Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Julho 2007
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19/07/07
• A face mutável da guerra rumo à quarta geração
----- Original Message -----
From: M
Sent: Thursday, July 19, 2007 10:07 AM
Subject: A face mutável da guerra rumo à quarta geração
Amigo/a
O time do MSM trabalha motivado pela constatação de que o conhecimento é
nossa melhor opção. Daí empenhar-se na seleção de artigos com alta densidade
informacional oriundos de fontes confiáveis - quase o exato contrário da
mídia em geral.
Acho que o texto abaixo é importante para termos os pés na realidade do
mundo, hoje.
Estamos em guerra e já não há diferença substancial entre soldado e civil;
este pode não ser combatente mas é tão - ou mais - alvo que aquele.
Este artigo pode trazer luz coerente sobre uma série fenômenos atuais,
aparentemente desconexos, ocorrendo a nossa volta, e suscitar as perguntas
adequadas.
Verdade, não temos no Brasil o terrorismo demente da Al Qaeda, ainda em fase
de gestação no solo fértil da Venezuela, protegido e alimentado pelo staff
chavizta, aguardando a maturação dos tempos. Por enquanto o PCC assume este
papel, assessorado pela multidão de marginais responsáveis pelos mais de 50
mil homicídios/ano em terras nacionais.
Entretanto, as armas mais letais da guerra atual não tiram sangue, não ferem
o corpo - matam o espírito.
E moldam o escravo, mais útil que um cadáver.
Quando nossa mídia - tanto a ideologicamente cooptada quanto a meramente
covarde - abre manchetes sobre escândalos políticos tratando-os como
corrupção por simples ganância pessoal, está sendo arma ativada contra o
leitor. Atente para que, pari passu, ocorre a divulgação da impunidade
sistemática. Juntas, compõem um torpedo psíquico explodindo a confiança
individual nas instituições democráticas, ao tempo que velam as intenções
criptocomunistas de anular o Congresso, abrindo campo para o eventual
plenipotenciário "Salvador da Pátria", Lula ou canalha equivalente.
O soldado inimigo hoje, entre nós, não usa fardamento, nem porta fuzil.
Veste jeans, usa óculos e talvez uma barbicha de inteleca, sorri e é até
simpático. E, geralmente, tem um português até razoável.
Atua nas redações de jornais e televisões, discursa - travestido de
professor - doutrinando nossas crianças, ou, de batina prega Marx sobre os
valores cristãos - todos, miseráveis idiotas úteis, empenhados em,
subrepticiamente, dar força e suporte ideológico aos planos de domínio do
Foro de São Paulo, consubstanciados no governo petista.
A vaia ao pequeno monte-de-estrume-de-puta, no Maracanã, apenas sinaliza ao
inimigo a necessidade de repensar, selecionar táticas, fortalecer a insídia
agressiva. É só mais um esclarecedor evento numa exitosa guerra de
conquista. Ele
também notou que o mesmo público vaiou a delegação americana e ovacionou a
cubana.
Em suma: estúpidos.
Indóceis, mas sempre estúpidos.
Portanto, manipuláveis.
E enquanto se mantiverem assim - ele sabe - a vitória final está assegurada.
Proveito.
M.
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Quinta-feira, 19 de julho de 2007
A face mutável da guerra: rumo à quarta geração
por William S. Lind em 19 de julho de 2007
Resumo: Se olharmos para o desenvolvimento da guerra na era moderna, vemos
três gerações distintas.
© 2007 MidiaSemMascara.org
[Introdução – As modificações sofridas pelos conceitos modernos de guerra
tornam importante sua divulgação no meio civil, pois este é parte integrante
dos novos conceitos bélicos, não somente relacionados com o terrorismo.
Mídia Sem Máscara tem publicado vários artigos sobre o assunto, sendo o
artigo técnico de Nelson During sobre a Guerra Irregular de grande
importância. O estudo que apresentamos a seguir, traduzido por Frederico De
Paola, pode ser árido para civis em certos trechos, mas foi elaborado por um
grupo altamente seleto de especialistas em guerra moderna e merece ser lido
e pensado seriamente, pois na guerra da quarta geração seremos todos
participantes, mesmo que passivos. Será complementado a seguir, por um outro
do autor principal: “Compreendendo a Guerra da Quarta Geração”].
Colonel Keith Nightengale (USA)
Captain John F. Schmitt (USMC)
Colonel Joseph W. Sutton (USA) e
Lieutenant Colonel Gary I. Wilson (USMCR)
Marine Corps Gazette
Outubro de 1989, Págs 22-26
A principal tarefa dos soldados em tempos de paz é preparar-se efetivamente
para a próxima guerra. E para tal, ele precisa prever como será a próxima
guerra. Essa é uma tarefa difícil que vem se tornando cada vez mais difícil.
O General alemão, Franz Uhle-Wettler diz:
“No passado, um comandante podia ter certeza de que a próxima guerra iria
reunir as características das guerras do passado e do presente. Com isso,
era possível analisar táticas apropriadas ao passado e adaptá-las ao
presente. O comandante de hoje não conta mais com essa possibilidade. Ele
sabe apenas que aquele que não se adaptar corretamente às experiências da
última guerra, certamente perderá a próxima”.
A questão central
Se olharmos para o desenvolvimento da guerra na era moderna, vemos três
gerações distintas. Nos Estados Unidos, o Exército e o Corpo de Fuzileiros
Navais estão concentrados na mudança para a terceira geração. Essa transição
é inteiramente para melhor. Entretanto, a guerra da terceira geração foi
conceitualmente desenvolvida pela ofensiva alemã na primavera de 1918, tendo
hoje mais de 70 anos de idade. Isso sugere algumas perguntas interessantes:
não seria a hora do aparecimento da quarta geração? Se sim, como ela seria?
Essas questões são de extrema importância. Quem quer que seja o primeiro a
reconhecer, entender e implementar uma mudança de gerações pode obter uma
vantagem decisiva. Ao contrário, uma nação que seja lenta ao adaptar-se a
uma mudança de geração estará sujeita a uma derrota catastrófica.
As três gerações da guerra
Nosso propósito aqui é menos responder essas questões do que propô-las.
Mesmo assim, ofereceremos algumas tentativas de respostas. Para começarmos a
ver que respostas podem ser estas, precisamos colocar as perguntas num
contexto histórico.
Enquanto o desenvolvimento militar é geralmente um processo evolutivo
contínuo, a era moderna testemunhou três divisores de água nos quais as
mudanças foram dialeticamente qualitativas. Conseqüentemente, o
desenvolvimento militar moderno abrange três gerações distintas.
A guerra da primeira geração reflete táticas da era do mosquete de carregar
pela boca e de cano não raiado (smoothbore musket), as táticas de linha e
coluna. Essas táticas foram desenvolvidas, em parte, como uma resposta a
fatores tecnológicos – a maximização do poder de fogo, uma fileira rígida
necessária para gerar um alto índice de poder de fogo, etc. – e em parte
como resposta a idéias e condições sociais, e.g., as colunas dos exércitos
revolucionários franceses refletem tanto o élan da revolução quanto os
baixos níveis de treinamento das tropas alistadas. Mesmo que tenham se
tornado obsoletas em razão da troca pelo mosquete cano raiado, vestígios das
táticas da primeira geração ainda são notadas hoje, especialmente no desejo
por campos de batalha lineares. A arte operacional não existia como um
conceito na primeira geração; mesmo assim, ela foi posta em prática por
alguns comandantes, sendo Napoleão o mais proeminente.
A guerra da segunda geração foi uma resposta aos mosquetes de cano raiado e
recarga rápida por carregador traseiro ou central (breechloaders), ao uso do
arame farpado e da metralhadora, e o fogo indireto. As táticas eram traçadas
baseadas em fogo e movimento, e permaneceram essencialmente lineares. A
defesa ainda tentava bloquear todas as penetrações, e no ataque uma linha
lateral e dispersa avançava em grupos pequenos por entre os arbustos. Talvez
a principal mudança em relação às táticas da primeira geração foi a
exagerada dependência do fogo indireto; as táticas da segunda geração foram
resumidas na máxima francesa: “a artilharia conquista, a infantaria ocupa”.
O poder de fogo em massa substituiu a quantidade de soldados. As táticas da
segunda geração permaneceram as bases da doutrina americana até a década
de1980, e ainda são praticadas pela maioria das unidades americanas no campo
de batalha.
Enquanto as idéias tiveram um papel importante no desenvolvimento das
táticas da segunda geração (particularmente a idéia de dispersão lateral), a
tecnologia foi o principal motivador de mudanças. A tecnologia se manifestou
tanto qualitativamente, em áreas como artilharia mais pesada e bombardeio
aéreo, quanto quantitativamente, na habilidade de uma economia
industrializada para reposição de material (Materialschlacht).
A segunda geração testemunhou o reconhecimento formal e a adoção da arte
operacional, inicialmente pelo exército prussiano. Novamente, idéias e
tecnologia motivaram a mudança. As idéias vieram em grande parte dos estudos
prussianos das campanhas de Napoleão. Os fatores tecnológicos incluíram a
idéia de von Moltke, de que as táticas de poder de fogo modernas levaram a
batalhas de envolvimento e ao desejo de explorar as capacidades da estrada
de ferro e do telégrafo.
A guerra da terceira de geração também foi uma resposta ao aumento em
potência de fogo no campo de batalha. Porém, a força motriz era
principalmente idéias. Conscientes de que não poderiam sair vitoriosos numa
competição de materiais por ter sua base industrial mais fraca na Primeira
Guerra Mundial, os alemães desenvolveram táticas radicalmente novas.
Baseadas em manobras ao invés de conflito, as táticas da terceira geração
foram as primeiras verdadeiramente não lineares. O ataque confiava em
infiltração para se esquivar e acabar com a força de combate do inimigo ao
invés de procurar o contato direto para sua destruição. A defesa era em
profundidade e muitas vezes de fácil penetração, o que deixava o inimigo
exposto a um contra-ataque.
Enquanto os conceitos básicos da terceira geração já estavam sendo aplicados
no final de 1918, a adição de elementos da nova tecnologia – como tanques –
trouxe uma grande mudança de nível operacional na II Guerra Mundial. Essa
mudança foi a blitzkrieg (ataque aéreo relâmpago pelas forças alemãs). Na
blitzkrieg as bases da arte operacional mudaram de lugar (como na
aproximação indireta descrita por Liddell-Hart) para tempo. Essa mudança foi
explicitamente reconhecida apenas recentemente no trabalho do coronel da
reserva das Forças Aéreas Americanas, John Boyd, e sua teoria “OODA”
(observação – orientação – decisão – ação).
Desta forma, vemos os dois grandes catalisadores nas primeiras mudanças de
geração: tecnologia e idéias. Que perspectivas podemos tirar dessas mudanças
quando olhamos para uma potencial guerra da quarta geração?
Elementos de influência
As mudanças de geração do passado, especialmente da segunda para a terceira
geração, foram marcadas por crescente ênfase em muitas idéias centrais.
Algumas delas parecem influenciar a quarta geração e, sem dúvida, expandir
sua influência.
A primeira são as missões ordenadas. Cada troca de gerações tem sido marcada
por uma dispersão maior do campo de batalha. O campo de batalha da quarta
geração inclui toda a sociedade inimiga. Tamanha dispersão somada com o que
parece ser um aumento na importância de ações perpetradas por grupos bem
pequenos de combatentes, requer o menor nível de flexibilidade já visto no
que diz respeito às intenções dos comandantes.
A segunda é uma decrescente dependência na logística centralizada. A
dispersão, somada a um aumento no valor do tempo, requer um alto grau de
habilidade, ficando inviável viver à custa da terra e do inimigo.
A terceira é uma maior ênfase em manobra. Grande número de tropas ou poder
de fogo não é mais um fator de vantagem esmagadora. De fato, um grande
número de soldados pode ser uma desvantagem devido à facilidade de exposição
como alvo. Forças ágeis, pequenas e de fácil manobra tendem a dominar.
A quarta tem como objetivo arrasar o inimigo internamente ao invés de
destruí-lo fisicamente. Os alvos incluem o apoio da população à guerra assim
como oposição à cultura inimiga. Uma correta identificação do centro
gravitacional da estratégia inimiga passa a ter uma importância enorme.
Em termos gerais, a guerra da quarta geração parece ser altamente dispersa e
bastante indefinida; a distinção entre guerra e paz será ofuscada até o
ponto de seu desaparecimento. Será uma guerra não linear, possivelmente sem
um campo de batalha ou front bem definido. A diferença entre “civis” e
“militares” deve desaparecer. As ações ocorrerão simultaneamente através de
todos os participantes, incluindo a sociedade como uma entidade cultural e
não somente física. Grandes instalações militares, como pistas de pouso,
comunicações fixas e grandes quartéis-generais tornar-se-ão raridades devido
à vulnerabilidade; o mesmo pode ser dito dos equivalentes civis, como postos
de governo, instalações de energia e fábricas (incluindo serviços e
manufaturas). O sucesso dependerá maciçamente da eficiência de ações em
conjunto, uma vez que a linha que separa responsabilidade e missão torna-se
bem pouco nítida. Mais uma vez, todos esses elementos estão presentes na
guerra da terceira geração; a quarta geração vai meramente acentuá-los.
Potencial motivacional tecnológico da guerra da quarta geração
Se nós combinarmos as características gerais da guerra da quarta de geração
com a nova tecnologia, teremos um possível esboço da nova geração. Por
exemplo, a energia dirigida permite que elementos pequenos destruam alvos
que eles não poderiam atacar com armas de energia convencionais. Energia
dirigida permite a realização de efeitos EMP (pulso eletromagnético) sem uma
explosão nuclear. Pesquisas sobre supercondutividade indicam a capacidade de
armazenamento e uso de grandes quantidades de energia em depósitos muito
pequenos. Tecnologicamente, é possível que poucos soldados possam ter o
mesmo efeito num campo de batalha do que uma brigada como as atuais.
O crescimento da robótica, veículos pilotados por controle remoto, baixa
probabilidade de interceptação nas comunicações e inteligência artificial
oferecem um potencial para táticas radicalmente alteradas. Em troca, a
crescente dependência desta tecnologia pode abrir caminho para novas
vulnerabilidades, como a vulnerabilidade aos vírus de computador.
Tropas pequenas e facilmente móveis compostas por soldados inteligentes
munidos de armas de alta tecnologia podem vasculhar grandes áreas procurando
alvos críticos. Os alvos podem se encontrar mais em setores civis do que
militares. Termos como dianteira e retaguarda serão substituídas por alvos e
não-alvos. Por sua vez, isso deve mudar radicalmente a maneira como os
serviços militares são organizados e estruturados.
As unidades irão combinar as funções de reconhecimento e ataque. Mecanismos
“inteligentes”, conduzidos por controle remoto passam a ter papel decisivo.
Simultaneamente, as maiores forças de defesa passam a ser a habilidade de se
esconder e enganar tais mecanismos.
Os níveis tático e estratégico se mesclarão, uma vez que a estrutura
política e a sociedade civil do oponente se tornarão alvos. Passará a ser de
extrema importância isolar o inimigo da própria pátria porque será
necessário um pequeno número de pessoas para produzir um enorme estrago em
muito pouco tempo.
Os líderes deverão ser mestres, tanto na arte da Guerra quanto em
tecnologia, uma combinação difícil uma vez que envolve dois modos de pensar
diferentes. As primeiras dificuldades encaradas por comandantes de todos os
níveis incluirão a escolha do alvo (que passará a ser uma decisão política e
cultural, não somente militar), a habilidade de concentração repentina, e a
seleção de subordinados que possam administrar o desafio de agir sob mínima
ou nenhuma supervisão num meio de constante mudança. O maior desafio será
lidar com a tremenda sobrecarga de informações sem perder o foco dos
objetivos estratégicos e operacionais.
Ações psicológicas se tornarão as principais armas operacionais e
estratégicas, e se mostrarão no modo como a mídia intervém na guerra. Bombas
inteligentes e vírus de computador, incluindo vírus latentes, podem ser
usados para desestabilizar tanto a população civil como operações militares.
Os adversários na quarta geração se concentrarão em manipular a mídia local
e mundial, até o ponto em que o uso habilidoso de ações psicológicas irá
aniquilar o comprometimento das forças de combate. O alvo principal passará
a ser o apoio da população inimiga ao seu governo e à guerra. As notícias
televisivas tornar-se-ão armas mais poderosas do que divisões armadas.
Uma importante advertência deve ser levada em consideração no que diz
respeito à possibilidade de utilização das tecnologias da quarta geração,
pelo menos no contexto americano. Mesmo que o avanço tecnológico permita uma
quarta geração de alta tecnologia - e isto ainda não é certo – a própria
tecnologia deve ser transformada em armas que sejam efetivas no campo de
batalha. No presente, nossas pesquisas, desenvolvimento e outros processos
de busca têm esbarrado numa grande dificuldade para fazer essa
transformação. Muitas vezes produzimos armas que incorporam uma alta
tecnologia irrelevante para o combate ou muito complexas para serem usadas
no caos do campo de batalha. Muitas assim chamadas “armas inteligentes”
servem de exemplo; em combate, elas permitem um fácil contra-ataque, falham
devido às suas complexidades, ou demandam operações impossíveis dos
soldados. As atuais pesquisas, desenvolvimento e outros processos de busca,
podem muito bem não conseguir transformar essa alta tecnologia em armas
militares da quarta geração.
Uma possível quarta geração motivada pelas idéias
A tecnologia foi o principal motivador da Guerra da segunda geração; as
idéias foram o principal motivador da terceira. Uma quarta geração baseada
nas idéias é também provável.
Pelo menos pelos últimos 500 anos, o Ocidente definiu o perfil da Guerra.
Para que um exército pudesse ser bem sucedido, ele em geral deveria seguir
os modelos ocidentais. Uma vez que a força do Ocidente está na tecnologia,
isso pode tender para uma quarta geração em termos tecnológicos.
Entretanto, o Ocidente não domina mais o mundo. A quarta geração pode
emergir de uma tradição cultural não ocidental, como as tradições islâmica e
asiática. O fato de que algumas áreas não ocidentais estejam atrasadas em
termos de tecnologia pode levar a uma quarta geração baseada em idéias ao
invés de tecnologia.
O gênese da quarta geração baseada em idéias pode ser constatado no
terrorismo. Isto não quer dizer que o terrorismo seja a guerra da quarta
geração, mas que seus elementos podem ser sinais indicando a direção da
quarta geração.
Alguns elementos do terrorismo parecem refletir as antigas “influências”
percebidas na terceira geração. Os terroristas mais bem sucedidos parecem
atuar em missões mais amplas mas que passam a impressão de terrorismo
individual. O campo de batalha é bastante disperso e inclui a totalidade da
sociedade inimiga. O terrorista vive quase que totalmente na pátria do
inimigo. O terrorismo é basicamente uma questão de manobra: seu poder de
fogo é pequeno, e onde e quando ele vai utilizá-lo é crucial.
Duas influências adicionais devem ser destacadas, uma vez que elas podem
servir de guias úteis em direção à quarta geração. O primeiro é um
componente que visa a eliminar o inimigo. É uma mudança de foco da frente
para a retaguarda do inimigo. O terrorismo visa acabar com o inimigo de
dentro para fora uma vez que ele conta com pouca possibilidade (pelo menos
no presente) de infligir uma grande destruição. A Guerra da primeira geração
focava taticamente e operacionalmente (quando praticada) no front do
inimigo, suas forças de combate. A Guerra da segunda geração manteve seu
foco tático no front mas, pelo menos na prática prussiana, seu foco
operacional foi para a retaguarda, procurando cercar o inimigo, com ênfase
na estratégia de envolvimento. A terceira geração mudou o foco tático bem
como o operacional para a retaguarda do inimigo. O terrorismo nos leva a um
novo estágio. Ele tenta ultrapassar inteiramente o exército adversário
visando diretamente sua pátria e alvos civis. Como um ideal, o exército
inimigo passa a ser irrelevante.
O segundo guia em direção à quarta geração é o modo como o inimigo procura
usar a força inimiga contra si mesma. Esse conceito de guerra como uma luta
de judô começa a se manifestar na segunda geração, na campanha e nas
batalhas de envolvimento. A fortaleza inimiga, com Metz e Sedan, tornaram-se
armadilhas fatais. Esse conceito foi ampliado na terceira geração, onde, na
defensiva, um dos lados tenta deixar que o outro penetre para que, no
momento de sua penetração, este fique mais suscetível a um contra-ataque.
Os terroristas usam a liberdade e a abertura de uma sociedade livre como
suas maiores forças, contra elas. Eles podem se mover livremente em nossa
sociedade e ao mesmo tempo trabalhar para subvertê-la. Eles usam nosso
direito democrático não somente para penetrar, mas também para se proteger.
Se nós os tratarmos de acordo com nossas leis, eles ganham muitos adeptos;
se simplesmente atirarmos para matá-los, a mídia pode facilmente fazer com
que eles pareçam vítimas. Os terroristas podem efetivamente travar sua forma
de guerra enquanto se encontram protegidos pela sociedade que procuram
destruir. Se formos forçados a nos desligarmos de nosso sistema de proteção
legal para lidar com os terroristas, eles estarão conquistando um outro tipo
de vitória.
O terrorismo também parece representar uma solução para um problema que foi
gerado pelas mudanças de geração no passado, mas não realmente resolvido por
nenhuma delas. É a contradição entre o campo de batalha moderno e a cultura
tradicional militar. Aquela cultura, soldados perfilados, saudações
uniformes, treinamento, etc., é claramente produto da Guerra da primeira
geração. É uma cultura da ordem. E naquele tempo era consistente com o campo
de batalha, onde a ordem dominava. O exército ideal era uma perfeita e
azeitada máquina e era isso que a cultura militar da ordem procurava
produzir.
Entretanto, cada nova geração traz consigo uma mudança cada vez mais
significativa em direção a um campo de batalha em constante mudança. A
cultura militar, que permaneceu a cultura da ordem, tornou-se contraditória
com o campo de batalha. Mesmo na Guerra da terceira geração, essa
contradição já não era insolúvel; a Wehrmacht uniu perfeitamente a tradição
cultural pela ordem, enquanto em combate demonstrou a adaptação e fluidez
que demandam um campo de batalha em constante mudança. Mas outros exércitos
militares, como o britânico, têm tido menos sucesso ao lidar com essa
contradição. Eles vêm tentando freqüentemente levar a cultura da ordem para
campo de batalha com resultados desastrosos. Em Biddulphsberg, na Guerra dos
Boer, por exemplo, um punhado de Boers acabou com dois batalhões de guardas
britânicos que lutavam com se estivessem em uma parada.
A contradição entre a cultura militar e a natureza da guerra moderna
confronta a tradição do Serviço Militar com um dilema. Os terroristas
resolvem esse dilema simplesmente eliminando a cultura da ordem. Terroristas
não usam uniformes, fileiras, saudações ou, pelo menos a maioria,
hierarquia. Potencialmente eles desenvolveram ou podem desenvolver uma
cultura militar que é condizente com a natureza desordenada da guerra
moderna. O fato de sua larga cultura ser não-Ocidental pode facilitar esse
desenvolvimento.
Até mesmo em equipamentos, o terrorismo aponta para uma significativa
mudança nas gerações. Como sempre, a geração anterior requer recursos muito
maiores do que sua sucessora para atingir o mesmo objetivo. Hoje os Estados
Unidos gastam $500 milhões de dólares para construir cada bombardeiro com
tecnologia stealth (N. do T: com pequena assinatura de radar). Um
bombardeiro stealth terrorista é um carro com uma bomba no porta-malas – um
carro como qualquer outro.
Terrorismo, tecnologia e além
Reiterando, nós não estamos sugerindo que o terrorismo seja a próxima
geração. Isso não é um fenômeno novo e até agora tem se provado ineficiente.
Entretanto, o que teremos se combinarmos o terrorismo com a nova tecnologia
de que viemos falando? Por exemplo, que efeito teria o terrorista se em seu
carro bomba ele levasse um produto da engenharia genética ao invés de
explosivos? Para esticarmos o potencial da quarta geração um pouco mais, e
se combinarmos terrorismo, alta tecnologia e esses próximos elementos
adicionais?
Uma base de operações não-nacional ou transnacional, como ideologia ou
religião . A capacidade de nossa segurança nacional opera dentro de
fronteiras. Fora delas, temos grandes dificuldades. A guerra ao tráfico é um
bom exemplo. Pelo fato de o tráfico de drogas não ter uma base nacional, é
muito difícil empreender um ataque contra eles. Uma Nação pode ofuscar os
barões da droga mas não consegue controlá-los. Não podemos atacá-los sem
violar a soberania de uma Nação amiga. Um agressor da quarta geração pode
muito bem operar de maneira similar, como alguns terroristas do Oriente
Médio já o fazem.
Um ataque direto à cultura inimiga. Um ataque como este funciona tanto de
dentro para fora quanto vice-versa. Ele ultrapassa não somente o exército
militar inimigo, mas também seu Estado. Os Estados Unidos já estão sofrendo
pesadamente tal ataque cultural na forma do tráfico de drogas. As drogas
atacam diretamente nossa cultura. E eles contam com o apoio de uma poderosa
“quinta coluna”, os compradores de drogas. Os traficantes atravessam todo o
aparelho do Estado, apesar de todo nosso esforço. Alguns elementos
ideológicos da América do Sul vêem as drogas como armas; eles a chamam de
algo como “o míssil balístico intercontinental do homem pobre”. Eles premiam
o tráfico de drogas, não somente pelo dinheiro com o qual nós financiamos a
guerra contra nós mesmos – mas também pelo estrago que as drogas fazem faz
aos odiados norte-americanos.
A sofisticada Guerra Psicológica, especialmente através da manipulação da
mídia, em particular as notícias de televisão. Alguns terroristas já sabem
jogar esse jogo. De certo modo, as forças hostis podem facilmente tirar
vantagem das notícias televisivas – o fato de que na televisão as baixas
inimigas nos abalam quase tanto quanto as baixas de nossa gente. Se
bombardearmos uma cidade inimiga, as imagens de civis inimigos mortos
levados a cada sala de estar de nosso país durante as notícias do jornal,
podem transformar o que poderia ter sido uma vitória militar (desde que nós
também tenhamos atingido o alvo militar) numa séria derrota.
Todos esses elementos já existem. Não são produtos de “futurologia”, ou bola
de cristal. Estamos simplesmente perguntando: o que iríamos enfrentar se
todos eles estivessem combinados? Será que essa combinação constituiria os
primórdios da guerra da quarta geração? Um pensamento que sugere que sim é
que militares da terceira geração (para não falar da segunda) parecem ter
pouca capacidade contra uma mistura desse porte. E isso é típico das
mudanças de geração.
O propósito desse artigo é propor uma questão e não respondê-la. As
respostas parciais sugeridas aqui podem de fato tornarem-se falsas. Mas
diante do fato de que a guerra da terceira geração tem agora mais de 70 anos
de idade, nós deveríamos estar nos perguntando: como será a quarta geração?
Artigo original:
The Changing Face of War: Into the Fourth Generation
http://www.d-n-i.net/fcs/4th_gen_war_gazette.htm
Tradução: Frederico De Paola