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Até que a morte os separe!
Bruno Tausz
Cinófilo e Etólogo - Rio de Janeiro - RJ
Não, não vou falar de casamento! Existem coisas mais importantes.
As pessoas podem decidir o que fazer de suas vidas, infelizmente os cães não
podem. Estou cansado de receber telefonemas ameaçadores no canil:
Voz - Estou com um probleminha... será que vocês podem me ajudar? É que eu
vou me mudar para um apartamento e, lá no condomínio, eles não aceitam
cachorro, depois ele já mordeu meu filho e quer atacar as pessoas, mas ele é
ótimo... tenho um carinho enorme por ele e estou sofrendo muito porque vou ter
que me desfazer dele. Então eu gostaria de doar para alguém que ame os cães e
sei que irá tratá-lo muito bem... vocês aí aceitam doações?
BT - Infelizmente não podemos aceitar doações, procure a Sociedade Protetora
dos Animais.
Voz - Eles não aceitam, se vocês não aceitarem vou ter que mandar
sacrificar...
Isto dito em tom de ameaça!
O que pode um cão fazer quando não "serve" mais?
Em primeiro lugar, quando uma pessoa decide ter um cão, deve pensar muito bem,
pois ele, supostamente, irá conviver com ela em torno de 10 a 12 anos. Claro
que devemos pensar que essa união será até que a morte nos separe. Mas não a
eutanásia!
A Dor de Consciência
O primeiro passo é a doação! As pessoas tentam doar para quem certamente irá
cuidar muito bem do seu "amado" cãozinho. Será que fariam isso com
seu próprio filho?
Algumas dessas pessoas, porque não dizer, a maioria, quer se desfazer do seu
cão, e com razão, porque já teve problemas com ele. Ou ele mordeu alguém, ou
os vizinhos estão reclamando, ou foi proibido na convenção de condomínio ou,
simplesmente, o cachorro foi comprado para presente no aniversário do filho e o
filho encheu o saco e não quer mais o brinquedo.
Traduzindo em bom português, em virtude de sua dor de consciência, a pessoa
quer transferir o "problema" para outra pessoa. A outra pessoa vai
aceitar e vai ter os mesmos problemas. Rapidinho esse cão será doado
novamente.
Cada vez que um cão troca de dono, torna-se mais inseguro e, com razão, mais
agressivo.
O fim dele, com certeza, será o "sacrifício", termo abominável que
serve para esconder o verdadeiro sentido do ato: execução sumária!
Assassinato!
... e nós, humanos, ainda insistimos em classificar certos animais de
"Assassinos".
O Humano Teme, o Humano Mata!
Sempre foi assim. Olha quanto tempo a humanidade levou para entender as baleias.
Quantas baleias foram assassinadas até quase a extinção! Chamaram a orca de
baleia assassina. Mas ela só mata para sua própria subsistência, para comer,
e não do jeito perverso com que o fazemos com galinhas, bois, porcos, coelhos
etc.
Quando um tubarão ataca um surfista, que está fazendo, no entender dos
tubarões, o ritual terminal da morte, "debatendo-se" na superfície
da água como o fazem os peixes moribundos, sai em todos os jornais do mundo. Os
tubarões só dão a primeira mordida, porque a carne humana é muito ruim. Esta
é a razão de tantos sobreviventes a ataque de tubarões. Para cada surfista
atacado, o humano assassina perto de quinhentos mil tubarões, só para usar sua
cartilagem e vender, como remédio, porque dá lucro.
Nós tememos, nós matamos.
- É cobra? Mata por via das dúvidas, nãoo interessa se é venenosa ou não.
Mesmo as cobras venenosas só atacam para se defender ou para defender seu rango.
O "veneno" das cobras é igual ao nosso suco digestivo, só que, como
elas engolem a caça inteira, injetando esse suco para matar e não engolir o
bichinho vivo.
Nós, humanos e civilizados, montamos um abatedouro de gado, chegamos ao cúmulo
de nominar este abatedouro de "Abatedouro Santa Izabel" e assassinamos
os bois na base de porrada.
Nós, humanos e civilizados, temos esportes como a caça e o tiro ao pombo, só
para conferir nossa pontaria e passar horas agradáveis assassinando animais.
Antes de Comprar um Cão...
Um cão é um ser vivo, merece o nosso respeito! Nós humanos já passamos pela
fase de escravizar a mulher, depois de escravizar os inimigos e os
delinqüentes. Mais tarde fomos capazes até de comercializar escravos humanos
porque não acreditávamos que o negro possuísse alma.
Hoje ainda, usamos o trabalho escravo de animais como o boi de tração, o
cavalo de charretes e o cão de trenó.
Testamos medicamentos em animais para "evitar" de testar em seres
humanos. Por que o ser humano se acha mais importante que seus companheiros de
vida na terra? Por que procuramos vida em outro planeta quando ainda não
conseguimos compreender direito à vida daqui? Por que sujamos e depredamos o
nosso planeta e, ao mesmo tempo, desejamos colonizar o sistema solar
transformando Marte num planeta semelhante à Terra?
Temos que evoluir daí
Ainda hoje temos coragem para tirar a liberdade de um passarinho, que não
cometeu crime algum, só pelo prazer de ouvi-lo cantar todos os dias.
Por que justificamos que animais nascidos em cativeiro não sobreviveriam caso
fossem libertados? Por acaso alguém já viu um passarinho morto depois de
libertado? Então por que insistimos em acasalá-los proliferando exemplares
cativos cuja capacidade de voar é o nosso próprio símbolo de liberdade
absoluta?
Ainda bem que não acreditamos em reencarnação sob outra forma animal!
É muito comum multinacionais oferecerem filhotes em sorteio, como prêmio, para
conseguirem um número maior de consumidores. Muito comum, também, é
oferecerem às crianças um filhote como presente de aniversário, no meio de
outros brinquedos.
O cão-objeto está em alta, às vezes substituindo bonecas.
As crianças os levam no colo, colocam-nos para dormir em caminha de boneca, sem
se dar conta que este comportamento não é etologicamente normal entre os
animais.
A grande vantagem dos cães-objeto é que, na realidade, funcionam como
excelentes psicoterapeutas. Aos poucos as crianças vão compreendendo os
animais, de uma forma geral. Não só os cães.
Os adultos ainda precisam dez anos de psicanálise para viver o aqui e agora. O
instinto e a incapacidade de compreender o lapso de tempo levam crianças e
animais a só conseguirem viver dessa maneira.
A relação das crianças com os animais é muito mais próxima do instinto e
muito menos intelectual. São as crianças de hoje que vão ensinar aos
educadores adultos como deverá ser o relacionamento entre homens e animais no
próximo milênio
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