ETNOCÍDIO MATEMÁTICO Jefferson Biajone Entendo à luz dos textos já discutidos e trabalhados nos últimos encontros de que pode existir sim forte relação entre o ensino da Matemática e o fenômeno do etnocídio. De que forma percebo ser isto possível? Ao focar o etnocídio enquanto a destruição sistemátuca da cultura do outro, evidencia-se o fato de que ferramentas são necessárias para se efetuar esta destruição e a matemática sem dúvida é uma delas. A matemática institucionalizada, formal, mundial, enfim - a etnomatemática legitimada e reconhecida pela academia com “A Matemática” da qual todas as demais derivam ou estão para nela evoluir - faz e é por si só instrumental para perpetrar a redução do outro ao mesmo, do múltiplo no Um, do esmagamento das forças centrífugas inversas, a igualdade de todos perante a lei, a morte ou a produção. De fato, se olhada a questão por duas perspectivas, a razão de ser dos conteúdos desta matemática e a maneira como estes contéudos são ensinados, evidencia-se mais claramente todo este potencial destrutivo que ela pode assimir. No que se refere à razão de ser dos conteúdos, emergem alguns questionamentos ainda sem resposta plausível: Por que este ou aquele tópico deve ser ensinado? O que subjaz a razão de ensino daquele determinado conteúdo? Que valores e interpretações de mundo/humanidade vêm com ele associados? Por que a matemática do outro, da minoria, do esquecido, do vencido, do marginalizado, dos que “não são nós”, não é aceita? Independente da resposta, uma constatação evidencia-se: ao se privilegiar uma matemática em detrimento da outra, reduz-se seus diversificados aprendizes ao mesmo, padronizado e preparado para resolver exercícios e passar em vestibulares; um “aluno-soldado”, na precisão integral do termo, morto na criatividade, sufocado no espírito da criação, formatado no seu pensamento, para trilhar o caminho já trilhado pelos justos, bons e vencedores. Diante da força de tais realizações, como então questionar a razão de ser destes conteúdos se não se tem sequer a atitude/motivação para fazê-lo? De fato, desde a mais tenra idade, sob o jugo de gerações e gerações de professores que vêm se substituindo na linha de ensino, os alunos vão indistintamente recebendo suas doses da mesma matemática de modos similares, invariavelmente sob os mesmos pretextos. Neste longo caminhar da escolarização, aqueles alunos-soldados que não se enquadram ao modelo/objetivo propostos, vão saindo de forma e compondo a fila dos ditos "fracassados" – algumas vezes de cabeça erguida, tirando zero na matemática e dez na vida – seja porque este saber lhes foi fator impeditivo para alçar maiores estudos, seja porque os traumas que o seu aprendizado lhes ensejou foram tão significativos que tudo que lhes diz respeito à matemática é motivo de pavor e ojeriza. Cada pessoa tem o seu ritmo, sua forma, seu tempo de aprendizagem, necessidades, história de vida, desejos, sonhos. Impor conteúdos que não lhe tenha significado nem sentido algum é esmagar-lhe as forças centrífugas de seus pensamentos, de seu agir, de sua compreensão de mundo, de suas aspirações enquanto ser humano. É condicionar-lhe um padrão único de enxergar o mundo e a partir dele julgar os demais seres, suas matemáticas, seus valores, suas vidas. Tanto é assim que creio não haver momento de maior etnocentrismo matemático quando se toma contato com a matemática de outros povos, outras culturas. Se o olhar não for desinteressado, acredito que deva ser quase que impossível colocar-se no lugar do outro e abster-se de balizar a sua matemática pela matemática que traz consigo. Com efeito, fica mais fácil aceitar os movimentos da inércia social: que sejam todos iguais perante a lei, que aprendam a nossa matemática que os habilitará a ser como nós, a enxergar o mundo pelo nosso olhar, a ter as necessidades que temos, os mesmos hábitos, necessidades, gozos e benefícios? Afinal, de que outra forma poderiam produzir? Ser “felizes”? Ter direito a elevar-se à dignidade de cidadãos do mundo? Sair do “ostracismo” e do desperdício de tempo e recursos em que se encontram “perdidos” e “absortos”? Estas e outras considerações, ao meu ver, fundamentam o princípio de que a razão de ser da matemática escolar já até perdeu o sentido de ser justificada se levado em consideração se para viver em um mundo tão quantitativo como o nosso – onde dados e informações numéricas entrecruzam e formatam os mais longínquos recantos da terra – é imprescindível aprender a matemática oficial para estar em condições de operar neste contexto. Quanto ao etnocídio matemático que se vai cometendo ao longo desta jornada educativa, creio que à história restará de apontar os culpados e contabilizar as casualidades. No tocante à forma como a matemática escolar é ensinada, legitimada no seu ensino e perpetuada por intermédio dele, percebo encerrar ai outra potencialidade da matemática enquanto ferramental de etnocídio da cultura de um povo: a reduzir-se as possíveis formas de se fazer matemática em uma única, corta-se pela raiz a iniciativa e o espírito criativo daqueles que poderiam (re)significar tal conhecimento de outras maneiras, jeitos e modos. Poderia trazer à luz vários exemplos do cotidiano da sala de aula, mas concentrarei minha atenção em apenas um, vivido por muitos de nós, licenciados em matemática. A vasta miríade de listas de exercícios de repetição e rotina, apregoadas ao longo dos quatro anos da licenciatura naquele saber, são exemplo de como proceder com o etnocídio da matemática materna que o licenciando traz consigo (se o trouxer). Naqueles dias muitas vezes incertos e angustiosos, recordo-me de disciplinas onde tais listas não paravam de se multiplicar e o aprendizado desejado não ia além da capacidade de entregar todas elas resolvidas e ser capaz de fazer o mesmo nas provas. Nunca nos foi dado naquele relevante momento de nossa formação para o professorado, o questionamento do porquê daquela modalidade de ensinar/aprender matemática. Bastava-nos ficar quietos, resolver as listas, entregá-las e aguardar algo parecido para cair em prova e seguir em direção ao diploma ao fim dos quatro anos. Que visão de educação matemática poderia então se esperar de futuros professores assim formados? Quantos outros tantos no passado e no presente não foram etnomassacrados da mesma forma? Termino minhas considerações sobre a relação entre o etnocídio e o ensino da Matemática com a impressão de que acabarei mais fazendo destas palavras um momento de catarse de velhos traumas do que contribuições elevantes para a nossa discussão sobre a supracitada relação. Sou do partido, entretanto, que valeu a proposta da atividade e lanço estas minhas palavras a vocês esperançoso de que no nosso compartilhar possamos juntos aprender, retirar as vendas, abrir os olhos, aguçar os sentidos e nos conscientizar de que podemos ou não estar contribuindo para o etnocídio matemático de nossos alunos.