Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Março 2007
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25/03/07
•
As complexidades da política norte-americana
---- Original Message -----
From: M
Sent: Sunday, March 25, 2007 11:12 AM
Subject: As complexidades da política norte-americana
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5629&language=pt
"DICA DE LEITURA
Se você ler tudo que o que os correspondentes brasileiros nos EUA
escreveram para seus jornais nos últimos 20 anos, não aprenderá tanto
sobre política americana quanto pode aprender lendo o artigo de Heitor De
Paola "As complexidades da política norte-americana"...
Se eu tivesse fundado o MSM só para publicar este único artigo, a
existência deste modesto jornal eletrônico já estaria plenamente
justificada."
Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 26 de março de 2007.
Se vc sabe que os padrões de Olavo são - mais ou menos -
estratosféricos... vai poder estimar o valor informativo destes textos do
Dr. De Paola.
É material para arquivo e consulta.
Bom proveito e o
abraço do
M.
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As complexidades da política
norte-americana
9 março 2007
Editorias - Cultura, Estados Unidos
por Heitor De Paola
Os analistas políticos da mídia brasileira apresentam os EUA como um bloco
homogêneo, no máximo enfatizando a presença de uma "direita fundamentalista"
que possui na figura do presidente George W. Bush seu ícone maior. Esse
conceito é falso e a realidade é bem mais complexa.
“I don\'t envy those in Washington whose duty it is to resolve the dilemma
between idealism and realpolitik. But they will not go far wrong if they
respect the great tripod on which all geopolitical wisdom rests: the rule of
law, the consultation of the people and the certitude that, however strong
we may be, we are answerable to a higher power”.
PAUL JOHNSON
Os analistas políticos da mídia brasileira sempre apresentam os Estados
Unidos da América como um bloco homogêneo. A grande maioria o faz por total
e absoluta ignorância da extrema complexidade da política interna e seus
reflexos na externa, e uma pequena minoria – geralmente nos postos de
comando e que selecionam os anteriores – o faz de pura má-fé. O máximo
admissível é a grosseira divisão entre liberais e conservadores, sempre com
a intenção de satanizar os últimos como religiosos fanáticos e genocidas,
principalmente o Presidente Bush que é apresentado como líder inconteste
destes. À denominação “guerra de Bush” dada pelo Globo à guerra do Iraque,
segue-se agora “a guerra de Bush no Brasil” quando ele insiste na
necessidade de investigar a lavagem de dinheiro para grupos terroristas e o
contrabando de armas e drogas na Tríplice Fronteira, como se fossem decisões
pessoais e não necessidades geopolíticas.
A nomenclatura utilizada sem nenhum esclarecimento comparativo com tais
conceitos no Brasil já é, ou fruto de uma burrice fenomenal ou do propósito
implícito de confundir os leitores e telespectadores – no último caso a
situação ainda é pior, já que as notícias devem ser apresentadas em
velocidade meteórica e fica mais fácil confundir. Mormente, porque a maioria
dos telespectadores só assiste aos noticiários como intervalo entre duas
novelas, ansiando pela próxima e/ou pelo famigerado BBB. Por isto, cada vez
que um de nós do Mídia Sem Máscara refere-se a estes termos tem que
esclarecer os leitores sobre seu real significado. De minha parte esta será
a última vez.
Um liberal nos EUA é um ardente inimigo do liberalismo econômico, defensor
intransigente do welfare state e do big government, e um liberal extremado
em questões morais, religiosas e de costumes, defensor da liberação das
drogas e do aborto em qualquer momento da gravidez, da eutanásia, dos
movimentos feministas e gays, das cotas raciais e outros assuntos do gênero.
Em matéria religiosa são tão “liberais” que atacam o cristianismo como
ofensivo às demais crenças. De maneira geral se agrupam no Partido Democrata
e em inexpressivos partidos libertários, mais radicais ainda, baseados numa
confusa interpretação da Constituição Americana e da aplicação aos
princípios morais dos escritos de Adam Smith, Mises e Hayek e das concepções
pseudo-filosóficas de Ayn Rand.
Um conservador é um defensor do liberalismo econômico, contrário ao welfare
state e ao big government, conservador no sentido moral e de costumes,
religioso, e defensor do direito de todos – inclusive dos fetos - à vida. O
que desejam conservar é a tradição fundamentada na Constituição Americana, o
Bill of Rights e demais American State Papers, os fundamentos religiosos
legados pelos Founding Fathers, junto com a não-intervenção governamental em
matéria religiosa. “O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a
aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos
recursos formidáveis criados pela economia de mercado”. De maneira geral, se
agrupam no Partido Republicano.
Mas a verdade é que por trás desta distinção esquemática há uma complexa
trama de opiniões, principalmente entre os conservadores, e esta constitui
sua maior força mas também os expõe aos ataques dos liberais que, por serem
de esquerda de vários matizes, são muito mais homogêneos e seguem as normas
do “centralismo democrático” leninista.
Quando do ataque de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center houve uma
imensa união de todos os americanos em torno do Presidente Bush e sua guerra
contra o terrorismo, até Hillary Clinton e John Kerry votaram a favor. União
sim, mas com propósitos divergentes: enquanto os conservadores o fizeram de
forma espontânea e sincera, os liberais perceberam a necessidade de,
naqueles momentos cruciais, se mostrarem patriotas, já antevendo o momento
de dar o bote quando começassem as mortes de soldados americanos e falhasse
o messianismo que impulsionou Bush a mudar em pouco tempo tradições
seculares de autoritarismo civil e religioso. Aí, mostraram suas garras,
principalmente coordenados pela esquerda do Partido Democrata.
Desde a década de sessenta do século passado, com a campanha contra a Guerra
do Vietnã, este partido, a que pertencera Reagan, vem sendo cada vez mais
dominado pela esquerda do blame America first (culpe primeiro a América),
isto é, aconteça o que acontecer busque primeiro a responsabilidade
americana. Para ler minha avaliação deste período ir para http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=1687.
Durante a II Guerra Mundial os americanos permaneceram unidos apoiando
Roosevelt e depois Truman e por isto os USA puderam vencer em toda a linha
destruindo o nazismo e o imperialismo japonês, e completando o serviço com a
re-estruturação dos dois países em moldes democráticos. Com a divisão atual
isto é impossível. Inclusive porque a referida esquerda, através de ricas e
poderosas ONG’s e da ONU comanda todos os movimentos anti-americanos no
mundo, como se pode comprovar pela seguinte afirmação de João Antonio
Felício, Secretario de Relações Internacionais da CUT, a propósito da visita
de Bush ao Brasil: propôs declará-lo o “terrorista número um do planeta”,
“persona non grata” e conclamou todos os brasileiros a se manifestarem
contra sua presença. “Estaremos livres desta ameaça quando o povo
norte-americano possa construir um governo de esquerda e abrir um novo
período em sua história”. (Ver em: urn top.js.OpenExtLink(window,event,this)"
href="http://www.aquilanoticia.com/nota.asp?IDNoticia=8005" target=_blank>http://www.aquilanoticia.com/nota.asp?IDNoticia=8005).
Da mesma forma o virulento Cândido Mendes, depois de um violento discurso
anti-Bush na Reunião da Academia da Latinidade no Cairo em 2004, despediu-se
com um “até a nossa vitória em novembro!” E assim é pelo mundo todo.
* * *
Meu intuito nesta série de artigos é mostrar apenas algumas divergências no
seio dos conservadores norte-americanos para demonstrar que não constituem
um bando uniforme e homogêneo de fanáticos religiosos cujo principal
objetivo é dominar o mundo. Longe disto, os conservadores são os mais
isolacionistas e se apoiaram a guerra do Iraque e o desmantelamento da
tirania de Saddam Hussein, divergem enormemente quanto à permanência das
tropas lá e a tentativa do Presidente Bush em transformar o Iraque numa
democracia à custa do contribuinte norte-americano – e das vidas de seus
filhos. Sentem-se inclusive traídos por ele na política de imigração e nos
planos da North American Union (motivo de um dos próximos artigos). Alguns
exemplos bastarão.
CONTROVÉRSIAS NO CONSERVATIVE BOOK CLUB
O CBC (http://www.dineshdsouza.com, além de boas informações pessoais e
sobre seus livros (LETTERS TO A YOUNG CONSERVATIVE, WHAT’S SO GREAT ABOUT
AMERICA, THE VIRTUE OF PROSPERITY, RONALD REAGAN: How an Ordinary Man Became
an Extraordinary Leader, THE END OF RACISM: Principles for a Multiracial
Society e ILLIBERAL EDUCATION: The Politics of Race and Sex on Campus)
pode-se assistir à sua entrevista no O’Reilly Factor (16/02) e uma extensa
entrevista, de quase 3 horas de 4 de fevereiro no programa BookTV do
C-SPAN2.
Como sou membro do CBC, recebo regularmente o Boletim impresso além da
newsletter. No último Boletim a Editora, Elizabeth Kantor, autora do livro
The Politically Incorrect Guide to English and American Literature (para ver
mais livros e opiniões vá a “A ‘civilização laica’ não é uma promessa de
vida: ela é a agonia de uma humanidade declinante que, um minuto antes da
morte, terminará pedindo socorro ao Islam”. Esta civilização laica já é
abertamente chamada de pós-Cri
stã e pós-modernista. O que só confirma a desconfiança dos muçulmanos de que
a América era Cristã mas tornou-se totalmente secular, abandonando todo
resquício de moralidade que sempre mereceu o respeito do Islam.
D’Souza argumenta que existe uma ligação direta entre a difusão da cultura
pop americana decadente, as idéias liberais de esquerda e os valores
seculares, e o aumento exponencial do anti-americanismo no mundo,
principalmente no mundo islâmico. Defende que não há separação entre a
guerra ao terror e a guerra cultural; são uma só. O anti-americanismo
islâmico está baseado na revolta contra o que os muçulmanos percebem como o
ateísmo e a depravação moral da cultura popular americana. Para D’Souza os
conservadores devem parar de atacar o Islam, o Corão e o Profeta Maomé como
as fontes que nutrem o terrorismo e a jihad, que só leva os muçulmanos
tradicionais para os braços dos radicais. Demonstra que nos países de
maioria islâmica fora do Oriente Médio, como os de maior população islâmica
Indonésia, Bangladesh e Índia, não existe enraizado este anti-americanismo
mas que ele vem crescendo por influência dos radicais islâmicos em função
dos fatores que estamos estudando aqui. Até mesmo os mais radicais
muçulmanos como bin Laden não estão combatendo o cristianismo mas o
paganismo e o ateísmo, as forças contra as quais o Corão realmente prega a
jihad, pois estes são considerados os infiéis. Esta também foi a revolução
do Ayatollah Khomeiny e segue sendo a de Khamenei e Ahmadinejad.
D’Souza sugere que os conservadores devem voltar suas armas contra os
liberais e mostrar para os muçulmanos tradicionais que existe uma outra
América, respeitadora dos mesmos valores que os deles, que existem os Red
States (aqueles administrados por Republicanos), onde o cristianismo e a
moral tradicional estão vivos na América.
Elizabeth Kantor finaliza perguntando aos membros do CBC: Mesmo que
reconheçamos que D’Souza passa muito por alto pela tendência à violência
inerente ao Islam (a tese predominante entre os conservadores que eu mesmo
tenho usado em meus artigos sobre o tema) pergunto: é possível apontar a
decadência americana como inspiração para o ódio jihadista ou até mesmo que
seja uma causa suficiente do ódio e dos atos malignos que dele derivam – sem
que cheguemos a justificar os assassinatos em massa de 9/11 e outros
atentados terroristas? Eu acho que sim, mas vamos ver o que vocês pensam.
Fica a pergunta para os leitores de Mídia Sem Máscara também.
Autor: Heitor De Paola