Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Julho 2007
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18/07/07
• CRÔNICA DE NELSON RODRIGUES SOBRE APLAUSOS À MÉDICI
----- Original Message -----
From: M
Sent: Wednesday, July 18, 2007 9:49 PM
Subject: Fw: CRÔNICA DE NELSON RODRIGUES SOBRE APLAUSOS À MÉDICI
----- Original Message -----
Caros Amigos, em época de poucos exemplos,cresce de importância este artigo de
Nelson Rodrigues, escrito na década de 70.
É uma opinião imparcial e de grande valor por sua credibilidade como escritor /
teatrólogo/cronista.
Precisamos de exemplos quando não os temos.Médici é um deles...
Abs
Edgard
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Assunto: CRÔNICA DE NELSON RODRIGUES SOBRE APLAUSOS À MÉDICI
Fonte: Nelson Rodrigues
RESERVAER – LR, 170707
http://www.reservaer.com.br/gblrnew/texto.php?pSerial=7261
Não há nome intranscendente e repito: qualquer nome insinua um vaticínio. Todo o
destino de Napoleão Bonaparte está no seu cartão de visitas. Ao passo que um J.
B. Martins da Fonseca não tem nenhum destino especial e vou mais longe: não tem
destino. Quando baptizaram William Shakespeare, o padre poderia perguntar-lhe:
"Como vão tuas Obras completas?". No simples "William Shakespeare" estava
implícita a música verbal do seu teatro.
Mas um certo nome exige uma certa cara. Napoleão Bonaparte pedia um perfil
napoleónico. Um Gengis Khan precisa de fotogenia. Ou então um John Kennedy. O
que era o presidente assassinado senão o queixo forte, plástico, histórico? Ele
venceu Stevenson e depois Nixon porque tinha as mandíbulas crispadas do Poder.
Por isso, o tiro arrancou-lhe o queixo. Outro: Churchill, com a sua maravilhosa
cara de buldogue. Em todos os citados, cara e nome, justapostos, explicam uma
nítida pre-destinação.
Fiz essa pequena introdução para chegar ao nosso presidente. Quando começou o
jogo de candidaturas, disse eu: "Ganha esse, pelo nome e pela cara". Não é
impunemente que um homem se chama Emílio Garrastazu Médici. Tiremos o Emílio e
fica Garrastazu. Tiremos o Garrastazu e ficará o Médici. Bem sei que essa
meditação sobre o nome pode parecer arbitrária e até delirante. Não importa,
nada importa. Depois vi a sua fotografia. Repeti, na redacção, para todo o mundo
ouvir: "É esse o presidente". Ora, numa redacção há sempre uns três ou quatro
sarcásticos. Um deles perguntou: "Só pelo nome?". Respondi: "Pelo nome e pela
cara".
Como já disse, a história e a lenda também exigem uma certa fotogenia. E senti
que Emílio Garrastazu Médici tinha um perfil de moeda, de cédula, de selo.
Organizem uma retrospectiva presidencial e verão que os nossos presidentes são
baixos. Getúlio era baixíssimo, embora tivesse um perfil histórico e, digamos,
cesariano. Epitácio foi fisicamente pequeno. Era a pose que o fazia mais
presidencial. Garrastazu Médici é o nosso primeiro presidente alto.
Dirão vocês que eu estou valorizando o irrelevante, o secundário, o fantasista.
Desculpem o meu possível equívoco. E se me perguntarem porque estou dizendo tudo
isso, eu me justificarei explicando: conheci, Domingo, o presidente Emílio
Garrastazu Médici. E o pretexto para o nosso encontro foi um jogo de futebol.
Outra singularidade do chefe da nação: gosta de futebol e sabe viver, como o
mais obscuro, o mais anónimo torcedor, todas as peripécias dos clássicos e das
peladas. Isso é raro, ou melhor dizendo, isso é inédito na história dos
presidentes brasileiros. Imaginem um Delfim Moreira, ou um Rodrigues Alves, ou
um Wenceslau Brás entrando no estádio Mario Filho. Qualquer um desses
perguntaria: "Em que time joga o Fla-Flu?", "Quem é a bola?" ou "O córner já
chegou?".
O nosso presidente sabe tudo de futebol. Eu diria que hoje nenhum brasileiro
será estadista se lhe faltar a sensibilidade para o futebol. Mas dizia eu que
foi um jogo - São Paulo X Porto - que nos aproximou. Na sexta-feira passada, o
Palácio das Laranjeiras começou por me procurar. Se eu fosse terrorista, não
seria tão perseguido. Finalmente, falo pelo telefone com o Palácio. O secretário
de Imprensa queria me transmitir um convite. Onde e a que horas poderia falar
comigo? Marcamos o encontro. Simplesmente, o presidente Médici me convidava para
assistir, a seu lado, na inauguração do Morumbi, o jogo internacional. Eu iria,
com S. Exa., no avião presidencial. O presidente fazia o maior empenho em que o
acompanhasse.
Confesso, sem nenhuma vergonha, que o convite me fascinou. O que têm sido as
nossas relações com os presidentes da República? Nada. Sim, há entre nós e o
presidente uma distância infinita, espectral. E o Supremo Magistrado, como se
diz, é um ser misterioso, inescrutável, sinistro. No meu caso, o presidente se
dispunha a acabar com a distância e me receber na áspera solidão presidencial.
De mais a mais, o Brasil vive o seu grande momento. Eis o nosso dilema: o o
Brasil ou o caos. O diabo é que temos a vocação e a nostalgia do caos. É o
momento de fazer o Brasil ou perdê-lo. Esse Garastazu Médici é, neste instante,
uma das figuras vitais do país. Eu ia vê-lo, ia ouvi-lo. Sim, ouvir os ruídos da
sua alma profunda. Todo o mundo tem, no bolso do colete, o seu projecto de
Brasil. Garrastazu tem o seu e pode realizá-lo. Ao passo que nós não temos força
para tapar um cano furado. Bem. Aceitei o convite, ressalvando: iria de tudo,
menos de avião. "De automóvel?", perguntou o secretário de Imprensa. E eu: "De
qualquer coisa" - e repeti - "nunca de avião".
Sábado, o meu filho Nelson levou-me para São Paulo no seu Fusca. Durante a
viagem, uma pequena mas intolerável inibição instalou-se em mim: "Chamarei o
presidente de 'excelência' ou simplesmente de 'senhor'?". Ao mesmo, imaginava
que o Poder desumaniza o homem. Seria Garrastazu uma figura áspera, hierática,
enfática? Pensava, ao mesmo tempo, num episódio recente. No jogo do Grémio, e
antes de ser presidente, e antes da definição das candidaturas, o general
Garrastazu Médici desce ao vestiário. Vejam se vocês conseguem imaginar um
Delfim Moreira, ou um Epitácio num vestiário de futebol. Pois o general chega e
pergunta: "Como é, Alcino, que você vai me perder aquele gol?". No Fusca do meu
filho Nelson, eu queria crer que um homem assim é um brasileiro vivo e não uma
pose, e não uma casaca, e não uma faixa, e não uma condecoração.
No dia seguinte, estava eu no aeroporto. Tivemos uma primeira conversa e,
durante o dia, uma outra, e uma terceira, e uma quarta. Vi a seu lado a
inauguração (ou a décima inauguração do Morumbi). Ora, no momento não há nada
mais importante do que saber o que pensa, o que sente, o que imagina, o que quer
um presidente da República, investido de tantos poderes. No meio do jogo, ele
insistia para que eu voltasse no seu jacto. Digo, por fim: "Está certo,
presidente. Vou voar pela primeira vez".
É preciso não esquecer o que houve nas ruas de São Paulo e dentro do Morumbi. No
estádio Mário Filho, ex-Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, como dizia o
outro, vaia-se até mulher nua. Vi o Morumbi lotado, aplaudindo do presidente
Garrastazu. Antes do jogo e depois do jogo, o aplauso das ruas. Eu queria ouvir
um assobio, sentir um foco de vaia. Só palmas. E eu me perguntava: "E as vaias?
Onde estão as vaias?". Estavam espantosamente mudas.
Até Domingo, às seis e meia, sete da noite, eu não entrara jamais num avião
pousado, num avião andando, num avião voando. Lá em cima, não há paisagem; e, se
não há paisagem, estamos fazendo a antiviagem. Conversámos longamente. Houve um
momento em que ele me disse: "Sou um presidente sem compromissos. Só tenho
compromissos com a minha pátria". Eis um homem que fala em pátria, em "minha
pátria". Para a maioria absoluta dos civis, "pátria" é uma palavra espectral,
"patriota" é uma figura espectral. E as nossas esquerdas fizeram toda a sorte de
manifestações. Não berravam, não tocavam na "pátria". Nas passeatas, berravam,
em cadência: "Vietnã, Vietnã, Vietnã". Pichavam os nossos muros com vivas aos
vietcongs, a Cuba. Nenhuma alusão à pátria, nenhuma referência ao Brasil. E, no
entanto, vejam vocês: o Amazonas tem menos população do que Madureira. Aquilo é
uma gigantesca sibéria florestal. E as esquerdas só pensavam no Vietnã, e só
pensavam pelo Vietnã e só bebiam pelo Vietnã.
Certa vez, conversei com um membro da esquerda católica. Exortei-o a desembarcar
no Brasil. Disse-lhe que, na pior das hipóteses, temos paisagem. Citei o Pão de
Açucar, o Corcovado. Mas ele batia na tecla obsessiva e fatal: "O Vitenã, o
Vietnã, o Vietnã" etc. etc. Ainda no meu élan paisagístico, fiz a apologia da
Vista Chinesa, recanto ideal para matar turista argentino. Mas havia entre mim e
ele a distância que nos separa do Sudeste Asiático. Eis o que o meu amigo
propõe: que os brasileiros bebessem o sangue uns dos outros como groselha.
Antes de se despedir, o membro da esquerda católica concentrou sua ira nas
Forças Armadas. Acusou-as de incapazes, de ineptas, de relapsas. "Os militares
nunca fizeram nada", afirmou. Desta vez, perdi a minha paciência. Tratei de
demonstrar-lhe que os militares fizeram tudo. No Sete de Setembro (e Pedro
Américo não me deixa mentir) foram sujeitos de esporas e penacho que deram o
grito do Ipiranga; e, se os militares não fizeram nada, que faz a espada de
Deodoro na estátua de Deodoro? Foi a inépcia militar que fez a República, assim
como fizera a independência. Em 22 e 24, era o sangue militar que jorrava como a
água, a água da boca dos tritões de chafariz. Em 30, em 32, em 35, foram os
militares. Assim em 89. Retirem as Forças Armadas e começará o caos, o puro,
irresponsável e obtuso caos.
Há anos e anos que eu não digo "pátria". E quando o presidente Garrastazu falou
em "minha pátria", experimentei um sentimento intolerável de vergonha. Esse
soldado é de uma natureza simples e profunda. Está disposto a tudo para que não
façam do Brasil o anti-Brasil. Seja como for, deixará este nome, para sempre:
Emílio Garrastazu Médici."
Espalhe isto. Que chegue aos olhos da canalha petista.
Talvez alcance até o exu de Garanhuns.
( Evidente que serão furos n'água: pra fazer efeito teriam que ter algo que
nunca tiveram - vergonha na cara... )
M