“Well when you go (Quando você partir)
So never think I'll make you try to stay (Não pense que vou tentar fazê-la ficar)
And maybe when you get back (E talvez quando você voltar)
I'll be off to find another way (Eu terei saido para encontrar outro caminho)”
–- Olha , você realmente não precisa fazer isso, tá legal? – Eu gritava na direção dela. Não, eu não me importava mais com o vento que cortava a minha face, ou a chuva que me encharcava. Nada disso parecia ter mais sentido agora, dada a situação. Eu parecia estar afundando em um buraco, sem qualquer perspectiva de sair de lá. Isso também era simplesmente irrelevante. Eu já estava afundado há tempos, e até acostumado com isso. Meus sonhos não tinham lugar dentro da caixa apertada que meu coração se encontrava, encontrando espaço somente para uma última batida fraca. Minhas esperanças já haviam sido levadas junto com o sol, que se escondia atrás das grossas nuvens negras. Nada mais me restava fazer, tudo já seguia seu caminho irremediável. Eu não tinha por que lutar, por quem lutar. Eu já estava cansado de todos os erros e de suas conseqüências. Eu precisava me livrar logo daquilo.
Eu estava lutando seriamente para me controlar, para me manter calmo o suficiente enquanto tentava explicar para ela. Não estava funcionando. Eu sentia minha garganta queimar, mas eu não deixaria essa dor ser aliviada, não naquele momento. Meu orgulho era precioso o suficiente para me manter seguro de uma enxurrada indesejável de lágrimas. Diferente dela, que não escondia seus sentimentos, eu havia composto uma máscara de indiferença, utilizada regularmente, eu diria. Ela estava no banco à minha frente, sentada, imóvel, sem me olhar.
Ela não respondeu e eu finalmente pude pensar no que faria. Só precisa me concentrar.
–- Você não quer que eu fique, então, ? – Sua voz era rouca, parecendo um pouco desapontada. Eu ergui meus olhos para encontrarem os dela. não estava sorrindo com o olhar, como eu esperava que ela estivesse. Eu só havia facilitado tudo para ela, pensei que pelo menos isso seria apreciado.
–- Você realmente pensou que eu fosse tentar te impedir? Que eu a faria ficar? – Ela fez um leve aceno com a cabeça.
–- Poupe-me , você sabe que isso é idiota da sua parte. Você está decidida a partir, e eu decidido a deixá-la partir. Você soube desde o início que seria assim.
–- Sim, mas eu achei que você me quisesse. Que você lutaria por mim.
–- Não é realidade, como você pode ver.
–- Mas eu não posso ir. – Sua voz era apelativa.
–- E também não pode ficar. – Ela abaixou a cabeça, claramente consentindo. –- Mas você vai voltar e eu não estarei aqui quando você precisar.
levantou a cabeça, horrorizada.
–- Como? – sua voz se quebrou em um lugar estranho.
–- Eu não vou estar aqui. Eu não vou te esperar. Eu vou seguir com minha vida, vou buscar outro caminho. Eu não preciso mais disso tudo.
“And after all this time that you still owe (Afinal, depois de todo esse tempo que me tomou)
You're still the good-for-nothing I don't know (Você ainda é essa inútil que eu nem conheço)
So take your gloves and get out (Então pegue suas luvas e vá embora)
Better get out (É melhor ir embora)
While you can (Enquanto você pode)”
Agora seus olhos estavam grandes e pequenos pedaços de tristeza traduzida se formavam nele. Eu não fiquei como achei que ficaria. Eu não estava sofrendo por ela, como tinha certeza que faria apenas horas atrás. Tudo parecia ter mudado neste pequeno tempo.
–- Eu estou farto de ter que me enganar, de gastar meu tempo com mentiras. Eu não agüento mais dormir e acordar sempre no mesmo pesadelo. Minha vida não anda, tudo está parado no mesmo gelo sem emoção de quando eu a conheci. Eu não preciso deste lembrete para me recordar o quanto eu fiquei fora do alcance do mundo. Você tem ocupado toda minha vida, roubando meu tempo e toda a minha atenção. Eu não tenho mais tempo para tomar decisões, para decidir quem eu sou. Você tirou este poder de mim, como uma nuvem tira a cor do céu. E pensando bem, é assim que minha vida é, sem cor. Preto e branco, sem graça. Eu sou o homem de preto, que observa a anja de branco em seu perfeito globo de neve. Você é como uma anja, mas não trouxe a felicidade para mim. Seus olhos me consomem, e eu sou seu escravo. Mas eu realmente não conheço minha senhora. Eu não consegui decifrar quem você é, mesmo depois de tanto tempo.
–- , é claro que você me conhece, nós.. – eu a interrompi.
–- Não , eu não a conheço. Você parece ser uma estranha a meus olhos, uma estranha amada, mas que não deixa de ser uma estranha. Você faz parte da minha vida, mas eu não faço da sua. Qual a utilidade disso? Amar sem conhecer? Parece inútil, não é? E ainda assim eu estou aqui. Incompreensível.
–- , me escute, por favor, eu.. – eu a cortei secamente.
–- O que está te impedindo de ir ? É a minha dor ou a sua consciência? Você não tem nada a perder, arrisque-se e tente. Aceite o desafio que a vida lhe propôs. Faça sua escolha. Vá embora, enquanto você não está confusa o suficiente para misturar os sentimentos. Quando esta teia te pegar será tarde demais, você estará presa. Somente esperando a vida vir te pegar novamente. Melhor acabar com isso de uma vez, não é verdade?
“When you go (Quando você partir)
And would you even turn to say (Você deveria ainda sim voltar para dizer)
'I don't love you (‘Eu não te amo)
Like I did yesterday' (Como amava ontem’)”
Ela não repondeu e eu suspirei. Melhor que ela não falasse nada, eu certamente não iria ouvir, de qualquer modo. Joguei minha cabeça para trás, fazendo meu capuz cair e minha face ficar exposta à chuva. A sensação de liberdade era revigorante e referescante. Deixei a água percorrer seu caminho ininterrupto, lavando todos os vestígios do suposto cansaço que eu deveria estar sentindo. Havia sido um longo dia, mas ele estava longe de acabar.
–- Mas, posso te dar um conselho? Algo que eu realmente gostaria que você considerasse?
Ela deu de ombros. Continuei.
–- Você ainda deveria ser sincera comigo. Eu mereço isso. Depois de tudo que a gente passou, isto seria apenas um centésimo do que eu acrescentei à sua vida. Não tenha medo de me machucar, não tenha medo de se machucar. Isso não vai me incomodar. Respire fundo e diga a verdade. ‘Eu não te amo como amava ontem’.
Parei e virei minha cabeça repentinamente para o lado, estava ficando cada vez mais difícil controlar a queimação que possuía minha garganta. Praticamente insuportável.
Beatriz continuou parada, sem dizer nada. Eu a acompanhei por um breve período.
–- Essa é a verdade, não é?
Ela continuou em seu estado de pedra. Ela parecia sobrenatural, branca e parada como uma estátua daquele modo.
–- Eu já sabia, não sei por que estou assim, tão... Sem palavras. Deve ser resultado de todos os meus atos, nossos atos. É por isso que estamos onde estamos, não é?
“Sometimes I cry so hard from pleading (Às vezes eu choro tanto por implorar)
So sick and tired of all the needless beating (Tão doente e cansado dessa violência desnecessária)
But baby when they knock you (Mas, meu amor, quando te derrubarem)
Down and out (No chão e nocautiada)
It's where you oughta stay (É lá que você deve permanecer)”
–- , me escute agora, eu imploro! – Fiquei quieto dessa vez. Minha garganta parecia que ia explodir e eu não tinha muita confiança para voltar ao meu discurso eloqüente. Poderia fazer uma curta pausa para escutá-la tranquilamente. –- Obrigada por me ouvir. – Ela respirou fundo. –- Eu não queria te causar sofrimento, eu não queria me causar sofrimento. Mas eu sei que isso só seria possível se eu ficasse e acho que depois de tudo que você me disse eu não posso. Afinal, agora está parecendo que você quer que eu vá. Mesmo que não seja o melhor no momento, você parece que vê que isso vai ser melhor no futuro. Eu me pergunto como.
–- Simples. – Eu respondi serenamente. –- Eu não agüento mais. Eu não posso suportar a dor da mentira que me envolve e sufoca a cada instante. Eu preciso de uma saída, eu preciso de ar. A caixa está ficando muito apertada.
Eu falava no sentido figurado, mas meu coração pareceu se apertar mais ainda quando eu proferi estas palavras. Estava quase impossível manter meu orgulho. Uma lágrima escorreu e eu me apressei para enxugá-la o mais rápido o possível.
–- Eu sinto como se isso fosse um veneno, impregnado e grudado em cada célula do meu corpo, impossível de ser retirado. A única maneira de sobreviver ao efeito desse veneno é uma mudança, uma cirurgia. E eu estou pronto para a morfina.
–- Eu, eu.. Eu não estou entendendo mais nada. – Ela soltou exasperada.
–- Não era para entender. Este é um assunto meu e do meu médico interior, isso diz respeito somente a nós dois. Ele está me dizendo que eu devo parar de implorar pelo fim da dor, parar de chorar pela conseqüência da minha doença. Isso é um caso de UTI, eu não sei o quanto eu agüento. Preciso do antídoto, e sei como consegui-lo. Eu só tenho que me libertar, ou deixar você se libertar. Não é como se eu tivesse muita escolha.
–- , é claro que você tem, você..
–- Não , eu não posso. Você não pode. Nós não podemos. (n/a: aprenderam a conjugar o verbo poder direitinho? lala’) É só uma questão de tempo até você descobrir o que eu estou falando. Não é nada complexo, eu venho tentando te dizer isso faz um tempo. A verdade vai te sufocar, e então você perceberá. E quando você estiver no chão, caída pela força exercida sobre você, você não vai poder se levantar. O vazio será imenso e a escuridão maior ainda. E você não vai se mover. Suas pernas estarão congeladas, seus braços em volta do seu joelho numa tentativa inútil de se aquecer. Lá é frio. Mais do que em seus terríveis pesadelos, porque é real. E você só enxergara uma solução, a única que parece resolver todos os seus problemas de uma vez. E você vai considerar essa solução, debatendo os prós e os contras. E você vai resolver que não tem nada a perder afinal. E você vai por isso em prática.
“And after all the blood that you still owe (Afinal, depois de todo o sangue que me tomou)
Another dollar's just another blow (Um dólar a mais é só outro golpe.)
So fix your eyes and get up (Então dê um jeito em seus olhos e levante-se)
Better get up (É melhor se levantar)
While you can (Enquanto você pode) ”
–- , eu..
–- E isso vai causar mais dor e sofrimento em mim. Mas, quem liga para isso? Você não estará mais aqui para se importar. Você terá aliviado sua própria angústia e a passado para mim. Os sentimentos nunca vão deixar de existir, eles só mudarão de pessoa. De você para mim. Isso será só mais um golpe, nada que eu não tenha vivenciado. Mas eu carregarei o fardo de duas pessoas e não somente o meu. O mundo parecerá mais pesado, quase insuportável. E eu também vou pensar em desistir. Porém eu seguirei em frente, com o queixo levantado e o nariz empinado. Eu não vou deixar sua escolha me afetar. Não quando você estiver tão longe de mim, e do meu sangue quente.
A chuva havia dado uma trégua momentânea, fazendo o vento ficar um pouco mais suave. Eu inalei os aromas que vinham na corrente de ar. Todos pareciam carregados, talvez até demais para a tarde de outono. Parecia que meu humor estava afetando o mundo ao meu redor novamente. Encarei-a, pela primeira vez olhando em seus olhos. Eles estavam mais brilhantes do que eu lembrava em meses. Mas não era o brilho natural da alegria de ganhar um presente. Era o brilho triste de quando se sabe que algo ruim vai acontecer. Ou já aconteceu.
Seu rosto estava começando a ficar vermelho, enquanto soluços nasciam de sua garganta. Eu não me aproximei para reconfortá-la. Isso certamente não era o que ela esperava que eu fizesse, não depois de tudo, pelo menos. A culpa era dela, toda dela. E agora ela que deveria resolver o problema e arcar com as conseqüências.
–- Vamos, levante-se. Engula as lágrimas e faça algo que irá realmente nos ajudar. Aproveite enquanto a dor não te consumiu, enquanto você não precisa do torpor para cobri-la. Use o resto de seu estoque de forças para esse objetivo. Vá embora. Antes que isso se complique mais ainda e você se veja grudada. Vá enquanto ainda há esperanças de você ver o sol nascer amanhã. Vá viver sua vida, sem interferir na minha.
(Ohhhhhhhh)
“When you go (Quando você partir)
And would you even turn to say (Você deveria ainda sim voltar para dizer)
'I don't love you (‘Eu não te amo)
Like I did yesterday' (Como amava ontem’)”
Eu desviei o olhar enquanto seu pranto aumentava de intensidade. Aquilo estava começando a passar dos limites. Eu me sentei ao seu lado e agarrei seus pulsos. Fiz com que ela se virasse para mim.
–- Não tenha medo, vamos. Apenas faça o que é certo. Não seja racional justamente agora. Você chegou tão perto. É só engolir a verdade e me dizer. Eu não vou ficar surpreso. Você tem a chance perfeita.
Seus grandes olhos piscaram para mim antes de se desviarem rapidamente.
–- , eu não sei se posso viver mais sem você.
–- Porém você não me ama. Eu sei disso.
–- , eu te amo! Hum, mas..
–- Mas? – eu já sabia o resto da frase antes dela pensar nela.
O céu pareceu se escurecer mais ainda quando eu percebi que tinha conseguido o que eu queria. Eu tinha ganhado. Porém, não me sentia como um ganhador em nenhum ponto. Eu deveria estar feliz, algo impossível para mim. Suspirei, esperando as suas últimas palavras.
(Well c'mon, c'mon!) (Ora, vamos lá, vamos lá)
”When you go (Quando você partir)
And would you have the guts to say (Você deveria ter coragem pra dizer)
'I don't love you (‘Eu não te amo)
Like I loved you yesterday' (Como eu amei ontem’)”
–- Eu não te amo como eu amei ontem. Sinto muito.
Ela se levantou e saiu correndo pelo parque, enquanto a chuva recomeçava. Por dentro, uma tempestade também ecoava, fazendo barulhos estranhos e uma enxurrada de lágrimas aparecerem.
''I don't love you
Like I loved you
Yesterday''
(2x)
FIM
n/a: Muito obrigada por ler, espero que tenha gostado!