Eu Nunca fui Beijada

 

Capítulo 6 - Problemas em Uma Escada

Eu não acreditava que estava fazendo isso. Saindo de uma sala de jogos ilegal para pagar uma aposta, indo até a sala de Draco Malfoy a fim de surrupiar-lhe um dos vidros de seres embalsamados. Subia a escada para voltar ao Salão Comunal resmungando, estava sendo obrigada a obedecer aos pirralhos esnobes de Hogwarts. Quando entrei no salão vi que não havia mais ninguém ali, então me dei conta que tinha passado mais de quatro horas na sala jogando com os alunos. Sorrateiramente saí pelo retrato da Mulher Gorda, o corredor encontrava-se vazio e escuro, o que me levou a pensar nos riscos que eu corria, e se encontrasse com Filch, que continuava a patrulhar a escola durante a noite? Ele me reconheceria? Nunca fui de aprontar muito durante os anos que estudei, portanto não havia sido acompanhada por Filch em detenções periodicamente, só duas vezes que fui detida por Snape, sob a sua supervisão. Agora, aqui eu estava, andando a noite, praticamente pedindo uma detenção, e o pior, sem ganhar nada em troca, apenas não sendo punida por um bando de mimados.

Andei devagar e o mais suavemente pelos corredores até chegar às masmorras. Parei em frente da porta da sala de poções. Relutava em entrar. Algo me dizia que não devia, mas eu tinha que entrar... Fiquei nessa indecisão o que para mim pareceram horas. Acabei girando a maçaneta. A primeira coisa que vi ao abrir a porta foi a estante que continha os objetos desejados por mim: os vidros com os animais. Bastava um deles para eu me ver livre dessa situação estressante. Olhei ao redor, o quarto afundava em uma escuridão profunda, a única luz era azul e fraca, vindo de uns vaga-lumes em vidros no canto mais remoto da sala. Julguei que não corria riscos, então entrei, pisando muitíssimo leve, evitando qualquer som. Cheguei às prateleiras em questão de segundos, os vidros estavam em uma altura que meus dedos não alcançavam, nem me esticando toda, como eu tentei. Resolvi usar um feitiço mesmo, pronunciei baixinho:

-Vinguardium leviosa!

O pote, que continha um animal que não reconheci, veio descendo em direção às minhas mãos. Conduzia-o devagar, para não correr o risco de derrubá-lo, tudo o que eu não queria era barulho. Quando o vidro estava próximo a mim um rato passou por cima do meu pé, para abafar o grito que não pude conter, levei uma das mãos à boca, mas já era tarde, pois me desconcentrei e o vidro foi ao chão, fazendo um grande estardalhaço.

Tirei a mão da boca e levei ao rosto. Estava perdida! Virei-me rapidamente em direção à porta, em passos largos me aproximei dela, mas no momento que saia ouvi o que não queria.

-Onde pensa que vai depois de fazer esse estrago na minha sala? - Era ele, o professor de poções. Dizia enquanto segurava sua varinha, iluminando os cacos de vidro. Não estava de pijamas nem nenhuma roupa com a qual pudesse dormir, e sim com sua capa preta e roupas parecidas com as da aula do dia anterior, seu cabelo estava incrivelmente arrumado, colocado para trás, mas a franja longa, um pouco mais curta que o restante dos fios, caía sobre o rosto. Dirigia-se a mim com uma voz de quem se divertia com tudo aquilo, e ao mesmo tempo de quem estava irritadíssimo. -Volte aqui, agora!

Pensei seriamente em sair pela porta, tentar fugir, porém soube que de nada adiantaria, pelo que percebi na primeira e única aula de Malfoy até o momento, pelo nível de insanidade dele, se eu saísse ele correria atrás de mim. Achei por bem me virar e caminhei até onde ele estava, erguendo o rosto e mantendo um olhar firme, talvez desafiador. Malfoy ficou parado a minha frente, parecia esperar que eu falasse primeiro, explicasse tudo, mas eu fiquei calada, e continuei olhando para ele, agora nos seus olhos.

-O que você estava fazendo? - perguntou contrariado.

-Nada. - achei melhor não contar.

-Nada? - ele respondeu muito nervoso. -Então, por que você devia estar na sua cama agora e está aqui?

-Não sei, acho que sou sonâmbula. - respondi bocejando.

-Ah! Sonâmbula? Incrível a senhorita vir parar tão longe de seu dormitório, se você fosse sonserina, até engoliria essa história, mas você é uma grifinória, e ainda é aluna nova, não conhece a escola, ou não deveria conhecer. - ele respondeu cheio de sarcasmo.

-Não sei explicar, professor.

-Vamos até a enfermaria comunicar Madame Pomfrey do seu problema, mas antes vamos resolver sua detenção com Filch. - disse me lançando um olhar estranho e me puxando pelo braço com força.

-Me larga! - gritei, o que pareceu espantá-lo. -Está pensando que vou fugir?

-Não. Mas quero me certificar que não vai fazê-lo.

-Pára com isso! - não sei da onde eu estava tirando tanta coragem para enfrentá-lo, talvez fosse a raiva acumulada com várias pessoas que haviam me irritado um tempo antes.

Malfoy soltou meu braço, seguimos em silêncio pelos corredores. Eu me sentia desesperada com a possibilidade de Filch me reconhecer justamente na frente de Malfoy. O caminho até a sala do zelador pareceu longuíssimo. Eu estava tão dispersa que nem percebi Malfoy parar em frente a uma porta no corredor e continuei andando. Sendo parada por um puxão no braço, dado por ele.

-Me solta. - queixei-me sem perceber porque tínhamos parado.

-Em que mundo você vive? Chegamos! - ele disse soltando o meu braço após me virar de frente à porta. -Filch? - Malfoy gritou sem ser respondido. Ele abriu a porta, a sala encontrava-se vazia, provavelmente Filch vistoriava os corredores com Madame Norra.

-Não tem ninguém, posso ir embora?

-De jeito nenhum! Entre. Vamos esperá-lo. - minha tentativa não tinha dado certo. -Você não vai mesmo me dizer o que queria na minha sala?

-Já disse.

-Se me dissesse a verdade, talvez não te deixasse de detenção. - ele tentava parecer compreensivo, mas Draco Malfoy tentando fazer cara de bonzinho era uma cena muito cômica. Eu não pude evitar o riso -Pare de rir!

-Eu já disse a verdade, se quiser peço um atestado de minha tutora confirmando que sou sonâmbula.

-Tutora? E seus pais?

-Mortos.

Ficamos em silêncio esperando Filch. A sala do zelador era bem iluminada, e estava uma verdadeira bagunça, vários dos objetos apreendidos eram da loja dos gêmeos em Hogsmeade, com certeza eles continuavam sendo odiados por Filch, mesmo fora da escola. Depois de uma hora esperando eu já tinha olhado cada detalhe de tudo na sala, e meus olhos começavam a pesar. Sentada em uma das cadeiras virei-me para Malfoy, que sentava-se na cadeira ao lado, meus olhos não acreditavam no que viram, ele cochilava! Era a oportunidade que eu esperava, levantei-me devagar e sai da sala, da porta pude ver que ele continuava imóvel.

Passei a correr pelos corredores, tinha que chegar logo no Salão Comunal, onde Malfoy não poderia me alcançar, não hoje. Tomava cuidado para não encontrar Filch. Virei em um dos corredores e subi uma das escadas, porém estava com tanta pressa que me esqueci do quinto degrau, que era falso. Quando pisei correndo nele meu pé afundou com força e caí pesadamente na escada soltando um grito de dor, pelo pé e por minhas mãos que suportaram o peso de meu corpo como autodefesa. Percebi o que tinha acontecido e comecei a me xingar mentalmente dos piores nomes. Tantos anos na escola, como pude esquecer do quinto degrau da escada do segundo para o terceiro andar? Já tinha passado por ali e pulado aquele mesmo degrau tantas vezes!

Ajeitei-me virando para ver se conseguia mover o pé do buraco. Não consegui, e ainda por cima doeu muito, só podia estar quebrado. Peguei minha varinha para fazer um feitiço que facilitasse a retirada do meu pé do buraco. Não me recordei de nenhum que possibilitasse que meu pé deslizasse e saísse, já que ele estava preso. Fiquei muito irritada, não vinha nada à minha mente, justamente na hora que eu precisava! Tentava me concentrar.

-Não viu o degrau? Pobrezinha... - Malfoy surgiu na escada. -E ainda me disse que não fugiria. Tsk, tsk. - virando a cabeça de um lado a outro.

Eu fiquei calada, só sentindo ódio de mim mesma por ser tão incompetente.

-Quer ajuda? Ou prefere ficar aí a noite toda. Não é má idéia! Seria um bom castigo... Deixar você aí até Filch encontrá-la, se é que ele a encontraria. Agora ele está velho... - disse virando-se de costas e começando a descer a escada. -Boa noite. Como é mesmo seu nome?

-Me ajuda. - disse baixo, muito contrariada.

-Me ajuda? Que nome estranho. - ele respondeu o mais ironicamente possível.

-É Claire Corr. Agora dá para me ajudar?

-Você não vai mais fugir?

-Quem mandou ser um dorminhoco? - eu tinha que revidar.

-Você não vai mais fugir? - ele estava irritado e ao mesmo tempo calmo.

-Não!

Malfoy se aproximou e sentou ao meu lado na escada, me olhou com um sorriso de deboche no rosto e pegou meu braço, me puxando.

-Ai! Você tá me machucando!

-Vou tentar outra coisa... - ele respondeu coçando o queixo e me analisando.

-Que tal um feitiço?

-Não. - respondeu colocando as mãos no meu pé preso. -Vou puxá-lo e vai doer.

Malfoy nem deixou eu responder, iria dizê-lo para não puxar. Ele rapidamente puxou meu pé com toda força, tirando-o do buraco e caindo para trás enquanto o segurava. Eu, logicamente gritei altíssimo de dor.

-Dramática! Quer acordar a escola inteira? - falou enquanto tampava minha boca.

Senti uma vontade imensa de me vingar mordendo a mão dele, mas achei melhor não fazê-lo.

-Dramática? Meu pé está quebrado!

-Isso a Madame Pomfrey resolve fácil.

-Mas está doendo do mesmo jeito.

-Ferula! - com o feitiço saíram ligaduras da varinha de Malfoy que enrolaram meu pé. -Largue de ser criança. Levante-se e vamos. - disse subindo a escada sem nem ao menos olhar para trás.

Eu levantei, mas não conseguia subir degraus com, praticamente, só um pé. Malfoy parou no alto da escada e olhou.

-Está demorando por quê?

-Se eu conseguisse já estaria aí! Mas não há nenhuma possibilidade de subir uma escada com um pé só!

-Vem pulando. - ele respondeu dando de ombros.

-Mas, e se eu cair e rolar escada abaixo?

-Seria divertido.

-Você tem responsabilidades como professor e se...

-Fica quieta! - ele gritou e no mesmo instante eu parei de falar.

Ele desceu os degraus irritadíssimo e parou ao meu lado. Eu murmurei:

-O que você vai...

Mas ele não me deixou terminar. Contrariado pegou-me no colo e subiu os degraus, em cima me pôs de volta ao chão.

-Pronto. Feliz, madame?

-Não fez mais do que sua obrigação de professor. - respondi recebendo um olhar mortal em retribuição.

Fomos mais devagar ainda do que anteriormente, graças ao meu pé, até a enfermaria. Nas outras escadas do caminho Malfoy me carregou, com a mesma boa vontade. Na enfermaria Madame Pomfrey lançou-me um olhar desconfiado.

-O que houve, professor? - ela perguntou.

-Aluna nova, burra, ficou presa no degrau da escada. - Malfoy respondeu entediado. -E tem mais, preciso comunicar que ela é sonâmbula. - dizendo isso virou-se para mim. -Amanhã, depois da aula, esteja na minha sala para combinarmos sua detenção. - assim que terminou saiu apressado da enfermaria.

Eu cairia na gargalhada com a expressão que Madame Pomfrey estava no rosto, se não estivesse com tanta dor.

-Sonâmbula? - ela perguntou bem desconfiada.

-É uma longa história...

-Que você vai me contar enquanto cuido desse pé!

 

Depois de curada, e de explicar tudo a minha cúmplice, fui liberada. Preferia passar a noite no dormitório do que na enfermaria. No caminho até o Salão Comunal vi um casal de namorados em um dos corredores, por sorte eles não me viram. Aquele encontro só me deixou mais triste do que eu estava porque me fez lembrar que eu era sozinha, não tinha ninguém, nenhum namorado no qual pudesse confiar meus segredos, ser eu mesma. Nem beijado eu tinha ainda. Estava tão cansada que quando cheguei no Salão Comunal e vi as poltronas aconchegantes resolvi deitar só um pouquinho antes de subir.

Aconchegada olhando a lareira vi Fluf, que veio até mim e deitou ao meu lado querendo carinho.

-Vem cá, meu namorado. - disse colocando ele na poltrona comigo.

Fiquei acariciando-o e cochilei. Tinha o sono leve e acordei rapidamente ao ver Bob ao meu lado. Pensei em beijá-lo, já que àquela hora da madrugada não raciocinava direito. Se eu o beijasse me livrava do sentimento de exclusão e de estranheza, que era ter vinte e um anos e não saber o que era ser beijada. Estava cansada de esperar meu "verdadeiro amor", parecia que só eu queria isso! "Vamos Gina, é só um beijo... Não depois vou acabar me arrependendo." Resolvi que não deveria beijá-lo.

-Que foi? - perguntei desligada.

-Cadê o vidro? - ele parecia furioso. -Todos desistiram de te esperar lá em baixo, só restou eu. Até que desisti também. Subo e encontro o quê? Claire dormindo!

-Calma! Eu fui na sala, só que o Malfoy me pegou e por causa de uma brincadeira idiota de vocês tenho uma detenção a cumprir! - tinha me acalmado enquanto cochilei, mas estava voltando a ficar nervosa. Que direito ele tinha de exigir alguma coisa? E pensar que dois minutos atrás eu tinha cogitado a possibilidade de beijá-lo!

-Verdade? Por que se você estiver mentindo...

-Vai fazer o quê? Me bater? Me expulsar da sua turminha? Não mesmo! E não ligo para isso! Não tenho medo de vocês e sua intimidação. Eu achei que você, Bob, poderia ser um verdadeiro amigo. Mas, agora vejo claramente que me enganei! - disse tudo que estava entalado na minha garganta.

Me levantei com Fluf no colo e fui em direção da escada do dormitório das meninas.

-Espere, Claire! - Bob disse se reaproximando. -Você tem razão, me desculpe. Não devia ter apoiado os meus amigos para você pagar a aposta. - ele estendeu a mão para uma trégua. -Me perdoa?

Eu olhei para ele e para a mão estendida a minha frente. Devia perdoá-lo?

-Tudo bem, mas a próxima mancada não tem retorno. - respondi enquanto apertava a mão dele

Bob sorriu e voltou a poltrona onde eu estava sentada.

 

Eu subi as escadas e entrei no quarto, pensei que Cameron e Shely estavam dormindo, no entanto, assim que entrei pela porta as duas amigas voaram sobre mim cheias de curiosidade.

-O que houve? Você demorou! - Cameron perguntou ansiosa.

-Nós estamos há horas te esperando! - Shely disse emburrada, cruzando os braços na altura do peito.

-Tanta coisa... Vocês nem vão querer saber... - esnobei um pouquinho, só para vê-las mais curiosas.

-Ah, Claire! Conta vai... - Cameron apertava meu braço.

-Se não quer falar, não fala! - Shely mais nervosinha virou-se e deitou na sua cama. -Eu é que não vou ficar implorando!

-Tá bom, eu conto, mas os detalhes eu explico amanhã. - respondi me sentando na minha cama, acompanhada de Cameron e Shely, que sentou-se relutante.

-Então como foi? - Cameron estava muito curiosa.

Contei tudo o que houve, desde a sala de jogos, até Malfoy me levando na enfermaria. Só ocultei alguns detalhes meus, é claro. Durante a narração ambas soltavam "óhs!", e também alguns "nossa!", mas fora isso, foi normal.

Estava cansada demais para continuar a conversar. Dispensei as duas e me deitei na cama. Tinha sido um dia bem cansativo. Pensava em tudo o que aconteceu quando me lembrei de minha mãe. Eu tinha que escrever a carta para ela! Como eu esqueci isso? Mas não tinha forças nem para escrever a essa hora, então resolvi que de manhã, durante a primeira aula escreveria, porque se não o fizesse era bem capaz de na hora do almoço encontrar Molly Weasley em Hogwarts. E não seria nada agradável ela me entregando de bandeja para o diretor e todos os alunos.

No dia seguinte escreveria a carta e a primeira matéria para o jornal. Uma denúncia de que os jovens de Hogwarts jogavam ilegalmente em uma sala escondida, e que ninguém fazia nada para impedí-los.

Próxima

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