Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Fevereiro 2008
Índice Geral
25/02/08
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'Veja' - honra ao mérito
----- Original Message -----
From: M
Sent: Monday, February 25, 2008 11:48 AM
Subject: 'Veja' - honra ao mérito
Gente,
ainda existem Homens em nossa imprensa - parabéns a Eurípedes Alcântara e
Mário Sabino.
Em seu último número, a nossa Veja traz uma capa histórica - sobre o delineado
perfil do renunciante assassino caribenho, a manchete, enxuta, com verve de
gênio e direto na fuça: JÁ VAI TARDE
Precisava mais?
Mó delícia!
M.
P.S. - A matéria de capa foi desenvolvida por Diogo Schelp, ótima. Na
seqüência, mais um excelente artigo do Reinaldo.
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O ditador entrega o comando direto do país ao
irmão, abre caminho para mudanças, mas fica ainda como um fantasma assombrando
o povo e preservando sua tenebrosa herança
Em 1953, levado a julgamento pelo crime de ter
enviado seus primeiros seguidores para um ataque suicida a um quartel, o jovem
advogado Fidel Castro Ruz assumiu a própria defesa e o fez de forma magnífica.
Antecipando a retórica magnética, grandiosa, arrogante mas farsesca que o
caracterizaria pelo resto da vida política, disse aos juízes: "A história me
absolverá". Passou-se mais de meio século e, aos 81 anos, conceda-se, Fidel
está diante do tribunal da história. Visto o sofrimento que infligiu ao povo
durante 49 anos como senhor absoluto de Cuba, a absolvição está fora de
cogitação. Cabe recurso? Não dá mais tempo. Fidel está em fase terminal de uma
grave doença e, na semana passada, anunciou que não mais concorreria à eleição
indireta que escolhe o presidente e o comandante-em-chefe das Forças Armadas.
Seus apaniguados viram o gesto como prova de
desprendimento do comandante e evidência de modéstia e renúncia pessoal em
benefício da pátria. Tudo encenação. Nem que quisesse, a saúde debilitada e a
velhice lhe permitiriam candidatar-se a algo mais do que uma vaga no jazigo
dos heróis na Praça da Revolução. Diante de uma impossibilidade finge que está
por cima. Vintage Fidel. Clássico Fidel. Vai anunciar o corte da cota de leite
para a população adulta de Havana? Diga à multidão que não faltará leite para
as crianças. Vai ter de recuar, desmontar os mísseis atômicos soviéticos e
devolvê-los a Moscou? Diga que Cuba é soberana e pode ter as armas que quiser:
"Os mísseis se vão. Mas ficam todas as demais armas" – como se isso fosse
algum consolo. Mas as massas vão acreditar. Foi pego exportando terroristas
para insuflar a subversão em outros países? Diga que, se quisesse mesmo fazer
terrorismo, Cuba produziria "excelentes terroristas, e não esses incompetentes
que foram presos". Está difícil explicar a miséria franciscana da economia
cubana? Diga que quem está mal são os Estados Unidos ("os ianques estão
falidos"), o Japão ("tenho pena dos japoneses") e a Europa ("o velho
continente está esgotado"). Está prestes a morrer, não consegue caminhar nem
discursar? Diga que vai apenas mudar de posto, mas que o combate continua.
Todo político tem de ser bom mentiroso. Para ser
Fidel é preciso, no entanto, ser um grande farsante. Ele é um dos maiores que
a história conheceu. É presidente de uma nação paupérrima, mas vive como um
cônsul romano que come lagostas quase todos os dias? Negue: "Temos as lagostas
mais doces do Caribe, mas não as comemos. Trocamos por leite para as
crianças". Vive cercado de um aparato de segurança que parece um bunker
ambulante? Invente que é um homem simples que às vezes anda só pelas ruas,
como um filósofo peripatético absorto em uma paisagem idílica: "Outro dia, no
México, ia só pela rua, só como uma pomba...".
Desde os primeiros momentos da revolução que o
levou ao poder, em janeiro de 1959, Fidel mostrou a utilidade política de um
grande fingidor. Quando começaram os julgamentos sumários com o objetivo de
criar um clima de terror e matar os inimigos, e até alguns amigos políticos,
Fidel não aparecia como carrasco (esse era o papel do argentino Che Guevara)
nem como juiz. Fingia não se envolver. Em uma aparição famosa, ele vai ao
tribunal do júri e faz um discurso mercurial: "Que esta revolução escape da
maldição de Saturno. E que é a maldição de Saturno? É o dito clássico, o
refrão clássico de que, como Saturno, as revoluções devoram seus próprios
filhos. Senhoras e senhores deste tribunal, que esta revolução não devore seus
próprios filhos". Lindo? Sim, mas era uma farsa. Naquele mesmo dia, dois
jovens combatentes comunistas urbanos que não lutaram na guerrilha rural de
Castro foram condenados à morte. A revolução devorava alguns de seus próprios
filhos. Mas o que ficou? O discurso inflamado com referências eruditas.
Funciona sempre? Não. Funciona em Cuba, que tem Fidel e algumas outras
características que ajudam esse tipo de farsa a passar por verdade. Ajuda
muito banir a imprensa, dominar a televisão e o rádio, proibir a entrada de
jornais estrangeiros no país e impedir os cidadãos de viajar para o
estrangeiro. Ajuda enjaular por tempo indeterminado, e sem juízo formado, toda
a oposição. Ajuda muito abolir as liberdades individuais e ser o ditador de
uma ilha, um país-cárcere. Eis a grande obra de Fidel Castro em meio século de
governo. A história o absolverá? Difícil.
Cuba tem um presidente, mas não uma Presidência.
Fidel Castro é a revolução. Lealdade ao estado cubano é a lealdade a Fidel.
Naturalmente, à medida que se aproxima o dia de seu desaparecimento, a questão
da sucessão provoca tremenda incerteza e instabilidade potencial. Sobretudo
porque em ditaduras personalistas a sucessão para valer geralmente só pode
ocorrer depois da morte do grande cacique, mesmo que ele tenha passado muito
tempo incapacitado de governar. A lenta agonia de Mao Tsé-tung e de Leonid
Brej-nev congelou a China e a União Soviética por anos. O mesmo ocorre com
Fidel. Em julho de 2006, sabendo-se entre a vida e a morte, ele foi forçado a
delegar ao irmão, Raúl, o título de presidente em caráter provisório. O
anúncio de que não mais voltará ao cargo ocorreu seis dias antes de a
Assembléia Nacional aprovar o novo Conselho de Estado e seu presidente (o mais
graduado título de Fidel desde que o Conselho foi estabelecido, em 1976). É
quase certo que Raúl será confirmado no cargo. Mas os camaradas podem optar
por um homem mais jovem, o vice-presidente Carlos Lage, 56 anos, de forma a
evitar a necessidade de nova sucessão em curto prazo, já que Raúl está com 76
anos. É bem possível que Lage se torne, por enquanto, o número 2 de Cuba, o
lugar até agora ocupado pelo primeiro-irmão. Toda a movimentação, no final das
contas, faz parte do jogo de paciência. Enquanto estiver neste mundo, Fidel
continuará a ser a voz forte nas decisões estratégicas.
O que será de Cuba depois que Fidel for se
encontrar com Marx no céu dos comunistas? O regime cubano, da forma como nós o
conhecemos, não pode sobreviver a seu criador. No dia seguinte ao funeral do
"comandante-en-jefe", tudo parecerá no mesmo lugar – o Partido Comunista, a
polícia política, os ministérios, a camarilha dirigente –, mas essa estrutura
terá a consistência de um painel cenográfico. Fidel Castro liderou uma
revolução cara à imaginação da esquerda latino-americana. Sobreviveu à
inimizade dos Estados Unidos, lutou na linha de frente da Guerra Fria e, seu
feito mais notável, sobreviveu ao colapso do patrono soviético. No curso dessa
carreira, ele pegou uma ilha caribenha, cujo destino natural era a
irrelevância, e a colocou no centro das preocupações internacionais. Não há
ninguém com o currículo e o talento necessários para ocupar o posto de
comandante-em-chefe e ser levado a sério pela população da ilha. Dois terços
dos 11 milhões de cubanos nasceram depois de 1959 e não conheceram outro líder
exceto Fidel. "Nos livros escolares, Fidel é enaltecido como o grande pai,
aquele que trabalha dia e noite para proteger os cubanos", disse a VEJA o
historiador argentino Carlos Malamud, do Instituto Real Elcano, em Madri.
Raúl ganha o cargo, mas falta-lhe o carisma
necessário para ocupar o papel de pai da pátria que seu irmão encarna. A ilha
foi submetida a um processo traumático por meio século. Fidel derrubou um
sargento ignorante e corrupto, detestado pelos cubanos e desprezado pelo
mundo. Não fez isso apenas com seu grupo de guerrilheiros barbudos em Sierra
Maestra. A revolução cubana foi produto da vontade de uma frente ampla de
estudantes, partidos políticos, organizações profissionais e contou com o
entusiasmo da população cubana. O objetivo capaz de aglutinar toda essa gente
era a restauração da constituição democrática de 1940, rasgada pelo ditador
Fulgencio Batista. Fidel traiu todos eles. No fim de 1959, já tinha iniciado a
repressão política. Dois anos depois, aproveitou-se das rivalidades da Guerra
Fria para instalar o comunismo e se tornar cliente da União Soviética. Fuzilou
antigos aliados, destroçou famílias e arruinou as esperanças de duas gerações
de cubanos.
Quem pôde fugiu. Há 2 milhões de exilados – um
em cada seis cubanos vive no exterior, uma proporção de exilados maior que a
existente no Afeganistão, país devastado por trinta anos de guerra civil. O
governo de Fidel Castro é agente do maior fracasso material da história das
ditaduras latino-americanas. O comunismo foi formalmente estabelecido em abril
de 1961. A economia planificada foi um desastre imediato. O racionamento de
alimentos, que ainda persiste, começou no ano seguinte. O salário médio de um
trabalhador cubano equivale a 10 dólares. A produtividade dos canaviais de
Cuba, que já foi o maior produtor mundial, hoje é de 27.800 quilos por
hectare, um índice baixíssimo. No Brasil, é de 73 900 quilos.
Cuba não teria sido o que foi nos últimos 49
anos se não fosse Fidel e, pelo mesmo motivo, está fadada a mudar com ele fora
do poder. Não é fácil, pois a receita do desastre econômico está no coração do
sistema político. Fidel jamais pretendeu estabelecer uma economia socialista
com padrão mínimo de racionalidade e produtividade, como tentaram os
comunistas do Leste Europeu – ou como os chineses e os vietnamitas estão
fazendo agora. Mercado e instituições são anátemas em sua ideologia. Em lugar
disso, o comandante-em-chefe apostava na mobilização em massa a pretexto de
defender a pátria e no esforço incondicional daqueles que lhe eram fiéis. O
próprio Partido Comunista foi, durante bastante tempo, mero coadjuvante. Há
mais de dez anos não realiza um congresso. Ele sempre se recusou totalmente a
implantar as políticas macroeconômicas necessárias para aumentar o PIB e a
produtividade, criar empregos, salários reais e, até mesmo, aumentar a
arrecadação de imposto. Incapaz de produzir riqueza, Fidel só podia oferecer
aos cubanos uma divisão mais ou menos equitativa da pobreza. Por muito tempo
conseguiu convencê-los de que isso era uma virtude socialista.
Não é de surpreender que essa situação tenha
dado origem a um mundo bipolar, o da dupla moralidade. Em público, os cubanos
apóiam o comandante-em-chefe e o regime e defendem objetivos socialistas. Em
particular, engajam-se em atividades ilegais, compram e vendem no mercado
negro e planejam deixar o país. O fenômeno foi reconhecido pelo Partido
Comunista na década de 90, mas este não conseguiu eliminá-lo ou não se
esforçou para isso. Alegres apesar das agruras de um país aos pedaços, os
cubanos são uma fonte inesgotável de piadas sobre as mazelas do regime. Um
exemplo: na escola, perguntam ao menino quais são as três grandes conquistas
da revolução. Ele responde prontamente que são a educação, a saúde e a
seguridade social. Provocativa, a professora quer saber quais são os três
defeitos. O aluno também os tem na ponta da língua: café-da-manhã, almoço e
jantar. Visto de uma perspectiva egoística, o modo de governar adotado por
Fidel foi um sucesso para ele próprio. Nenhum outro ditador de sua época
permaneceu tanto tempo no poder. Ele sobreviveu à hostilidade de dez
presidentes americanos. "Sem Fidel Castro, o regime cubano teria acabado junto
com a União Soviética, quase vinte anos atrás", disse a VEJA a socióloga
cubana Marifeli Pérez-Stable, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um
centro de análises políticas em Washington. Por outro lado, o estilo castrista
é um problema para seus sucessores. Ninguém pode governar como Fidel governou,
e não há acordo entre os camaradas sobre o melhor caminho a adotar.
Ela não vê perspectiva de democracia em Cuba em
futuro próximo e também não está certa de que condições favoráveis à transição
possam emergir a curto prazo. Na sua opinião, há quatro cenários possíveis
para o futuro de Cuba.
• O primeiro é o desejado por Raúl Castro e
muitos camaradas do Partido Comunista. Sem a presença de Fidel, seus membros
poderiam enfim colocar em prática as reformas econômicas, copiando algumas
medidas favoráveis ao mercado adotadas na China ou no Vietnã e mantendo
intacta a estrutura política. Apesar de o partido conservar o monopólio do
poder, haveria bastante liberdade econômica. Se der tudo certo, café-da-manhã,
almoço e jantar deixarão de ser um problema para os cubanos.
• O segundo cenário é o almejado pelos cubanos
exilados nos Estados Unidos. Com a saída de Fidel e uma ligeira abertura
econômica, seu sucessor daria início à transição democrática. Novos nomes de
dentro do regime e da sociedade civil ganhariam projeção política e começariam
a pressionar o governo e a população não se daria por satisfeita apenas com a
melhoria da qualidade de vida. Os sucessores de Fidel decidem não recorrer à
repressão em massa, o que abre caminho para o estabelecimento da democracia a
médio prazo.
• Uma terceira possibilidade seria que as
reformas econômicas levadas a cabo pelos sucessores de Fidel se revelem lentas
em produzir resultados. A população perde a paciência e protestos explodem nas
cidades. A linha-dura propõe usar a força, mas os reformistas preferem
negociar. Convocam um diálogo nacional e a transição para a democracia ocorre
em ritmo acelerado.
• O último cenário é o mais caótico. O sucessor
de Fidel é cauteloso desde o início, com medo de perder o controle. Não há
abertura política ou econômica. Protestos populares espalham-se pela ilha. O
Exército é chamado, cubanos fogem em massa para a Flórida. Uma intervenção
americana ou de forças de paz da ONU não estaria fora de cogitação.
Depois de perder a mesada soviética, a economia
cubana encolheu 35% entre 1989 e 1993. Muita gente esperou que Fidel fosse
engolido pela queda do Muro de Berlim. Ele respondeu declarando um "período
especial", com medidas austeras e reformas tímidas, mas pragmáticas. Sob o
comando de Raúl e Lages, foram permitidas a abertura de restaurantes
familiares, feiras livres para complementar a escassa ração oficial e a
circulação de dólares. Também foram encorajados o turismo e os investimentos
estrangeiros, principalmente em hotéis, minas de níquel e exploração de
petróleo. O resultado foi que algumas pessoas melhoraram de vida. Fidel viu
nisso uma afronta ao sacrossanto princípio da igualdade revolucionário. Em
1996, ele deu marcha a ré nas reformas. O investimento estrangeiro tornou-se
mais seletivo. A repressão política intensificou-se e culminou com a prisão de
75 dissidentes em 2003, na maioria condenados a longas penas de prisão.
Hugo Chávez substituiu a União Soviética como
provedor. Ele manda 92.000 barris diários a preços subsidiados para Cuba. Nos
últimos dois anos, ajudou com 2,3 bilhões de dólares. Graças a Chávez, os
cortes de energia elétrica tornaram-se raros. A China também ofereceu crédito
farto. No momento, Cuba está trocando sua frota de ônibus e caminhões por
veículos pesados. Para completar, o preço internacional do níquel subiu. Nada
disso teve reflexo significativo no bolso dos cubanos. O salário médio é de
265 pesos, o equivalente a 10 dólares. Um médico pode ganhar 700 pesos. É o
suficiente para comprar uma dúzia de frangos – se é que alguém viveria apenas
de comer frangos. Raúl não é um reformista nem um democrata. É comunista desde
a adolescência. Mas, ao contrário de Fidel, não tem uma visão ideológica dos
problemas sociais. Pragmático, percebeu que o regime não sobrevive sem
reformas econômicas e vê com admiração o sucesso da experiência chinesa. Desde
1959 ele dirige as Forças Armadas, instituição que, dentro do caos geral de
que padece o país, funciona razoavelmente bem. O Exército transformou-se no
pioneiro do capitalismo cubano, investindo na agricultura, no turismo e na
indústria. Raúl cuida pessoalmente do turismo. Com 300 praias de areia branca
e mar transparente, a ilha atrai 2 milhões de turistas por ano. Se o irmão
morrer, ele estará livre para tentar um comunismo à chinesa no Caribe.
O desafio de suceder a Fidel é grande. O regime
perdeu a lealdade dos jovens. Num encontro recente, transmitido pela
televisão, dois jovens universitários colocaram Ricardo Alarcón, o presidente
da Assembléia Nacional, numa saia-justíssima. Eles fizeram isso com umas
poucas perguntas básicas:
• Por que os cubanos não podem viajar para fora
do país?
• Por que os produtos de consumo são cobrados em
pesos conversíveis, que têm seu valor atrelado ao dólar, se os trabalhadores
cubanos recebem em pesos normais, que não valem quase nada?
• Por que os cubanos não podem freqüentar os
hotéis e os restaurantes abertos só para turistas?
• Que sentido faz realizar eleições para a
Assembléia Nacional se os eleitores desconhecem totalmente quem são os
candidatos?
É compreensível que Alarcón não tenha conseguido
articular respostas inteligíveis. A verdadeira resposta veio dias depois. Os
jovens foram forçados a se retratar diante das câmeras da televisão oficial.
Nesse quadro tormentoso, surpreende como ainda
se repete que "é preciso preservar as conquistas da revolução". O mito
propagandista sugere que Fidel tomou o poder em Uganda e agora o está
devolvendo na Suíça. Na verdade, os indicadores sociais cubanos pré-Fidel eram
excelentes nos quesitos educação e saúde. A contribuição castrista consiste
sobretudo na destruição da infra-estrutura física e humana da ilha, que já foi
rica em escritores, artistas e músicos e hoje é um deserto de idéias. O motivo
da tolerância existente em relação a Cuba é de difícil explicação. O ensaísta
argentino Mariano Grondona atribui esse fascínio pelo ditador caribenho ao
realismo fantástico que domina não apenas na literatura, mas também no campo
minado da política latino-americana. Esse pensamento se traduz basicamente
pela crença de que nossos fracassos não são produto de nossos erros, mas uma
conseqüência de algo maior, a opressão americana. Seria a utopia cubana como
uma terra a salvo dos americanos que entusiasma políticos e intelectuais que,
em sua própria terra, fazem questão de viver num regime democrático.
Os índices sociais de Cuba são razoáveis para
uma ilha do Caribe. O país não reproduz os altos índices de criminalidade da
vizinha Jamaica ou a pobreza abjeta do Haiti. Sem Fidel talvez o país fosse
socialmente mais desigual. Mas implantar uma realidade de zoológico – ou seja,
aquela em que todos têm comida, escola e saúde, mas vive enjaulado – não paga
o preço do atraso, da falta de liberdade e da pequenez intelectual. Sobretudo
por ser falsa a existência de uma dicotomia entre democracia e justiça social.
A Costa Rica desfruta uma posição melhor que a de Cuba no IDH, sem ter para
isso abolido as eleições livres, prendido opositores ou impedido seus cidadãos
de viajar para o exterior. Entre os mitos mais divulgados por Havana está o de
que a pobreza cubana é uma conseqüência direta do embargo comercial decretado
pelos Estados Unidos nos anos 60. Trata-se de uma balela, visto que o restante
do mundo está ávido por negociar com Cuba. O próprio embargo não é tão fechado
quanto parece. Os cubanos compram 500 milhões de dólares em alimentos e
remédios americanos. Outro 1 bilhão de dólares, uma das três maiores fontes de
renda da ilha, é enviado pelos cubanos que vivem nos Estados Unidos a seus
parentes em Cuba.
Muitos políticos americanos acreditam que o
embargo é contraproducente e fornece uma desculpa para o fracasso econômico e
social de Fidel Castro. Melhor seria revogá-lo e afogar o regime comunista num
banho de dólares. Não é má idéia. Mas há razões para tanta hostilidade. O
embargo foi uma resposta direta ao confisco de propriedades americanas no
valor de 2 bilhões de dólares no início da revolução. Além do mais, é bom
lembrar, num momento de absoluto fanatismo, Fidel tentou deflagrar a III
Guerra Mundial. Em 1962, ele conseguiu que Nikita Kruchev instalasse mísseis
nucleares em Cuba. Nos treze dias febris que se seguiram, a humanidade esteve
perto da aniquilação. Por fim, Moscou aceitou retirar o armamento em troca da
promessa de que a ilha não seria invadida. Sabe-se que Fidel tentou empurrar a
União Soviética a levar o confronto até o limite do inimaginável. Assustados
com a gravidade do que tinham vivido, John Kennedy e Kruchev deram início ao
processo de coexistência pacífica entre as superpotências. Vamos ver a figura
por este ângulo: Fidel Castro é um sobrevivente daqueles tempos tenebrosos. Já
vai tarde.
O dissidente cubano Héctor Palacios Ruiz
considera o afastamento de Fidel Castro um alívio para a população, mas duvida
que seu substituto consiga manter-se no poder, exceto pela força. "De toda
forma, qualquer um é melhor que Fidel", diz o sociólogo de 64 anos. Preso em
2003 e condenado a 25 anos de cadeia por sua atividade oposicionista, ele foi
solto no fim de 2006, em caráter condicional, para tratar da saúde. De Madri,
onde está cuidando das doenças adquiridas na cadeia, Palacios concedeu ao
repórter Thomaz Favaro a seguinte entrevista.
Raúl Castro pode ser melhor para Cuba que seu
irmão, Fidel?
Qualquer um é melhor neste momento. Fidel Castro é um homem apegado ao poder,
obstinado em evitar mudanças substanciais em Cuba. A falta de mudanças é o que
de pior pode acontecer, pois os problemas econômicos e sociais do país são
gravíssimos. Não creio, contudo, que Raúl consiga ser o dirigente de Cuba. Ele
não tem força política suficiente nem o carisma necessário para isso. Raúl
pode tentar governar pela força, apontando a pistola para a população cubana,
mas por pouco tempo. O próprio Raúl já disse que Fidel é insubstituível.
Por que Fidel é insubstituível?
Fidel Castro é um político inteligente e muito hábil. Ele sempre teve todo o
poder nas mãos e concentrou pessoalmente todos os cargos importantes:
comandante-em-chefe, primeiro-secretário do Partido Comunista, chefe do
Conselho de Ministros e presidente do Conselho de Estado. Fidel também
conseguiu estabelecer uma aliança internacional com a esquerda e chegou a ser
visto como o Homem do Século XX. Ele é um ícone da história. Não se pode
esquecer que seu rosto e sua vontade foram onipotentes em Cuba durante as
cinco décadas em que reinou. Acredito que tudo isso desaparecerá rapidamente.
Note que ninguém chorou a saída de Fidel. Isso mostra como as pessoas estão
cansadas do regime castrista. O castrismo desaparecerá da mesma forma que o
stalinismo e o hitlerismo, movimentos que viraram fumaça depois da morte de
seus criadores.
O que falta para que comecem as transformações
políticas em Cuba?
As mudanças não começam nas estruturas políticas, e, sim, na população. Quando
o povo está insatisfeito, pede mudanças. As transformações começam quando as
pessoas percebem que o governo não tem como resolver os problemas. Isso já
teve início em Cuba, mas se trata de um processo lento. Com a saída de Fidel
da cena política, desaparecerão também muitos dos seus dogmas. O que temos em
Cuba não é sequer socialismo ou comunismo. O regime cubano não encontra
respaldo nem na teoria nem na prática comunistas. É um castrismo, terror
semeado nas crianças desde que nascem para que não reajam. Fidel não deixa
sucessor. Nem mesmo no Partido Comunista, que não passa de um grupo de
políticos de carteirinha, mas sem ideologia. Imagine, em dez anos, como seria
um Congresso cubano com essas pessoas. Não digo que será amanhã, mas falta
pouco para a transição.
O sistema político atual pode sobreviver sem
Fidel Castro?
A saída de Fidel nos traz um otimismo cauteloso, mas ainda restam muitas
dúvidas sobre o futuro. Primeiro porque sabemos como ele atua. Enquanto tiver
um sopro de vida, poucas decisões importantes poderão ser tomadas sem sua
participação. Ele não renunciou ao cargo de primeiro-secretário do Partido
Comunista, e na Constituição cubana está escrito que o partido é o reitor da
sociedade. Portanto, Fidel continua no comando do país. Em segundo lugar, ele
já demonstrou que não está disposto a tolerar mudanças no governo. E tem
suficiente influência para isso.
O senhor acha que sua liberação foi um sinal de
mudanças na ilha?
Eu não fui solto. Ainda sou um preso político. Estou na Espanha com licença
médica para tratar das graves doenças que adquiri no cárcere. Devo 21 anos de
prisão ao governo cubano. Na hora em que eles quiserem devo voltar ao cárcere,
sem julgamento nem recursos. Há 250 presos políticos em Cuba, todos inocentes.
Nenhuma lei diz que um homem deve ser preso pelo que pensa. A minha história é
a de quase todos os opositores. Eu era um agricultor da Serra de Escambray, no
centro de Cuba. Foi ali que ouvi falar de revolução pela primeira vez.
Participei da guerrilha, pois estava interessado em tudo o que oferecia Fidel
Castro. Depois fui me dando conta de que ele me enganava. Não tenho vergonha
de ter combatido na revolução. Lutei para implantar a democracia, o que faço
até hoje.
Quais são os problemas de saúde que o senhor
enfrenta?
Tive um colapso do sistema circulatório da cintura para baixo, fruto de dois
anos vivendo em celas "tapeadas", como são chamadas. São cubículos muito
baixos, fechados com placas de aço. Sem luz nem ventilação, o interior da cela
atinge temperaturas entre 45 e 55 graus. As condições de higiene são
terríveis. Isso afetou também meu sistema respiratório. Hoje tenho metade da
capacidade respiratória normal. Devido a todos esses fatores, minha pressão
arterial é altíssima. Recentemente sofri um ataque isquêmico transitório, por
falta de oxigenação no cérebro, e caí. Dito isso, espero que você não me
pergunte se há tortura em Cuba. Meu caso serve como resposta. Liberaram-me
para morrer.
Por que os Estados Unidos insistem em manter o
embargo a Cuba?
O governo americano cometeu efetivamente muitos erros. A invasão da Baía dos
Porcos, em 1961, foi um dos piores. Outro engano incalculável foi ter cortado
a cota açucareira de Cuba em 1960, pois isso permitiu a aproximação da União
Soviética. Tudo isso ajudou Fidel Castro. O embargo econômico a Cuba não é
significativo, pois os Estados Unidos são um dos maiores parceiros comerciais
da ilha. Cuba importa dos americanos quase 500 milhões de dólares por ano. As
compras incluem produtos agrícolas, subsidiados, que são revendidos por um
preço muito mais alto no país. Os Estados Unidos são um grande negócio para
Cuba, mas na cabeça das pessoas persiste a idéia de que há um boicote. Ou
seja, o embargo americano só dá mais força a Fidel. O verdadeiro embargo é o
do governo ao povo cubano. Quem pode imaginar que neste século, na América,
onde todos já lutaram pela democracia, possa ainda existir um sistema de
partido único?
Com reportagem de Alexandre Salvador, Duda
Teixeira, Thomaz Favaro e Vanessa Vieira
"A mitologia da resistência é uma trapaça
ideológica a emprestar a homicidas compulsivos a dignidade de utopistas. Hoje,
os nossos ‘cubanófilos’ estão
empenhados é em assaltar os cofres. E é bom lembrar: os ladrões vulgares não
desistiram de solapar a democracia"
A semente do mensalão está na pistola com que
Che Guevara executou um guerrilheiro que roubara um pedaço de pão. O dossiê
dos aloprados foi planejado em Sierra Maestra. O aparelhamento do estado e a
farra dos cartões desfilaram com Fidel Castro em Havana, em 1959. Isso é
história de mentalidades, não de nexos pobremente causais. O assalto ao
Erário, à ordem legal e à administração do estado seria apenas a revolução
operada por outros meios. Os criminosos precisam dessa mitologia para
reivindicar seu exclusivismo moral. É coerente que propagandistas do PT como o
arquiteto Oscar Niemeyer, o cantor Chico Buarque e Frei Betto sejam também
embaixadores (i)morais da ditadura cubana.
Fidel, vê-se, é uma figura marcante na história
do Brasil. A justificativa nada improcedente do golpe militar de 1964 foi
impedir a "cubanização" do país. Figuras que transitam neste governo têm sua
folha corrida ou sua lenda pessoal ligadas à trajetória do "comandante". José
Dirceu, por exemplo, ganhou seu caráter e uma de suas caras treinando
guerrilha na Cuba revolucionária. Há quem jure que nunca deu um tiro. O
sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que estreou no anticomunismo,
aproximou-se do castrismo por razões, acredite!, pragmáticas. Derrotados de 64
forneceram ao dito então "novo sindicalismo" a vértebra política que ele não
tinha e lhe emprestaram aquela mitologia da "resistência". Na versão mítica,
os derrotados do comunismo que voltaram do exílio tentariam construir o
socialismo recorrendo aos instrumentos que a própria "burguesia" lhes
forneceria. Padres de passeata aspergiram na mistura um pouco da pervertida
água benta anticapitalista, e pronto! Estava criado o PT. Para quê?
As esquerdas, diz um amigo, não têm uma
teologia, só uma demonologia. Ainda não definiram as virtudes pelas quais
lutam, mas têm claros os valores contra os quais conspiram, e o mais
importante de seus alvos é a liberdade. O alemão Karl Marx (1818-1883), pai
intelectual dos comunistas, tinha certa atração pelo demônio – o próprio filho
o chamava de "diabo"; devia ter lá seus motivos. Em Marx e acólitos, o novo
homem se faz da destruição do patrimônio cultural que herdamos, não de uma
nova resposta às demandas geradas por essa herança. Por isso o marxismo tentou
apagar no "cérebro dos vivos" o "pesadelo das gerações mortas". Eliminar a
memória é condição essencial do totalitarismo. As revoluções e golpes
comunistas sempre foram exímios na destruição de sistemas, mas incapazes de
criar alternativas: caracterizam-se por longos processos de depuração,
expurgos, retratações e purgações inquisitoriais. Como diria o cubanófilo
Chico Buarque, inventaram o pecado, mas não o perdão.
Fidel e Dirceu: quem disse que a história os julgará?
Num ambiente em que se articulam "teologia",
"demonologia" e "esquerdas", uma voz autorizada é a de Frei Betto, o mais pio
dos nossos "cubanos", eventualmente ímpio, já que é um religioso. O homem é de
uma coragem moral admirável na amizade que mantém com Fidel. Em seu convicto
repúdio ao inferno capitalista, jamais se deixou impressionar por execuções
sumárias. Como diria Padre Vieira (1608-1697), a coragem moral é de Betto, mas
o risco é dos outros. Ele já tem seu veredicto: "Não há nenhum sintoma em Cuba
de que o país possa retornar ao capitalismo". Betto esconjura o demônio.
Trata-se da reza macabra habitual: justificar ou ignorar crimes, sejam
fuzilamentos ou mensalões, em nome de amanhãs sorridentes. É o que tem feito
outro renitente apologista do comunismo, Oscar Niemeyer, com o peso dos seus
100 anos – a União Soviética não resistiu mais do que 74... Na carta de
renúncia, Fidel citou o arquiteto, afirmando que é preciso "ser conseqüente
até o final". Até o fim de quem?
Ocorrem-me, diante de Niemeyer, as palavras do
poeta português Antero de Quental (1842-1891) ao responder a um adversário
intelectual: "Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de
mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas
que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda
estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa
criança. V. Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais
cinqüenta de reflexão".
E há Chico Buarque, o terror da propriedade e
dos casamentos privados do Leblon. Sim, a nossa Palas Athena da MPB tem até um
retrato no Museu da Revolução de Cuba, tal é a admiração que lhe devota o
"comandante". O povo prefere Nelson Ned e a novela Escrava Isaura. Entendo:
deve identificar o dono da ilha com Leôncio, o bandidão senhor de escravos.
"Chico", essa entidade acima da moral e, quiçá, dos bons costumes, faz lirismo
voluntário com o sangue involuntário das vítimas de Fidel. Um talentoso idiota
moral.
Boa parte da imprensa não fugiu a esse clima de
leniência (ou "leninência": não resisti ao trocadilho, perdoe-me) com o
"comandante". Sua renúncia assanhou as células do ódio à democracia e à
economia de mercado. Sob o pretexto da isenção, atribuíram ao facínora uma
herança "ambígua". Num rasgo de covardia intelectual, decretou-se: "Só a
história poderá julgá-lo".
Fidel mandou matar em julgamentos sumários 9 479
pessoas. Estima-se que os mortos do regime cheguem a 17 000. Dois milhões de
pessoas fugiram do país – 15% dos 13 milhões de cubanos. Isso corresponderia a
27 milhões de brasileiros no exílio. Ele matou 130,76 indiví-duos por 100 000
habitantes; Pinochet, o facínora chileno, "apenas" 24; a ditadura brasileira,
"só" 0,3. O comandante é 435,86 vezes mais assassino do que os generais
brasileiros, que encheram de metáforas humanistas a conta bancária de Chico
Buarque. A história dirá quem foi Fidel? Já disse! Permaneceu 49 anos no
poder; no período, passaram pela Casa Branca, lá no "Império" detestado por
Niemeyer, dez presidentes!
Cadê a ambigüidade? A mitologia da resistência é
uma trapaça ideológica a emprestar a homicidas compulsivos a dignidade de
utopistas. Hoje, os nossos "cubanófilos" estão empenhados é em assaltar os
cofres. O problema não está nas duas caras que eles têm, mas na moral que eles
não têm. E é bom lembrar: os ladrões vulgares não desistiram de solapar a
democracia.
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