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(Márcio Del Cístia)

Abril 2008               Índice Geral


18/04/08

Lições da crise colombiana

----- Original Message -----
From: M
Sent: Friday, April 18, 2008 8:27 AM
Subject: Lições da crise colombiana

"-- Elefante é como uma cobra."
-- Não cobra, mas é vê uma árvore." contesta o segundo cego, que em vez do rabo tateia a perna do animal.
-- "Besteira", diz o terceiro apalpando a barriga - "elefante parece um barril".


De Paola, com a usual acuidade analítica, novamente nos alerta que nosso 'bicho' é bem maior, mais complexo e muito mais ameaçador do que nossa grande mídia nos deixa perceber.
Como Graça Salgueiro e outros articulistas do MSM, insiste em que se não atentarmos para o quadro maior, não entenderemos a dimensão do desastre sócio-político que se constela em nossa casa. E se não alcançamos sequer delinear o problema em seu todo, quais as chances de encontrar vias de solução?
Leia: o texto é precioso - vale bem seu tempo.
M.


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Lições da crise colombiana
por Heitor De Paola em 18 de abril de 2008

Resumo: Para entender a situação que envolve os países andinos não podemos ficar presos a conceitos de guerra tradicional, mas assimilar as lições do século XX. A crise que, em termos militares, mal começou e certamente terá desdobramentos, nada tem a ver com a idéia tradicional de guerra entre nações.

© 2008 MidiaSemMascara.org

“Um bombardeiro stealth (baixa assinatura de radar) custa US$500 milhões aos USA. O bombardeiro stealth terrorista é um carro como qualquer outro com uma bomba no porta-malas;
(e) a droga é o míssil balístico intercontinental do homem pobre”
William S Lind - Free Congress Foundation

Para entender a situação que envolve os países andinos não podemos ficar presos a conceitos de guerra tradicional, mas assimilar as lições do século XX. A crise que, em termos militares, mal começou e certamente terá desdobramentos, nada tem a ver com a idéia tradicional de guerra entre nações. Que Lula, Correa, Chávez et caterva se prendam a estas análises é compreensível; finalmente, são aliados na luta maior. Mas que profissionais de imprensa e comentaristas não tenham estudado as técnicas de terror e guerrilha, depois de anos de terrorismo palestino, checheno, irlandês, sandinistas e das próprias FARC, é imperdoável. Ou má-fé! Depois da entrega de mão beijada do tráfico de drogas com exclusividade às FARC (Plano Colombia, de Bill Clinton), é preciso lançar mão principalmente de três conceitos modernos, todos entrelaçados: a guerra assimétrica, a quarta geração da guerra e a netwar.

A comparação que eu fiz nos artigos anteriores (O cerco à Colômbia I e II) entre Colômbia e Israel foi homologada por ninguém menos que Hugo Chávez, cada vez mais considerado o verdadeiro manda-chuva das FARC [1]. Chávez declarou, entre outras afirmações anti-semitas que a “Colômbia é a Israel do Continente Sul Americano” [2], o que está bem de acordo com sua ligação visceral com Mahmoud Ahmadinejad. Num dos artigos mencionei que Uribe deveria ir a Israel para aprender como um país convive há anos com “grupos insurgentes” e sem limites de fronteira. Pois é de lá que devemos extrair conhecimentos para entender melhor os acontecimentos na Colômbia e países limítrofes.

Num extenso estudo intitulado “Winning Counterinsurgency War: The Israeli Experience” [3] o General (Res) Yaacov Amidror analisa as diversas experiências de Israel com grupos insurgentes, guerrilhas e terroristas (Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica, etc.). Amir Isserof, comentando este estudo (em “Winning Guerrilla Asymmetric Wars” [4] refere que o U.S. Army/Marine Corps Counterinsurgency Field Manual define “insurgência” como “um movimento organizado com o objetivo de derrubar um governo constitucional através do uso da subversão e do conflito armado. É uma luta político-militar destinada a enfraquecer o controle e a legitimidade do governo estabelecido, assumir o poder gradativamente e incrementar o estado de insurgência”. Isseroff usa insurgência como um termo geral para várias formas de guerra assimétrica que incluem a guerrilha e o terrorismo. Para os propósitos do presente artigo, guerra assimétrica é aquela entre um Estado estabelecido e grupos guerrilheiros que, supostamente, possuem recursos mais limitados. A assimetria de critérios de avaliação das operações que são aplicados aos países democráticos, por um lado, e aos países despóticos e os movimentos guerrilheiros como Hamas, Hezbollah, FARC, xiitas iraquianos, etc., por outro, é o que realmente importa na moderna guerra assimétrica.

Os insurgentes podem se mover livremente em nossa sociedade e ao mesmo tempo trabalhar para subvertê-la e destruí-la por dentro. Usam o direito democrático não somente para penetrar, mas também para se proteger. Se forem tratados de acordo com as leis vigentes, ganham muitos adeptos; se simplesmente atirarmos para matá-los, a mídia pode facilmente fazer com que eles pareçam vítimas. Os terroristas podem efetivamente travar sua forma de guerra enquanto se encontram protegidos pela sociedade que procuram destruir. Se a sociedade democrática atacada utilizar os chamados “métodos desproporcionais” que realmente causam danos seriíssimos aos insurgentes, a opinião pública se voltará contra o próprio governo que tenta protegê-la (ver o Movimento Paz Agora, e outros movimentos pacifistas em Israel). Já os países despóticos como a Rússia e a China podem esmagar brutalmente as dissidências Chechena e Tibetana sem que ninguém proteste internamente – e fazendo ouvidos de mercador aos protestos internacionais, todos, aliás, orquestrados para dar em nada mesmo. Países pequenos, como Israel e Colômbia ou aqueles onde falta vontade política, como o Brasil, ficam com as mãos amarradas. No Brasil o MST é o braço armado do partido que está no poder e considerado um “movimento social” e, portanto, a vontade política de exterminá-lo é nula. Todos os esforços militares e policiais são desautorizados. E é a vontade política o primeiro fator na luta anti-insurgências de quaisquer espécies como veremos a seguir.

O Gen. Amidror lista quatro formas de insurgência que podem ou não estar combinadas (entre parênteses e em itálico, seguem minhas observações a respeito da Colômbia e territórios vizinhos):

- A variante anarquista que opera contra um regime existente (operações das FARC dentro do território colombiano; do MST dentro do Brasil);

- A variante transnacional ou de além fronteiras [cross-border terror]. Note-se que se admite que somente as forças guerrilheiras atravessem as fronteiras; os Exércitos nacionais têm que se limitar ao territorial nacional (acampamentos das FARC no Equador, Venezuela e Brasil);

- Terror internacional da variante al-Qaeda (apoio às FARC de grupos terroristas palestinos e de outros países através do Foro de São Paulo) – neste ponto entra o conceito de netwar a ser visto adiante;

- Terror operado por organizações que alegam estar combatendo um invasor, como o terror palestino na Cisjordânia e Gaza (imposição das FARC de uma zona desmilitarizada sob seu estrito controle para a troca “humanitária” de reféns onde o Exército colombiano seja considerado invasor; reservas indígenas e quilombolas no Brasil onde nem Exército, nem Polícia nem Justiça podem entrar).

Lista ainda seis condições para que esta luta seja travada com perspectives de algum sucesso:

- Decisão política de derrotar a insurgência aceitando o custo político inevitável da ofensiva (decisão cada vez mais adotada por Uribe);

- Controle do território de onde a força insurgente opera (negativa de aceitar zona desmilitarizada e ataque ao acampamento no Equador);

- Capacidade de inteligência de primeira ordem e

- Cooperação multidimensional entre os setores de inteligência e de operações (sem dúvida, a localização e o ataque precisos ao acampamento demonstram excelente uso da inteligência e de coordenação com o setor operacional);

- Isolamento do território onde estão sendo tomadas as operações contra-insurgentes;

- Separação da parte da sociedade civil que não tem conexão com as ações das forças insurgentes (limpeza de área que tem sido feita em alguns pontos da Colômbia).

A guerra assimétrica é um aspecto da quarta geração da guerra estudada a fundo por um grupo de militares americanos coordenados por William Lind (Ver A face mutável da guerra: rumo à quarta geração e Compreendendo a Guerra da Quarta Geração). Uma das características principais é que o campo de batalha é bastante disperso e inclui a totalidade da sociedade inimiga. O terrorista vive quase que totalmente na pátria do inimigo. O terrorismo é basicamente uma questão de manobra: seu poder de fogo é pequeno, e onde e quando ele vai utilizá-lo é crucial. O terrorismo tenta ultrapassar inteiramente o exército adversário visando diretamente sua pátria e alvos civis. Como um ideal, o exército inimigo passa a ser irrelevante (ver epígrafe).

Ações psicológicas são as principais armas operacionais e estratégicas e se mostrarão no modo como a mídia intervém na guerra. Os insurgentes, na guerra de quarta geração, se concentram em manipular a mídia local e mundial até o ponto em que o uso habilidoso de ações psicológicas irá aniquilar a integridade das forças inimigas. O alvo principal é o de minar o apoio da população – e da imprensa internacional - ao seu governo e à guerra. As notícias televisivas tornar-se-ão armas mais poderosas do que divisões armadas. É de ressaltar o uso intenso da situação de Ingrid Betancourt com a participação incansável do presidente francês Sarkosy, de cujo liberalismo nunca alimentei ilusões.

O reconhecimento das FARC como força beligerante por parte de Chávez e a negativa brasileira de reconhecê-las como organização terrorista, abre a possibilidade para os demais países do mundo as excluírem da lista de terroristas. Isto se torna cada vez mais fundamental na medida em que as decisivas ações do governo colombiano já reduziram os efetivos da guerrilha de 30 mil para 8 mil, incluídos os do ELN (Ejército de Liberación Nacional)! Antes, existiam municípios nos quais os prefeitos não podiam exercer seus mandatos; hoje não resta nenhum. As estradas estão livres das retenções e acabaram as famosas “zonas de exceção” criadas durante o governo Pastrana. O governo está ganhando a guerra e a guerrilha e seus aliados estão desesperados. (cf. entrevista com o General Jorge Ballesteros Rodriguez, da Fuerza Aérea Colombiana à Revista Força Aérea, ano 13, nº. 51, Abr/Mai 2008, Combatendo em várias Frentes). Em reportagem anexa, sob o título de Bocas de Tubarão sobre a Selva, descreve-se a participação dos A-29 Super-Tucanos da Embraer na operação contra os acampamentos de Tomás Medina Caracas, o “Negro Acácio”, e “Raul Reyes”.

Recentemente o presidente Álvaro Uribe reafirmou que não criará uma zona desmilitarizada para negociar a troca de reféns da guerrilha por terroristas presos, como exigem as FARC, declarando que “uma retirada militar pode ser um golpe do terrorismo contra a segurança democrática, pode ser o oxigênio que esta cobra precisa para reviver”. Esta declaração foi formulada um dia após o chamado “chanceler” das FARC, terrorista Rodrigo Granda, afirmar que a troca “humanitária” ocorrerá apenas se houver a criação de uma zona desmilitarizada no sudoeste da Colômbia e a libertação prévia de terroristas. Segundo Uribe, as FARC sempre criam obstáculos para a troca humanitária: “Sempre que propõem uma condição essencial, é algo para não negociar. As FARC querem a zona desmilitarizada porque sabem que o governo não pode aceitar”. Uribe já entendeu o verdadeiro significado de tréguas com terroristas. Se estudou a história dos países Árabes ou não, não sei, mas captou o conceito muçulmano de hudna (Ver Suprema dissimulação): acenar falsamente com uma trégua que não serve para o fim expresso – preparar a paz – mas para o fim secreto de descansar, reforçar e ampliar suas forças quando a situação é desesperadora e a derrota está próxima. As propostas de paz não passam de “veneno com cobertura de mel” e também servem à guerra assimétrica porque a onipresente “comunidade internacional” (no caso da Colômbia representada principalmente por Jimmy Carter e Nicolas Sarkosy) força o Estado nacional atacado a aceitar discuti-las.

Este talvez seja o grande erro de Uribe: confiar as negociações com o Equador ao Carter Center (Comunicado do Governo da Colômbia, de 13 de abril de 2008, ver em português em www.faroldademocracia.org ). Este Comunicado é um documento forte, no qual o governo de Álvaro Uribe faz valer a sua legitimidade no combate aos grupos terroristas e guerrilheiros. Não obstante, peca pela admissão de que existem na América Latina, “insurgências idealistas contra uma ditadura” – sem especificar Cuba – e que na Colômbia há “o desafio de um terrorismo narcotraficante contra uma democracia plural e abonadora” – sem especificar o caráter revolucionário comunista.

Quanto a Carter, além de ter homologado os resultados fraudulentos do Referendo Revocatório na Venezuela, é amigo de terroristas de todas as regiões do planeta, como ficou demonstrado no último dia 15 quando se encontrou com Nasser Shaer, um dos líderes do Hamas, em Ramallah, na Cisjordânia, com direito a beijinhos no rosto. Na ocasião afirmou que “é preciso parar de isolar o grupo militante nas negociações de paz da região” [5]. Certamente aplicará o mesmo critério às FARC.

No espaço de um artigo é impossível ser mais profundo, mas pretendo dissecar melhor os estudos referidos. Além disto, deixarei para um próximo artigo discutir o que significa netwar e como ela se desenvolve no campo em estudo. Basta, por enquanto, dizer que netwar se refere a uma forma emergente de conflito e crime que envolve formas de organização em rede e tecnologias atualizadas à era da informação. Os protagonistas se espalham em pequenos grupos dispersos que se comunicam, coordenam e conduzem suas campanhas usando abundantemente a internet, sem que exista um comando central. O surgimento das redes multi-organizacionais significa que o poder migrou dos Estados nacionais hierárquicos para protagonistas não estatais.

O conceito foi desenvolvido por John Arquilla e David Ronfeldt [6] e engloba diversos atores como terroristas transnacionais (nosso caso), redes de criminosos e radicais ativistas. Cada vez mais os três tipos de atores de unem em módulos interconectados de forma tal, que a tradicional máfia italiana teve que modificar sua organização hierárquica tradicional para operar o narcotráfico em comunicação em rede com os terroristas do Oriente Médio, as FARC e centros de distribuição nos EUA e na Europa. Interesses diversos se mesclam numa operação conjunta. O conceito já foi empregado com sucesso na avaliação da guerrilha zapatista [7].

1. http://www.fuerzasolidaria.org/WebFS/Noticias/DiceQueChavezEsElJefeDeLas%20FARC.html 
2. http://www.adnmundo.com/contenidos/politica/chavez_israel_colombia_nazismo_pi090408.html 
3. http://www.jcpa.org/text/Amidror-perspectives-2.pdf 
4. http://www.zionism-israel.com/log/archives/00000529.html 
5. http://www.estadao.com.br/internacional/not_int157068,0.htm 
6. John Arquilla & David Ronfeldt, Networks and Netwars: The Future of Terror, Crime, and Militancy www.rand.org/publications/MR/MR1382; David Ronfeltd & John Arquila, Networks, Netwars and the Fight for the Future, http://www.firstmonday.org/ISSUES/issue6_10/ronfeldt/#r4 
7. The Zapatista “Social Netwar” in Mexico, David Ronfeldt, John Arquilla, Graham Fuller & Melissa Fuller, Rand Corporation, Monograph/Reports, http://www.rand.org/pubs/monograph_reports/MR994/ 


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