Blog do M
(Márcio Del Cístia)
Abril 2007
Índice Geral
16/04/07
• Os quadrilheiros na Infraero
estão esperando o quê?
ESP – 15 abr 2007
Loteamento político da Infraero foi ponto de
partida do caos aéreo
Análise de organograma mostra que empresa é dirigida por um consórcio de 6 partidos, governistas e de oposição
Christiane Samarco
Alvo certo da CPI do Apagão Aéreo que o Congresso está prestes a instalar, a Infraero vive uma espécie de 'efeito Orloff' da situação enfrentada pelos Correios em 2004, palco de escândalo nacional depois da malsucedida experiência do loteamento político por pelo menos três partidos (PT, PMDB e PTB). O organograma da Infraero acomoda 33 postos de comando - do presidente e seus 5 diretores aos 19 superintendentes nacionais e 8 regionais espalhados pelo País. Mas o exame minucioso do colegiado revela que a empresa é dirigida por um consórcio eclético de fisiologismo que junta seis partidos aliados e de oposição ao governo.
Convivem ali afilhados de parlamentares do PT, PMDB, PTB, PSB, do recém-criado PR (ex-PL) e até do antigo PFL, rebatizado no mês passado de Democratas. Todos atentos aos R$ 878 milhões de investimentos em aeroportos que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê para este ano.
Esse cenário inspirou o brigadeiro Edilberto Sirotheau a escrever uma carta de demissão premonitória da Superintendência de Segurança Aeroportuária, em abril de 2005. Sirotheau deixou a Infraero denunciando a 'obsessiva prioridade às obras que proporcionam 'visibilidade', em detrimento das necessidades operacionais'. O brigadeiro previa 'ocorrências graves em futuro próximo'.
A profecia do brigadeiro se cumpriu 17 meses depois, com o choque entre um jato Legacy, da Excel Aire (EUA), e um Boeing da Gol, que matou 154 passageiros.
A
tragédia desencadeou a operação-padrão dos controladores e trouxe à tona
casos como o do Aeroporto de Congonhas: obras em ritmo apressado nos
salões de embarque para acomodar lojas e publicidade, com mais conforto,
sem dúvida, para os passageiros, mas com a reforma das pistas atrasada em
pelo menos quatro anos.
O protesto de Sirotheau gerou polêmica, mas nem por isso a pressão política arrefeceu de lá para cá. O atual presidente da empresa, brigadeiro José Carlos Pereira, chamado pelos funcionários de 'J. Carlos', ampliou as indicações políticas do antecessor, deputado Carlos Wilson (PT-PE). Na guerra de bastidores que trava com Wilson, é o deputado que se diz espantado com a 'ousadia' do brigadeiro.
PECADO
CAPITAL
Para atender a indicações políticas, Wilson chegou a dividir o Nordeste em duas regiões, distribuindo o território por dois afilhados: um governista e outro da oposição. Mas Wilson diz que o brigadeiro 'J. Carlos' cometeu um erro grave ao abrir cargos técnicos da Infraero a políticos - uma referência aos superintendentes regionais do Leste e do Sudeste.
No caso da Superintendência do Leste, com sede em São Paulo e onde estão aeroportos estratégicos, Edgard Brandão Júnior foi nomeado para atender a um padrinho ilustre: o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reconhecido por funcionários e diretores da empresa como responsável pela indicação do superintendente que administra os Aeroportos de Congonhas e Guarulhos.
Um
funcionário de carreira da Infraero atribui boa parte da crise por que
passa a empresa ao 'pecado capital' que o brigadeiro teria cometido quando
engendrou sua sucessão. Apontado ele próprio como afilhado do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, por conta da amizade de sua ex-mulher com a
primeira-dama Marisa Letícia, Pereira era diretor de Operações na gestão
Carlos Wilson. Sua cadeira vinha sendo tradicionalmente ocupada por
brigadeiros da reserva, que se encarregavam, entre outras funções, da boa
interlocução com os sargentos controladores de vôo.
Ao
desocupar o posto, Pereira atendeu a uma indicação do PMDB e pôs na
direção de Operações um civil. O problema é que o civil nada tinha que ver
com a Infraero e, pior, já havia sido pivô de uma crise política na base
de apoio do governo Fernando Henrique Cardoso, quando o mesmo PMDB tentou
emplacá-lo no comando da Companhia Docas do Pará. À frente da liderança
peemedebista na Câmara, o deputado e hoje ministro da Integração Nacional
Geddel Vieira Lima (BA) chegou a protestar da tribuna contra o recuo de
Fernando Henrique, que simplesmente 'desnomeou' Rogério Amado Barzellay,
depois de confirmá-lo oficialmente nas Docas. O então presidente só
manteve o despejo do apadrinhado do PMDB porque o governador tucano Almir
Gabriel (PA) ameaçou deixar o PSDB se Barzellay permanecesse no cargo.
MAPA DIVIDIDO
Na gestão Carlos Wilson, que
nos tempos de presidência da Infraero era um ex-senador filiado ao PTB, a
estatal deu jeito na pressão do então PFL baiano para acomodar os aliados
do senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) com uma solução tipicamente
fisiológica: inventou dois Nordestes. Foi assim que ele conseguiu manter
na regional do Nordeste, com sede no Recife , um superintendente técnico
do agrado do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e do PFL
pernambucano, sem protestos. Para tal, criou a regional do Centro-Leste -
formada apenas pelos dois Estados então governados por pefelistas (Bahia e
Sergipe) - onde ACM emplacou o técnico Elvino Ney Taques.
Logo que assumiu, Wilson
teve de administrar o presidente de seu PTB, o ex-deputado Roberto
Jefferson (RJ), que ameaçou romper com o Palácio do Planalto por conta da
decisão de Lula de entregar-lhe o comando da Infraero. Como prêmio de
consolação, Jefferson ganhou o direito de indicar o superintendente
regional do Leste, que administra os Aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim
(antigo Galeão) - também estratégicos na órbita do loteamento político.
Bastou
Jefferson romper com o governo e o PTB perdeu o cargo para o PT, que,
aliado à CUT, indicou para o posto o sindicalista Pedro Azambuja. Já o
superintendente do Centro-Oeste, Carlos Alberto Vilela, é fruto de uma
indicação do PR do vice-presidente José Alencar. Mas seu padrinho é o
deputado Aelton Freitas (PR-MG), suplente de Alencar no Senado. O técnico
Nilo Sérgio Reinehr, da regional Sul, tem a simpatia do PSB do vice-líder
do governo na Câmara, Beto Albuquerque (RS).
A lista de padrinhos inclui
também políticos agora sem mandato. É o caso do ex-deputado Leur Lomanto
(PMDB-BA), que perdeu a eleição para a prefeitura de Jequié (BA), mas
ganhou uma diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Foi ele
quem indicou Lincoln Delbone para a Superintendência de Relações
Comerciais da Infraero. Funcionários da empresa contam também que o
diretor de Administração, Marco Antonio Marques de Oliveira, faz questão
de expor sua ligação com o ex-presidente Itamar Franco, com quem havia
trabalhado na Secretaria de Obras do governo de Minas.
Brigadeiro usou
carta de demissão para denunciar degradação da segurança
A discrição e a disciplina
são marcas características dos oficiais da Força Aérea em serviço. Não foi
diferente com o brigadeiro Edilberto Teles Sirotheau Corrêa. Mas, quando
decidiu se demitir da Superintendência de Segurança Aeroportuária da
Infraero, em abril de 2005, o brigadeiro fugiu ao próprio estilo.
A despeito dos apelos em
contrário, ele não abriu mão de denunciar, em sua carta de demissão, a
política da empresa de privilegiar obras de embelezamento nos aeroportos,
em detrimento da segurança.
No documento, guardado na empresa, Sirotheau falou de sua 'frustração de não haver conseguido os meios necessários para estruturar e operacionalizar as atividades de segurança aeroportuária'. Disse que a essa frustração acrescentava 'a discordância em relação à atual política de gestão da empresa, que degradou ao extremo a sua condição econômico-financeira'.
OBSERVAÇÕES PESSOAIS
Um funcionário da Infraero,
que testemunhou a demissão, conta que foi grande a pressão para que o
brigadeiro retirasse as 'observações pessoais' de sua carta. 'Fizeram o
diabo para ele tirar aquilo da carta, mas ele manteve os termos', relatou
o funcionário ao Estado.
A mesma fonte revela que Sirotheau fez questão de manifestar seu inconformismo com a ingerência política em setores públicos ligados à aviação. Também não teriam faltado críticas ao loteamento dos cargos por critério político-partidário, o que poderia pôr em risco atividades públicas que exigem capacidade técnica e especialização.