Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Fevereiro 2007
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18/02/07
•
Gosto de Brasil
----- Original Message -----
From: M
To: undisclosed-recipients
Sent: Sunday, February 18, 2007 6:32
AM
Subject: Gosto de Brasil
Amigo/a
Rachel morreu em novembro de 2003, aos 83 anos de uma bela e
fértil vida.
O texto abaixo, recuperado por Jaime Gimenez, foi publicado na revista O
Cruzeiro em fins de '70. Nele, a cronista abre-nos uma janela em seu
dia-a-dia sobre o espírito da nação naqueles tempos de governo militar.
Um tal testemunho precisa ser lido principalmente pelos jovens, hoje
alimentados pelas campanhas de esquerdopatas que re-escrevem a História
pela ótica torta de suas mentes idem.
O então chamado Milagre Brasileiro, totalmente ignorado por nossa atual
juventude, foi a elevação do Brasil da 47a. para a 8a. posição no
ranking das economias mundiais, fruto do trabalho inteligente de homens
íntegros das nossas Forças Armadas, pautados pela visão liberal de
Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.
Sei, vc pode até não acreditar mas, naqueles tempos aquelas fardas eram
vestidas com orgulho, símbolos vivos de Inteligência, Valor, Brio e
Honra...
Foi a primeira e única vez em que a doutrina liberal conduziu nossa
economia. E seus esplêndidos resultados mereceram do mundo o adjetivo
"milagrosos".
A fantástica eclosão de prosperidade foi sustada pelos consecutivos
'choques do petróleo', que em '73 e '79, elevaram os preços do barril,
brutalizando a economia de todos os países que, como o Brasil, dependiam
da importação desta fonte energética.
Nossa fragilidade neste campo resultava da estupidez nacionalisteira do
criador da Petrobrás: - Getúlio Dornelles Vargas, a Anta Gaúcha,
contrariando a insistente orientação de Roberto Campos que aconselhava a
abertura da empresa ao capital estrangeiro de forma a permitir uma
intensa prospecção, fechou-a num monopólio exclusivamente nacional. E
atrasou nossa independência em petróleo em mais de 50 anos, mantendo-nos
reféns da predatória política de preços dos produtores.
Ainda assim, mercê das obras de modernização estrutural criadas pelos
governos militares - e não obstante o desastre sobre duas pernas e uma
pança, conhecido por "o Gordo" - nossa economia se manteve produtiva e
ascendente. Até Figueiredo entregar o governo a esta coisa não
adjetivável por gente educada, José Sarney que, entre outros brindes,
conseguiu dar-nos uma inflação superior a 80% ao mês.
Estou convicto de que Sarney, Collor de Melo, FHC e a anta
quadridigitada são provas indiscutíveis de que - ao contrário da
presunção nacional - Deus não é brasileiro. Muito provavelmente é
argentino. Pior, porteño.
Mas, leia a Rachel. E entenda porque chamo àqueles anos de Primavera
Liberal, tão mais brilhantemente ensolarada ao comparar-se com esta
nossa atual, medonha, escuridão comuno-petista.
Se puder, divulgue, ajude nossa gente a recuperar a memória de um tempo
em que éramos felizes e sabíamos.
Bom proveito e
o abraço amigo do
M.
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O Cruzeiro - 15 de setembro de 1970
Gosto de Brasil
Rachel de Queiroz
Aproximam-se as eleições parlamentares e o país todo é uma grande
interrogação. Embora eu ainda não acredite que a resposta das urnas já
seja, propriamente, uma resposta à obra dos homens do 31 de março. O
prazo decorrido ainda foi curto, com tantas interrupções pelo meio.
Nota-se contudo que há no povo uma grande sensibilização que só se pode
chamar de patriótica: um interesse novo pelo Brasil, um gosto de dizer o
nome do Brasil, de falar que é brasileiro, de usar a bandeira, de pintar
as coisas de verde e amarelo, de sentir o Brasil grande. Talvez o
elemento desencadeador dessa euforia tenha sido o resultado da Copa do
Mundo; mas o interessante é que a euforia não passou, mesmo depois de
passadas as comemorações do feito esportivo.
Acho que, essencialmente, todos os brasileiros estávamos cansados da
estagnação no subdesenvolvimento, do sentimento de sermos
irremediavelmente pobres, pregados no atraso e na desordem de um país de
segunda classe. Estávamos ansiosos por qualquer coisa que levantasse o
orgulho nacional. Estávamos fartos da esterilidade da contestação e do
protesto. Digo isso quanto à maioria, que os grupos minoritários, todos
sabem, são um caso à parte; e, afinal, quem conta é a maioria.
Vejam-se, por exemplo, os homens do show-business, que têm as antenas
sempre orientadas no sentido das preferências populares. Eles
abandonaram decididamente a contestação e o protesto, que até bem pouco
tempo eram a tônica de qualquer espetáculo, às vezes metidos à força,
com propósito ou sem propósito, até mesmo quando o texto não dava pé. E
não se diga que êsse abandono do protesto é obra da censura, pois mesmo
nos momentos de censura mais severa há meios de chegar até ao limiar do
permitido e insinuar ou dizer entre linhas o que abertamente não pode
ser dito. Acontece é que evidentemente o público já não prestigia os
shows de protesto; não vai ver, não compra entradas. Os letristas da MPB
sintomaticamente deixam de falar só em irmão, em paz, em mão aberta, em
guerra, em fome, em sangue e demais chavões do cancioneiro
contestatório. A onda do Patropi continua crescendo; o êxito do País
Tropical ainda não sofreu colapso, pelo contrário, vai sempre em maré
montante, já agora através dos imitadores, pois só se imita o que está
de cima.
Afinal, o povo não é cego nem é burro. E o povo está vendo que os homens
trabalham, e lhe entram pelos olhos os bons resultados desse trabalho.
A situação econômica, entre outras coisas, está na cara, para quem
quiser enxergar. O controle da inflação, que parecia impossível, hoje já
se considera conquista assegurada. A exportação cada vez maior e mais
diversificada, as marcas “Indústria Brasileira” ou “Made in Brazil”
espalhadas pelas sete partes do mundo. Os problemas da educação sendo
enfrentados - e na maioria resolvidos ou em caminho de resolução. Essas
obras, pontes e estradas e cais e hidrovias e escolas e usinas elétricas
se expandindo por toda parte. O tal de Produto Nacional Bruto, a
entidade mística dos economeses, êsse, mesmo os técnicos mais
pessimistas já não podem esconder que cresce a olhos vistos, queimando
as estatísticas. Até Mr. Herman Kahn deixa de futurar para nós apenas
miséria e indignidade e nos tira amavelmente do fim da fila para um
lugar muito melhor.
Mas o bom mesmo é o cheiro de madrugada que se sente por toda parte. Um
gosto de deixar que os meninos cresçam. Uma confiança, uma segurança
novas, como se de repente houvéssemos descoberto que nem tudo está
perdido ou, pelo contrário, que nada está perdido. Que a terra é bela e
é nossa e quem tinha razão era mesmo o escrivão Caminha: em se querendo
plantar, dar-se-á nela tudo.