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Pr�logo

Eu nunca pensei que fosse me apaixonar dessa maneira. N�o pela pessoa t�o errada, pela pessoa por quem eu nem poderia lutar. Por�m, eu n�o tinha escolha. Eu j� estava envolvida demais para tentar me retirar dessa enrascada. Eu iria me ferir, sabia disso.
Contudo, eu n�o podia me arrepender das minhas decis�es. N�o quando elas me mostraram liga��es t�o profundas que eu jamais poderia imaginar.
Agora, era vida ou morte. Eu s� podia esperar que meu anjo da m�sica viesse me salvar.

Cap�tulo I - Your eyes will follow me

Nunca pensei muito em meus sonhos. Nunca dei aten��o a eles, para falar a verdade. Por isso minhas expectativas n�o eram assim t�o altas quando eu entrei no trem.
Eu sabia que em minhas condi��es, n�o era sensato sonhar, n�o era saud�vel. N�o quando tudo que voc� planeja com os m�nimos detalhes pode ser arrancado de voc� em um piscar de olhos. A vida � injusta, e eu j� conhecia o suficiente dela para dizer isso.
Nasci em Liverpool, noroeste da Inglaterra, no dia 07 de setembro de 1992. N�o posso reclamar da minha inf�ncia, sempre tive de tudo, por�m sei o quanto meus pais se sacrificaram para me dar essa vida privilegiada. No entanto, isso n�o acrescentou nada � minha vida, muito pelo contr�rio, acabou me prejudicando. Nunca fui bem recebida nas escolas, nunca gostaram de mim. J� me perguntei muitas vezes o porqu� disso, por�m cada vez que chego perto de uma resposta, ela parece desaparecer bem na ponta do meu nariz.
Cresci assim, e acabei me habituando � solid�o. N�o vejo tanto problema em ficar sozinha, o sil�ncio que me preocupa. Nunca gostei da aus�ncia do som, isso faz o ambiente parecer vazio, sem vida. Talvez seja por essa raz�o que eu canto desde pequena.
Qualquer que tenha sido o motivo, ele me trouxe at� onde estou agora.
O apito do trem soava pr�ximo, e eu sabia que era hora de me despedir. Dei um abra�o forte em meus pais, e em meu irm�o mais velho, John. Seu nome fora escolhido em homenagem ao guitarrista dos Beatles, o famoso John Lennon, �cone de nossa cidade. Eu queria ter a sorte de ter um nome t�o legal quanto o dele.
Subi apressada no vag�o, deixando a plataforma para tr�s. Dei um �ltimo aceno para minha fam�lia, e fui procurar uma cabine para me sentar. A viagem seria longa.
Eu tinha muita coisa em que pensar antes de chegar � cidade que deveria realizar meus sonhos. Ou a cidade que abrigava minha destrui��o.
Pessimista? N�o, realista. Eu sabia o quanto eu teria que lutar para chegar a algum lugar e n�o mediria esfor�os para isso. Por�m eu precisava de um professor, algu�m que me ensinasse todos os truques e macetes do que � realmente cantar.
Eu esperava encontrar meu mestre em Londres.
Acomodei-me em uma cabine vazia, fechei a porta e as cortinas da mesma. N�o precisava de companhia, n�o queria companhia. Eu queria um tempo s� para mim, para que eu pudesse organizar meus pensamentos e colocar minha leitura em dia, se poss�vel. Havia um livro novo que eu havia ganhado e ainda n�o tinha tido a oportunidade de l�-lo.
J� com as minhas malas guardadas em seus devidos compartimentos, puxei minha bolsa para mais perto, analisando seu conte�do. Coisas in�teis e essenciais, tudo misturado.
Exatamente do jeito bagun�ado que eu gostava.
Peguei ent�o meu caderno de m�sicas, repousando-o em meu colo. Eu estava concentrada o suficiente para conseguir jogar meus sentimentos em palavras e pensativa o suficiente para deixar minha mente voar e buscar imagina��o. A combina��o perfeita para escrever uma m�sica.
A lapiseira j� estava em minha m�o, escrevendo rapidamente enquanto as ideais vinham � minha cabe�a. Nada me interromperia naquele momento. Ou pelo menos, quase nada.
Ouvi batidas na porta, e logo em seguida ela foi aberta. Levantei a cabe�a atordoada, fixando meus olhos no rec�m chegado. Eu n�o esperava companhia.
�- Hum, ol�. � Disse um homem, colocando a cabe�a para dentro. A primeira coisa que pude perceber foi seu sotaque, diferente. Certamente n�o era da Inglaterra. Ele deu um sorriso amig�vel e eu fiquei sem respirar por alguns segundos.
Ele era lindo. Mais bonito do que todos meus namorados anteriores, mais bonito que qualquer homem que eu j� havia visto. Ele parecia que tinha acabado de gravar um comercial de roupas masculinas, do modo elegante que estava vestido, por�m continuando casual. Apesar disso eu n�o observei por muito tempo suas roupas, seu rosto havia fixado meu olhar. Ele pareceu n�o se importar muito com isso.
�- Desculpe-me, mas o resto do trem esta lotado. Tem algu�m sentado aqui? � Ele perguntou indicando o banco � minha frente. Neguei com a cabe�a, ainda calada. Eu n�o sabia se podia usar minha voz sem demonstrar o qu�o impressionada eu estava.
Ele entrou rapidamente, puxando uma mala atr�s de si. Com facilidade, levantou-a, guardando-a no compartimento acima de nossas cabe�as. Ele se sentou de frente para mim.
�- Prazer, sou . � Ele disse estendendo sua m�o direita. Peguei-a levemente, enquanto respondia.
�- Sou .
Soltamos as m�os e ele continuou a me olhar. Ele parecia curioso, por�m eu n�o podia ter certeza. Seus olhos tinham me fixado de uma forma que eu n�o conseguia pensar em nada al�m da cor penetrante que emanava deles. n�o pareceu constrangido que eu o estivesse observando t�o descaradamente.
�- Desculpe-me a intromiss�o, , mas quantos anos voc� tem? � Sorri ao uso do apelido despreocupado. Apesar de n�o ter o dito a ele, de algum modo ele sabia como me chamar. Isso pareceu bem espont�neo da parte dele. Tive que me concentrar na pergunta para respond�-la.
�- Tenho dezessete. � Parei para analis�-lo. Ele n�o parecia ter mais do que vinte e cinco anos. Resolvi me certificar disso. � E voc�? � Eu n�o sabia se devia o cham�-lo de senhor ou n�o. Escolhi o mais casual, uma vez que ele tinha inventado um apelido para mim.
�- Tenho vinte e tr�s. Apenas seis anos de diferen�a.
Assenti, sem saber por que ele havia acrescentado a ultima informa��o. N�o era somente eu que estava esperando por essa confirma��o de pequena diferen�a de idades?
Ainda confusa, voltei minha aten��o para meu caderno de m�sicas, tentando me concentrar novamente. Eu sabia que isso seria imposs�vel, j� que agora tinha companhia. E n�o era qualquer companhia, era a companhia. Eu n�o podia me concentrar muito com um deus grego parado � minha frente.
Entretanto eu tentei, do mesmo jeito. E fui interrompida em menos de cinco minutos.
�- O que tem de t�o importante nesse seu caderno para voc� olhar fixamente para ele desse jeito? � Ele perguntou, sua voz esbanjando curiosidade. Percebi pelo canto de olho que sua m�o direita repousava em seu colo, por�m a esquerda estava dentro do bolso de seu casaco. Achei estranho, por�m n�o comentei nada.
Olhei ent�o para cima, encontrando seus olhos. Eles estavam sorrindo, assim como seus l�bios. Involuntariamente, sorri tamb�m.
�- Minhas m�sicas.
Ele pareceu surpreso.
�- Voc� comp�e ent�o? � Ele parecia mais interessado agora. Seria ele m�sico tamb�m? Afastei esses pensamentos de minha cabe�a rapidamente. Eu ainda precisava responder a pergunta.
Era t�o f�cil deixar minha mente vagar em pensamentos desconexos.
�- Sim. Mas n�o sou muito boa nisso. � Resolvi ser sincera, para n�o come�ar do modo errado. Entretanto eu n�o sabia exatamente o que estava come�ando. Uma conversa de tr�s horas no vag�o de um trem? Uma amizade? Mais que isso?
Fechei os olhos bruscamente, tentando fazer essas ideais desaparecerem. Qual era meu problema afinal? Por que eu estava me dando ao trabalho de questionar minhas poss�veis rela��es com esse homem desconhecido? Ele era s� um estranho, nada mais. Era s� sua beleza que estava me deixando desse jeito.
Tentei fortemente me convencer disso.
�- Se importa se eu der uma olhada? � perguntou, retirando-me de minha loucura interior. Eu estava t�o absorta que mal tinha entendido o que ele havia me perguntado.
�- Perd�o, o que disse?
�- Se voc� se importaria se eu desse uma olhada. Em suas composi��es, quero dizer.
�- Oh. � Foi s� o que consegui dizer. N�o tinha como eu deixar um estranho ver minhas composi��es. N�o quando elas eram t�o pessoais e sentimentais. Ele n�o entenderia. Ele podia rir de mim.
Olhei em seus olhos, preparando-me para desapont�-lo.
�- Desculpe-me, mas s�o muito pessoais. � Tentei fazer minha voz soar o mais gentil poss�vel. N�o queria que ele ficasse magoado comigo.
�- Tudo bem, eu entendo. Tamb�m n�o deixo ningu�m ver minhas composi��es em andamento. � E ele piscou para mim.
Ele era m�sico tamb�m, logo compreendi. Algo dentro de mim se acendeu, deixando-me mais interessada ainda na conversa. Eu sentia que podia me abrir com ele, apesar disso n�o ser nada aconselh�vel. Eu diria que essa era a �ltima coisa que eu deveria fazer no momento.
�- Voc� � m�sico. � Eu disse. N�o era uma pergunta.
Ele assentiu, sorrindo.
�- Tem uma banda? � Perguntei. Minha curiosidade estava inflamada agora.
�- Na verdade n�o. Eu ajudo artistas e cantores. Aqueles que acabam de entrar na carreira, sabe. Sou seu professor de canto, composi��o e tudo mais. Adoro meu trabalho.
Fiquei paralisada, tentando fazer com que as palavras deles entrassem na minha cabe�a. Ele era professor, mestre. O que eu precisava, exatamente o que eu precisava. E al�m de tudo, ele era lindo.
Balancei minha cabe�a para afastar esse �ltimo pensamento. Isso n�o importava.
O que realmente importava era se ele era um bom profissional. Somente isso, nada mais.
�- , est� tudo bem? � Ele disse, enquanto passava a m�o na frente de meu rosto, para ver se eu estava prestando aten��o.
�- Claro, est� sim.
Eu estava tentando me concentrar, voltar � conversa.
�- Voc� estava muito estranha. � Ele riu. O som era maravilhoso. N�o resisti e ri junto com ele.
�- Desculpe-me, estava pensando comigo mesma. � Hesitei. Havia uma pergunta que queria lhe fazer; por�m n�o sabia se devia, ou podia. Resolvi arriscar. O m�ximo que podia receber era nenhuma resposta. � , voc� mora aonde?
Olhei para baixo ao fazer a pergunta. Sabia que se olhasse em seus olhos, veria seu choque com a minha pergunta mais do que inesperada.
�- Uau, , essa me pegou de baixa guarda. � Ele riu. � Eu moro em Londres.
Fiquei mais do que satisfeita com a resposta. E para minha surpresa, fiquei tamb�m contente. Ele morava em Londres, meu futuro lar.
Tentei me convencer que isso n�o significava nada para mim, por�m foi uma tentativa v�. Com morando em Londres, havia ma possibilidade de ele poder seu meu mestre.
N�o. Disse a mim mesma. voc� esta agindo como uma completa idiota, ele n�o � nada. Pare de pensar nele, pare de fazer planos.
Eu realmente queria obedecer as ordens do meu subconsciente naquele momento. Eu sabia que n�o era saud�vel me envolver com um estranho.
�- Minha vez de perguntar. � Ele disse de repente, me assustando. Tive que me concentrar para manter o grito preso em minha garganta. Eu realmente preferia estar sozinha, sem ter que pensar em cada a��o que eu fosse fazer. Ele s� estava complicando as coisas para mim. Eu n�o gostava nada disso.
�- Hum...Okay, eu acho. � Eu estava confusa, nem ao menos sabia mais o que ele tinha falado. O que estava acontecendo comigo afinal? Uma coisa era certa, assim que chegasse em Londres eu ia precisar de um psic�logo. Um psiquiatra, talvez. (n/a: dude, que problem�tica .-.)
�- Muito bem ent�o. Onde voc� mora? � Uh. Essa era uma pergunta que apesar de ter feito a ele, eu n�o sabia responder. Eu sabia que estava indo � Londres e que l� seria minha nova casa, mas eu n�o sabia especificamente aonde iria ficar. Eu havia deixado para resolver isso quando chegasse na cidade. Eu poderia dormir em um hotel se n�o arranjasse um lugar r�pido o suficiente. Dinheiro n�o seria problema.
�- Bom, na verdade eu n�o sei.
�- Como assim voc� n�o sabe? � A surpresa aparente tingiu sua voz. Ele talvez n�o se conformava que uma adolescente como eu n�o soubesse onde moraria. Ele talvez achava que meus pais j� deveriam ter cuidado da minha seguran�a nesse aspecto. Talvez. Eu n�o tinha como saber.
�- � que eu preciso arranjar um apartamento para ficar quando eu chegar em Londres. Ou ent�o talvez eu procure uma rep�blica de artistas para me familiarizar mais. Eu realmente n�o sei ainda. � Dei de ombros. Eu n�o me importava em n�o ter um plano tra�ado em minha cabe�a. Eu sempre trabalhei bem com um tempo limitado. Tomar decis�es r�pidas n�o era meu problema. Na verdade, meu grande problema era me arrepender delas depois. �s vezes eu podia ser bem impulsiva. Isso n�o era nada conveniente em determinadas situa��es. Suspirei, voltando meus olhos novamente para o caderno, por�m sem realmente ver.
�- Olhe... � Ele come�ou, inseguro e hesitante. Levantei minha cabe�a novamente, olhando fixamente para ele, encorajando. O que quer que fosse, eu queria que ele falasse. � Bom, sabe, sendo professor de alguns artistas eu sei onde voc� pode ficar, se quiser. � uma rep�blica para adolescentes como voc�, que buscam interagir em tempo integral com as artes musicais e da interpreta��o. E fica bem perto de meu est�dio, onde eu dou minhas aulas particulares. Se voc� estiver interessada, eu posso ver se eles ainda tem lugar para mais uma. Com esse sorriso, duvido que eles te recusem.
�- Oh. � Foi s� o que eu pude responder de imediato, pois meu c�rebro ainda estava digerindo as not�cias. As �timas not�cias.
De repente, parecia que eu podia ter um lugar para ficar e um professor, sem nem ao menos ter chegado � cidade ainda. A sorte me sorria. Ou era pelo menos o que eu pensava.
�- Sabe, , seria �timo se eu conseguisse ficar nessa rep�blica. Acho que tenho muito que aprender, e com certeza terei uma experi�ncia �tima se viver com outros artista t�o dedicados quanto eu �s artes. Seria maravilhoso. Mas... � Hesitei. N�o sabia se podia pedir tanto dele desse modo. � Voc� acha que consegue um lugar para mim l�?
Ele sorriu e eu automaticamente sorri junto. Era inevit�vel, ele era uma pessoa muito contagiante. (n/a: lembrei da Lee minha anjiinha do mal contagiante o/)
�- Foi como eu disse . Com esse sorriso, duvido que te recusem.

Cap�tulo II � Your memory will carry on

�- Uau � foi s� o que consegui dizer naquela hora. Est�vamos saindo do trem; eu e ele. Entretanto n�o foi isso que me maravilhou (apesar de que ele com certeza tinha potencial para tanto). Foi o tempo. Nevava.
N�s est�vamos passando pela pequena parte descoberta da abarrotada esta��o, cinco metros de c�u aberto. A neve caia em flocos ao nosso redor, rodopiando e dan�ando graciosa. Puxei meu capuz para cima de minha cabe�a, eu n�o iria esperar at� que o espet�culo de inverno estragasse mais ainda meu cabelo.
�- � lindo mesmo � disse enquanto descia os degraus logo atr�s de mim. Virei-me para ele, olhando seu rosto. Ele era divino.
E al�m de divino, um tremendo cavalheiro. Ele estava carregando nossas bagagens com apenas uma m�o, sendo que eu poderia muito bem carregar as minhas coisas. Definitivamente um cavalheiro.
�- Gosta de neve? � Perguntei ao chegarmos na esta��o. Agora j� est�vamos no coberto, por�m isso nada impedia o vento de me a�oitar. Ele continuava batendo em meu rosto, tornado-o g�lido. Segui andando e depois estagnei. N�o sabia para onde ir. Tudo parecia t�o grande, t�o...novo.
Ele passou um de seus bra�os; o que estava livre, por meu ombro, guiando-me pelo meio da multid�o que se condensava na sa�da das plataformas. N�o pude deixar de sorrir ao seu toque.
Ele era quente.
Essa foi minha primeira impress�o. Mas ele era diferente tamb�m, era... Doce.(n/a: Frank caramelo <333 �ignore)
Mesmo nossas peles n�o se tocando (eu devia este crime irracional aos grossos casacos que vest�amos para nos aquecer), eu podia sentir uma forte corrente el�trica passando por minha coluna. Imagina��o? Bem poss�vel. Por�m eu podia jurar que havia algo a mais.
Suspirei derrotada, deixando esses pensamentos de lado. Isso n�o importava, desde que ele estivesse me envolvendo. Eu sabia que o tempo seria curto, ent�o aproveitaria ao m�ximo.
Idiota, idiota, idiota.
Como eu podia deixar um estranho controlar meus sentimentos? N�o, sentimentos n�o, disse a mim mesma. Apenas sensa��es. �, era somente isso. E talvez um toque de desejo, nada muito mais complexo.
Da mesma forma, eu n�o sentia totalmente livre de culpa ao desejar um estranho t�o perto de mim. Iria me objetar ao seu toque, se n�o fosse t�o reconfortante. Antes que pudesse recompor meus pensamentos, ele falou.
�- Neve? Eu diria que um de meus fen�menos naturais preferidos. Talvez s� n�o t�o adorado quanto a chuva. Pode parecer estranho, mas eu amo a chuva.
Apesar de n�o conseguir olhar seu rosto (eu devia isso a grande proximidade que est�vamos e a consider�vel diferen�a entre nossas alturas), eu pude sentir o sorriso em sua voz quando ele pronunciava essas palavras. Era como ele se sentisse feliz s� de pensar em uma coisa t�o natural como a chuva. Ele parecia uma criancinha. Meu sorriso se alargou.
�- Nada me surpreende que gosta de chuva. � Disse despreocupada em um tom brincalh�o. Eu estava me esfor�ando ao m�ximo para n�o demonstrar o qu�o estava feliz em saber que teria pelo menos mais um pequeno tempo com ele. Est�pida.
�- E porque n�o ficou surpresa? � perguntou, ainda contente. � E pode me chamar de , se preferir. parece t�o, hum, formal.
Ri. Era f�cil conversar com ele. Como se j� nos conhec�ssemos.
�-Okay, . �, mais casual mesmo. Enfim, n�o irei lhe dizer, com certeza voc� iria rir de mim.
Ele iria. Ele definitivamente iria se eu contasse o que havia pensado ao pronunciar aquelas palavras. Eu n�o estava nada a fim de contar uma asneira para ele naquele momento.
Bruscamente; tanto que eu quase me desequilibrei, ele me pegou meu bra�o, e me fez virar para ele de modo que fic�ssemos frente a frente. Seu rosto estava muito pr�ximo ao meu, eu podia sentir sua respira��o quente tocando meus l�bios. Ele realmente era doce.
Como meu doce preferido.
Exatamente como meu doce preferido. Era dif�cil pensar.
Ele se inclinou mais ainda para mim, nossas bocas quase se tocando.
�- Diga-me � ele sussurrou � porque eu devo amar a chuva?
Eu n�o pensava mais. Ent�o eu n�o devia me culpar pelo meu ato seguinte. Mas, � �bvio que eu me culpava.
Eu inconscientemente joguei meus bra�os ao redor de sua nuca, colando nossos l�bios. Ao princ�pio ele nada fez contra isso, apenas fechou seus olhos e repousou suas m�os na base de minhas costas deixando nossas malas ca�rem no ch�o. Por�m ap�s dois segundos ele se afastou, deixando-me ainda ofegante e congelada a dois metros de dist�ncia dele.
Ele parecia machucado, com dor.
Sua express�o era ileg�vel, por�m eu sabia que o humor brincalh�o havia ido embora. Eu tinha estragado tudo. Como sempre.
�- , eu.. � Ele tentou se recompor. � N�o posso fazer isso, sabe, eu sou ca..
�- , pare. O erro foi meu. Sinto muito ter feito isso. Eu agi por impulso. Desculpe-me, eu realmente n�o deveria fazer isso. � Eu o interrompi, olhando para baixo. Como podia ser t�o fraca? Como podia estragar tudo em menos de um minuto? Eu merecia um pr�mio por isso. � Olha, eu vou pegar um t�xi, vou arranjar um local para ficar. Desculpe-me ter te incomodado. Eu n�o queria ter te beijado � menti.
Eu queria. Por�m ele n�o precisava saber disso. N�o quando tinha refreado nosso beijo com tanta veem�ncia. Eu havia confundido as coisas, era s�. Havia me envolvido demais com um estranho, algo que desde o come�o, eu sabia ser prejudicial a mim mesma. As conseq��ncias eram prova disso.
�- N�O! � Ele disse mais alto do que o preciso. � Eu quero dizer, n�o precisa procurar outro lugar. A rep�blica vai adorar te receber.
�- Mas , eu.. Olha, eu n�o sei se devo. N�o me parece certo. Quer dizer eu acabei de tentar te beijar e as coisas podem ficar meio estranhas e..
Foi a vez dele me interromper.
�- N�o se preocupe com isso. Eu n�o tenho boa mem�ria. � Ele disse sorrindo.
Tentei sorrir tamb�m. Deve ter ficado mais parecido com uma careta.
�- Est� bem, eu acho.
�- Vamos ent�o? Podemos ir de t�xi at� l�, assim eu posso falar com o dono da rep�blica, ajeitar as coisas.
�- Parece �timo. � Eu disse.
pegou nossas coisas e recome�ou a andar, e dessa vez, nenhuma parte de nosso corpo se tocava. Apesar de querer muito seu calor, eu estava aliviada. Se ele me tocasse, sabia que seria mais dif�cil me controlar.
Seguimos at� fora da grande esta��o, o vento agora jogando a neve para todo o lado. Eu n�o me importava mais com a sua for�a ou sua temperatura. Eu s� conseguia pensar em uma coisa.
Eu tenho �tima mem�ria .

Cap�tulo Cap�tulo III � Everything goes according to plan

A rep�blica era grande.
Isso foi a primeira coisa que pude perceber ao descermos do t�xi. A viagem havia sido curta, em menos de vinte minutos j� hav�amos chegado ao nosso destino. Fiquei aliviada por isso, n�o ag�entava mais ambientes fechados. Precisava de espa�o, ar. E parecia que a grande rep�blica teria isso de sobra.
Ele pagou o t�xi sozinho (mesmo depois de minha insist�ncia em contribuir) e n�s rapidamente sa�mos do ve�culo. Ainda nevava, isso era bom.
Eu podia ver no fim da rua criancinhas brincando na neve, fazendo grandes bolas e tacando umas nas outras. Aquilo era feliz. Lembrava-me de meu irm�o, e como nossas f�rias de inverno eram divertidas. Minha inf�ncia n�o tinha sido t�o negra assim.
�- Por aqui � disse indicando o caminho at� a porta, que agora estava invis�vel sobre a grossa camada de neve que ca�a em c�rculos. Ele estava carregando novamente as minhas malas, deixando-me apenas com minha bolsa. Muita mordomia para uma pessoa n�o merecedora como eu.
Segui-o pelo pequeno espa�o at� a porta, arrastando meu all star sobre o ch�o branco e molhado. Eu sabia os danos que isso iria causar e n�o estava nem um pouco contente com isso. Odiava saber que meu lindo t�nis, o mais perfeito deles poderia estragar. Apressei-me para sair logo da neve.
Logo que cheguei ao seu lado, tocou a campainha. Esperamos por um curto momento, at� que a porta foi aberta ruidosamente. Um vulto passou correndo e jogou seus bra�os em .
�- Oh � disse a garota � eu n�o esperava voc� aqui hoje !
Oh.
A voz em minha cabe�a ecoou em coro.
Por acaso eu havia entrado em um mundo paralelo em que todos eram perfeitos e n�o havia percebido? Porque, uau, ela era divina.
Na verdade, eu at� me senti meio mal ao lado dela. Era como comparar uma boneca de cole��o com uma feita de trapos. Loira, cabelo ondulado caindo levemente sobre os ombros, formando uma fina cortina por sobre sua blusa. Olhos azuis, l�bios cheios e fei��es finas. Tudo em perfeita harmonia. Corpo escultural. Realmente impressionante.
E uma nova pergunta encheu minha mente. Seria ela namorada dele? Estremeci.
�- Esta � a � disse se soltando do abra�o e puxando minha m�o.
�- Ol� , - ela disse, sua voz de veludo ecoando em meus ouvidos. Cantora? Muito prov�vel. � sou Liesel, prazer.
Liesel se aproximou e me abra�ou, dando-me um beijo no rosto. Surpresa, correspondi.
�- � um prazer tamb�m, hum, Lie..
�- Chame-me de Lih mesmo. Liesel pode ser um pouco complicado. � alem�o.
Claro. Como se eu tivesse algum conhecimento em l�nguas que n�o fosse o meu querido ingl�s brit�nico. �bvio que era alem�o.
�- Okay Lih � eu disse tamb�m sorrindo. Ela parecia ser bem legal, pelo menos at� ali. Entretanto, eu com certeza n�o confiaria em meus primeiros sentimentos dessa vez. N�o quando tinha praticamente estragado minha poss�vel amizade com . N�o iria tomar as coisas pela primeira impress�o. N�o mesmo.
E foi ent�o que eu fiz uma coisa que eu nunca imaginaria ter coragem de fazer. Pelo impulso, fiz a pergunta que me entregaria, que mostrava que a minha composta indiferen�a n�o era nada sen�o um truque, um artif�cio usado por mim para esconder a verdade. Parecia que o mundo ia desmoronar.
�- Voc� e , s�o �hn, namorados? � Eu realmente esperava que eles n�o tivessem percebido a falha em minha voz ao pronunciar a �ltima palavra. Poderia eu ser mais �bvia?
�- Eu e ? Ah meu Deus , como voc� p�de pensar uma coisa dessas?
E ela riu. E riu. E eu aliviada, ri junto.
Uma pena que eu n�o soubesse que o al�vio ia durar pouco, muito pouco.
�- Vamos parar de bater papo agora meninas; que eu e ainda temos que conversar com Charles � disse , perto o suficiente para que eu pudesse tocar seu rosto. Por que de repente o mundo parecia ter encolhido?
Mas, logo depois, uma nova linha de racioc�nio me dominou.
Charles, huh. Ele devia ser o dono da rep�blica. Meu est�mago deu uma volta desconfort�vel enquanto eu pensava em falar com ele. E se bom, se ele n�o me aceitasse? Eu tinha certeza que ficaria desapontada. Mais do que seria necess�rio, mais do que seria saud�vel. O porqu� disso? Simples, n�o veria mais . Isso me parecia motivo suficiente para surtar.
Est� legal, o que est� acontecendo comigo?
Eu nunca senti atra��o t�o forte assim por algu�m. Porque tinha ser atra��o. Imposs�vel ser paix�o. N�o, definitivamente atra��o. Eu n�o me apaixonava f�cil. Ou me apaixonava?
N�o, , pare com isso. Sen�o voc� realmente vai precisar de um especialista e,
Oh. Era pegando em minha m�o.
�- Lih, querida, pode, por favor, levar as malas de para seu quarto? Acho que ela pode ficar por l�, pelo menos por enquanto.
Como ele podia ser t�o confiante? Como sabia que Charles iria me aceitar? E al�m de tudo, ele sabia se Liesel queria minha companhia? E se ela n�o quisesse? Tentei n�o ficar mais nervosa ainda, me acalmar. Algo imposs�vel para o dado momento.
�- Claro . � Liesel respondeu a pergunta que eu n�o me lembrava mais.
�- E eu acharia uma �tima id�ia se voc�s dessem uma festa do pijama de boas vindas � . Ela vai fazer parte do grupo agora. � Ele sorriu calorosamente para ela. Depois virou-se para mim, uma express�o confusa na face. � Isso se ela quiser, � claro.
Eu estava realizando meu sonho, como poderia n�o querer? Eu tinha uma casa, mais que isso, um grupo, um lar. E provavelmente teria um professor tamb�m. Era tudo que eu queria, n�o era? Eu sinceramente esperava que sim. Eu n�o queria cometer um erro ao vir para a grande cidade. Agora s� o tempo diria se as minhas escolhas seriam certas ou erradas. Era a hora de arriscar.
�- Eu quero. Muito. � Respondi depois de perceber que ele ainda queria a resposta. N�o pude deixar de sorrir largamente. Minha vida parecia estar se ajeitando.
�- �timo ent�o. A sua acomoda��o � coisa f�cil, resolverei isso com Charles logo que falarmos com ele. O que me lembra que precisamos entrar agora. E, al�m disso, - ele disse passando uma das m�os em meus cabelos, bagun�ando-os � percebi que voc� n�o gostou muito que seu all star ficou cheio de neve.
Ele riu. Eu fiquei boquiaberta. Como ele havia percebido isso?
Procurei Liesel para perguntar a ela se ela tamb�m havia percebido, por�m n�o a encontrei em nenhum lugar ali fora. Teria ela j� entrado?
�- Agora � s�rio , precisamos ir falar com Charles.
Assenti cuidadosamente, fazendo de tudo para n�o mostrar meu nervosismo. Ele n�o precisava saber o quanto meu cora��o havia acelerado s� em saber que iria realmente tentar ser aceita.
S�rios problemas , eu disse para voc�. Arranje um m�dico.
E afinal, ele tinha raz�o, aquela neve em meu all star estava come�ando a incomodar. Nada que n�o fosse suport�vel, mas inc�modo, definitivamente. Passamos pela porta, entrando na grande casa. Era amplo l� dentro tamb�m.
O imponente hall se abria em duas partes. Uma sala de estar com um bel�ssimo piano de cauda (notei ele por meu apre�o ao instrumento) e uma outra sala com uma televis�o, com pelo menos 60 polegadas. Eu n�o ia ter problema com conforto.
Sentados no sof� estavam tr�s pessoas, as quais eu s� pude ver de relance. me arrastou por uma porta, antes que qualquer um deles pudesse notar nossa presen�a.
Entramos em um escrit�rio grande, assim como o resto da rep�blica. Suas paredes eram revestidas de estantes, as quais estavam abarrotadas de livros. A pouca parte de tinta que era vis�vel era de um tom pastel claro, nada extravagante. Tudo parecia bem limpo, organizado.
Estava t�o absorta (havia tantas coisas para se observar!), que acabei me esquecendo de meu prop�sito ali.
Ent�o fiquei surpresa; para n�o dizer em choque, quando ele falou.
�- , n�o esperava voc� por aqui hoje. � Ele olhou com um sorriso para ele. Definitivamente Charles n�o era o primeiro a dizer isso nos �ltimos cinco minutos. Eu me senti como se estivesse revivendo a mesma cena. A �nica diferen�a era que dessa vez n�o era uma menina loira e sorridente e sim um homem loiro e sorridente. Oh. � E vejo que trouxe companhia.
Charles disse, virando-se para mim. O sorriso dele era quase t�o encantador quanto o de . Quase.
E foi naquele instante que eu me perguntei se eu era a �nica a ter consci�ncia t�o forte da presen�a de . Porque, inevitavelmente, mesmo quando prestava aten��o � outra coisa, eu ainda estava absorta nele. N�o que eu o estivesse espionando (eu sinceramente n�o banco o estilo de espi�), mas era imposs�vel n�o ver o modo como ele andava, suavemente, mas fazendo muito barulho. Mais do que eu, at�. Entretanto isso era de praxe. Ele � homem.
E n�o somente isso, eu observava tudo. Por exemplo, a alian�a em sua m�o esquerda.
ESPERA. ELE TEM UMA ALIAN�A NO TERCEIRO DEDO DA M�O ESQUERDA?
E parecia que eu ia desmaiar.
[...]
Acordei com uma luz forte se projetando sobre mim, apesar de n�o saber dizer ao certo de que dire��o ela vinha. Tentei abrir os olhos, uma tentativa v�. Parecia que eu n�o ia conseguir me mover t�o cedo.
Concentrei-me ent�o em ouvir os sons. Essa era uma tarefa f�cil e n�o do�a quando eu escutava. Parecia que qualquer outro movimento me custaria um gemido de dor. O que diabos havia acontecido comigo?
Porque eu n�o me lembrava de nada, nada mesmo. E foi quando uma voz come�ou a falar dentro de minha cabe�a. Ou ser� que era fora?
�- Ela j� n�o deveria ter acordado? � A voz perguntou, cheia de preocupa��o. N�o consegui identificar de quem era.. Apenas me dei conta de que era masculina. Meu pai?
N�o, definitivamente muito doce para ser de meu pai. John? N�o, ele tinha uma voz mais rouca. Quem era ent�o?
�- , acalme-se. Ela vai acordar quando estiver pronta para acordar. N�o tente apressar a natureza. � Outra voz disse. Essa era feminina. N�o reconheci tamb�m. Por�m o nome que ela usou.. ?
E meus olhos se abriram para a claridade.
A luz era t�o forte (chegava a ofuscar) que n�o pude ver muita coisa. Apenas sombras. Duas delas.
�- ! Nossa, gra�as a Deus voc� acordou! N�s j� est�vamos ficando preocupados � ela fez uma careta. � Na verdade, ele estava.
Ela, que agora eu reconhecia como Liesel, apontou para tr�s, na dire��o de .
Ele pareceu corar. N�o pude ter certeza, meus olhos ainda n�o haviam se adaptado totalmente. Por�m pude ver claramente quando ele se aproximou. Ele chegou perto. Perto demais.
Ele estava inclinado para mim, nossas respira��es se misturando. Fechei os olhos novamente, tentando escapar do desejo que crescia dentro de mim.
N�o , n�o. A voz disse dentro da minha cabe�a. N�o era dif�cil de imaginar que ela estaria ali, tentando me proteger do meu erro. N�o adiantou muito, mas pelo menos eu podia controlar melhor a quantidade de ar que entrava em meus pulm�es. Meu cora��o ainda batia acelerado.
E aos poucos, minha mente foi clareando e dando lugar a um novo pensamento aterrorizante.
Eu estava abismada.
Isso n�o deveria me abismar, era at� uma coisa que eu j� esperava. Mas definitivamente n�o nessa intensidade.
Eu j� sabia que nunca mais poderia esquecer . Eu infelizmente, j� estava bem consciente disso. Entretanto o que eu n�o sabia; e esse foi o motivo de todo o drama, � que ele seria a primeira coisa que de que eu me lembraria ao recobrar a consci�ncia.
Eu sabia que n�o tinha ficado muito tempo desacordada, dez minutos talvez? Mas ainda assim era incr�vel que antes mesmo de lembrar aonde estava (e eu normalmente tenho �tima mem�ria) eu me lembrei de quem ele era. E principalmente, o que ele causava em mim. Realmente impressionante.
�- , est� tudo bem? Nossa, eu estava t�o preocupado com voc�! Imagina s�, n�s est�vamos l� no escrit�rio e da� do nada vo..
�- calma � eu o interrompi. Era um milagre que minha voz continuasse perfeita e sem falhar. � Eu to bem.
�- Bem? , voc� com certeza n�o ta bem, voc� ficou mais de tr�s horas desacordada!
�- N�o n�o , eu to bem, s�rio mes.. Espera um pouco. Tr�s horas? � A surpresa tingiu minha voz. Eu com certeza n�o tinha a m�nima no��o da passagem do tempo. � Imposs�vel. Eu nunca fiquei tanto tempo desacordada � disse bobamente.
Levei meus olhos para o teto, olhando inexpressivamente enquanto tentava me recordar do que exatamente havia me tirado a consci�ncia. Eu n�o consegui me lembrar. Sabia que tinha algo ligado a , �bvio. Entretanto..
�- O m�dico disse para a deixarmos repousar . Vamos � a voz de Liesel ecoou pelo quarto, trazendo-me de volta para a realidade. Eu conseguia me excluir do mundo t�o facilmente..
�- N�o, espere. � Disse , enquanto endireitava o corpo. Agora que ele n�o estava mais inclinado sobre mim eu podia ver as coisas com mais clareza. Podia ter certeza que um anel tamb�m fazia parte da hist�ria.. Meus pensamentos foram interrompidos pela sua voz novamente. � Ela n�o come nada h� pelo menos oito horas. Ela precisa se alimentar.
E como que por efeito das palavras dele, eu de repente senti um vazio no meu est�mago. Ele pareceu roncar. Eu corei, automaticamente envergonhada pela falta de modos do meu corpo.
�- Entende o que eu digo? � disse rindo. Eu podia jurar que minhas bochechas estavam mais vermelhas do que ferro em brasa. � Diga-me o que quer comer , que eu irei buscar para voc�.
�- �nh, n�o se preocupe � eu disse com a voz fraca pela vergonha. � Eu posso muito bem eu mesma ir pegar algo.
Disse, passando minhas pernas para o lado da cama e tentando me por de p�. Por�m, assim que eu tentei erguer meu corpo, fui invadida por uma tontura profunda, que me fez cair novamente nos len��is. Eu estava mais fraca do que podia imaginar.
�- , vamos, deixe que exer�a seu trabalho como um bom gentleman ingl�s. Al�m disso, acho que voc� n�o est� em condi��o de sair dessa cama � ela sorriu para mim. � Vamos, o que vai ser ent�o?
�- Hm. � Eu considerei minhas chances de conseguir sair da cama sem causar vexame, para poder pegar algo. Elas n�o eram boas. � Eu quero s� um copo de ch�, obrigada.
me olhou com censura.
�- , voc� n�o pode passar oito horas sem comer e depois s� tomar ch�. Por�m, deixe comigo, eu vou decidir o que voc� vai comer � ele saiu porta a fora. Suspirei.
Liesel se aproximou de mim, parando ao lado da cama.
�- Voc� gosta dele � n�o era uma pergunta.
�- Eu, eu.. � Gaguejei. N�o era verdade, n�o podia ser verdade, por�m eu n�o conseguia colocar isso para fora.
Que divertido!
�- S� espero que voc� saiba que ele � casado.
Huh.
Essa era conex�o do anel ent�o. Agora tudo fazia sentido.
Como eu desejava estar desacordada novamente.
Tentei encontrar minha voz para falar algo, entretanto, como encontr�-la se at� mesmo meus pensamentos estavam embaralhados?
�- Vejo que isso te afeta bastante. �timo � ela riu. Espera. Ela estava rindo de meu.. desespero? Que tipo de pessoa faz isso? � Como voc� � novata aqui, vou explicar as regras. � tudo bem simples.
Sua voz n�o era mais doce e gentil, e sim seca. Como se ela sentisse repulsa em ter que falar comigo. Eu estava boquiaberta. O que havia acontecido com a Lih, a menina educada e atenciosa?
�- N�o mexa nas minhas coisas. N�o fale comigo. Eu n�o estou aqui para ser sua amiga. Voc� quer ser cantora, eu tamb�m quero. Somos competidoras agora. Eu n�o vou te ajudar, n�o vou tentar ser legal com voc� ou entender seus probleminhas idiotas. Eu realmente n�o ligo. S� precisamos fingir ser amiguinhas na frente do . Ele odeia barraco.
Ela virou as costas para mim e come�ou a andar. Eu realmente n�o entendia.
�- E ah, - ela disse, j� com a m�o na ma�aneta � n�o espere ser a aluna n�mero um de Eu j� sou.
E com um baque ela fechou a porta, deixando-me encarando a madeira a minha frente.
Essa com certeza n�o havia sido uma experi�ncia muito prazerosa.
Eu fechei meus olhos, tentando absorver as novas informa��es.
Minha companheira de quarto me odiava.
Eu estava, supostamente, atra�da de forma feroz por um homem casado.
E, pelo jeito, acabara de entrar em uma competi��o at� a morte pela fama.
Que maravilha!
Eu n�o percebi que estava chorando at� que as l�grimas molharam minha face. De repente, notei tamb�m os solu�os. Por que eu n�o conseguia me controlar?
Pois voc� � fraca .
A voz disse dentro de mim. Ela devia ter raz�o.
Enfiei minha cara no travesseiro, tentando me acalmar. chegaria a qualquer instante e ele n�o podia me ver naquele estado.
Batidas na porta. Seria ele j�?
Boba.
�- Entre � murmurei entre a fronha, ainda assim esperando ser ouvida. Eu n�o conseguiria fazer minha voz soar mais alta.
�- Com licen�a , posso entrar?
Oh. N�o era .
�- Hm, claro, �hn.. � Virei para olhar quem era meu visitante inesperado. Era um homem; garoto, na verdade. Podia muito bem ter a minha idade.
Ele era pequeno (n�o podia passar de 1,70), mas muito bonito. Sua pele era perfeita e levemente bronzeada, adquirindo uma cor maravilhosa de se olhar, onde isso era poss�vel. Ele estava coberto de tatuagens, preenchendo praticamente todo o espa�o dispon�vel de sua pele. At� nos dedos das m�os..
�- Frank. Frank Iero. � Ele se aproximou e estendeu a m�o, para que eu pudesse cumpriment�-lo. Sentei na cama, enxugando o rosto com as costas das m�os, antes de estender a direita a ele.
Frank a pegou e deu um beijo, como um perfeito gentleman.
�- Por qu� choras minha bela donzela? � Eu ri.
�- N�o � nada � disse, em meio a uma risada. Era bom estar expressando outro tipo de sentimento agora. Chorar j� havia me cansado.
Ele se sentou ao meu lado.
�- J� conheceu a Liesel? � Frank fez a pergunta seguida de uma careta. Ser� que ela era nojentinha assim com todo mundo?
�- Sim. � Respondi com a voz fraca � Ela.. � hesitei � n�o gosta de mim.
Completei com um suspiro.
�- N�o se importe com isso, , ela odeia todo mundo. S� � legal com e Charles, e ainda por obriga��o.
Aleluia!
Pelo menos um problema n�o era inteiramente minha culpa!
�- S�rio? Isso � �timo!
�- �. Diga-me , est� se adaptando bem aqui? � Ele perguntou enquanto brincava com um bichinho de pel�cia que estava jogado em minha cama. Parecia uma criancinha feliz.
�- Eu realmente n�o sei. Sabe, acho que todos devem me considerar uma dorminhoca..
Ele riu.
�- Tinha me esquecido que voc� ficou tanto tempo desacordada � ele disse pensativo. Depois um sorriso malicioso foi se abrindo em seu rosto. � falou muito da sua honrosa pessoa enquanto voc� dormia.
Isso era.. bom? Eu n�o tinha certeza.
�- O que.. Exatamente ele disse? � Perguntei mordendo o l�bio inferior, tentando esconder minha curiosidade. J� era demais que Liesel j� soubesse da minha atra��o por , n�o podia correr o risco de ter mais uma testemunha. Como se o gostar de algu�m fosse um crime.
No seu caso, realmente �.
�Cala a boca!� quis gritar em resposta.
�- Nada de mais � Frank deu de ombros. � S� que voc� � muito legal. E linda. Vejo que ele n�o exagerou em nenhum dos adjetivos.
Corei. N�o s� por ele concordar, mas tamb�m por ter dito aquilo. N�o podia esconder minha satisfa��o.
�- Eeeerm.
�- N�o fique com vergonha � Frank disse ao se levantar. Jogou o bichinho de pel�cia, que agora eu identificava por uma zebra (n/a: Is�o, essa foi para ti <3), em meu rosto dando um risinho depois. � Vou deixar voc� em paz agora.
�- N�o precisa, pode ficar se voc� quiser. Voc� � uma �tima companhia.
�- Agrade�o o convite, � realmente uma tenta��o. Mas sabe, meu namorado me espera.
Namorado?
�- Voc� � gay Frank? � Disse maravilhada. Sempre quis ter um amigo gay.
�- Sou sim. Voc� esperava que essa beldade aqui � ele passou suas m�os na extens�o do corpo � fosse h�tero?
Ele riu e eu ri junto. Seria f�cil conviver com ele.
�- Bom, tenho que ir agora, Gerard me espera.
Frank me deu um beijo no rosto e despedida e saiu rapidamente, fechando a porta atr�s de si. Eu estava sozinha novamente. S� que dessa vez, eu estava com um sorriso na cara.
Boba.

Cap�tulo Cap�tulo IV � You life will never be the same

� realmente incr�vel a for�a com que os sentimentos podem afetar as a��es das pessoas. Ou pelo menos, as minhas a��es.
Nunca desejei ser menos impulsiva na minha vida, mas agora parecia uma �tima hora para a primeira vez. Porque, tudo que eu fazia, de algum modo refletia de modo negativo sobre mim. Eu sentia como se qualquer coisinha, qualquer m�nimo detalhe, fosse me pegar de algum lado ou de outro. Eu estava com medo de ser espont�nea. Isso era simplesmente p�ssimo. Se eu n�o fosse espont�nea, n�o seria eu. Se eu n�o fosse eu, quem seria ent�o?
Fiquei pensando nisso enquanto abria minha mala, pegando uma muda de roupa. Meus anfitri�es haviam sido muito gentis em trazer minhas coisas para cima. Eu podia visualizar a cena de Liesel se propondo a carregar tudo, com um sorrisinho na cara e seus olhos esbanjando inoc�ncia. Ela deveria tentar a carreira de atriz tamb�m.
Optei pela simplicidade, n�o estava com a m�nima vontade de me produzir. Vesti minha cal�a de moletom preferida, a cinza cuja barra j� estava rasgada de tanto ser arrastada pelos corredores de minha antiga casa. Suspirei ao pensar em como era tudo sem drama em meu antigo lar.
Peguei uma blusa de manga preta b�sica e um casaco azul fluorescente, que al�m de confort�vel era ador�vel. Calcei meu all star, dessa vez um par diferente, n�o suportaria colocar o molhado. Fui at� a porta do outro lado do quarto, onde eu imaginava ser o banheiro. Estava cem por cento certa.
Dei uma olhada no espelho, mas depois desisti. Depois de ter dormido tr�s horas, eu n�o podia esperar muita coisa do meu cabelo.
Abri ent�o a porta do quarto, dando uma espiada para fora. N�o queria nenhuma surpresa. Como n�o havia ningu�m l�, sai.
Segui na dire��o da escada, para poder chegar at� a cozinha, onde eu poderia encontrar , provavelmente com um hamb�rguer triplo maior do que o tamanho do meu rosto. Ele parecia ser do tipo exagerado. Fui descendo a escada vagarosamente, n�o sabia se podia contar com meu equil�brio totalmente. Para meu agrado, meu corpo pareceu cooperar comigo e n�o houve nenhum acidente do tipo tr�gico nos degraus. Como se eu precisasse ficar mais um tempo de cama.
Ouvi um barulho de televis�o baixinho, e risadas altas. Pareciam ser masculinas.
Aproximei-me ent�o do aposento onde havia ouvido o barulho, que depois se confirmou como sala de estar. Parei na soleira da porta, que estava escancarada, me mostrando todos que estavam dentro. n�o era um deles.
Dei meia volta e voltei ao corredor de onde tinha vindo, indo procurar a cozinha. Eu j� estava na metade quando senti uma m�o se fechando em meu pulso.
Mas o que..
�- Hey. Voc� deve ser a . Sou Brendon. (n/a: carolzona, este � seu personagem <3)
Virei-me para olh�-lo, enquanto tentava me soltar de sua m�o. Apesar de me apertar, n�o parecia querer me machucar. Relaxei o pulso e abaixei o bra�o.
�- . � Ele abriu um sorriso de orelha a orelha. Eu ri.
Seus l�bios eram carnudos demais, o que fazia ele parecer mais bonito ainda.
�- O que foi ?
�- Duas coisas. Primeira: seu sorriso � lindo. E segunda: voc� ainda est� me segurando � Brendon me soltou imediatamente, e sua face se tingiu de um vermelho convidativo.
�- Erm, desculpe-me, eu n�o quis..
�- Est� tudo bem, quer dizer, n�o me machucou nem nada.
Um sil�ncio constrangedor se instalou. Eu pensei em me virar e procurar por Joseph, mas isso me pareceu um pouco grosseiro. Seria rude se eu sa�sse naquele momento, n�o seria?
Mas tamb�m, deveria eu me importar com o que ele, ou qualquer um dos que morassem l�, pensasse de mim? Eu n�o fazia muita quest�o em saber como eu era vista pelos olhos dos outros. Nunca me importei com a opini�o alheia, ou pelo menos, fingi n�o me importar. Eu sempre quis manter essa postura de �n�o me importo�, contudo a mais pura verdade � que eu tenho medo do que eles possam dizer. Das verdades que eles possam me mostrar, da dor que isso me causaria. Um julgamento, mesmo n�o sendo justo, sempre ser� um julgamento. E eu nunca gostei de tribunais.
�- Brendon, o que voc� est� esperando, eu.. � Era o outro menino, que anteriormente estava jogando videogame com meu querido apertador de pulsos. C�us, eu estava mesmo cercada por homens?
�- Eu j� vou Gabe. Pode por favor, ficar quieto por um instante?
Gabe, do qual eu apenas sabia o apelido, por enquanto, se aproximou de mim, e me deu um beijo no rosto.
�- Sou Gabriel Eduardo Saporta (n/a: esse persongagem � seu is�o <3)
, vindo direto do Uruguai para servir a ti, chica � ele lan�ava um olhar sedutor, ou pelo menos uma tentativa de olhar sedutor. Eu o encarei por um instante, entretanto seus l�bios me fizeram perder a concentra��o. Aquele bico estava realmente engra�ado.
Em menos de cinco segundos l� est�vamos n�s dois no corredor, rindo como patetas, um da cara do outro.
�- Sou , vinda direto dos seus sonhos � fiz uma rever�ncia. Ca�mos na gargalhada novamente.
Eu poderia ficar rindo assim o resto de minha vida, se n�o fosse por interfer�ncia de uma voz. Como pode uma simples palavra mudar tudo?
�- ?
, oh. Por um instante eu havia me esquecido dele. Gabe deveria ganhar um pr�mio por sua distra��o n�o planejada.
�- Sim ? Estou aqui no corredor da sala.
Virei-me para a dire��o em que ele chegaria, por�m isso n�o me impediu de ver de canto de olho a rea��o de Brendon. Este bufou irritado e cruzou os bra�os, se retirando imediatamente. Gabe olhou para ele e balan�ou a cabe�a, como quem se desculpa. Chegou mais perto, ergueu minha m�o e, ao inv�s do beijo que eu esperava que ele daria nela, recebi uma lambida.
�- Muito engra�ado Saporta! � Disse em meio a uma gargalhada.
Ele me soprou um beijinho com a m�o e saiu tamb�m. E, com a mesma rapidez que o corredor havia se enchido, havia tamb�m se esvaziado. Eu estava tonta em como as coisas aconteciam r�pido por aqui.
Antes que eu tivesse muito no que pensar; o que, tecnicamente foi �timo para aquele momento, um sorridente apareceu na outra extremidade do corredor. Ele segurava uma bandeja, que, al�m do ch� que eu havia pedido tamb�m parecia conter um muffin, ou um tipo de bolinho colorido. Eu abri um sorriso em resposta.
�- Eu pensei que voc� estivesse l� em cima, repousando.
�- Eu estava, mas depois que Frank foi embora eu resolvi procurar voc�. Por que a demora?
Ele, que agora j� estava bem pr�ximo de mim, abaixou a cabe�a e congelou o movimento. Suas m�os apertaram mais fortemente as extremidades da bandeja, e eu pude ver os n�s de seus dedos ficando esbranqui�ados pela for�a. Seu rosto tomou o caminho inverso, tingindo-se de um convidativo escarlate na altura das ma��s do rosto. Ele estava envergonhado, e me escondia algo. Entretanto, ao inv�s de ficar ali e fazer a pergunta que me tiraria da agonia, resolvi que este n�o era o melhor caminho. E sim o pior caminho.
Afinal, se eu queria acabar com qualquer coisa que eu poderia sentir por ele, o primeiro passo era n�o me interessar mais do que o necess�rio. Eu seria sua aluna, ele me daria aulas, eu aprenderia e conversar�amos sobre artes em geral. Seria isso, nada de amizade, nada de companheirismo. S� profissionalismo. Essa era a chave de meus problemas.
E tamb�m, me afastar dele n�o seria nada dif�cil, n�o � mesmo?
Tente para voc� ver.
N�o, voc� est� errada consci�ncia, n�o vai ser nada dif�cil. Que tipo de envolvimento eu tenho com ele? Nenhum. Sei seu nome, sua idade, no que trabalha, onde mora e, por minha �ltima descoberta, tamb�m sei seu estado civil. E?
Isso n�o � absolutamente nada.
Eu faria novos amigos, s� o veria quando extremamente necess�rio e n�o faria mais perguntas.
Finalmente.
Virei-me ent�o e sai do corredor, tomando o caminho de volta at� meu quarto. Pelo pouco que pude ver; afinal, estava andando na dire��o oposta, seu rosto tinha se levantado e ele me olhava com um misto de surpresa e indigna��o. O que ele esperava de mim?
Entrei ofegante em meu aposento e fiquei a olhar para o nada. Eu precisava de um banho.
Encostei a porta �s minhas costas e caminhei em dire��o � minha mala, abrindo-a e analisando seu conte�do. Eu tinha muita roupa dispon�vel. Peguei meu pijama preferido ent�o, e fui para o banheiro. N�o teria problema eu j� me vestir para dormir, afinal, j� estava ficando meio tarde. E eu n�o ia sair de qualquer modo.
Despi-me e liguei a torneira da banheira em uma temperatura mais do que quente, praticamente insuport�vel de se ag�entar. Esperei que esta estivesse cheia e, vagarosamente, entrei.
A �gua parecia me queimar e um arrepio percorreu meu corpo. Afundei-me mais ainda e voltei minha cabe�a para o teto. Nada parecia mais relaxante do que ficar ali, parada, somente com meus pensamentos de companhia. Entretanto, algo me dizia que pensar com tanta freq��ncia n�o era assim t�o bom.
Isso � uma conclus�o antiga, que em mais uma viagem aos confins da minha mente eu descobri. Eu posso ser feliz sim, desde que pense o m�nimo poss�vel.
Se eu viver um dia de cada vez, ignorar meus desejos maiores e s� me concentrar no que quero no momento, eu consigo uma pouco de alegria moment�nea. Como me disseram uma vez, o homem n�o busca felicidade e sim estabilidade. Assim que eu me ajeitasse aqui daria tudo certo.
Suspirei, sabendo que isso n�o era muito prov�vel.
Mesmo sabendo que meu consciente s� piorava minha vida eu dependia dele, como dependo do ar. Quem pode viver sem um pensamento, um sonho para seguir, um desejo maior?
Essa definitivamente n�o era eu.
S� percebi que o tempo j� havia passado quando comecei a sentir frio. A �gua havia ficado gelada e eu estava tremendo. Mas talvez os tremores n�o fossem s� conseq��ncia do ambiente ao meu redor.
Levantei-me e me sequei, coloquei a roupa e parei para me analisar no espelho.
Agora que uma decis�o j� havia sido feita, eu s� precisava segui-la. Isso me deixou mais tranquila.
Meu reflexo me dizia que algo ainda estava errado. Eram meus olhos talvez, que haviam perdido o seu brilho usual? Ou seria minha boca que parecia n�o conseguir se erguer em um sorriso? Eu sabia que tudo isso era apenas um reflexo de minha alma.

Cap�tulo V - We can't stop it screaming out

O ar entrava e saia r�pido de meus pulm�es, e eu estava ofegante. Minhas p�lpebras estavam cerradas e um doce perfume me embriagava. Onde eu estava mesmo?
De repente, como se surgido do nada, eu senti um peso sob meu corpo, me empurrando para baixo na dire��o das almofadas da cama. N�o estava me machucando, apensa me apertando delicadamente. Por instinto, abri os olhos.
Eu n�o podia estar mais surpresa.
Seus olhos ainda estavam fechados, suas m�os repousavam em meu corpo; uma agarrada fortemente � minha cintura e outra passeando em meus cabelos, e seus l�bios se moviam sob os meus. Atordoada, percebi que eu tamb�m estava agarrada a ele; arranhando suas costas por baixo do tecido fino de sua camisa, enquanto nosso beijo continuava.
Eu sabia onde est�vamos e sabia tamb�m o que estava prestes a acontecer.


Acordei gritando, com minha cabe�a enfiada em um chique travesseiro de plumas que eu havia recebido horas antes. Tentei me controlar, fazer com que minha voz parasse, mas minha mente n�o estava cooperando. Eu sabia que esse era meu modo de descontar tudo o que havia acontecido at� ali.
Eu estava praticamente em choque.
E ent�o, vindo de muito perto de mim, ouvi Liesel praguejar. Ela estava me xingando. Como se eu precisasse de algo mais para me deixar feliz.
Levantei meu corpo vagarosamente, a procura de ar. Apesar do frio, eu estava sufocando naquele quarto; como se precisasse de uma tempestade para me salvar. Ventania, a quebra do sil�ncio e o frio. Quanta ironia!
�timo , enlouque�a de vez.
E, como que por concord�ncia � minha consci�ncia, eu sa� da cama, deixando tudo, simbolicamente, para tr�s. Eu n�o podia mais me limitar a espa�os pequenos, apertados, com poucas escolhas e espa�o para decis�es. Eu precisava de ar.
Em de meus poucos momentos n�o perturbadores do dia anterior eu havia visto uma varanda, grande, voltada para o lado de tr�s da casa. Parecia um �timo lugar para meu escape da meia noite. Eu n�o podia fazer nada melhor, de qualquer jeito.
Andei pelo corredor calmamente, tentando n�o fazer muito barulho ao pisar no piso de lin�leo lustrado. Tudo naquela maldita cidade tinha que ser perfeito mesmo?
Cheguei ao meu destino, colocando minha m�o no vidro da porta. Estava praticamente congelado. Um arrepio percorreu meu corpo e eu naquela hora percebi o que realmente estava procurando. Rea��es. Era como se eu estivesse fazendo tudo no autom�tico, e n�o realmente controlando minha vida. Isso precisava mudar. Urgentemente.
Fui a passos vagarosos entrando na varanda, chegando cada vez mais perto do parapeito. Eu realmente n�o esperava uma vista t�o bonita. Havia um lago � minha frente. Um lago congelado, com �rvores em volta e neve se acumulando nos cantos. Como minha vida, pude observar a quietude da noite.
Por�m era diferente. Era como comparar um sil�ncio nos bra�os de uma pessoa amada com o sil�ncio desconfort�vel de um passeio no elevador. N�o tinha compara��o.
Apoiei meus bra�os na grade, e fiquei a observar tudo. Como o vento modificava as formas, e como as sombras ficavam bonitas a luz p�lida da lua. Bela lua, dama de branco.
>Pare de fantasiar . Voc� sabe que isso � apenas um sonho idiota, que nunca se realizar�. Volte a sua vida pat�tica. Pare de me perturbar.
�- Vem sempre aqui mocinha?
Virei-me para tr�s bruscamente, procurando ver meu acompanhante de noites em claro. N�o havia ningu�m ali.
De repente, percebi m�os em meus olhos, e um h�lito gelado ro�ando em meu pesco�o. Tentei me virar, por�m a pessoa me segurava fortemente. Mas o que..
�- Adivinhe quem �.
Pela voz; definitivamente n�o t�o conhecida, podia perceber quem era. Dei uma risada alta.
�- Gabe, voc� me assustou!
Ele riu tamb�m, enquanto me soltava.
�- Sinto muito, n�o foi minha inten��o, hermana.
�- Hermana? Vamos a base de espanhol agora?
Ele riu.
�- Muito ruim?
�- Para voc� n�o, �bvio � dei um tapa em sua cabe�a. � O problema � que eu nunca fui muito boa em espanhol. � Fiz uma careta.
�- Est� bem ent�o, ingl�s brit�nico � ele sorriu. � Mas diga-me , o que te traz aqui t�o tarde da noite?
Meu sorriso foi se fechando aos poucos, enquanto eu tomava consci�ncia da profundidade da pergunta dele. Poderia parecer algo normal para Gabe, por�m para mim, significava muito mais. O que me trouxe aqui t�o tarde da noite? O que est� acontecendo para eu n�o estar dormindo? Qual � o meu problema? Eu preferiria pular todas essas quest�es se pudesse.
�- Eu.. � Deixei as palavras morrerem. O que diria? Eu estou atra�da por um homem casado que conhe�o a menos de vinte e quatro horas? Eu acordei gritando agora a pouco porque tive um sonho com ele? Nem sonhando que eu falaria isso. Gabe n�o merecia ouvir minhas lamenta��es. Ningu�m merecia.
Ent�o, ao inv�s de responder, eu apenas estremeci de frio. Tinha que agradecer posteriormente pela baixa temperatura.
�- Frio? � Afirmei com a cabe�a. � Vamos entrar .
Fiz uma careta. Como poderia abrir m�o de um tempo livre e voltar para cama? Onde eu sabia que meus pensamentos n�o sadios voltariam mais cedo para me buscar. Sem contar que Liesel dormia a menos de dois metros de dist�ncia de mim.
�- Olha, se voc� quiser ir pode ir, eu n�o sei se vou conseguir dormir. � Dei de ombros. N�o queria ser um inc�modo para ele.
�- N�o, n�o vou deixar voc� aqui sozinha � ele pareceu pensar por um segundo. � Hey, venha dormir comigo. No meu quarto, quero dizer.
Gabe sorriu sem jeito. Eu olhei em seus olhos, e vi que nada demonstrava mais do que inoc�ncia.
�- E o seu companheiro de quarto? � Eu n�o sabia quem era, por�m tinha certeza de que ele n�o iria gostar de uma intrusa em seu espa�o. Ningu�m nunca gosta.
�- � o Frank. E ele saiu com o Gee essa noite, provavelmente ainda deve estar acordado na casa dele aproveitando. � Ele fez uma cara safada.
�- Pare Gabe! Por favor, n�o me fa�a pensar na vida sexual do Frank! Eu imagino ele como um santinho, ta legal?
Ele recome�ou a rir.
�- O Frank? Santinho? � Ele n�o conseguia se controlar.
Peguei-o pelo bra�o, puxando-o de volta ao corredor. Agora eu definitivamente iria atorment�-lo com a minha presen�a.
Seguimos andando (agora com ele me guiando) e chegamos at� a porta de seu quarto. Ele a abriu e n�s entramos. Tudo estava mais organizado do que eu imaginaria. Uma das camas estava bagun�ada; a que Gabe estava dormindo, e a outra estava impecavelmente arrumada. N�o havia roupa nenhuma jogada no ch�o. Eles eram melhores do que eu em arruma��o.
�- Uau.
�- O que foi? � Ele perguntou olhando ao redor. Parecia checar se tudo estava em seu devido lugar.
�- Seu quarto. � muito organizado.
Ele sorriu.
�- Vivo com um gay esqueceu?
Sorri para ele tamb�m, enquanto me encaminhava � cama de Frank. Esperava que ele n�o ficasse bravo comigo. Gabe se deitou na dele e ficamos a nos olhar. �- Sem sono ? � Ele disse por fim. Suspirei baixo.
�- Na verdade, estou com medo � disse com a voz fraca.
�- Quer se deitar aqui comigo?
Analisei-o sobre a luz fraca da lua, procurando mal�cia em seu olhar. N�o pude encontrar nada. Seus olhos de chocolate eram convidativos e amig�veis. Levantei da cama.
�- Posso mesmo?
�- Claro � ele disse dando espa�o para mim ao seu lado. Est�vamos agora os dois na mesma cama, cobertos pelo cobertor que n�s aquecia na noite g�lida. Sorri contente.
�- Muito obrigada Gabe.
�- N�o h� de que. � para isso que servem os amigos. � Um sil�ncio se instalou, e eu estava come�ando a pegar no sono. Fui interrompida pela voz dele novamente, que n�o passava de um sussurro. � Do que voc� estava com medo?
�- De mim mesma � disse enquanto o abra�ava forte e ca�a de vez em minha sombria inconsci�ncia.

Cap�tulo VI � Just like I should, I�ll getcha good

�- Bom dia � uma mulher de meia idade me disse assim que eu passei pela porta. Eu estava no est�dio de . O que eu estava fazendo ali?
Eu realmente estava ficando louca.
Por�m logo depois de acordar eu havia conversado com Frank e ele me encorajou a vir. Disse que j� havia sentido esse tipo de atra��o antes, e que era uma coisa contorn�vel. Acontece que ele s� havia se sentindo assim por Gerard e bom, deu no que deu. Eles est�o juntos h� tr�s anos.
Respirei fundo enquanto me dirigia � recep��o.
�- Bom dia. Sou , acho que tenho uma aula com agora. � A mulher sorriu bondosa.
�- Oh sim. Voc� � nossa t�o esperada . Sente-se, n�o demorara a chegar.
Que �timo, ele n�o estava l�! Isso me dava mais tempo com meus bot�es. Algo que eu realmente n�o queria ter.
Passei ent�o a analisar o c�modo a minha volta. Uau, como era complexo, cheio de detalhes. As paredes eram de um tom claro de vermelho, sem ser berrante, mas ainda com muita vida. Fazia eu me lembrar do fogo. Os m�veis eram de couro branco, ainda sim sendo confort�veis. Eu agora estava sentada em uma das duas poltronas, que se encontravam ao redor da mesa de centro, como j� era de se esperar. Havia fotografias preto-e-branco espalhadas por todas as paredes. Levantei-me para olh�-las.
Elas pareciam uma sequ�ncia, um filme. Todas foram tiradas no mesmo lugar. Um banco, na frente de um lago congelado. Inverno. Provavelmente em um dos muitos parques da regi�o. Tudo parecia t�o perfeito.
Principalmente se considerarmos o astro de nossas fotos.
�- ! � A recepcionista exclamou. Virei-me abruptamente, olhando para entrava. L� estava ele, lindo. Gostoso. Como se ele pudesse estar de outra maneira!
Obsessiva.
Corei. Ser� que meu subconsciente queria que eu passasse vergonha?
�- Sra. Jenks. Ol�.
Fiquei quieta, aproveitando que ele ainda n�o havia me visto. Queria guardar um pouco da minha sanidade para depois. Eu definitivamente precisaria dela.
�- Sua aluna j� est� aqui � ela olhou de canto de olho para mim. Abaixei meu olhar na mesma hora, me sentindo um tomate. Mas sabe, eu at� que gosto de tomates, eles s�o suculen..
�- ! � Ele veio na minha dire��o. Ah n�o.
�- Hey � disse sem jeito, enquanto ele parava na minha frente. E para minha surpresa, ele me puxou para um abra�o. N�o foi apenas um abra�o, foi aquele abra�o. Em qu� seu cheiro monopolizou meus sentidos, e nada mais fazia sentido. S� eu ali, e ele com suas m�os em minha cintura.
Por�m, de alguma forma, eu esperava que aquilo acabasse. Ele iria para a qualquer momento, n�o �? Ele sabia de meus desejos e sabia o que aquele toque podia significar para mim. Por que ele ainda n�o havia me soltado?
�- Cahan, cahan. � Sra. Jenks pigarreou, fazendo ele me soltar. Olhei para ela sem express�o. Deveria estar brava? Grata?
Voc� prometeu n�o se envolver.
Grata era o certo ent�o. Por que eu n�o conseguia agradecer?
�- Hum, vamos , nossa aula tem que come�ar agora � disse, retirando-me de meus pensamentos.
�- Aula. Certo.
Seguimos pelo grande corredor at� o est�dio, o qual sem d�vida nenhuma, era o maior que eu j� havia estado em toda a minha vida. Ao contr�rio da recep��o, esse era pintado de branco, dando um ar suave e tamb�m ajudando a relaxar. N�o havia quadros ali, a �nica obra de arte que se podia ver era o piano, instalado no quanto do aposento, perto da parede de vidro, que nos dava vis�o para um parque pr�ximo. Ainda nevava, o que deixava uma bela cena para se lembrar. Eu tenho certeza que vou me lembrar daquele dia para sempre.
Andamos ent�o at� o centro do c�modo, onde havia poltronas. Sentamo-nos nelas.
�- Diga-me , o que voc� quer treinar primeiro? � Ele olhou diretamente para mim, em meus olhos. Eles estavam mais brilhantes do que eu me recordava. Mais persuasivos talvez? Eu n�o queria pensar nisso.
�- Eu n�o sei, quer dizer, voc� que tem que me dizer isso. � sorriu para mim.
�- Vamos come�ar com uma m�sica. Voc� canta e eu fa�o uma avalia��o. Depois digo em que n�vel voc� est� e podemos come�ar os exerc�cios.
Assenti com a cabe�a, enquanto ele se levantava, estendendo sua m�o para mim. Peguei-a e ele guiou-me at� o sof� mais pr�ximo do r�dio.
�- Conhece Metro Station? � Confirmei. � Vamos trabalhar uma m�sica deles hoje. Seventeen forever. (n/a: essa m�sica � um dos temas dessa fic, aconselho baixarem. A m�sica � linda <3)

Engoli em seco. Eu sabia de cor a letra daquela m�sica.
�- Vamos escutar uma vez antes de voc� come�ar.

You are young and so am I (Voc� � jovem e eu tamb�m)
And this is wrong (E isso est� errado)
But who am I to judge? (Mas quem sou eu pra julgar?)
You feel like heaven when we touch (Voc� parece ser o c�u quando nos tocamos)
I guess for me this is enough (Para mim j� � o suficiente)

We're one mistake from being together (N�s somos um erro por estarmos juntos)
But let's not ask why it's not right (Mas n�o vamos perguntar por que n�o est� certo)
You won't be seventeen forever (Voc� n�o vai ter dezessete pra sempre)
And we can get away with this tonight (E n�s podemos fugir com isso hoje de noite)

Ele pausou a m�sica. Eu n�o sabia o que falar, ou se devia falar. Aquilo estava sugestivo demais para mim.
�- , eu..
�- Shh � ele disse enquanto colocava a m�o na minha coxa. � N�o diga nada.
E depois, tudo que eu pude ver foi ele vindo na minha dire��o, uma de suas m�os pousando em minha cintura, enquanto nossos l�bios se encontravam.
Era eu uma pessoa horr�vel por desejar tanto aquele toque?
Na verdade, sim, voc� �.
Dane-se
; meu lado ego�sta gritava. N�o havia nada melhor do que sentir a m�o dele subindo pelo meu corpo, puxando a barra da minha camiseta, acariciando-me com sua m�o quente em minha pele fria.
Sua puta; meu lado altru�sta, e racional devo dizer, gritava para mim, sem piedade nenhuma. N�o v� que ele s� est� te usando?
E por um segundo, eu pude pensar claramente. n�o estava mais me beijando, agora ele destribuia beijos pelo meu pesco�o, definitivamente me deixando louca. Por�m aquilo era errado, e eu sabia. Eu sabia que, se queria manter o pouco de sanidade que ainda me restava, eu deveria para com aquilo. Eu tinha que parar. As consequ�ncias de quinze minutos de prazer seriam gigantescas.
Eu sabia que me sentiria culpada, acima de qualquer coisa. Por mais que tentasse dizer a mim mesma que n�o importava, eu sabia que sim. Sabia que iria passar noites e mais noites acordada remoendo meus atos, e desejando nunca ter feito isso. Nunca ter feito a coisa que definitivamente, seria a melhor da minha vida.
Eu imagino quem descobriu que todo prazer � cruel.
voltou aos meus l�bios, passando sua l�ngua quente ao redor de minha boca. Aquilo estava passando dos limites. Eu n�o podia fazer mais aquilo.
Por�m era t�o bom. Como achar a for�a para parar?
E de repente, percebi que n�o seria eu que conseguiria me salvar. Seria outra pessoa, que, de forma alguma, eu poderia chamar de bondosa. Ela apenas me tiraria de um dilema, para colocar em outro muito, muito maior.
Um grito foi ouvido da porta.
Separamo-nos, ambos assustados, e voltamos nossos olhares na dire��o da pessoa, que agora nos olhava petrificada.
Com sua cabeleira loura e sua boca num formato de �o�, Liesel nos encarava inconformada.
E aos poucos um sorriso foi se formando em seus l�bios. Um sorriso malicioso, para dizer o m�nimo.

Cap�tulo VII � Far, far away; find comfort in pain

Talvez tudo na vida tenha um prop�sito. Talvez todos n�s fa�amos parte de um plano maior, em que finalmente, todas as pe�as se encaixam. Onde a confus�o � explicada e, de repente, j� n�o h� mais a neblina densa que antes nos envolvia. Talvez. Mas s� talvez. Eu n�o via sentido nenhum naquilo tudo.
Liesel havia se virado e seguido para o corredor novamente. Olhei para preocupada e ele olhava do mesmo jeito para mim. N�s est�vamos fodidos. E sab�amos disso.
Leantei-me devagar, ajeitando minha blusa. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu n�o queria, mas era preciso. Sabia que Liesel n�o deixaria essa cena passar batido.
Oh n�o , n�o mesmo. Ela vai fazer muito pior.
E pela primeira vez em um tempo consider�vel, eu sabia que a voz em minha cabe�a estava cem por cento certa. Ela n�o era o tipo de pessoa que n�o se aproveitaria da situa��o. Ela me faria sofrer, faria a gente sofrer. Era tudo culpa dele.
Por�m, mesmo assim, eu n�o consegui sentir raiva, o que s� fez com que eu ficasse mais brava ainda.
Segui a passos determinados at� a porta, sem dirigir uma palavra a ou nem mesmo um olhar. Eu s� queria esquecer e, ele tamb�m parecia querer. N�o me impediu de ir embora, me reprovou ou chamou meu nome. Apenas deixou-me ir. Ele estava t�o abalado quanto eu.
Abri a ma�aneta da porta com um rangido e olhei para o corredor. Estava vazio. Eu podia ouvir um televis�o ligada em um volume baixo, mas era s� isso. Ela n�o estava mais ali. Talvez n�s tiv�ssemos tido sorte, Liesel n�o ia fazer nada. Que idiota de mim pensar desse modo.
Sai do est�dio com um aceno de cabe�a � Sra. Jenks, deixando o frio me consumir novamente. Ela n�o fez nenhuma pergunta, e eu tamb�m n�o tentei puxar assunto. Eu estava em colapso. Pelo menos ainda nevava. Deixei meus t�nis tocarem a neve gelada, como se estivessem a provando. E, de certo modo, eles estavam.
Comecei a correr para lugar nenhum, apenas deixando meus instintos me guiarem, eu n�o sabia o que mais podia fazer. Eu havia cometido um erro terr�vel e agora tinha que pagar o pre�o. Eu sabia que existiriam conseq��ncias, mas n�o que elas teriam essa dimens�o; eu nunca pensei que pudesse estragar minha vida desse jeito. Mesmo que Liesel n�o fizesse nada, n�o contasse para ningu�m, eu ainda ficaria mal. Eu ainda ficaria desapontada, decepcionada. Como pude me submeter a tal situa��o? Como me deixei levar por um sentimento idiota, que s� poderia me prejudicar, me machucando mais e mais fundo a cada momento?
Eu era uma tonta. E havia agido como uma.
Eu sabia que se realmente quisesse, eu poderia ter evitado isso, eu tinha for�a suficiente, mas n�o a vontade. Eu queria aquilo, eu havia escolhido. O que havia de errado comigo? Eu nunca havia agido assim antes, eu nunca havia sido t�o ego�sta a ponto de n�o me importar com os sentimentos dos outros e s� ligar para mim mesma. Eu era uma pessoa horr�vel, pior do que eu pensava ser. Eu n�o merecia estar aonde estava, tendo a vida que eu tinha. Eu merecia algo muito pior. Morte n�o me soava nada mal.
Parei abruptamente, ao perceber no que tinha pensado. Eu teria coragem para me matar? Havia motivos para eu me matar?
Eu sabia que haviam.
Mas eu tamb�m sabia que a morte n�o seria uma coisa f�cil de enfrentar. Apesar do al�vio que ela poderia me trazer, ainda me faltava coragem.
Ca� de joelhos na subst�ncia branca, pensando nessa minha encruzilhada. Eu n�o tinha sa�da. Eu estava sozinha. Ningu�m mais poderia me salvar de meus erros, eu n�o podia mais me enganar e fugir deles. Eu tinha que assumir minha culpa, crescer com esse erro. E tinha que fazer isso sozinha.
, calma.
Era a primeira vez em meses que minha consci�ncia estava sendo boazinha comigo. E eu n�o sabia o motivo. Seria porque quando se est� no fundo do po�o, as pessoas t�m d�? Eu n�o queria a pena de ningu�m.
Eu s� queria estar sozinha.
N�o queria que ningu�m me ajudasse,essa era uma batalha minha. E por isso a vida me mandou um anjo. Um anjo para me fazer enxergar que nada podemos sem ajuda de uma pessoa que se importa com a gente. E ele estava ali. Bem ali, ao meu lado naquele momento.
Deixei uma l�grima cair, ao que ele me levantava da neve, pegando-me no colo.
Eu precisava tanto de seu apoio.

Cap�tulo VIII - Every time I turn around, something don't feel right

Agarrei-me ao seu pesco�o, tentando n�o pensar em mais nada. As l�grimas come�aram a cair com mais vontade de meus olhos e logo solu�os brotaram de minha garganta. Eu estava me molhando inteira, mas isso n�o importava mais. Eu s� queria sair dali. Eu s� queria seu calor. Eu precisava de um amigo, e ele estava l�.
Carregando-me para fora da tempestade, trazendo-me o sol. Ensinando-me a respirar.
�- Est� tudo bem , eu estou aqui. N�o h� o que temer.
Assenti nervosamente, tentando me convencer disso. Nada o que temer.
�- Voc� quer ir para o hospital ou algo do tipo? � Ele me perguntou, aproximando seu rosto do meu de modo que eu podia sentir sua respira��o quente em mim. Ela era reconfortante, amig�vel. Era quase como respirar ar puro novamente.
�- N�o Brendon, leve-me para casa.
E mesmo n�o especificando, sabia que ele iria me levar para a rep�blica. Eu n�o queria ir para l�, mas era preciso. Eu tinha que enfrentar tudo, por�m parecia imposs�vel.
Ele continuou com seus passos lentos, provavelmente sofrendo ao carregar meu peso inteiro, sem nenhuma ajuda. Apesar disso, ele n�o reclamou; ele n�o disse mais nada, nenhuma pergunta para o motivo de tudo aquilo. Ele s� podia ser de outro mundo mesmo.
N�o sei ao certo quanto tempo ficamos andando (eu sendo carregada, no caso), contudo depois de alguns minutos eu j� estava em um ambiente coberto, o frio se mantendo fora da grande casa. E eu ainda tremia. Ele me levou para cima, e eu ainda tremia. Ele me colocou em sua cama, debaixo de uma camada espessa de cobertores, e eu ainda tremia. O frio � psicol�gico e eu sabia muito bem disso, s� n�o sabia como controlar o que estava sentindo. Brendon se sentou ao meu lado na cama, passando suas m�os de leve pelo meu rosto. Estava claro na express�o dele que ele se preocupava comigo, que queria saber o motivo de tanto choro. Eu n�o podia falar. N�o podia fazer com ele sentisse nojo de mim, repulsa, e me afastasse dele.
Eu precisava de um ombro amigo. Eu precisava dele.
Fechei meus olhos com for�a, tentando apagar o passado, mesmo sabendo isso ser imposs�vel. Eu nunca poderia mudar o passado. Mas eu podia fazer meu futuro.
E ent�o, num ato est�pido de coragem, abri meus olhos, focando-os no rosto de Brendon. Ele me olhou apreensivo.
�- Chame Liesel para mim. Preciso falar com ela � sua express�o era de terror, misturada com surpresa. Teria sido c�mico, se eu n�o estivesse na situa��o em que estava.
�- Mas o que voc� pode querer com ela?
Olhei-o determinada.
�- Isso n�o � da sua conta Brendon. Chame-a, por favor.
Sua express�o foi se modificando, at� permanecer em uma m�scara de indiferen�a. Ele saiu do quarto sem olhar para mi novamente, e eu sabia que ele estava chateado. Provavelmente pelo fato de que ele achava que eu ia contar meu problema � Liesel e n�o a ele. Pobre coitado.
N�o fazia a menor id�ia da enrascada que eu estava, e eu pretendia que ele continuasse sem saber.
J� bastava minha pr�pria consci�ncia e Liesel para me atormentarem. N�o precisava de mais esse drama.
Seus passos foram ecoando pelo corredor e, ap�s alguns segundos torturantes, pude ouvi-lo voltar. S� que dessa vez, ele vinha acompanhado. Engoli em seco ao observar a ma�aneta da porta ser girada, abrindo uma pequena fresta. Pude ver a claridade entrar e ent�o um vulto apareceu em meu campo de vis�o. Inconscientemente, fechei meus olhos com for�a, tentando apagar a vis�o que estava tendo. Nada
poderia ser pior que aquilo.
Liesel estava com um sorriso enorme na cara, o maior que eu j� havia visto ela dar. Seus dentes brancos estavam brilhando sombriamente e seus l�bios vermelhos encurvados de orelha a orelha. Por mais que isso fosse estranho, ela me lembrou um anjo; n�o um anjo como Brendon, mas ainda assim um anjo. Seus cabelos loiros contribu�am bastante para essa analogia mais do que incorreta, e eu sabia que era tudo concreto. Ela realmente parecia um anjo, n�o s� para mim, mas para todos.
Parece como um anjo, fala como um anjo, mas � o diabo disfar�ado. E poucos conheciam esse disfarce.
�- Ol� querida � Liesel disse e eu instintivamente abri meus olhos. Ela veio caminhando vagarosamente quarto adentro, parando somente quando estava ao lado da cama. � Sentiu minha falta?
Fiz uma careta de amargura, tentando transparecer todo meu �dio e desgosto nela, contudo, foi s� uma tentativa v�. Por mais que tentasse, eu sabia que o �dio que eu sentia n�o era dela e sim, de mim mesma. Eu sabia que a culpada era eu, e que ela s� teve a sorte de aparecer na hora errada no lugar errado. Eu n�o tinha como culp�-la.
�- N�o vai me convidar pra sentar? � Sua voz c�nica, entretanto, estava come�ando a me irritar. Por que ela n�o podia apenas pedir o que queria e ir embora? Ah, claro. Sadismo. Ela adoraria me ver sofrer.
�- Sente-se � disse rudemente, ao que ela abaixava seu corpo ao meu lado, acima das cobertas da cama de Brendon. Fitei-a com um olhar desesperado, mas ainda assim tentando manter a calma. Eu n�o podia demonstrar medo, por mais que n�s duas soub�ssemos que era exatamente isso que eu sentia.
Medo de que ela contasse a verdade, medo de que eu n�o fosse mais uma pessoa decente.
Eu sabia que, como foi apenas uma atra��o f�sica, eu n�o deveria me preocupar tanto com isso; poderia at� esquecer, se realmente quisesse. Ela esqueceria se estivesse em meu lugar, disso eu tinha certeza absoluta. Liesel n�o parecia muito sens�vel a sentimentos, nem mesmo aos dela pr�pria.
�- Ent�o, n�o tenho o dia todo. O que voc� queria comigo? � Ela disse se inclinando mais ainda para meu lado, fazendo seu cabelo formar uma cortina ao redor do seu rosto.
�- Eu � que pergunto. O que voc� quer?
Um sil�ncio se instalou no ar, como se n�s duas soub�ssemos o qu�o densa essa pergunta era, o quanto ela podia significar n�o s� na minha vida e de , mas tamb�m na dela. Como se n�s duas soub�ssemos que essa era uma parada obrigat�ria na conversa, n�o um obst�culo, entretanto algo da mesma magnitude.
Eu n�o sabia do que ela era capaz. E se ela me pedisse para sair da rep�blica? E se ela me pedisse para nunca mais falar com novamente? N�o que eu quisesse aquele tipo de contato com ele, por�m ele ainda era meu professor, n�s ainda conviver�amos juntos.
E se, o pior de tudo, ela n�o quisesse nada? E se ela simplesmente me deixasse com minha culpa e sem nenhuma puni��o?
Eu sabia que isso era o pior que ela podia fazer por mim; ainda bem que eu tinha sorte que ela n�o sabia.
Ela me encarou s�ria por um instante, seus olhos fumegando nos meus; como se quisessem arrancar a pr�pria resposta dali. Ela parecia estar desnorteada, n�o tanto quanto eu, �bvio, por�m indecisa.
�- Eu... N�o sei ainda . Sabe, eu achava que te torturar seria mais f�cil. Eu estava completamente enganada, voc� �... Diferente. Eu n�o sei exatamente como, voc� apensa �. N�o fa�o menor id�ia do que vou fazer ao seu respeito.
Olhei-a perplexa, e pude sentir minha boca se abrindo no formato de um �o�, ao que eu ofegava inconformada.
�-Como assim n�o sabe o que fazer? Como assim? Voc� tem que saber, eu preciso acabar logo com isso Liesel. N�o estou brincando, isso � muito, muito s�rio.
Vi seu sorriso alargar ao me ouvir, finalmente, dar uma resposta decente a ela. Pelo jeito, essa era exatamente a rea��o que ela esperava, e queria, de mim.
�- �, eu n�o sei. Algum problema? Esperar te deixa irritadinha? � Ela deu uma risada de deboche ao perceber meu desespero. � Realmente n�o deveria, agora que sei que sei ponto fraco � a impaci�ncia, vou explor�-lo ao m�ximo. Ficar indecisa foi sinceramente �timo nesse caso. Fico feliz por isso.
Ela come�ou a se levantar, rumando a porta, e eu, mais r�pida, agarrei seu bra�o.
�- Por favor... � choraminguei. � Por favor, eu imploro, me pe�a alguma coisa. N�o me deixe com essa d�vida, eu quero acabar com ela o mais r�pido poss�vel.
Liesel me olhou de cima, surpresa transparecendo em seu olhar.
�- Voc� quem sabe � ela disse marota. � Est� pronta para come�ar com os joguinhos?

Continua...

N/a: estou completamente sem imagina��o para esse n/a, ent�o �. s� queria agradecer a todo mundo que ta lendo, mesmo mesmo. e agora eu vou voltar a postar frequentemente como no come�o, e a coisa vai come�ar a ficar melhor. MUAHAHA q
E sim, o Brenny ainda � da gemea e o Gabe ainda � da is�o. Amo voc�s suas pamonhas (:

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