Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Março 2007
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02/03/07
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Cansei!
por João Nemo
---- Original Message -----
From: M
To: undisclosed-recipients
Sent: Friday, March 02, 2007 2:11 PM
Subject: Cansei!
Amigo/a,
conheço pessoalmente João Nemo, a calma e gentileza em-carne-e-ossos.
Nunca ouvi de sua boca - ou li em seus textos -uma única palavra áspera,
menos cortez. Generoso, delicado e paciente, 'encaixa' com vasta
tolerância cristã as falhas alheias. Desde indivíduos até partidos
políticos.
Diz-me às vezes, quando o sangue calabrês me explode em adjetivação ferina
( mas bem merecida ): Vc pega muito pesado. Dê tempo ao sujeito que a
ficha lhe cai.
Meu impulso é sacudi-lo. Faço nada, claro. Sei que essa gente de coração
luminoso, que transbordam generosidade e boas intenções, usa projetar no
outro estas qualidades que nem sabem que têm:
- Todos são filhos de Deus; estão tentando acertar...
- Mas, Nemo, o fia-da-puta é o mó canaia!
- Não! Ele apenas está um tanto confuso. Dê tempo...
Estive em sua casa, conheci sua bela família.
Como ele, são inteligentemente lúcidos, cultos, íntegros e de boa paz,
convivendo com equilíbrio e harmonia com sua comunidade próxima.
Diria que formam uma saudável, sólida, bonita família típica de classe
média, aquilo que costumamos chamar "gente boa".
Por que tais informações?
Para vincar que Nemo é um de nós, um exemplar de nossa mais estável,
honesta e consciente classe média; esta classe que trabalha, trabalha e
trabalha para dar um padrão de vida minimamente confortável aos filhos;
que sangra a mais pesada carga de impostos e taxas, diretos e indiretos;
que usa senso crítico para triar informações, donde que há muito deixou de
confiar em nossa mídia; que trabalhosamente caça dados fidedignos em
fontes idem para manter-se 'em dia' com nossa realidade sócio-política; e
que mantém a esperança de que alguma luz e honestidade se instalem em uns
quantos escuros e toscos bestuntos...
Porque é sobre este quadro-de-fundo neminiano que vc pode melhor avaliar o
imenso peso de seu Cansei!
Se até a paciência do Dr.Calma-e-Tolerância se esgotou é porque o poço
está pra lá de fundo, pra lá de escuro... e muito, muito podre.
Abs do
M.
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Sexta-feira, 2 de março de 2007
Cansei!
por João Nemo
Resumo: Ao que parece, a vitória eleitoral para a qual tanto colaboraram
os supostos opositores, não trouxe uma anistia apenas em relação à
corrupção e aos escândalos, mas desobrigou-o também de qualquer respeito à
lógica, aos números, às verdades factuais etc.
© 2007 MidiaSemMascara.org
“Um homem pode ter coragem e altruísmo suficientes para se resignar a
morrer combatendo nas Termópilas, mas é preciso muito estômago e ser muito
tolo para combater rodeado de canalhas e covardes”. Eduardo Afonso Bacelar
Não me entendam mal. Quando digo que cansei não significa que desisti, mas
que vez ou outra preciso de um tempo para relaxar e fazer uma faxina no
cérebro. Uma das conseqüências mais sofridas de ficar palpitando sobre o
que acontece e, principalmente, sobre o que está na cara que vai acontecer
e ninguém parece se importar é a obrigação de acompanhar, diariamente,
doses cavalares de tolices. Liga-se a televisão e, se não houver um
joguinho para assistir, lá vem uma cascata de asneiras. Se houver também,
mas aí faz parte. É anunciada uma entrevista aparentemente importante,
daquelas que nos sentimos na obrigação de acompanhar, e lá vem enganação
explícita sob o olhar conivente ou complacente do(a) jornalista de quem
esperávamos maior rigor profissional. Se alguém estiver disposto a
destruir logo alguns milhões de neurônios por noite, é só seguir qualquer
novela; portanto, passe rápido adiante, a não ser que você seja daqueles
que aprende história universal com Hollywood e história do Brasil com a
Globo. O controle remoto permite que sem sair do lugar possamos ir
saltando entre os inúmeros canais, alternando cenas de sexo e de
assassinato, pancadarias em vários estilos e, claro, música de terceira.
Vez ou outra passamos por um canal educativo onde felinos lambem os
filhotes e os passarinhos fazem ninhos. O melhor mesmo é dar uma paradinha
no programa de alguma ex-modelo entrevistando um drogadito todo tatuado
que tem grandes lições de vida a nos dar e críticas sagazes a fazer sobre
os males do mundo. Desanimo. Aí tento os jornais impressos mas com exceção
de algumas colunas e editoriais mais interessantes, o noticiário
desinformativo ou irrelevante toma conta. Descobri que quando passo um
certo período praticamente sem ler jornais, optando por livros bem
selecionados ou, então, relendo clássicos, minha qualidade de vida melhora
substancialmente. Alguém já disse que o mundo na verdade não está pior; a
cobertura jornalística é que está muito melhor. Tenho cá minhas dúvidas,
mas que ser informado, diariamente, de cada explosão de malucos no oriente
médio enjoa, lá isso enjoa.
Mas o que dá cansaço mesmo é o panorama nacional. Muita gente pensa que
fico irritado com as estripulias de petistas e assemelhados e se engana.
Não é bem assim e acho até que vivemos, com o apagão aéreo, um episódio
que se presta a exemplo e ilustração do que realmente mais deveria
incomodar a todos. Senão vejamos: houve e provavelmente ainda haverá um
caos no sistema de navegação aérea, mas nenhum dirigente das companhias
que, juntamente com os usuários, foram e serão as mais prejudicadas teve
coragem de vir a público esclarecer os fatos que envolvem a incompetência
e a incúria do governo e suas estatais colonizadas pelo nepetismo. Quando
uma delas, finalmente, cometeu um erro logístico importante, caiu o mundo
e os mesmos apatetados representantes do governo reapareceram bravos,
indignados com o desrespeito ao usuário, ameaçando a companhia com as sete
pragas do Egito. Não há que ter dó, é o que realmente merecem, pois nesse
tempo todo preferiram suportar a ira dos clientes, acumular débitos
indenizatórios e processos, mas não emitir qualquer esclarecimento que
pudesse melindrar os patéticos representantes do seu verdadeiro patrão: o
governo.
Esse é apenas um exemplo mais momentoso, mas acontece a mesma coisa com os
bancos que conhecem mazelas incontáveis do nosso poder público, mas
preferem calar e educadamente ficar com os lucros. Da mesma forma, todo o
alto empresariado exibe seu bom mocismo, fantasiando sobre quão
pragmáticos são ao conviver sem preconceitos com um governo que “não é
mais de esquerda” segundo os mais tolos. Assim como os arrombadores de
residências aprenderam a ordenar aos moradores que carreguem seus bens
para os próprios veículos, nos quais os bandoleiros irão evadir-se, os
socialistas também aprenderam que é melhor deixar os engomadinhos
burgueses esquentarem a cabeça dirigindo os próprios negócios, desde que o
façam pagando e repassando impostos escorchantes, agindo com
“responsabilidade social”, atendendo cotas, aturando todo tipo de
fiscalização idiota, enfim, fazendo tudo o que o seu mestre mandar e, quem
sabe, lhes permitem viver até com relativo conforto. No fundo, os
burocratas estatistas sabem que mesmo uma iniciativa privada mutilada e
submissa ainda funciona melhor do que se eles próprios tivessem que
dirigir o negócio. Acabou a idéia inocente de expropriar os meios de
produção; basta a regulamentação certa nas mãos dos burocratas certos.
Agora estamos todos assistindo às preciosas análises sobre mais uma sigla,
o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento. Pelo nome poderia ter sido
bolado por algum endocrinologista infantil, mas não, trata-se de um
amontoado de projetos recolhidos nas estatais, autarquias e ministérios,
associados à brilhante idéia de usar fundos diversos para as metas que o
governo deveria cumprir com o dinheiro que prefere direcionar para gastos
correntes. Há algum tempo falava-se nas PPP. Toda vez que uma sigla dessas
aparece na praça, boa parte do empresariado saliva, imaginando abocanhar
projetos graças à iniciativa do governo. É interessante que não seja
notado que a proposta, de fato, é direcionar dinheiro dos outros à maneira
que convém ao Leviatã. Este governo, mais que qualquer outro, se contorce
de desejo só de olhar para qualquer lugar onde haja recursos que estejam
fora de alcance ou tenham alguma imunidade em relação à sua caneta: Fundo
de Garantia, Fundos de Pensão, poupanças em geral e, principalmente,
capacidade privada de investimento. Depois de enlaçar esses recursos em
alguma PPP, PQP, PAC ou qualquer outro P, é fácil imaginar quem ditará
todas as regras.
Lulla tem toda a razão do mundo em um ponto: a “zelite” brasileira é
lamentável. Se assim não fosse, é verdade, ele já não estaria lá há muito
tempo e nem faria parte dela. Trata-se de uma simbiose perversa. Não fico
com raiva quando vejo um petista de carteirinha falando bem do presidente
e tentando provar que este governo é o máximo. O que esperar dessa “raça”,
como diria a Senador Bornhausen? Mas fico nauseado quando vejo a
hipocrisia de políticos e empresários que falam com reverência de uma
figura que sabem inteiramente despreparada para qualquer tarefa séria;
fingem acreditar num governo que vive de malabarismos de palco, na
esperança de reforçarem algumas condutas que julgam lhes serão benéficas.
Nesse momento conquistam, concomitantemente, o desprezo dos petistas mais
convictos e também o meu. Os primeiros os desprezam porque percebem uma
evidente falta de caráter e, da minha parte, sinto o mesmo porque assumem
o papel de atores coadjuvantes na tarefa de iludir a população e
amesquinhar o país. Mesmo aqueles que acreditam, com seu colaboracionismo,
poder minimizar perdas, não deveriam se iludir: estão, de fato, é dando
fôlego à farsa.
No momento, uma parte do empresariado suspira pelo tal PAC, um número
enorme de políticos espera participar do butim, e a imprensa se dedica aos
exercícios lúdicos de interpretação a respeito das palavras do nosso
iluminado líder. Ele lança frases de efeito ao sabor de cada ambiente e lá
se vão os exegetas a decifrar os significados ocultos nas entrelinhas de
uma porção de bravatas e lugares comuns; ele não decide e isso é tido como
astuciosa estratégia; afirma algo sem sentido e ficam todos certos de que
lhes lançou um enigma; muda o que dissera e tratava-se, então, de um
arguto balão de ensaio. Declara num surto de sabedoria que, por exemplo,
isto ou aquilo “não se resolve com passes de mágica”. Muitos se mostram
impressionados ao ver como ele amadureceu!
Ao que parece, a vitória eleitoral para a qual tanto colaboraram os
supostos opositores, não trouxe uma anistia apenas em relação à corrupção
e aos escândalos, mas desobrigou-o também de qualquer respeito à lógica,
aos números, ao senso comum, às verdades factuais etc. Que juntamente com
os companheiros se regozije com isso é muito natural. Difícil é aceitar
que do outro lado..., bem..., que outro lado?! Vou voltar para o meu Eça
de Queiroz.
João de Oliveira Nemo é sociólogo e consultor de empresas em
desenvolvimento gerencial.