Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Abril 2008
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27/04/08
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Kiraz-Japão
----- Original Message -----
From: M
Sent: Sunday, April 27, 2008 7:27 PM
Subject: Kiraz-Japão
(Esta mensagem encaminhou um anexo com belíssimas fotos do Japão)
Anos e anos de judô, karatê e uma breve passagem por aikidô.
Casamento com uma nissei, amizade com isseis e nisseis, literatura.
Experiências que me abriram olhos maravilhados para uma das mais antigas
culturas do planeta. De sua imensa e profunda riqueza, com tristeza, só
tenho nuances - e não obstante, já suficientes para manter-me em franca
admiração.
O culto à beleza em todas as coisas; a gratidão pelos dons da Vida; a
consciência de transitoriedade de um eu na longa ascensão da alma; o
espírito como foco de atenção e trabalho entre rotinas dos dia-a-dia; a
capacidade de alicerçar a vida em princípios éticos e a imensa coragem de
vivê-los até suas últimas conseqüências; a incansável busca pela excelência,
dando a cada instante o melhor de si... são florações superiores da espécie
humana que este povo notável valorizou e fez crescer em sua cultura.
Neste PPS enviado por Kurt Pessek uma série de fotos da florada da
cerejeira, que no Japão conta com mais de 200 espécies.
Florescem durante uma só semana a cada ano, no começo da primavera, entre
março e abril. São motivo para as festividades de hanami, o ver as flores,
quando famílias e amigos sentam-se sob as árvores para curtir a festa da
beleza, ainda mais valorizada por sua fugacidade: a Vida é agora, o passado
já não é, o futuro inexiste - este instante resume a inteira e maravilhosa
experiência de ser; que, fugaz embora, seja infinito no imenso milagre de
viver.
Meu ex-sogro contava-me sobre outro costume, ainda vivido por ele em seu
tempo de jovem - a jornada das flores.
Pessoas, muitas, nos últimos dias do inverno faziam por estar presentes em
Kagoshima, a mais meridional cidade na mais meridional das ilhas, Kyushu,
onde - antes do resto do país - primeiramente floresciam as cerejeiras.
Expectantes, assistiam a lenta liberação dos botões nos galhos despidos,
aprisionados por meses em invólucros de gelo, até acordarem numa manhã
cálida para exuberância da florada em festa.
Uma onda floral vagarosamente principiava a rolar pela terra, movida pelas
brisas mornas sopradas do sul em direção às ilhas setentrionais; era então
acompanhada por muitos grupos de pessoas palmilhando alegremente os caminhos
da primavera, extasiados pela beleza das flores, algumas - ele afirmava -
caminhando até o extremo norte de Hokkaido para, do alto dos penedos sobre o
estreito de La Perouse, dar adeus à Primavera que se apressava para colorir
as terras russas.
" -- Vê?" me sorria o velho samurai, "bem antes dos californianos, antes até
dos havaianos, eu já era surfista... deslizei em ondas de pura Beleza; forte
então, nas cristas da primavera da vida, surfei feliz e inteiro, as
Primaveras das Flores..."
E ria. De de si, da imensidão da saudade que lhe explodia no peito, de seus
muitos anos, de sua bela, generosa, alma de poeta.
Bom proveito.
M.