UMA CENA, BOAS INTENÇÕES E ETNOCÍDIO Adriano Fonseca O professor está vindo! – avisa um aluno que estava na porta aos outros. Alguns alunos ouvem e logo sentam, outros ouvem mas ignoram, outros nem ouvem. O professor chega na porta, olha silenciosamente e furiosamente para todos e depois de alguns segundos diz: Todos sentados, agora. Silêncio, sileeeeêncio, ..., SILÊNCIO. Faz a chamada, verificando quem não está. Depois, num tom autoritário diz: — Vamos começar a aula. Hoje vou ensinar a vocês a fórmula de Bháskara, um dos assuntos mais importantes da Matemática. Passa o conteúdo na lousa, e após ensiná-lo, cobra dos alunos que resolvam alguns exercícios. Essa cena se mostra para nós professores de Matemática mais um dia como qualquer outro dia, até que uma aluna insatisfeita, crítica, descontente com essa rotina, pergunta ao professor: Professor, até hoje nenhum professor conseguiu me explicar aonde é que vou usar tudo isso que me é ensinado. Será que você poderia me dizer aonde vou usar isto na minha vida? Pronto, e agora. O que essa aluna chata – pensa o professor –, tem que questionar a minha aula, o que eu ensino? O que fará o professor frente a essa pergunta desafiadora, sendo que ele não foi preparado para respondê-la? O desfecho desta cena, deixo a cargo do leitor. Esta cena nos revela uma realidade na qual dificilmente refletimos e que muitas vezes esconde uma das ações mais desumanas: o etnocídio. Definida pelos etnólogos como “... a destruição sistemática de modos de vida e de pensamento de pessoas diferentes daquelas que conduzem a empresa de destruição.” (Clastres, 1982, p. 53), difere de outra ação desumana conhecida como genocídio que nos é mais familiar e que é usada em situações onde há um extermínio em massa de um povo. Nas palavras de Clastres (1982, p. 54), “... o genocídio assassina os povos em seu corpo e o etnocídio os mata em seu espírito.”. Mas você leitor professor poderia dizer: Que absurdo, jamais faria isso com “meus alunos”, pois a minha preocupação é que eles aprendam Matemática, que é tão importante para a vida deles, para o desenvolvimento (= evolução) de seu raciocínio lógico ...? Clastres escreve que enquanto o genocídio extermina os outros porque são diferentes e maus, o etnocídio relativiza esse mal na diferença, admitindo que “... os outros são maus, mas podemos melhorá-los, obrigando-os a transformarem-se até se tornarem, se possível, idênticos ao modelo que lhes propomos, que lhes impomos. A negação etnocidária do Outro conduz a uma identificação consigo mesmo.” (p. 54). É exatamente nessa nossa “boa intenção” que devemos nos preocupar e refletir sobre, pois na maioria das vezes estamos impondo a nossos alunos um modelo (a Matemática) que para nós é o melhor, o mais completo, absoluto. Modelo este que também nos foi imposto e que aceitamos passivamente. Devemos tomar o cuidado de não matar o espírito de nossos alunos, quando exigimos deles silêncio, imobilidade, quando tolhemos seu espírito criativo, artístico, quando não deixamos que as emoções façam parte da aula. Mas, ainda, você poderia argumentar, dizendo que se preocupa em considerar os conhecimentos prévios dos “seus alunos” quando vai ensinar Matemática. Costa (2003) nos alerta sobre a visão tradicional que temos e que “... passa a imagem de que o conhecimento matemático cotidiano é um estágio inferior da matemática acadêmica, e de que, com o tempo, e com o auxílio dos professores incumbidos de transmitir o conhecimento correto, os diferentes grupos culturais irão evoluir até alcançar o conhecimento matemático acadêmico.” (p. 209). Podemos perceber então que considerar o conhecimento matemático cotidiano do aluno com o objetivo de alcançar o conhecimento matemático acadêmico não significa nada, do ponto de vista da valorização da sua cultura. Mais ainda, quando digo “meus alunos”, devo refletir em que sentido digo isto, pois posso estar assumindo ainda mais uma postura etnocida, reproduzindo a idéia do Estado, que segundo Clastres funciona da mesma maneira e produz os mesmos efeitos que o etnocídio. “Meu”, no sentido de posse, de querer que ele seja um igual, passando assim por cima da questão das diferenças, sugere que tenho direitos totais de agir sobre, da maneira que quero. Desse modo, passo a considerar a existência de culturas inferiores e superiores, que na cena apresentada são, respectivamente, a cultura dos alunos e a cultura escolar – nem posso dizer que a cultura superior é a do professor, pois este também sofre dominação, ou melhor, permite sofrer dominação, o que é pior. Não podemos pensar como o democrata bem intencionado descrito por Santos (1989): “... nossos alunos serão iguais a nós quando não forem diferentes.” (p. 26). Uma esperança. Acredito que esta relação etnocida que surge na sala de aula não será suficiente para matar o espírito cultural dos alunos, pois de certa forma há uma resistência por parte deles com relação ao domínio da matemática escolar – não é por acaso que eles questionam a validade, o uso da matemática escolar em suas vidas. Acredito também que o professor faz o que faz sem refletir sobre as consequências do que faz, pois do contrário, se o que faz é intencional, premeditado, a situação é muito mais grave. Devemos refletir e questionar nossas ações, nossas escolhas, nossas posturas, sermos críticos de nós mesmos e do que nos é imposto, para podermos ser capazes de formar alunos críticos, reflexivos. Assim reconhecerei quem sou, quem o outro é, acolhendo-o como ele é, respeitando as diferenças, e também que o que sou depende da imagem que o outro faz de mim, sendo que esse outro é diferente de mim, mas ainda assim é como eu: um ser humano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CLASTRES, P. Arqueologia da violência. São Paulo: Brasiliense, 1982, cap. 4. COSTA, W. N. G. Etnomatemática: uma tomada de posição da Matemática frente à tensão que envolve o geral e o particular. In: GUSMÃO, N. M. M. (org.). Diversidade, cultura e educação: olhares cruzados. São Paulo: Editora Biruta, 2003. p. 201-223. SANTOS, J. R. Quanto vale uma criança negra. Idéias em debate. In: SANTOS, J. R.; VARGAS, E. V. (orgs). Literatura e criança. In: I ENCONTRO LOCAL DO PROGRAMA QUANTO VALE UMA CRIANÇA NEGRA. Anais..., 1989. Rio de Janeiro: ISER – Instituto de Estudos da Religião, 1989.