005 8:45:18 PM
Eu acho que tem sim que plantar trangênicos... antes uma planta trângênica do que cheia de agrotóxico!!!!!
By Andréia, at Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005 8:52:45 PM
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