Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Outubro 2007
Índice Geral
26/10/07
• "Militares atentos" por Denis Rosenfeld
----- Original Message -----
From: M
To: Helio
Sent: Friday, October 26, 2007 7:56 PM
Subject: "Militares atentos" por Denis Rosenfeld
Hélio
Acho que vc vai gostar deste texto. Rosenfeld é um cara muito comedido. Com isto
em mente, leia no entre-linhas.
Abração do
M.
---------------------------------------
Militares atentos por Denis Rosenfeld
Professor de Filosofia da UFRS
Situação - Segundo certas avaliações, o ambiente militar é de muita preocupação
com a situação política brasileira. A corrupção demonstrada pelo atual governo,
as posições de radicalização do PT em seu último Congresso e as manifestações de
cunho socialista dos ditos movimentos sociais são as fontes desse estado de
espírito. Acrescente-se, ainda, um ambiente de degradação das instituições, onde
não se faz presente nenhum projeto nacional.
Sintonia. Conforme algumas informações, há, neste segundo mandato do governo
Lula, uma maior sintonia entre os militares da reserva e da ativa. No primeiro
mandato, havia muitas questões controversas, enquanto, que, agora, observa-se
uma maior comunhão de concepções. Parece valer novamente a máxima muito
conhecida de que os clubes militares são os "braços falantes" dos militares da
ativa, pois esses estão proibidos de se pronunciar publicamente.
Serra. Na primeira eleição de Lula, deve-se levar em consideração que a reação
dos militares a Serra era muito maior do que em relação ao atual presidente. O
candidato tucano despertou uma forte reação no meio militar. Não seria por
simpatia ao PT que os militares votaram em Lula, mas por terem uma forte
antipatia em relação ao candidato tucano. Comenta-se que, quando ministro,
usando os aviões da FAB, desrespeitava reiteradamente os militares, no caso, os
oficiais da Aeronáutica. Fala-se, inclusive, que jogava lixo no chão dos aviões
e dizia que era para os militares limparem. Na última eleição presidencial,
depois da experiência de um primeiro mandato petista, e com a ausência de Serra,
os votos teriam desaguado em Alckmin, visto como uma pessoa simpática aos
militares.
MST. Há uma nítida posição contrária às ações do MST. Elas são consideradas como
atos de uma agrupação política que age ao arrepio da lei e procura implantar no
país um regime socialista que seguiria os moldes cubanos. Seus movimentos, nesta
perspectiva, são considerados como atos criminosos , que deveriam ser tratados
enquanto tais, sem nenhuma complacência. Se o MST não fosse financiado pelo
atual governo e se a lei fosse a ele aplicada, a situação não teria chegado a
tal nível de desobediência e de desrespeito ao estado de direito. O PT e o
governo são considerados responsáveis da radicalização política em curso.
Quilombola. A questão quilombola começa a despertar muita preocupação, pois se
integra a um mesmo processo de desrespeito à propriedade privada, embora se faça
por meios legais. O que está acontecendo na ilha de Marambaia concerne a toda a
instituição militar, além de despertar fortes suspeitas de uma armação que se
inscreve na linha geral dos movimentos sociais. Ela não é percebida como uma
questão de justiça, mas como um problema político, que se inscreve num quadro
geral de instabilidade política e de relativização da propriedade privada. Não
escapa a ninguém que o conceito de quilombo perde o seu significado, sendo
objeto de uma "translação semântica" que obedece a orientações claramente
políticas. Não tem nenhum sentido que um quilombo possa ser encontrado no centro
do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, salvo se for um quilombo aquático, pois parte
da área reivindicada é feita de aterro.
Panorama político. Há uma preocupação crescente com este segundo mandato do
governo Lula. Os casos de corrupção são por demais evidentes, tirando qualquer
esperança de que um governo petista poderia ser ético. Os desvios de recursos
públicos e os problemas de gestão acentuam a percepção da incapacidade
administrativa do atual governo, com o PT acaparando-se dos cargos públicos . O
bolsa-família é visto como um instrumento político de cooptação eleitoral. Ora,
tal quadro só tem se acentuado com o enfraquecimento do Poder Legislativo , com
a Câmara imersa nas operações mensalão e sanguessuga entre outras e o Senado,
agora, absolvendo vergonhosamente ao Senador Calheiros, com o apoio resoluto do
Palácio do Planalto e do PT. As expectativas só têm piorado.
Falta de reação. Essa situação é, ainda mais, vista como problemática pela falta
de reação da sociedade. Os escândalos se multiplicam e nada acontece. O
problema, porém, reside em que as manifestações populares eram feitas pelo PT ,
pelos sindicatos e pelos movimentos sociais, agora totalmente atrelados ao
governo que os financia. Não espanta que não tenhamos manifestações, na medida
em que a sociedade foi , por assim dizer, calada . Os tentáculos do PT se
fizeram tanto no aparelhamento do Estado quando na sociedade . Contudo, a
sociedade brasileira está aumentando o seu grau de consciência e a sua
insatisfação, apesar de sua pouca organicidade.
Socialismo. O espectro do socialismo tem voltado com força e não por qualquer
tipo de paranóia política. Não se trata, como os petistas procuram fazer
acreditar, de que os tempos da guerra fria teriam voltado graças a vozes
oposicionistas e direitistas. Pelo contrário. É o próprio PT o responsável de
tal situação por ter estruturado o seu último Congresso em torno da idéia de
socialismo. Essa idéia retornou ao centro do debate graças ao próprio partido,
que teria pensado ser essa a ocasião política para radicalizar o segundo mandado
do presidente Lula. É bem verdade que o partido apresenta o seu socialismo como
democrático. Ora, trata-se de um mero jogo de palavras, pois, instado a se
pronunciar pelo tipo de socialismo, não hesita em dar como exemplos a serem
apoiados os governos ditatoriais de Fidel Castro e de Hugo Chávez . Para eles,
eis a verdadeira democracia.
Socialismo e democracia . Ademais, demonstrar o caráter democrático do
socialismo é como demonstrar a quadratura do círculo. Todas as sociedades que
foram objeto de uma transformação socialista se tornaram seja autoritárias, seja
totalitárias. Enquanto isto, as sociedades capitalistas desenvolvidas, todas,
são sociedades democráticas. Lá onde os princípios da propriedade privada foram
abalados, o autoritarismo se desenvolveu com força. Ora, o Brasil está sendo
objeto de um processo de relativização da propriedade privada que passa por suas
funções: social, racial, indígena e ambiental.
Serra da Raposa. Os militares são particularmente sensíveis, por formação, a
questões que envolvem a soberania nacional. O caso da reserva indígena, Serra da
Raposa, em Roraima, é particularmente ilustrativo. Entre áreas indígenas e
reservas ambientais, 60% do Estado fugiriam, por assim dizer, do controle do
Estado. Não é possível que uma unidade da Federação tenha tal limitação
territorial. Ademais, trata-se de uma região de fronteira, rica em minérios.
Novas delimitações de terras indígenas, que já envolvem mais de 100 milhões de
hectares , são vistas sob essa ótica de alienação da soberania.
Bonjour. Numa unidade militar, na fronteira com a Guiana francesa, um General
perguntou a um indígena que dissesse uma frase em sua língua nativa. O índio em
questão não hesitou: "Bonjour mon General!". Instado novamente a repetir uma
outra frase emendou: "Je mange du pain" (eu como pão). Logo, a sua língua era
francesa apresentando-se, enquanto índio, para servir no Exército brasileiro.
Tal exemplo mostra o grau de aculturação dessas populações, que são, porém,
apresentadas pela Funai como sendo culturalmente independentes da cultura
brasileira. Talvez não da francesa!
Socialismo e MST. Particular atenção deve ser dada, neste contexto, à natureza
propriamente socialista, autoritária, do MST. A reforma agrária, vista na
perspectiva dessa organização, seria nada mais do que o instrumento de uma
revolução , que se faria pela corrosão progressiva das instituições
democráticas, do estado de direito e da propriedade privada. Na verdade, o MST
não visa à justiça social, mas à criação de um Estado socialista que seguiria os
moldes do socialismo realmente existente, tal como existiu no século XX e existe
ainda em Cuba e, agora, sendo o objetivo de Hugo Chávez. A visão deste
auto-intitulado movimento social é a de uma organização política, com estrutura
hierárquica, de tipo paramilitar , cujo objetivo reside na implementação do
socialismo. Eis o seu projeto.
O projeto socialista. Com as recentes manifestações do PT em seu último
Congresso, com as invasões do MST e de "movimentos" congêneres, com as
declarações socializantes da CUT transparece um mesmo projeto socialista que
permeia esse partido e suas organizações afins. O governo Lula, em seu primeiro
mandato, não enveredou por esse caminho em sua política econômica, embora tenha
aparelhado partidariamente o Estado e apoiado e financiado os movimentos sociais
. Agora, há indicações de uma radicalização em curso . O projeto socialista
enquanto tal está para os movimentos sociais entrando na ordem do dia, mas
pode-se dizer também que a sociedade brasileira em geral não parece sensível a
tal tipo de projeto . No entanto, haveria aqui um limite claro: um projeto deste
tipo não passará no país. Tudo parece indicar que os militares não aceitariam
uma chavização do governo Lula.
Comprometimento democrático. Os militares têm hoje um firme comprometimento com
a democracia. Isto significa um respeito pelas instituições republicanas, sem as
quais nenhuma sociedade democrática pode existir. Eleições, por si só, não
definem uma democracia. Para isto, é necessária uma série de outras condições,
como a liberdade irrestrita de imprensa, de pensamento e de participação
política. Os Poderes republicanos, como um Poder Legislativo forte e um
Judiciário independente, são condições mesmas da democracia. Ou seja, a
Venezuela, por exemplo, se afasta, sob esta ótica, a passos largos da
democracia. Lá, meios democráticos são utilizados para a abolição mesma da
democracia. Um eventual terceiro mandato de Lula poderia ser visto como um
rompimento com a democracia, uma ilegalidade, apesar de poder ser apresentado
como legal.
DENIS ROSENFELD