Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Maio 2008
Índice Geral
17/05/08
• Ainda USTRA - "Carta de uma mulher às suas filhas
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REPASSO.
Retrata com precisão o que foram e aconteceram naqueles anos.
É como se fosse uma radiografia de uma família de militar que servisse no DOI.
Dou meu testemunho da veracidade dos fatos descritos pela esposa do amigo
Ustra.
Abraços
J.
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Trecho do livro
A REVOLTA DE UMA MULHER
Carta manuscrita por minha mulher, como introdução de um álbum organizado por
ela para nossas filhas Patrícia e Renata.
Montevidéu, 02 de outubro de 1985.
Patrícia e Renata
Este álbum é de caráter particular, exclusivamente para vocês, nossas queridas
filhas. Nele pretendo, através de pesquisas, procurar saber o nome das
organizações subversivo-terroristas que atuaram na época, de outubro de 1970 a
dezembro de 1973, período em que o pai de vocês comandou o DOI/CODI de São
Paulo. Os atos de terror destas organizações, como assassinatos de pessoas
inocentes, atentados a bombas, assaltos a bancos, a quartéis, seqüestros,
depredações e todo tipo de terror daquela época. Pretendo mostrar-lhes, se
conseguir, com pesquisas em jornais, o caos que se tentava implantar no
Brasil. Tentarei saber o que cada organização terrorista fez, os atos que
praticou e a guerrilha urbana e rural que se implantou no país.
Estes terroristas obrigaram as Forças Armadas a se lançarem às ruas e aos
campos, contra o inimigo desconhecido que se escondia na clandestinidade.
Os militares, para evitar danos maiores a inocentes, lutavam contra o tempo e
o desconhecido. Eles, terroristas, lutavam contra o claro, o conhecido.
Deste combate participou o pai de vocês e lutou com honradez, honestidade e
dentro dos princípios de um homem bom, puro e honesto, assim como muitos
outros. Só quem passou pelo martírio de ter entes queridos envolvidos em uma
luta que não iniciaram, nem procuraram, mas que apenas cumpriram com seu
dever, manter a ordem no país, pode saber, como eu, os momentos de medo,
incerteza, terror que uma família passa. Só estas podem compreender a dor e o
desespero de uma mãe e de uma esposa. Telefonemas anônimos, perseguições,
ameaças, morte de amigos em combate, a dor dos entes queridos que, como nós,
não tiveram a sorte de conservar com vida aqueles que amavam.
Sei e lamento que outras pessoas também passaram pelos mesmos sofrimentos de
perder entes queridos, mas estes entes queridos, fanatizados, terroristas,
começaram a guerrilha e os atos de terror. Houve a guerra, e em uma guerra há
mortos e feridos de ambos os lados, mas os militares não a queriam nem a
iniciaram. Eles foram e são preparados para defender o Território Nacional.
Foram chamados a agir e acabaram com o terrorismo no Brasil.
O terror era tanto que quando tu, Patrícia, foste para o Jardim de Infância,
eu passei todo o ano, no horário escolar, dentro do carro, na porta do
colégio, pois não tinha condições psicológicas de ir para casa.
Recebíamos ameaças de morte, de seqüestro e todo tipo de guerra de nervos.
Tive amigos mortos e feridos em combate!
Assim mesmo, nos "porões da tortura", como eles chamam, onde "se ouviam gritos
e se mostravam presos mortos à pauladas" como eles dizem, participei e tu
também, Patrícia, ainda que pequenina (3 anos) de uma pequena "obra
assistencial" a algumas presas, mais ou menos seis, uma inclusive grávida.
Íamos quase todos os dias. Tu brincavas com algumas enquanto eu, com outras,
ensinava trabalhos manuais como tricô, crochê e tapeçaria. Passeávamos ao sol,
conversávamos (jamais sobre política), levava tortas para o lanche feitas pela
minha empregada. Enfim, as acompanhávamos.
Fizemos sapatinhos, casaquinhos, mantinhas para o bebê e com uma lista feita
no DOI pelo "torturador" Ustra compramos um presente para o bebê. Ele nasceu
no Hospital das Clínicas, se não me engano em outubro de 1973 ou 1972
(verificarei depois), tendo o "centro de torturas" mandado flores à mãe, e eu
e tu, Patrícia, fomos visitá-los. Era um homenzinho lindo e forte.
Minhas filhas, os aniversários delas eram sempre comemorados com bolos e
festinhas. Os Natais e Anos Novos jamais passamos em casa, durante os quatro
anos que o pai de vocês comandou o DOI, sempre foram passados lá (o pai, eu e
tu, Patrícia, Renata não era nascida). Tu, Patrícia, às vezes a pedido das
presas, ficavas sozinha com elas. Daí o artigo que pode ser encontrado neste
álbum "Brinquedo Macabro" do jornalista Moacyr O. Filho, que diz que teu pai
te deixava com as presas que acabavam de ser torturadas. Se fossem torturadas,
como ele diz, como podiam ter bom relacionamento com os integrantes do órgão e
como podiam aceitar, e não só aceitar, mas reclamar a nossa presença, quando
por algum motivo, falhávamos um dia?
Pena que não tivessem os integrantes do órgão, a malícia dos terroristas!...
Porque, se tivessem, fotografariam ou filmariam tudo, e casos como Bete Mendes
(que não tive o desprazer de conhecer, enquanto presa) seriam comprovados como
mentirosos.
Sinto o nome de uma família inteira: pais, mães, sogros, irmãos, mulher e
filhas, enxovalhados, e como o militar não pode e não deve, por regulamento
disciplinar do Exército, se defender, tomo eu, exclusivamente eu, a iniciativa
de deixar para vocês, nossas filhas, este álbum, de caráter particular, com
tudo que puder vir a reunir, além do Livro de Alteracões do pai de vocês,
condecorações por arriscar a vida, elogios, para que, como eu, se orgulhem,
acima de tudo, de se chamarem BRILHANTE USTRA. Um nome, cujo único erro
cometido, foi cumprir com seu dever e, principalmente, cumprir bem: com honra,
com dignidade e humanidade, lutando sempre para evitar males maiores do que os
que se passavam no momento.
Compartilho a dor dos pais, mães, parentes, enfim, dos que por infelicidade
perderam seus entes queridos, fanatizados por ideais que não me compete
julgar, e que não deviam ter usado a violência para tentar consegui-los, mas
não posso deixar de me revoltar contra as calúnias jogadas sobre um homem bom,
como o pai de vocês.
Beijos
Maria Joseíta S. Brilhante Ustra