Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Agosto 2007
Índice Geral
06/08/07
• A lógica da destruição - Olavo/DComércio
----- Original Message -----
From: M
Sent: Monday, August 06, 2007 2:12 PM
Subject: A lógica da destruição - Olavo/DComércio - 06.08.2007
Mais uma aula de Olavo descrevendo magistralmente a 'lógica' da demência
destrutiva.
Acredito que se o leigo - em geral - pudesse perceber a verdadeira natureza
deste 'processo' e suas fontes motivadoras, haveria uma grita universal para
apenar-se com execução sumária todo esquerdopata, tamanho o potencial de
corrupção e destrutividade portado sob aparência de normalidade estatística.
As distorções cognitivas apontadas no texto são típicas do intelecto
emocionalmente sitiado, subordinado às exigências do inconsciente minado por
medo, ódio e ânsia por poder.
Por trás de Engels e Marx deveria haver uma inteligência e um conhecimento
das dinâmicas humanas vastamente superiores a destes dois cretinos mãos-do-gato, uma mente capacitada a criar uma super-estrutura conceitual
talhada a preceito e deliberadamente indutora de afastamento da realidade -
garantia absoluta do império da loucura mascarada e de suas conseqüências:
corrupção e destrutividade ilimitadas.
Aqueles de nós que enxergam nos lulas, mags e demais comunistas, tão somente
'ideólogos' desarvorados, não têm a menor noção da monstruosidade que os
motiva ou da imensidade de destruição de que são capazes.
Sem receio de exagero, acredito e repito:
são as mãos do inimigo mais mortal que a espécie humana já encontrou.
E se isto não for compreendido...
...que Deus nos ajude!
M.
Em tempo:
Não deixem de ouvir hoje, 06 de agosto, às 20:00 h. em
www.blogtalkradio.com/olavo
o TRUE OUTSPEAK (Sinceridade de fato) Talk show de Olavo de Carvalho.
---------------------------------------
A lógica da destruição
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 06 de agosto de 2007
Não conheço hoje em dia um único esquerdista que consiga ler uma página inteira
de Hegel, mas na prática a conduta política e até pessoal de todos eles reflete
a lógica do filósofo de Jena com uma exatidão quase literal. O modo dialético de
pensar se impregnou tão profundamente na cultura do movimento revolucionário,
que se transmite aos militantes, simpatizantes e “companheiros de viagem” por
impregnação passiva de hábitos, de símbolos, de reações emocionais, de giros de
linguagem, sem necessidade de aprendizado consciente nem possibilidade de
filtragem crítica.
Os adversários do esquerdismo, por sua vez, estão de tal modo habituados a
esquemas de pensamento lógico-formais, absorvidos seja das ciências naturais,
seja da economia austríaca, seja mesmo da formação escolástica no caso dos
católicos, que tendem incoercivelmente a explicar a conduta esquerdista em
termos da coerência linear entre doutrina e prática, ou entre fins e meios, e
assim perdem de vista o que há de mais característico no movimento
revolucionário, que é justamente o aproveitamento sistemático das contradições.
Só isso pode explicar que seus repetidos sucessos no campo econômico e
tecnológico sejam acompanhados de derrotas cada vez mais espetaculares na
cultura e na política.
Não posso aqui dar um resumo da filosofia de Hegel, mas há alguns pontos mínimos
sem os quais nenhuma compreensão da mente esquerdista é possível. Quem não tiver
a paciência de aprendê-los deve portanto conformar-se em ser vítima inerme e
cega do processo revolucionário, sem direito a sentir-se perplexo quando este o
conduzir a um campo de trabalhos forçados ou à vala comum dos “inimigos de
classe”.
Desde que Platão enfatizou a separação entre o mundo dos entes corpóreos e o
mundo das “idéias” (ou mais propriamente “formas”), a distinção entre o absoluto
e o relativo, entre o Ser e os entes, entre o permanente e o transitório, entre
estrutura e processo, se incorporou às raízes do pensamento filosófico e
científico no Ocidente ao ponto de que não é exagero resumir todo o esforço
intelectual de dois milênios e meio na busca dos fatores estáveis por trás dos
fenômenos em mudança. A idéia mesma de “leis científicas” é isso e nada mais.
O empreendimento de Hegel consistiu em introduzir nesse sistema de distinções
uma confusão profunda, geral e aparentemente insanável. Partindo da observação
milenar de que o mundo dos fenômenos é uma aparência ou manifestação do
fundamento absoluto, ele dá um giro de cento e oitenta graus na relação entre os
dois mundos e reduz o absoluto ao conjunto das suas manifestações relativas. Diz
ele que o Ser, considerado em si mesmo, é idêntico ao nada; só a sucessão das
suas manifestações temporais lhe dá alguma consistência; logo, o tempo é a
substância da eternidade, o devir é a única realidade do ser. Já expliquei em
outro lugar por que essas teses são absurdas e por que não acredito que Hegel as
tenha emitido por mero engano, e sim por vigarice consciente (v. O Jardim das
Aflições , São Paulo, É Realizações, 2004, pp. 168-169 e 176-179). Mas o que
interessa aqui é mostrar as conseqüências metodológicas que ele tirou delas,
pois foram essas conseqüências que acabaram por moldar a mentalidade do
movimento revolucionário.
Se o devir é o Ser e se o único processo autoconsciente no conjunto do devir é a
história humana, esta se torna automaticamente o campo por excelência da
auto-realização do Ser. O Espírito, o Absoluto ou Deus é uma potencialidade
inconsciente de si, que só se conhece e se realiza no processo histórico tal
como Hegel o compreende (o que implica, naturalmente, que Hegel em pessoa seja o
ponto mais alto da autoconsciência divina, modéstia à parte). Como no curso do
processo todos os momentos altos e baixos são igualmente necessários, todos eles
são igualmente portadores da verdade. A diferença entre a aparência e a
realidade, que para o pensamento antigo coincidia com a fronteira entre o
transitório e o permanente, é assim sutilmente deslocada para dentro do terreno
do próprio transitório: a única verdade de cada fenômeno é o lugar que ele ocupa
no conjunto do processo (tal como Hegel entende o processo). O falso, o
ilusório, é apenas o que está isolado do processo, mas, como nada está isolado
do processo, o falso não existe, é apenas uma aparência de falsidade. A verdade,
por sua vez, consiste apenas em estar inserido no fluxo total, isto é, em ir
para onde Hegel acha que as coisas vão.
Essa é a lei profunda que orienta e unifica o movimento revolucionário em todas
as suas variantes e modificações. Por exemplo, é notório que Marx ou Lênin
jamais se preocuparam em descrever como seria a futura sociedade socialista. Ao
mesmo tempo, asseguram que todo o movimento histórico vai na direção do
socialismo. Mas como é possível saber com certeza que um certo desenlace é
inevitável, se não se sabe nem mesmo dizer que desenlace é esse? A resposta
implícita é a seguinte: não é a finalidade que determina o processo, mas o
processo é que determina a finalidade. Esta não é senão o processo mesmo
considerado na sua totalidade. Isso implica, naturalmente, que a finalidade
conscientemente alegada em cada momento pode mudar de figura um número infinito
de vezes sem que se perca a unidade do processo. Por isso é que os esquerdistas
tanto mais se apegam à unidade do movimento revolucionário quanto mais os
objetivos pelos quais lutam em vários lugares e momentos são inconexos e
contraditórios entre si. Os militantes seguem a liderança com igual fidelidade
quando ela os manda fomentar a economia de mercado ou substituí-la pela
estatização dos meios de produção; quando ela os manda combater todo
nacionalismo como expressão da obstinação reacionária ou, ao contrário, criar
movimentos nacionalistas; quando ela apóia o nazismo ou luta contra o nazismo;
quando ela condena a liberdade sexual como sinal da decadência burguesa ou
quando ela fomenta a mais extrema anarquia erótica contra o império do
“moralismo burguês”. E assim por diante. O observador alheio às sutilezas do
esquerdismo vê nisso incoerências escandalosas que, a seu ver, ameaçam a unidade
do movimento revolucionário ao ponto de torná-lo inofensivo perante os triunfos
econômicos e técnicos do capitalismo. Mas é dessas incoerências que se alimenta
o processo – e o processo é tudo. Quando já no século XIX os revolucionários
adotaram o uso de designar-se a si próprios genericamente como “o movimento”,
estava claro para eles que a unidade desse movimento não estava na luta por
objetivos definidos, mas na capacidade ilimitada de comandar o processo total
das transformações, pouco importando a direção para onde estas fossem a cada
momento. A ambigüidade, as manobras em zigue-zague, a incoerência mais
alucinante incorporaram-se não só à práxis do movimento revolucionário, mas à
personalidade de cada um dos seus participantes, tornando-as virtualmente
incompreensíveis ao adversário que desconheça dialética de Hegel.
Hegel acrescentou a essa concepção a idéia peculiarmente diabólica do “trabalho
do negativo”. O movimento deve reduzir ao mínimo indispensável o compromisso com
objetivos definidos e concentrar-se na destruição do existente. A destruição
acabará determinando os objetivos em cada etapa, pronta a trocá-los no instante
seguinte se isto for útil à unidade do processo.
A mobilidade que esse modo de pensar confere à ação revolucionária desnorteia
por completo o adversário, que ao opor-se aos objetivos momentâneos da revolução
nem imagina que pode já estar colaborando com a próxima etapa do processo. Um
dos aspectos mais perversos da mente revolucionária é justamente que nela é
impossível distinguir com clareza a ação profunda e a camuflagem externa. O que
num momento é mera camuflagem e pretexto pode se transformar em objetivo real da
ação no instante seguinte, e vice-versa. Quando o adversário imagina que
desvendou o ardil revolucionário, o ardil já se transformou no seu oposto. O
governo militar brasileiro, por exemplo, achou que perseguindo a “esquerda
armada” e fazendo vista grossa às ações aparentemente inócuas da “esquerda
desarmada” estava dividindo e enfraquecendo o movimento revolucionário. Mas a
ala desarmada se aproveitou dessa mesma divisão para ir tecendo em segredo a
rede da hegemonia cultural gramsciana enquanto os soldados trocavam tiros com
Marighela e Lamarca. Quando o regime caiu, a esquerda que parecia vencida se
levantou como que do nada e rapidamente dominou o país, fazendo da derrota das
guerrilhas uma vitória política espetacular.
O movimento revolucionário, enfim, não obedece às leis da “ação racional segundo
fins” conforme as definia Max Weber e pelas quais o adversário procura em vão
explicá-la. Na ação normal humana, a distinção entre meios e fins é essencial ao
ponto de que o predomínio dos meios serve como prova de que os fins não foram
atingidos. Quando, ao contrário, o objetivo é nebulosamente indefinido e tudo
quanto conta é a unidade profunda do movimento em si, os meios transformam-se
incessantemente em fins e os fins em meios e pretextos. Alguns estudiosos de
Hegel disseram que sua Lógica não é propriamente uma lógica, mas uma ontologia,
uma teoria sobre a estrutura da realidade. Acreditei nisso durante algum tempo,
mas hoje vejo que não pode haver uma teoria do ser quando se começa por
dissolver a substância do ser na idéia do processo. A lógica de Hegel é nada
mais que uma psicologia, um estudo dos processos cognitivos que orientam (ou
melhor, desorientam) o movimento da história humana. Sob certos aspectos, é
mesmo uma psicopatologia – a lógica interna do desvario revolucionário.
É interessante, por exemplo, observar a imensa distância que há entre os
critérios de veracidade do revolucionário e os do intelectual ou homem de ação
formado na tradição ocidental da lógica e da ciência. Para estes últimos, a
verdade é o pensamento confirmado pela experiência, de modo que as verdades
podem ser conhecidas uma a uma, articulando-se aos poucos em conjuntos maiores.
Para o revolucionário hegeliano, ao contrário, não existe a verdade dos fatos
nem a verdade do ser: a única verdade é a do processo histórico, isto é, a
verdade da revolução. Cada idéia ou proposição que se pretenda verdadeira deve
portanto ser julgada tão somente pelo papel que desempenha no conjunto do
processo. Se ela o faz avançar ou fortalece, ela é verdadeira; caso contrário é
falsa, mesmo que coincida com os fatos. Vou lhes dar um exemplo local. Quando
começaram a espoucar os movimentos de protesto contra o governo Lula, a reação
dos porta-vozes petistas foi imediatamente atribuí-los às “elites”. Mas não era
o próprio PT que, poucos meses antes das eleições de 2002 e 2006, se gabava de
ter (e tinha mesmo) o voto da classe mais culta, portanto mais rica, enquanto os
demais partidos exploravam a credulidade de uma multidão de pobres analfabetos?
É inútil, diante disso, acusar o petismo de hipocrisia. A hipocrisia subentende
a distinção entre a verdade conhecida e a falsidade alegada. Mas, na perspectiva
revolucionária, verdade e falsidade factuais são intercambiáveis, já que não
existe verdade no nível dos fatos e sim apenas no processo como um todo.
Fortalecer o partido revolucionário é realizar a verdade do processo, que abarca
e transcende ou anula as verdades parciais e transforma as falsidades em
verdades. Ser o partido dos pobres é uma imagem que fortalece o partido
revolucionário, mas ser o partido das pessoas cultas também o fortalece. A
ênfase do discurso pode portanto recair num ponto ou no outro conforme as
circunstâncias. Fatos e pretextos são apenas a matéria plástica com que o
discurso revolucionário molda a verdade do processo, isto é, a sua própria
vitória.
Outro exemplo. O mesmo movimento revolucionário que criminaliza a religião,
lutando para eliminá-la por meios que vão da propaganda ao genocídio, busca se
traduzir numa linguagem religiosa que o apresenta como a mais pura e elevada
expressão dos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Novamente, a verdade
não está nem na pregação anti-religiosa nem na parasitagem do Evangelho: está no
processo que se fortalece e se amplia pela força dessa mesma contradição,
absorvendo ao mesmo tempo a energia da crença religiosa e a do ódio
anti-religioso.
Pessoalmente, já fui acusado por esquerdistas de ser um pobretão fracassado e de
ser um afilhado de poderosos, beneficiado por um fluxo abundante de verbas
misteriosas. Não sou tolo o bastante para denunciar isso como contradição. Se o
processo tem de avançar seja pela afirmação seja pela negação, seu adversário
tem de ser acusado e destruído per fas et per nefas , como o cordeiro da fábula.
Isto pode nos parecer o cúmulo da canalhice, mas nenhuma canalhice em particular
se compara com a mãe de todas as canalhices, que é o movimento revolucionário em
si. O militante que o serve por meio de uma conduta moralmente impecável –
segundo critérios “burgueses” de julgamento – pode parecer mais aceitável aos
observadores ignorantes do que o trapaceiro compulsivo tipo José Dirceu ou Lula.
Mas ele sabe perfeitamente que sua elevada moralidade é a camuflagem com que o
movimento encobre as ações dos embusteiros e vigaristas, tão necessárias quanto
as dele e unidas a elas por um nexo de solidariedade essencial. O “esquerdista
honesto”, no fundo, é o mais vigarista de todos. Onde o verdadeiro e o falso são
intercambiáveis, também têm de sê-lo o certo e o errado, o lícito e o ilícito.
Mas o abismo entre a mente revolucionária e a lógica do homem comum vai ainda
mais fundo. Este último acredita que pode conhecer verdades parciais por
observação direta e inferência simples, mesmo ignorando as verdades últimas e
supremas. Não é preciso ser um sábio ou profeta iluminado para distinguir a
verdade e o erro nas situações imediatas. Qualquer que seja o sentido último da
existência, e mesmo supondo-se que jamais venhamos a conhecê-lo, os fatos são os
fatos, e eles julgam a veracidade ou falsidade das nossas idéias. Para o
revolucionário, no entanto, os fatos são aparências parciais ambíguas, cuja
única veracidade está no “todo”, isto é, no conjunto do processo revolucionário.
É este que julga os fatos, sem poder ser julgado por eles. A diferença de planos
entre esses dois modos de apreensão da realidade é irredutível e imensurável. Os
fatos são conhecidos por intuição direta a partir dos sentidos. O “processo”, ao
contrário, é uma construção mental complexa, uma teoria. O homem comum, quando
constrói teorias, as erige com base nos fatos e testa sua veracidade pelos
fatos. O revolucionário não pode fazer isso. Ele inverte portanto a ordem
racional do “dado” e do “construído”, do evidente e do hipotético, tomando este
último como verdade imediata e aquele como sinal algébrico cujo valor só a
teoria, realizando o processo num prazo incerto e por meios imprevisíveis,
poderá decidir. Não há, pois, diálogo entre o revolucionário e o homem comum.
Este não entende a lógica daquele, aquele rejeita e destrói pela violência da
teoria e da práxis os critérios de veracidade em que este deposita toda a sua
confiança.
Esse abismo cognitivo revela-se, a todo momento, nas análises e previsões que os
conservadores e liberais inexperientes em estudos revolucionários insistem em
fazer de um processo cuja lógica lhes escapa no todo e nos detalhes. Eles se
escandalizam, por exemplo, de que o partido líder das campanhas moralizantes
tenha se transformado no mais corrupto de todos os partidos tão logo seu chefe
chegou à Presidência. Apelam até ao adágio “O poder corrompe”, explicando o
contraste pelas más companhias, sem notar as únicas más companhias visíveis no
horizonte são os chamados “neoliberais”, isto é, eles mesmos, que assim aparecem
no fim das contas como os culpados dos crimes do partido governante, com grande
regozijo para as facções de esquerda que desejam se desvincular da imagem do PT
conservando intacto o mito da santidade esquerdista. Mas é claro, para quem
conhece o assunto, que não há contradição objetiva nenhuma entre o virulento
moralismo petista dos anos 90 e o festival de devassidão governamental da década
seguinte. Ambos são momentos do processo, igualmente necessários, igualmente
úteis, igualmente meritórios do ponto de vista da moral revolucionária. Ambos
fazem parte do “trabalho do negativo”: a onda de acusações indignadas destrói a
confiança pública nas instituições, a corrupção desde cima desmantela a ordem
legal para que o Partido se sobreponha ao Estado e o neutralize.