Conexão Violenta
Marcos Rolim
“No sábado da semana passada, cometi meu primeiro assassinato. A vítima
foi minha querida cachorra Sparkle. Nunca vou esquecer o uivo que ela deu.
Pereceu algo quase humano. Então nós rimos e batemos mais nela". Esta
frase foi extraída do diário de Luke Woodham, 16 anos, acusado pela morte da
mãe e por ter matado a tiros dois colegas no Mississippi. Brenda Spencer,
outra colegial, costumava se divertir ateando fogo na cauda de cães e gatos e
ninguém deu muita importância a isto até que ela matou duas crianças nos
EUA. O "serial killer" Jeffrey Dahmer costumava empalar sapos quando
criança e "o estrangulador de Boston", Albert de Salvo, responsável
pelo assassinato de 13 mulheres, era um especialista em armadilhas para
animais. Esses exemplos ilustram uma macabra conexão entre a crueldade
oferecida aos animais e a violência contra as pessoas e autorizam
especialistas como Allen Brantley, do FBI, a afirmar que maltratar um animal
nunca é, apenas, um fato lamentável, mas sim um sério alerta de perigo. Inúmeras
pesquisas têm comprovado este vínculo de violência ("abuse connection")
e não só em casos patológicos. Em New Jersey, por exemplo, 88% das famílias
tratadas por conta de abusos contra crianças tinham histórico de agressão
aos animais.
Pesquisa com mulheres espancadas em Utah, demonstrou que 71% das que tinham
animais de estimação relataram que seus agressores também os haviam
maltratado. (Estes e outros dados em www.pet-abuse.com e nas dezenas de links
sugeridos pela página) Quando discutimos a educação das crianças, devemos
dar atenção a este tema e incentivar todas as formas de cuidado para com os
animais. Os efeitos benéficos serão sentidos não só pelos animais - o que
já seria razão suficiente - mas também pela criança que estrutura seus
valores morais. Essa possibilidade já havia sido percebida por muitos
pensadores desde os gregos antigos, até Shopenhauer, Nietzsche e Kant e
valorizado por tradições religiosas como o budismo.
Ocorre que nossa época parece ter incorporado uma insensibilidade radical
diante do destino das outras formas de vida. (o que também estimulará o
tratamento dos seres humanos como objetos descartáveis) Assim, as experiências
com bichos continuam sendo feitas, a maior parte delas para testar cosméticos
envolvendo, por exemplo, pingar substâncias químicas nos olhos de coelhos e
medir a extensão dos danos. Assim, convive-se com a estupidez de um mercado
de produtos feitos com a pele ou o couro de animais selvagens; com a "caça
esportiva" - um estranho esporte, assinale-se, onde uma das partes deve
morrer para a diversão da outra; com as exibições de animais em circos,
etc. Nada disso se compara, entretanto, com o tratamento oferecido às aves,
bovinos ou suínos nas chamadas "fazendas industriais" de forma que
se todos soubessem a história da carne que comem, penso que muitos perderiam
o apetite. (os interessados podem acessar, por exemplo, www.peta.org , onde há
vídeos sobre as fazendas industriais) Por estas e por outras, o que havia de
carnívoro em mim, bate em retirada um tanto quanto envergonhadamente. Pelo
motivo de Jeremy Benthan para quem, frente aos animais, a verdadeira questão
não era a de saber se eles seriam capazes de raciocinar, mas sim se eles
seriam capazes de sofrer. Se lembrarmos disto, muita coisa em nossa vida irá
mudar, a começar por nossas refeições.