Naufrágios
do Entender
Autora: Biba Akizuki
Gênero:
Songfic
Música:
Rinse - Vanessa Carlton
N.A.:
Minha primeira e única songfic escrita por completo em 2004... mas
publicada em 2005, né?! A música é "Rinse", da Vanessa Carlton, e
eu amo!!! É linda e combina perfeitamente com tudo o que se passa no enredo da
song. Quem puder ouvi-la enquanto lê, eu recomendo! A trama dessa song tá bem
diferente, e como todas as minhas outras, tem começo, meio e fim. Leiam:
"Pensaste
já quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já em quanto nos
desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma
voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir,
naufrágios do nosso entender."
Fernando
Pessoa
Mais
uma vez estava sozinha. Sentia-se angustiada. Toda sua vida até aquele momento
era apenas uma ilusão. Sonhara que sua vida era feliz, sonhava que teria essa
felicidade ainda por muito tempo. Doce ilusão. Quem ela pensava que a amava,
importava-se somente consigo. Naquela noite, sozinha e triste, fria e escura,
lembrava-se de como tudo acontecera.
~***~
Estava
nervosa, há quatro meses trabalhava na Divisão de Controle de Atentados no
Ministério e seria sua primeira ação efetiva. A DCA cuidava de tudo o que era
necessário se fazer após um atentado de Comensais da Morte a bruxos, desde a
"limpeza" do local, tirando os corpos de vítimas, à poções para
aliviar a dor dos que perdiam familiares e socorro a feridos. Gina, como
Médi-bruxa estudante que era, estava no último ano do Superior, atuava como
estagiária. No período inicial cuidava apenas de quem era levado ao Saint
Mungos, não podia ir aos locais de atentados. Seria sua primeira vez.
Gostava
muito do estágio, só não gostava do seu chefe de protocolo, afinal era o
maior inimigo declarado de sua família, Draco Malfoy. O que ela não imaginaria
era que mudaria totalmente suas impressões sobre ele. Malfoy fazia o trabalho
chato, anotava e contava tudo, desde quantos frascos com poções
tranqüilizantes era gasto até a remuneração dos trabalhadores e dos
estagiários. Gina são sabia como ele, ex-Comensal, havia ido parar naquele
emprego, sabia apenas que Lúcio Malfoy tinha falecido e que Narcisa
enlouquecera.
-O
que está pensando aí, Weasley? Já não lhe avisaram que esse é seu primeiro
socorro? - a voz ríspida de Malfoy a acordou. -Vai logo, a equipe vai sair sem
você!
-Estou
indo. - respondeu rabugenta, correndo para a Sala de Procedimentos Urgentes.
Quando
voltou ao departamento, estava desolada. Não imaginava que a realidade dos
acontecimentos era tão dura. Sentia-se quebrada por dentro após tentar
convencer uma menina de cinco anos que o que ela vira fora só um pesadelo, que
seu pai não fora implodido na sala de jantar de sua casa, bem em sua frente. Se
o seu feitiço, unido a uma fortíssima poção havia dado certo, a garota não
se recordaria disso, mas ela recordaria para sempre.
Pensativa
jogou-se em uma cadeira na sala dos estagiários. Não conseguia nem chorar,
pois segurara o choro por muito tempo no local do atentado, agora estava em
estado de letargia. Nem sequer ouviu quando alguém entrou na sala, pareciam
gritar, seria com ela?
-WEASLEY?
- Malfoy gritou pela quinta vez. Lentamente Gina direcionou o olhar para ele.
-Sim.
- respondeu em tom baixíssimo, quase inaudível.
-Preciso
de detalhes. - disse friamente. -Quantos foram os feridos? E mortos? Qual a
quantidade de Poção do esquecimento empregada? E Feitiços de Cura, quais
utilizados? - Gina ouvia bestificada, sem se dar ao trabalho de responder
mentalmente aos questionamentos.
-Nossa,
realmente, agora tenho certeza. - disse, irada.
-Do
quê? - ele respondeu sem nem tirar os olhos dos papéis.
-Você
não tem coração. - respondeu simplesmente e saiu da sala. Ainda ouviu quando
fechou a porta.
-Só
estou fazendo meu trabalho!
Naquela
manhã chorou mais do que antes, no seu pequeno apartamento na república da
faculdade. Por sorte sua colega de quarto não atrapalhou, já que não estava
em casa, era uma jovem do primeiro ano e estava em aula. A madrugada na rua foi
a pior de sua vida. Após tomar um banho e se desabar de choro, adormeceu. E
somente na manhã seguinte foi para o estágio. Sem nem avisar que faltaria,
pois era para ter ido à noite. Quando chegou, sentindo-se um pouco mais
fortalecida, encontrou seu chefe na sala dos estagiários.
-Não
irá para emergência hoje, ouviu? Mesmo que o Médi-bruxo superior ordene. -
Malfoy disse em um tom sério, não admitindo recusas. Entregou um papel a ela e
saiu em seguida.
"Vou
fingir que me avisou de sua ausência na noite passada, assim você mantém seu
estágio e eu demonstro que talvez, digo talvez, tenha um coração."
Gina
surpreendeu-se, quando um Malfoy ajudaria uma Weasley assim? Ainda mais sendo
ele e ela, inimigos desde sempre na escola.
She'd
do anything to sparkle in his eye
(Ela
faria qualquer coisa para brilhar nos olhos dele)
Nos
dias e meses seguintes a esse acontecimento, Malfoy demonstrou cada vez mais que
tinha um coração e que era uma boa pessoa, ou quase isso. Sempre a ajudava,
mudando os horários de trabalho, liberando uma poção mais cara que estaria
proibida para o uso e pagando as horas extras de seu estágio, o que não fazia
antes.
Gina
pegou-se fazendo de tudo para que ele a percebesse, para que ele a admirasse.
Não tinha mais jeito, estava certamente apaixonada por Draco Malfoy. Contudo,
por mais que se esforçasse, ele não a via. Sim, estava ajudando-a, mas não a
via como mulher e como interessada.
Até
o dia de sua formatura. Com um esforço supremo acabou convidando-o para o
baile, tentando fingir que era apenas porque ele fora seu chefe no estágio, mas
no fundo sabia que era muito mais que isso. Durante a colação de grau, já
soava frio. Isso pela união de todos os sentimentos, estava muito feliz por,
mesmo com todo o esforço de sua família, a bolsa que lutara tanto para
conseguir, as horas a fio sem dormir, estudando, os sustos no estágio, estava
formada: era uma Médi-bruxa! Todas as cabeças flamejantes Weasleys estavam
presentes, com exceção de Rony, que estava com a dupla que formava o trio
maravilha lutando contra Voldemort. Todos choravam, a abraçavam e após Gina
pegar o diploma, moveram-se para a festa.
Gina
se arrumou para o baile pensando nele. Será que ele se interessaria por ela
após vê-la tão arrumada? Se não, era porque não se interessaria nunca.
"Parece até que você nunca namorou! Estar tão nervosa assim por causa de
um cara", pensou surpresa ajeitando os últimos detalhes da maquiagem,
"se bem que, ele é O cara!". Não tinha jeito, estava enfeitiçada
por aquele par de olhos acinzentados.
Quando
entrou no salão, com seu vestido verde claro e os cabelos vermelhos domados em
cachos, logo o procurou com olhos afoitos. Não encontrou. Era óbvio que ele
não viria. Mesmo assim se divertiu, pulou com as amigas, chorou com as
despedidas. A família foi embora, mas Gina continuou, queria ficar mais tempo
com o pessoal. Como estava acabada, imaginou que deveria estar com cara de
louca, revolveu ir ao banheiro se ajeitar. Realmente, parecia ter sido
atropelada pelo Expresso de Hogwarts! Ajeitou novamente o cabelo e a maquiagem.
Não ficou tão bem como antes, mas estava ajeitada. Quando saiu do banheiro,
esbarrou em que já havia desistido de esperar: Malfoy.
-Olá.
- ele disse, quase gritando pelo barulho da música. -Atrasei, mas como não
tinha nada para fazer, resolvi vir. - parecia indiferente. Entretanto, Gina
sabia que ele veio porque quis, e também sabia que ele olhava admirado para
ela.
-Que
bom que veio, divirta-se! - Gina, ainda empolgada como estava, e um pouco
alterada pelo firewhiskey, pulou e o abraçou. Em seguida o soltou e saiu,
voltando para suas amigas.
De
longe o viu, que garoto anti-social, ele não se enturmava, foi parar no bar, e
não saía de lá. Gina deixou as meninas e foi até ele. Não era ele que
esperava a noite toda?
-E,
aí? Está gostando? - perguntou sentando-se em frente a ele, em um banco.
Malfoy
tirou os olhos da bebida e olhou diretamente para ela.
-Na
verdade, não! - disse com um sorrisinho irônico. -Não foi isso que esperei.
-Então
o que esperava? - Gina estava perdida naquele olhar. O sorriso dele a irritava
profundamente, e a verdade irônica de suas palavras também, mas os olhos a
prendiam de uma maneira que não podia evitar.
-Que
você me fizesse companhia. - disse simplesmente. -Me largou aqui.
-Calma,
não precisa ficar com ciúmes, não sou mais sua estagiária. - parecia que sua
tentativa estava dando o resultado esperado. Ele finalmente estava vendo-a!
-Pois
é... - ele ficou olhando e Gina percebeu que ele não tinha palavras.
-Mas
podemos continuar nos vendo, não é? - incentivou, colocando a mão sobre a
dele. Malfoy segurou a mão dela e a puxou, fazendo com que se levantasse, em
seguida a ele.
-Você
está bem. - Gina ouviu o elogio sem nem acreditar, esse bem, vindo de
quem vinha, era um ótimo elogio!
Sem
dar tempo para que ela respondesse, Draco a puxou, levando-a para o outro
extremo do salão de baile. Gina subitamente lembrou-se dos bailes em Hogwarts,
nunca imaginaria que queria ir a um com Malfoy, sempre desejava Harry, na
escola.
Malfoy
pediu a ela que saísse com ele e se despedisse de suas amigas. Gina ficou na
dúvida, mas acabou fazendo o que ele pedira. Depois do chororô da despedida,
saiu com Malfoy. Devido a violência que assolava as ruas de Londres, não era
prudente ficar passeando por aí. Acabaram por ir conversar no apartamento de
Gina.
Não
se arrependeu, conversara pouco com Malfoy antes, nesta noite descobriu segredos
dele que nem imaginava. A vida dele era dura, tinha perdido o pai e também a
mãe, há pouco tempo, e toda sua fortuna estava embargada pelo Ministério.
Como ele não fora acusado de nada, para compensar a apreensão de tudo, o deram
o emprego no DCA, desde então ele tivera que aprender a viver sem os luxos com
os quais estava acostumado e os conceitos de vida que havia sido construído em
si, ruíra. Gina concluiu que graças a isso, agora, ele poderia se interessar
por ela.
-Sempre
fui sozinho, não consigo imaginar como você conseguia viver com tanta gente em
uma casa só! - disse já espantado, ao amanhecer, enquanto conversavam na
varanda do apartamento.
-É
muito simples. - ela disse, olhando o sol nascente. -Só é preciso amor.
-Amor?
- ele indagou pensativo. -Acho que isso, eu nunca tive.
-Nunca
é tarde. - Gina respondeu, olhando para ele e se aproximou, sentando ao seu
lado. Draco, agora depois de tudo o chamava assim, pareceu entender o recado e a
abraçou.
-Você
me ensinaria a te amar? - ele perguntou depois de muitos minutos de silêncio.
-Já estou fazendo isso. - ela respondeu e fechou os olhos, esperando que ele a beijasse. E foi o que ele fez. Logo o sol terminou por nascer, mas ambos nem sequer viram.
She
would suffer she would fight and compromise
(Ela
experimentaria, ela brigaria e se conciliaria)
Ensinar
Draco Malfoy a amar não era uma tarefa fácil, ainda mais enquanto ambos
trabalhavam tanto. Gina como Médi-bruxa recém-formada e Draco como chefe de um
departamento tão requisitado no momento atual. O número de atentados crescia a
cada dia, e os dois, Gina no Saint Mungos e Draco no DCA, tinham muito o que
fazer.
Uma
semana depois de começarem a namorar, Draco insistiu para que Gina fosse morar
com ele, pois ela teria que sair do alojamento da faculdade. E ela foi. Ambos
voltavam irritados e exaustos do trabalho, uma coisa fora do lugar era motivo
para brigas, já que Gina não imaginava o quão ele podia ser diferente dela,
mas em seguida a reconciliação era a melhor parte.
Brigavam,
gritavam um com o outro, juravam não mais se ver, contudo, duas horas depois
estavam se beijando e prometendo não brigar mais. Este era o cotidiano desse
casal turbulento. Óbvio, o que se acontece quando juntam pessoas de mundos e
realidades tão distintas?
She's
been wishing on the stars that shine so bright
(Ela
estava pedindo para as estrelas que brilhavam intensamente)
For
answers to questions that will haunt her tonight
(Respostas
para perguntas que a assustavam essa noite)
Ela
tinha dúvidas de estar tendo sucesso na tarefa impingida por ele. Draco estava
amando-a, ou era somente desejo o que sentia e demonstrava? Logo teria a
resposta. Depois de dois meses ajuntados, Gina tinha uma grande dúvida.
Se o que imaginava fosse verdade, a vida dos dois mudaria radicalmente.
Todavia,
seria para melhor ou pior?
Gina
estava assustada. Conhecia Draco bem, mas ele não era uma pessoa fácil de ser
prevista, não podia imaginar a reação dele diante de certos fatos. Ainda mais
agora que o processo para investigação dos bens dos Malfoys estava acabando e
ele receberia ao menos uma parte de sua fortuna de volta. Continuaria sendo o
homem que ela amava, ou tornaria a ser o Malfoy esnobe e insuportável que ela
conhecia de Hogwarts? Gina sabia que o dinheiro muda as pessoas, e a falta dele
já havia mudado Draco.
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't hold him this way
(Ela
não pode segurá-lo dessa maneira)
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't love him this way
(Ela
não pode amá-lo desse jeito)
Foi
até o setor do Saint Mungos pegar o exame que esperava. Não teve coragem de
abrir, foi para casa, sentou-se no sofá da sala e lentamente desenrolou o
pergaminho.
"Positivo"
Justo
agora que tinha tanta coisa para fazer, sua carreira a construir, uma vida com
Draco para moldar, acontecia isso com ela. Não chorou, impediu-se de cometer
este ato, mas ficou parada, no lugar onde estava, com o coração batendo
acelerado, esperando que Draco chegasse para comunicá-lo o que havia
acontecido.
Duas
horas de espera resultaram em um Draco feliz como ela nunca tinha visto, mas
não por seu comunicado, ele chegou com um sorriso de orelha a orelha da rua.
Afobado, deu um selinho em Gina e abaixado, à sua frente, nem notou que ela
estava desolada.
-Gina,
vamos ter uma vida decente agora! Vou receber quase todo meu dinheiro de volta!
Aqueles imbecis do Ministério reconheceram que a fortuna dos Malfoy é sólida
e não foi construída com base nessa fase de Você-Sabe-Quem. E vão me
devolver, já que meu pai morreu e sou o único herdeiro.
Gina
invejou a felicidade dele, era um bom momento para contar o que estava
acontecendo, mas quando abriu a boca ele a levantou e girou com ela nos braços.
-Você
não diz nada? Não está feliz? - perguntou com o semblante intrigado.
-Estou,
mais do que imagina. - Gina respondeu, mas ainda cautelosa, algo dentro de si a
indicava para ser cuidadosa. -Por favor, Draco, me põe no chão. - ele obedeceu
e ela sentou-se novamente no sofá, as pernas estavam bambas e não a mantinham
em pé.
-O
que foi? Você está estranha. - ele disse colocando a mão sobre a testa de
Gina. -Não tem febre. Mas deve estar doente, ouvi você passando mal no
banheiro esta manhã.
-Eu
não estou doente, Draco. Estou grávida. - disse tão rápido, com medo que as
palavras ecoassem nas paredes.
-O
quê? - Draco estava paralisado, não parecia ter ouvido.
-Vamos
ter um filho. - Gina disse em tom baixo, mas dessa vez ele ouviu. -Eu não
queria. - subitamente começou a desabafar. -Estou em começo de carreira, esse
mundo está uma desgraça, não era a hora! - a lágrima que ela não permitia,
teimou em cair.
Draco
estava com um semblante quase indiferente. Virou-se para ela e disse com uma voz
tão fria que até causou arrepios na espinha de Gina.
-Pensa
que sou idiota? Fez tudo de caso pensado, mas não vai por a mão no meu
dinheiro. - esse final disse febrilmente. -Quis dar o golpe do baú em mim,
Weasley? E agora ainda vem com o golpe da barriga junto?
Gina
não podia acreditar que ele pensava isso dela. Estava insinuando algo que ela
jamais havia pensado. Ficou fora de si, injustiça era o que mais odiava. Olhou
para Draco e a expressão de indiferença fora substituída por uma repugnância
e um sarcasmo doentio.
-Rá,
e ainda vem com um papo mole "vou te ensinar a amar" e vai pôr a mão
no Gringotes inteiro, não é? E eu, inocentemente, ainda me perguntava se o que
eu estava sentido por você era amor! - ela se levantou e colocou uma mão sobre
o ombro de Draco e ele imediatamente a empurrou de volta para o sofá. -Gina,
você não presta!
-Draco,
você está louco? Eu não sabia como você iria reagir a isso, mas não
imaginava que fosse assim! - estava realmente chocada. -Eu não quero seu
dinheiro! Tenho um emprego, uma profissão, e não ganho nada mal, por que iria
querer o seu? Estou com você porque te amo!
-Não
acredito nisso. - respondeu sem nem olhar para ela, virado de costas, observando
a parede. Gina só via os ombros dele se moverem e os cabelos chacoalharem.
-Como
não acredita? Eu é que não acredito no que você está fazendo, jogando fora
a nossa vida e meu amor. Quando ficamos juntos você não tinha nenhum dinheiro,
o que te leva a pensar que eu planejaria? Como ia saber que...
-Pare
com essa falsidade! É muito simples, você saberia que eu receberia o dinheiro
de volta, era óbvio, e se não recebesse, a tentativa valia a pena, não? Já
que não sou de se jogar fora. Queria ver se eu fosse um cara horroroso. -
virou-se para Gina, a levantou do sofá e a chacoalhou, segurando-a pelos
ombros. -Me diz, se eu fosse gordo e zarolho, ficaria comigo do mesmo jeito pelo
dinheiro?
-Me
larga! - Gina estava possessa. -Escute aqui, Draco Malfoy, tenha certeza que nem
implorando, você verá o MEU filho!! Vou embora e nunca mais quero te ver na
minha frente. - as lágrimas tinham um gosto amargo e teimavam em cair em sua
boca, apenas para azedar um pouco mais sua vida. -Em pensar que te amava... -
sussurrou enquanto reunia suas coisas com um feitiço.
-Quem
disse que eu iria querer ver o SEU filho? Nada me garante que ele é meu.
Sabe-se lá se não tem um amante? Quem sabe se não é o próprio Potter que
larga a frente de combate e vem te ver aqui no meu apartamento? Lembro muito bem
o quanto você gostava dele em Hogwarts! - ele realmente estava descontrolado.
-E saiba que eu já tenho pessoas que podem me ajudar, fique alerta porque se eu
descobrir que esse filho é meu, não ficará com ele.
Gina
aparatou antes de ouvir mais ameaças.
How
she'd be soothed how she'd be saved if he could see
(Como
ela seria confortada, como ela seria salva se ele pudesse ver)
She
needs to be held in his arms to be free
(Ela
precisa estar envolvida nos braços dele para ser livre)
But
everything happens for reasons that she will never understand
(Mas
tudo acontece por razões que ela nunca entenderá)
'Til
she knows that the heart of a woman will never be found in the arms of a man
(Até
que perceba que o coração de uma mulher nunca se encontrará nos braços de um
homem)
Em
uma semana já tinha outro apartamento. Enquanto isso ficou na casa de uma amiga
da faculdade, não queria preocupar seus pais com os problemas, eles já estavam
muito ocupados com tudo o que aquela maldita guerra sem fim acarretava.
Alugou
um apartamento perto de seu trabalho e o mobiliou, sorte que tinha um dinheiro
guardado. Por mais desiludida que estivesse com Draco, por mais que jurara não
voltar para ele depois de tantas ofensas, tudo o que queria era que ele viesse
atrás dela, implorando perdão, arrependido por seus erros. Por mais que
tivesse falhado, o amava e sabia que isso não passaria, não seria curado, pois
o amor é uma doença que não tem solução, não tem cura.
Esforçava-se
no trabalho para não ter que pensar nele, no bebê que estava por vir, e
principalmente, na ameaça que Draco fizera de tirar seu filho. Ainda mais por
saber que era, e não tinha como não ser, filho de Draco também.
Sentia-se
suja, usada, desgastada por ter acreditado nele, por ter deixado se levar pelas
palavras, pelos olhos, pelo toque dele. Agora estava sozinha, mesmo com o ser no
seu ventre, sentia-se a pessoa mais solitária do mundo. Certamente já amava
aquele bebê, mas ele ainda estava próximo e ao mesmo tempo distante por não
poder tê-lo em seus braços.
Toda
noite sonhava com Draco, e não era algo proposital. Chegava até mesmo a ver
como teria sido aquela noite se ele tivesse ficado feliz com a gravidez dela.
Seria maravilhoso ter uma família, por mais difícil que fosse ter que se
esforçar para mantê-la. O maior desejo de Gina era que Draco não tivesse
recebido aquela infeliz quantia de dinheiro. Mas aquilo era passado e não
poderia ser mudado.
"Quem
disse que o dinheiro traz felicidade?", essa era a pergunta irônica de sua
vida.
O
tempo foi passando e ela não via Draco, não cruzava com ele pelos corredores
do Saint Mungus, o que era uma sorte. Contudo, também se confirmava que ele
não viria vê-la, muito menos buscá-la. No sexto mês de gravidez teve que
parar de trabalhar. Sua grande sorte era que havia sido contratada antes de
engravidar, senão seria demitida sem direito a nada, como ela era, ficaria de
licença e receberia o salário integral durante o período.
As
grávidas costumam trabalhar mais tempo, entretanto Gina estava tendo
complicações, ela estava em depressão, mesmo que não demonstrasse e esse
desequilíbrio alterava tudo.
Ainda
não havia contado à família. Não sabia como explicar, já que eles nem
sabiam de seu namoro com Draco, como apareceria com um barrigão? Imaginava-se
chegando durante um almoço de domingo com toda a família e dizendo "Digam
oi ao Artur Neto!", mas isso era algo que jamais poderia fazer, pois seu
pai teria um treco e todos ficariam horrorizados.
Aproveitou
que não estava trabalhando para cuidar das coisas do bebê, que na verdade
ainda não tinha um nome definido. Gina animou-se comprando roupinhas, bichinhos
de pelúcia e enfeites mil para colocar no quarto que seria dela e do bebê, já
que o apartamento era pequeno. Chegou em casa e ajeitou tudo, inclusive o berço
que havia comprado antes. Tudo brilhava, andava sozinho pelo quarto e tocava
canções de ninar. E assim Gina adormecia todos os dias, ouvindo as canções e
acalantando a esperança de curar toda a dor com seu filho nos braços.
Até
o dia em que Andrew nasceu. Gina ficou tão feliz que esqueceu-se do sofrimento
causado por Draco, afinal não poderia ter sido tão ruim assim se o resultado
fosse seu tão amado filho. O amor que sentia por Draco não era nada comparado
ao amor que agora sentia por Andrew.
Assim
que saiu do hospital Gina foi para seu apartamento. Seu filho era o bebê mais
bonzinho que já vira, chorava pouco, não tinha muitas dores e nem reclamava. O
único ponto negativo era ele ter os traços, os olhos e os cabelos idênticos
aos de Draco. Não que ele deixasse de ser lindo por isso, mas Gina preferiria
que ele se parecesse com ela e lembrasse menos ao pai, pois toda vez que o
olhava, Gina sofria um pouco.
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't hold anybody this way
(Ela
não pode segurar ninguém desse jeito)
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't love him
(Ela não pode
amá-lo)
Mas
tinha que esquecer tudo, esquecer que um dia amara Draco, esquecer o que ele
dissera a ela, esquecer até dos momentos bons, pois eles foram na verdade uma
grande mentira. Não podia amá-lo, não podia amar alguém que fizera tal coisa
contra ela.
Assim
tocou a vida até que Andrew completasse seis meses. Gina estava feliz naquele
mundinho criado por si. Parecia que não existia mais nada além de seu bebê.
Todo dia era preenchido somente por ele, por seus carinhos, por suas
necessidades, por suas pequenas manhas. Contudo, essa bolha de vidro teria que
ser rompida, ela teria que sair. Sua licença iria acabar e Gina voltaria a
trabalhar.
Encarou
a realidade toda sua família estava preocupada, pois já fazia mais de um ano
que Gina não os via, falava somente por carta, e não falava a verdade. Criou
coragem e apareceu com Andrew n'A Toca. Foi uma verdadeira comoção. Todos que
estavam lá se assustaram, Molly, Artur, Fred, Jorge, Rony, Hermione e Harry, as
perguntas vieram de todos os lados e com muita determinação Gina respondeu a
todas.
Primeiro,
ficaram chocados, depois irados, e por fim, amolecidos com a situação de Gina.
O único coração endurecido foi o de Rony, mas nisso, Hermione daria um jeito.
Molly apenas brigou por Gina ter demorado tanto a contar, mas ela se vendeu por
algumas fotos de Andrew na maternidade e em outro momentos importantes.
Desse
modo, Gina ajeitou a vida, toda manhã levava Andrew para A Toca e depois ia
trabalhar. Às vezes voltava tão cansada que não o buscava, e várias vezes na
semana fazia plantão, o que a impedia mais e mais de vê-lo.
And
as she runs away she fears she won't be followed
(E se ela fugisse,
temia que não fosse seguida)
What
could be worse than leaving something behind?
(O que poderia ser
pior do que deixar algo para trás?)
And
as the depth of ocean slowly becomes shallow
(E até que a
profundidade do oceano lentamente se tornasse rasa)
It's
loneliness she finds
(É a solidão, ela
percebe)
If
only he was mine
(Se ao menos ele
fosse meu)
Inesperadamente
em uma manhã exaustiva Gina aparatou em seu apartamento e deparou-se com Draco.
Ele parecia calmo e até sereno, mas Gina imaginava que ele viera buscar Andrew.
Sorte ele estar n'A Toca.
-Bom
dia, amor. - o sarcasmo escorria, mortalmente, por sua voz. -Sabe que sou
um homem de palavra. Vim cumprir o que disse. - Draco não estava mais bonito
como antes, agora seu rosto estava endurecido, talvez refletindo o coração, a
boca mantinha uma curvatura de ironia, o nariz estava empinado e as sobrancelhas
erguiam-se maliciosamente. Parecia estar refletindo a pessoa que Gina mais
temia: Lúcio Malfoy. -Você não era tão sórdida quanto pensei e aquele filho
é meu. - fez uma longa pausa na qual o ar ficou tão carregado que Gina não
conseguia dizer nada. -Portanto, já estou com ele.
O
que ele havia dito? Já estava com ele? O maior medo de Gina a assolou. Draco
havia pegado seu filho!
-O
quê? Não acredito que você teve a coragem de-
-De
quê? Ele é meu filho e será criado como um Malfoy, não vou deixar que uma
Weasley e sua mãe gorda o corrompa com essa criação. Se aquela balofa a
criou, você acha que o resultado que ela obteria com meu filho seria melhor do
que você? - o olhar dele era gelado e isso parecia vir do fundo da alma. O que
havia acontecido com o Draco que ela conhecera? -Meu filho não precisa tentar
dar o golpe em ninguém, ele é milionário! - disse gargalhando, como se o que
dissera tivesse mesmo alguma graça. Contudo, a risada não atingia os olhos,
que continuavam inexpressivos.
-Você
não vai tirar o Andrew de mim, Draco! - Gina disse desesperada partindo para
cima de Draco, ansiosa por socá-lo até que ele entendesse que ela era inocente
e que ele estava estragando a vida de todos sem motivos.
-Primeiro,
é Malfoy para você, e ele não se chamará mais Andrew... que nome fraco para
um Malfoy! - ele respondeu segurando Gina com um único braço e a jogando em
seguida no chão.
Começou
a chorar, tentando parar de sentir a dor dilacerante que cortava seu peito.
Sentou-se, parecendo uma criança que perde tudo, seus pais, seu brinquedo
preferido.
-Por
que você está fazendo isso? Por que quer acabar com a minha vida? - Gina disse
entre soluços e lágrimas.
Ele
se abaixou, ficando na altura dela. Segurou o rosto de Gina pelo queixo com
força e ergueu, para que olhasse em seus olhos.
-Porque
eu te odeio. - disse soltando bruscamente o rosto dela e se levantando. -E estou
no meu direito de pai.
-Vou
pegá-lo de volta, eu juro! E também cumpro o que digo. - disse se levantando e
enxugando as lágrimas.
-Pobrezinha,
o dinheiro que tanto desejou agora é seu inimigo. - disse fingindo-se de
triste. -Com ele, consigo tudo.
~***~
She'd
do anything to sparkle in his eye
(Ela
faria qualquer coisa para brilhar nos olhos dele)
She
would suffer she would fight and compromise
(Ela
experimentaria, ela brigaria e se conciliaria)
She's
been wishing on the stars that shine so bright
(Ela
estava pedindo para as estrelas que brilhavam intensamente)
For
answers to questions that will haunt her tonight
(Respostas
para perguntas que a assustavam nessa noite)
Mais uma vez estava sozinha. Sentia-se angustiada. Toda sua vida até aquele momento era apenas uma ilusão. Sonhara que sua vida era feliz, sonhava que teria essa felicidade ainda por muito tempo. Doce ilusão. Quem ela pensava que a amava, importava-se somente consigo. Naquela noite, sozinha e triste, fria e escura, lembrava-se de como tudo acontecera.
Alguns
minutos e saberia o resultado da operação em Wiltshire, a conhecida Mansão
Malfoy. Dois anos de espera por este momento, dois anos sofrendo com saudade de
seu bebê e agora, se tudo desse certo, poderia recuperar parte disto.
A
chuva caia torrencialmente naquela noite, em frente a mansão que nunca desejara
para si, mas recusava-se a ficar na carruagem esperando, só não fora junto
encarar Malfoy porque não permitiram. Na carruagem estavam Aurores que a
guardavam, sua família não pode vir. Lá dentro, em busca de Draco, estavam
Harry, Rony e Hermione, os três Aurores mais requisitados. A queda de Voldemort
proporcionou à Gina que eles fizessem isso.
Durante
dois anos o trio tentou milhares de maneiras para invadir a mansão e recuperar
Andrew, mas não conseguiam autorização, agora que Voldemort fora derrotado e
Draco foi considerado seu braço direito após a retomada de sua fortuna,
receberam a autorização que precisavam para resgatar o menino.
Enquanto
esperava Gina acabava remoendo o passado, mas ao ver sombras no horizonte
começou a correr, sem hesitar.
-Moça!
Você não pode entrar aí! - ouviu um dos Aurores gritando da carruagem, mas
ignorou.
Quase
caiu na escorregadia lama, mesmo assim continuou correndo, como se sua vida
dependesse disso. E na verdade, dependia. Alcançou o feliz trio, e viu os
cabelos louros platinados enrolado em uma manta no colo de Rony. Este sorriu
mais ainda ao vê-la e ergueu os braços.
-Aqui,
minha irmã, o seu bebezão. - disse colocando o menino em seu colo. -Ele está
sob o efeito de um feitiço do sono, para não se assustar, mas segundo os
Médi-bruxos, está bem.
Gina
não respondeu nada, na realidade nem distinguiu bem as palavras de seu irmão,
só via a Andrew e não precisava de mais nada. Caminhou em direção à
carruagem sem nem perceber, estava encantada por ter seu filho novamente nos
braços. O secou e pode observar, seu bebê estava mesmo grande! Dois anos e
seis meses, já devia até falar, andar... e ela recuperaria esse tempo perdido.
Apenas
quando estava n'A Toca e Andrew dormia em seu colo no sofá da sala lembrou-se
de perguntar.
-E
o Malfoy? O que aconteceu com ele? - Harry olhou pesaroso para ela. Não parecia
querer falar.
-Não
me diga que aquele imoral fugiu? - Gina questionou já ficando irritada.
-Não,
ele resistiu e Carter não teve escolha, foi legítima defesa. - Harry
respondeu.
She
must rinse him
(Ela
precisa esquecê-lo)
She
must rinse him
(Ela precisa
esquecê-lo)
She
can't rinse him
(Ela não consegue
esquecê-lo)
She
can rinse him
(Ela pode
esquecê-lo)
She
can't, she won't, she must rinse him
(Ela não pode,
não consegue, ela precisa esquecê-lo)
She
can't, she won't, she must rinse him
(Ela não pode,
não consegue, ela precisa esquecê-lo)
Como
Draco não tinha ninguém, Gina se viu no direito de organizar seu enterro. Foi
o enterro mais triste que já vira, somente ela e seu filho o velaram e
acompanharam o sepultamento. Ninguém chorava por Draco, somente ela e Andrew
que o amaram. Seu filho a estranhou no começo, e parecia gostar do pai. Draco
não havia maltratado o menino, pelo menos. No fim restou apenas uma rosa
vermelha, jogada por Gina no caixão e uma rosa branca jogada por Andrew.
De
toda a fortuna Malfoy, Gina ficou com apenas cinco por cento para Andrew, ele
não precisava de tanto dinheiro, o restante ela se deu no direito de distribuir
para os pobres e para a reconstrução de alguns prédios simples de Londres que
foram destruídos durante a guerra. Daquele dinheiro que desgraçou a vida de
Gina, ela não queria nada.
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't hold him this way
(Ela
não pode segurá-lo dessa maneira)
She
must rinse this all away
(Ela
precisa esquecer tudo isso)
She
can't love him this way
(Ela
não pode amá-lo desse jeito)
Diversas
vezes Gina imaginava como tudo poderia ter sido diferente e mais feliz. Mas a
sua vida era essa e não poderia ser mudada. Ao menos de tudo restara seu filho,
que com o tempo passou a amá-la, e tratá-la como mãe. Aliás, sempre que
olhava para Andrew via Draco, pois o menino era totalmente igual a ele
fisicamente, mas via uma parte boa de Draco, algo que ele poderia ter sido se
fosse mais amado por seus pais, se não tivesse sido criado para odiar e
disseminar o ódio e o preconceito.
Por
mais que não quisesse, por mais que não desejasse, por mais que se culpasse,
Gina ainda amava Draco. Ele podia não ter aprendido a amá-la, mas ela aprendeu
a amá-lo, e não tinha como desaprender. Sua maior falha foi não conseguir que
ele também aprendesse.
"Encostei-me
a ti, sabendo que eras somente onda.
Sabendo
bem que eras nuvem, depus minha vida em ti.
Como
sabia bem de tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei
sem poder chorar quando caí."
Cecília
Meireles
Fim
N.A.: E aí? O que acharam?
COMENTEM JÁÁÁ!!!Quem disse que dinheiro traz felicidade? Tava realmente enganado... Tsk, tsk... Acham que fui muito má? Eu gostei imensamente dessa song, dentre todas é a que mais gostei, sério mesmo! Achei que foi a que ficou mais profunda e também mais real. De qualquer modo, espero para ver o que achara! Aproveito para agradecer ao Victor Ichijouji por fazer a capa e por betar a song!! Agradeço à MiWi, pois a short (ou a fic de um capítulo) dela "Brincando Com Rosas Negras" que me inspirou para essa song e me tirou de uma pequena crise, é ótima, leiam. E agradeço também à Vanessa Carlton por fazer essa música maravilhosa que me inspirou a escrever desde que a ouvi na trilha sonora de "Charmed".
Mil bijinhos e aguarde a próxima fic, "Mais do que palavras": Um agente duplo recebe o seu castigo. Sem mais poder pronunciar uma palavra, Draco Malfoy vai parar onde menos espera. Sob abrigo de Gina Weasley descobre que para o amor surgir, não é necessário mais do que a convivência e o conhecimento de que as pessoas são mais do que as aparências podem demonstrar.