Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Fevereiro 2007
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20/02/07
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Êpa! Não é bem assim...
----- Original Message -----
From: M
Sent: Tuesday, February 20, 2007 10:28 PM
Subject: : Êpa! Não é bem assim...
Prezado Carlos,
os textos abaixo, bem compostos, inteligentemente articulados, revelam
entretanto uma falha grave na compreensão de nossas condições
sócio-políticas atuais:
- os eventos deprimentes que vem ocorrendo em todos os níveis da
vivência nacional não são decorrentes de incompetência simples ou
corrupção banal; o atual presidente da república tampouco é um incapaz
fazendo asneiras, como não são incompetentes seus áulicos lotados em
cargos sensíveis... Muito ao contrário.
Os acontecimentos - no Legislativo, na política externa, na onda de
bestialismo criminal... resultam de cuidadoso planejamento e criteriosa
aplicação de preceitos doutrinários com uma notável plasmabilidade
criativa na adaptação aos imprevistos.
Bem claramente, estou dizendo: tudo isto que nos espanta, escandaliza,
indigna e nauseia - é proposital, deliberado, planejado, intencional,
premeditado e atualizado pela ação de experts extremamente competentes.
E não acontecem apenas aqui - mas, adaptados às diversas condições
locais, em vários países da América Latina e Europa.
A instituição diretora, responsável por tais coisas no âmbito da América
Latina - o Foro de São Paulo - tem sido objeto da mais bem articulada
campanha de silêncio e segredo, em nosso país.
Sem conhecimento sobre este Foro, sua constituição, propósitos e
atividades, e ainda, se ignoramos o que seja o gramscismo enquanto
doutrina e estratégia para a tomada do Poder - não poderemos
efetivamente compreender o que se passa à nossa volta, sob nossos olhos.
Uma explicação eficaz do que sejam seria excessivamente longa para este
espaço. Daí a sugestão - aos honestamente interessados em obter um
entendimento mais fundo - que busquem dados no www.midiasemmascara.org,
na seção Editorias, sub-seções 'Foro de São Paulo', 'Gramscismo' e
'Desinformação'.
Conheço pessoalmente a maioria dos articulistas deste site e não tenho
dúvidas ao testemunhar positivamente sobre sua competência, amplos
conhecimentos, integridade e intenções. Nada ganham ao serem publicados
salvo a consciência de serem éticos em seus alertas aos brasileiros.
Abaixo, um texto recente de Olavo de Carvalho, a quem conheço há mais de
30 anos e por quem, tranquilamente, ponho a mão no fogo.
É uma mente gigantesca, de uma lucidez só possível pela interação de um
intelecto de gênio, caráter íntegro e um espírito ético. Lê muito e em
vários idiomas. Tem uma memória prodigiosa que lhe permite citar -
textualmente - capítulos inteiros de obras lidas há décadas. Sua
acuidade lógica, a limpidez de seus raciocínios, a amplidão de seus
conhecimentos, a argúcia de suas percepções e a vastidão de sua
compreensão - são para mim espantos renovados a cada novo texto.
Creia, não há exageros nestas afirmações, que, ademais se comprovam pelo
continuado acerto de suas previsões quanto à dinâmica política
brasileira: tudo o que vem ocorrendo no cenário nacional foi antecipado
por Olavo em prescientes artigos de aviso.
Aliás, não tem que acreditar-me; verifique pessoalmente em www.olavodecarvalho.org.
Para quem que como vc, 'se amarra' em manifestações de inteligência
criativa, será um rico e vasto banquete.
Bom proveito.
Abração do
M.
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"Nestas circunstâncias, a violência estatal é mesmo desnecessária. Em
troca da obediência completa, o bondoso esquerdismo triunfante
concede-nos o direito de viver. Mas mesmo este direito é limitado. A
violência estatal não desapareceu: apenas transformou-se em violência
indireta. Para manter a população num estado de terror perpétuo basta a
criminalidade livre de entraves, estimulada por organizações próximas do
partido governante, ao qual as massas e até as elites, ignorantes disso,
acorrem em busca de socorro, fechando as duas portas, legal e ilegal,
oficial e extra-oficial, o quadro da onipotência." O.de Carvalho
"Ainda vão querer punir os fetos."
Inácio da Silva, defensor da descriminalização do aborto, negando-se a
considerar a redução da idade penal solicitada pela população.
A ditadura anestésica
Por Olavo de Carvalho, de Washington, DC
Céllus
Apesar do subtítulo The European Left in the New Millennium , o livro de
Paul Edward Gottfried, The Strange Death of Marxism (University of
Missouri Press, 2005) fornece uma descrição da esquerda contemporânea
que se aplica também às suas vententes norte-americana e
latino-americana.
Não vejo como discordar da sua tese central, de que o objetivo da
esquerda hoje em dia é "um gerenciamento político que no fim se aproxima
do controle total, mas com uma necessidade cada vez menor de empregar a
força física". Vemos isso todos os dias no palco da tragicomédia
nacional. Por toda parte a rede de controles vai se estendendo, lenta e
inexoravelmente, abrangendo desde a economia até os últimos recintos da
vida privada, ao mesmo tempo que os mecanismos formais da democracia
continuam em vigor, apenas sem a mínima possibilidade de ser usados
contra a máquina ideológica que nos esmaga.
Caracteristicamente, a rede não é toda estatal. Como preconizava
Gramsci, está espalhada pela sociedade civil, que se transforma assim na
corda com que ela própria se enforca. ONGs, escolas públicas e privadas,
casas editoras e a grande mídia fazem a sua parte, submetendo-se
docilmente às categorias de pensamento impostas pelo establishment , tão
abrangentes e onipresentes que a mera possibilidade de conhecer alguma
coisa para fora de seus limites se tornou inconcebível, e pequenas
divergências dentro do acordo geral têm de ser convocadas às pressas
para dar a impressão de que existe ainda uma oposição ideológica, uma
"direita". E a própria direita - ou aquilo que ainda leva esse nome - se
apressa em legitimar o monopólio esquerdista da verdade, do bem e da
virtude, proclamando que ser direitista é mesmo uma infâmia, que o
máximo de anti-esquerdismo admissível é o "centro". À direita do centro,
estende-se a imensidão do nada. À medida que a recordação mesma do que
fosse a direita desaparece da memória popular, a parte amputada cessa
automaticamente de doer e mesmo as objeções eventuais contra o novo
estado de coisas só podem se expressar na linguagem do esquerdismo,
reforçando o sistema geral de crenças no instante mesmo em que protestam
contra algum de seus aspectos em particular. A ditadura benévola do
esquerdismo consensual é uma cirurgia auto-anestésica.
Nessas circunstâncias, a violência estatal é mesmo desnecessária. Em
troca da obediência completa, o bondoso esquerdismo triunfante
concede-nos o direito de viver. Mas mesmo esse direito é limitado. A
violência estatal não desapareceu: apenas transformou-se em violência
indireta. Para manter a população num estado de terror perpétuo basta a
criminalidade livre de entraves, estimulada por organizações próximas do
partido governante, ao qual as massas e até as elites, ignorantes disso,
acorrem em busca de socorro, fechando pelas duas pontas, legal e ilegal,
oficial e extra-oficial, o quadro da onipotência. É a perfeita
consumação, por novos meios, da clássica estratégia comunista da
"pressão de baixo" articulada com a "pressão de cima". As hordas de
delinqüentes desempenham aqui o papel que na Europa e nos EUA cabe aos
imigrantes ilegais: são o exército de reserva mediante cuja ameaça a
esquerda mantém sob rédea curta as veleidades de toda oposição
"direitista" possível.
O rótulo geral de "esquerda pós-marxista", usado por Gottlieb, é talvez
um tanto prematuro, por duas razões. Primeira: o reinado da esquerda
assim chamada não é uma situação totalmente nova e imprevista, mas a
consumação exata dos planos de Antonio Gramsci e o resultado da
aplicação sistemática da sua estratégia voltada a tranformar a ideologia
esquerdista na "autoridade onipresente e invisível de um imperativo
categórico, de um mandamento divino" ( sic). Segunda: os teóricos
esquerdistas principais de hoje em dia, Antonio Negri, Istvan Meszaros,
Immanuel Wallerstein e até o exótico Slavoj Zizek continuam filiados à
tradição marxista, e não somente em nome, mas nas categorias gerais do
seu pensamento. Também não é prudente ignorar o surto de neo-marxismo
asiático, cuja influência sobre a esquerda européia e americana já
começa a se fazer sentir (v. Toni E. Barlow, ed., New Asian Marxisms,
Durham, Duke University Press, 2002). Afinal, como creio ter explicado
claramente algum tempo atrás, é impossível definir o marxismo como uma
teoria, como uma filosofia, como um programa de ação política e até como
uma ideologia: o marxismo é uma cultura, no sentido antropológico do
termo. Sua unidade não reside em nenhum corpo de doutrina, mas no apego
ritual da comunidade a um conjunto de símbolos que expressam a sua
identidade e o seu anseio de subsistência eterna, e que por isso mesmo
sobrevivem intactos não só às variações doutrinais mais extravagantes e
contraditórias mas a sucessivos e aparentemente devastadores choques de
realidade (v. a série de artigos http://www.olavodecarvalho.org/semana/031218jt.htm,
http://www.olavodecarvalho.org/semana/040101jt.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/040108jt.htm
).
Mais exatamente, o marxismo é uma subcultura dentro da "cultura da
revolução mundial", ou, como prefere chamá-la J. L. Talmon, da "religião
da revolução", cuja origem expliquei brevemente em artigos anteriores.
Ao lado do anarquismo (do qual prometo falar outro dia), ele é a
terceira dessas subculturas. O iluminismo foi a primeira, a rebelião
romântica a segunda. Enquanto subsistir a cultura da revolução, nenhuma
dessas subculturas desaparecerá para sempre. Extinta a sua vigência
histórica mais espetaculosa, subsistem como camadas profundas do
subconsciente, prontas a vir de novo à tona ao primeiro sinal de
debilitação da camada mais recente e superficial. A cultura da revolução
revigora-se por meio dessas periódicas irrupções do passado. Quando o
marxismo soviético começou a fazer água, após o relatório Kruschev de
1956, a "New Left" dos anos 60, irmã siamesa da "New Age", foi buscar
alento num renouveau romântico e irracionalista, calcado não somente no
romantismo originário oitocentista mas no modernismo pré-nazista dos
anos 20 com seu apelo à "natureza", ao culto do corpo e da juventude, ao
orientalismo e indigenismo "multiculturais", ao pan-sexualismo e à
"experiência iluminadora" das drogas.
Como a mitologia da "New Age" ainda está viva e atuante, constituindo
mesmo a força inspiradora por trás de todo o globalismo ecológico,
abortista, gay e feminista, não era a ela que nos anos 80 a cultura da
revolução podia pedir socorro após o segundo abalo sofrido pela
subcultura marxista com a glasnost e a seqüência de autodissoluções do
movimento comunista que culminou na queda do Muro de Berlim e na
auto-supressão da URSS. Desta vez o apelo foi a uma camada mais antiga
do mito revolucionário: o iluminismo. Da noite para o dia, esquerdistas
desiludidos retiravam do baú os fantasmas de Voltaire e Diderot, faziam
discursos grandiloqüentes em nome da "Razão" e batiam no peito
anunciando, em vez do socialismo científico, o advento global das
"Luzes". No Brasil, o mais patente sintoma disso foi o sucesso obtido na
esquerda pelos livros de Sérgio Paulo Rouanet, As razões do Iluminismo
(1987) e O Espectador Noturno. A Revolução Francesa através de Rétif de
la Bretonne (1988). Apenas trinta anos antes, ninguém na esquerda falava
dos philosophes senão com aquela empáfia com que Marx os reduzia a
precursores "burgueses" da revolução proletária. Agora, com o comunismo
soviético dissolvendo-se a olhos vistos, as fórmulas grandiosas e ocas
do iluminismo eram mais que uma tábua de salvação: eram uma injeção de
otimismo no corpo debilitado da religião revolucionária, ameaçada de
morte próxima pelo "fim da História" que Francis Fukuyama anunciava
triunfalmente.
Pode-se notar, en passant, que, assim como os anos 60 apelaram ao
romantismo em suas duas versões, a originária oitocentista e a
modernista, a ressurreição iluminista não se socorreu somente dos
Voltaires e Diderots, mas do seu herdeiro tardio, o
cientificismo-evolucionismo da segunda metade do século XIX. De repente,
os velhos preconceitos cientificistas de Ernest Haeckel e Ludwig Büchner,
que pareciam mortos e enterrados desde as análises implacáveis que lhes
concederam as escolas fenomenológica, existencialista e culturalista nas
primeiras décadas do século XX, ressurgiam com toda a força,
prevalecendo-se da prodigiosa ignorância filosófica das novas gerações.
O evolucionismo, em particular, afirmava-se de novo não só como única
teoria válida para explicar a variedade das espécies animais (reprimindo
os críticos por meio do boicote profissional, de legislações restritivas
e de campanhas difamatórias), mas como princípio explicativo universal,
capaz não só de abranger desde os protozoários até as esferas mais
elevadas da religião, da arte e do pensamento, mas de substituir as
religiões tradicionais como base única e suficiente da moral e da
civilização. E isso justamente no momento em que a contribuição do
darwinismo para as ideologias nazista e comunista, longamente negada
pelos grão-sacerdotes do culto evolucionista, aparecia finalmente como
um fato histórico bem comprovado (v. o DVD de Richard Weikart, Darwin's
Deadly Legacy. The Chilling Impact of Darwin's Theory of Evolution, em
www.wnd.com). Na esteira do cientificismo, o anticristianismo militante,
que o comunismo soviético havia abandonado em favor de uma política de
infiltração e corrosão interna das igrejas, ressurge com virulência
inaudita tão logo o pretexto do "diálogo" com os cristãos perde sua
razão de ser. E ressurge pelas mãos de quem? Não dos esquerdistas
radicais, mas dos liberais iluministas, a retaguarda salvadora da
revolução.
Nenhuma das três camadas da religião da revolução -
iluminismo-cientificismo, romantismo-modernismo, marxismo-anarquismo -
poderá jamais ser considerada extinta enquanto a própria religião da
revolução continuar viva. A todo momento, cada uma delas pode ser
trazida de novo à tona para reforçar a fé vacilante dos revolucionários,
abalada pelo choque de realidade ou pela constatação de seus próprios
crimes, infinitamente mais graves do que todos os males que o culto da
revolução professou eliminar. O marxismo só morrerá quando o próprio
sentimento de unidade da tradição revolucionária internacional se
dissolver nas brumas do tempo.