Rio de Janeiro, 25 de Dezembro de 2003 - Quinta-feira, 8h - Rodoviária Novo Rio. Quatro amigos aguardam o embarque destino Vitória da Conquista – Bahia , eu (Beto) estava bem preocupado com o peso da minha mochila , Alexandre esqueceu a lona para cobrir as barracas em caso de chuva forte, sorte que sr. Alceu, seu pai, percebeu o esquecimento e compareceu à área de embarque com a lona e seu sorriso contagiante minutos antes da saída. Luciana foi a única que conseguiu pesar a mochila , uns 15 kg , Flavia estava bem confortável , sua pequena mochila tinha pouca roupa , nossa intenção a partir desse momento era relaxar, pois tínhamos em média 18h de viagem que foi realizada com o conforto e a segurança desejada ( R$ 107,00 – Rio – Vitória da Conquista , ônibus comum c/ ar condicionado - Itapemirim).
Após a chegada na rodoviária de Conquista, fizemos um lanche, tomamos um banho nos bem cuidados banheiros da rodoviária por R$ 3,00 e dormimos literalmente no chão próximo a lanchonete no pátio que fica atrás do embarque e desembarque.
Pela manhã comprei o esparadrapo que havia esquecido e ficamos bem atentos para os ônibus que chegavam e partiam , tínhamos que tomar um desses que vinham em trânsito de algum lugar desconhecido, mas que passava por Andaraí. Logo o atendente da empresa Novo Horizonte comunicou que sairia um ônibus as 07:30h e que passaria por Andaraí com destino final em Seabra (R$17,00 sem ar condicionado). Na fila que rapidamente formou-se no guichê da companhia para a compra do bilhete conheci Diego, um morador de Vitória da Conquista que pretendia ir para Lençóis mas não sabia que ônibus tomar.Então expliquei que o ônibus para Lençóis demoraria a sair pelo menos mais umas 6 horas e que seria bobagem esperar por ele. O certo era comprar logo o bilhete desse mesmo que nós iríamos e embarcar naquele momento para Andaraí . Foi o que ele fez , o ônibus levou nove horas , eu disse NOVE HORAS ( 9h ) para percorrer os 300 km de distância entre as cidades de Vitória da Conquista e Andaraí , todos os lugarejos e cidades pelo caminho o motorista parava e embarcavam moradores com destinos curtos até as cidades vizinhas, foi um martírio pois só faltava ter galinhas e porcos no ônibus. Diego na parte dos fundos do ônibus me olhava meio atravessado como quem dizia: “Que furada hein, seu FDP?!” , mas não disse uma palavra por todo o percurso , deve ter sido pela distancia que sentamos . Bem no meio do caminho, em uma parada demorada embarcou Jeysa , uma morena com jeito de moradora local, com sua mochila cheia de apetrechos para camping , estampando na frente de sua blusa uns desenhos com um nome bem grande: ‘Chapada Diamantina’ , que chamou não só minha atenção, mas a de todos no grupo. Seria ela um guia ? Quando eu não agüentava mais de curiosidade ela mesma virou-se para trás da poltrona e perguntou a Luciana ( minha vizinha de poltrona ) se estávamos indo para a Andaraí e onde ficaríamos , pois ela havia visitado a cidade no ano anterior e ficou hospedada na pousada Harmonia de uma amiga (Beth) mas que esse ano estava indo encontrar umas amigas em Andaraí para no dia seguinte iniciar a travessia do Vale do Pati . Eu fiquei doido com tantas informações sobre a travessia, minha vontade era a de abandonar todos e seguir com aquela garota na mesma hora pela trilha do Vale do Pati o que obviamente não aconteceu porque seria uma sacanagem das grandes deixar todos bem ali no início da viagem e seguir com outra galera. Finalmente depois de perder um dia inteiro dentro do segundo ônibus chegamos a Andaraí por volta das 17h e nos dirigimos imediatamente para a pousada da Beth sendo guiados pela Jeysa, onde nos instalamos em um bom quarto com duas beliches pela diária de R$ 15,00 por pessoa com café da manhã farto. Diego instalou-se em um quarto separado e único no final da pousada. Jeysa ocupou outro quarto grande pois estava a espera de suas amigas ainda naquela noite.
Após conversarmos e conhecermos melhor a dona da pousada ( Beth ), a mesma nos informou sobre uma represa bem interessante que eu avistei antes pela janela do ônibus na entrada da cidade,a uns 3 km de distancia dali, rapidamente nos arrumamos e partimos para a tal represa no intuito de tomar logo um banho de cachoeira mesmo que fosse em uma represa. O lugar é bem bonito e refrescante sem falar no visual dos morros em volta que, logo de início, revela a trilha para Xique-Xique de Igatu. Curtimos o final de tarde em um belo e refrescante banho no imenso lago que se forma nesse lugar tranqüilo e que tem como base a Toca do Morcego , um pequeno comercio de artesanato local que vende água, refrigerante e pedras preciosas , seu dono o famoso Morcego e figura super interessante vem há bastante tempo se preocupando com o bem estar e preservação do lugar instalando placas indicativas dos lugares de grande visitação, mas que são rapidamente destruídas pelos próprios guias locais no intuito de dificultar o acesso obrigando o visitante a pagar por seus serviços. Desde o ano passado, depois de instalar por toda a cidade de Andaraí latas de lixo que não duraram 15 dias para serem destruídas por alguns baderneiros locais, Morcego não desiste e vem de maneira pioneira sinalizando o que pode com suas placas verdes sempre assinadas com seu logo que lembra a imagem de um morcego. Vale a pena uma visita em seu pequeno espaço e conhecer o belo casal que administra esse pedacinho do paraíso.
27 de Dezembro de 2003 – Sábado, seguimos bem cedo pelo mesmo caminho da represa mas desta vez passamos direto por mais 3 km após a toca do morcego totalizando 6 km de distância da cidade até o início da trilha para Xique-Xique de Igatu , que fica à direita logo depois de uma curva que tem quatro casas sendo duas de cada lado da estrada , a trilha desce antes da placa de 40 km advertindo a velocidade máxima da estrada , daí em diante a trilha se inicia com chão de areia tipo praia, mas logo depois abre bem para os lados ganha um piso de pedras bem colocadas pelos garimpeiros, confirmando uma trilha aberta e demarcada por toda sua extensão. Por ali tem passado bastante gente que desce a trilha de Bike depois de acessar a cidade de carro pela estrada que fica em média 40km da entrada da trilha em direção a mucugê , a trilha tem 13 km de extensão em subida leve, nosso maior problema foi a falta de água, pois chegamos numa época de seca na região , não chovia há mais de 3 meses e todos os córregos estavam secos e o sol de arrepiar. Não esqueça o chapéu de palha , esse é sem duvida a melhor proteção contra o sol , quanto maior melhor .
Algumas paradas revelavam a imensidão do que seria a vista lá de cima da cidade, a Chapada começava a revelar-se em nossas vistas, tudo parecia estar em sintonia; cada conjunto de pedra revelava-se imponente e principalmente diferentes de tudo o que eu já havia visto como tipo de pedra , tem umas imensas que parecem ter sido seladas com um material transparente enquanto explodiam em várias outras pequenas pedras do tipo cachoeira ( redondas ); foram coladas umas às outras e depois cortadas ao meio como se fosse feito com ajuda de uma navalha , mas de fato na erosão pela força da água. Incrível o lugar, a trilha lhe proporciona um passeio magnífico por um dos lugares mais antigos do Sertão baiano , essa cidade chegou a habitar cerca de 9 mil pessoas ligadas a exploração de Diamantes, que por sua vez modificavam o curso das cachoeiras direcionando a própria água com auxílio de pedras colocadas umas sobre as outras sem argamassa entre elas para sua fixação, criando o que se torna um novo curso de rio, limpando assim o cascalho e por conseqüência o diamante que era colhido após filtragem desses cascalhos soltos pela força da água , hoje só restam 400 habitantes que não são moradores fixos e sim pessoas de passagens .
Logo que se avista as ruínas da cidade você percebe que muita gente já morou ali, tem-se a impressão de que aquele lugar já foi muito habitado mesmo, as casas eram construídas embaixo das precipitações das rochas maiores como se fossem cavernas artificiais, isso foi construído por volta de 1800.... Pedra sobre pedra sem cola ou qualquer tipo de argamassa, umas sobre as outras encaixadas como um quebra-cabeças. As pessoas estão visitando o lugar e passam por cima das ruínas ajudando a sua decomposição, pois as pedras são soltas mesmo, o lugar está desmontando, brevemente não haverá nem ruínas .
Logo depois você encontra a primeira casa em condições de moradia, com teto, trata-se do museu da cidade, parte dessa casa encontra-se em ruínas e conservada assim guardando dentro dela objetos usados pelos exploradores do passado, estava aberta para visitação por sorte, seu morador e idealizador do museu, um artista plástico que vive em Salvador, passa somente períodos do ano no lugar. Quem costuma mostrar a casa é um caseiro que cuida muito bem do lugar. Depois, ao sairmos dali, seguimos subindo uma rua estreita, porém com paralelepípedos bem colocados que nos levou a uma igreja que servia de centro geométrico para um cemitério bizantino, o lugar é lindo porque tudo é pintado de branco e nos leva a imaginar como deve ser em dia de lua cheia e céu limpo aquele lugar todo pintado de branco com formas bizantinas.
Continuando pela rua você conhece uma das poucas pousadas que existem no local, fomos até um pequeno bar que estava aberto,pois a cidade toda parecia fechada, e conhecemos um morador com idade avançada que nos levou a um passeio turístico pelas ruelas a procura de onde comer algo porque eu estava cheio de fome. Encontramos dona Norma, ela nos acolheu em sua rústica casa com uma bela plantação de legumes e verduras, atrás tinha até uma cachoeira artificial feita com as pedras da trilha, um lugar muito doido. Almoçamos e decidimos ir embora pois tínhamos que descer tudo aquilo que subimos, ou seja, 13 km até a estrada e depois mais 6 km até a cidade. O bom é que você faz a trilha toda de novo descendo o que é melhor porque dá pra ver de outro ângulo a vista e o pôr do sol no meio da cidade de Andaraí. A vista é emocionante a imensidão do lugar é indescritível .
Paramos na represa para um banho relaxante, nossa disposição, alegria e sensação de recompensa eram tão altas que nem estávamos cansados, queríamos mais...
Voltamos à pousada e encontrarmos o André ( primo do Alexandre ) nos esperando. Ele nos contou sobre sua viagem de Brasília até aquela hora. Trocamos de roupa e fomos conhecer melhor a cidade .
Andaraí, segunda maior cidade em todo o complexo da Chapada Diamantina, conserva até hoje população totalmente local sem presença de qualquer tipo de forasteiro ou comunidade não convencional por perto, bastante diferente em tudo. Cidade do interior com ares de interior, seu maior atrativo é a feira livre que acontece toda segunda-feira atraindo moradores de várias regiões do circuito Chapada Diamantina, inclusive dona Norma que desce a trilha de Igatu a pé para fazer a feira da semana e volta de ônibus (obs: Tem ônibus de Andaraí para Igatu , mas parece que é o ônibus escolar dirigido por Rui Saquarema , figura que conheceremos mais tarde ).
Além da tradicional praça bem no meio da cidade, seguindo pela rua principal chega-se à uma nova praça com chafariz luminoso, posto de gasolina, correios, locadora de carros e uma pizzaria que aceita cartão de credito, mas demoram muito para atender o pedido, detalhes da Bahia, não agüentamos esperar e comemos sanduíches numa barraca na praça principal, sentamos no bar de esquina bebemos algumas cervejas e comemoramos ali o aniversario de André primo que teve direito a bolo e velas.
Voltamos para a pousada e dormimos.
Andaraí – Bahia, 28 de Dezembro de 2003 – Domingo - Acordamos certos de visitar o Poço Encantado e Poço Azul, mas não sabíamos como, pois esses ficam a uns 78 km de Andaraí e parte em estrada de terra que corta o acampamento do MST. O fato de ser Domingo eliminou logo a idéia de alugar um carro porque a locadora estava fechada, Alexandre e Luciana saíram pelas ruas da cidade perguntando as pessoas quem poderia nos levar até esses lugares de qualquer jeito até que foram informados sobre um cidadão chamado Gordo, ele estava jogando bola no campinho atrás da escola. Interromperam o jogo e fizeram a proposta ao cidadão que nem pensou duas vezes: É R$ 150,00 e não tem conversa, sobe na carroceria da D10 e vamos embora, tentaram melhorar o preço mas não teve jeito, era isso mesmo ou então nem parava de jogar bola. Combinaram com o sujeito que em 15 minutos estaríamos na porta da pousada para partirmos, mas o cidadão não apareceu e então fomos todos até o campo de futebol atrás da D10. Ao chegarmos o sujeito deu uma desculpa, continuou jogando bola e mandou seu irmão nos levar para o passeio e que depois nós acertássemos com ele.
Foi então que conheci Nilson (Tinga), um professor de História e Geografia da cidade de Andaraí muito ligado ao social e com idéias avançadas para um professor primário de uma cidade de interior. Uma pessoa inteligente, mas sem recursos para expandir suas idéias. Nesse dia não tive oportunidade de conversar com Tinga, pois estive a maior parte do tempo na caçamba da Pick-up, só foi possível conhecer melhor sua história no momento em que aguardava a vez para descer na longa escada que dá acesso ao
Poço Encantado, onde foi nossa primeira visita (R$3,00 – entrada), um lugar sem igual Trata-se de um buraco no meio de uma fazenda que dá acesso a uma gruta com um lago de proporções entre 40 metros de um lado ao outro pela menor parte, 98 metros entre as laterais maiores, 60 metros de profundidade com visão total do fundo do lago, a água é tão transparente e parada que eu fiquei com vertigem em olhar para dentro do lago e observar tudo o que esta no seu fundo como se estivesse a meio metro de distância, tem dois troncos de árvore que caíram lá dentro, um com aproximadamente 48 metros e outro que dizem ter uns 30 metros, e se enxerga perfeitamente todos os detalhes desses troncos no fundo. O lago é iluminado pelo sol que entra por uma fresta à esquerda da entrada da gruta. Fotos do lugar não representam metade do que ele tem de mágico.
Depois dessa visita retornamos a caçamba da D10 outras pessoas, destino: Poço Azul, (R$5,00 – para entrar), lá a gente pode mergulhar em um lago parecido com o Poço Encantado com águas tão limpas e transparentes quanto o primeiro. Alguns guias dizem que é possível haver uma ligação subterrânea entre eles e até outros lagos menores que existem por toda a região. Ao chegarmos no Poço Azul, guias locais nos entregaram os coletes salva-vidas e logo descemos por mais uma escadaria de acesso à gruta até um deck em madeira, guias locais preservam o lugar, não deixam que se mergulhe em profundidade podendo somente boiar no nível da água por todo o espaço iluminado do lago em no máximo 20 minutos. Saímos do lago e ficamos apreciando o lugar por alguns minutos, não dá para acreditar que no meio do nada tenha um oásis desse, parece miragem. Voltamos para a caçamba da D10, mais um dia magnífico ficava no horizonte.
Éramos quatro na caçamba da D10: Alexandre, Eu (Beto ), Diego e André Primo, mais Luciana e Flavia na cabine com Tinga .
Pouco antes havia comentado com Tinga sobre meu desejo de entrar na trilha do Vale do Pati (obs: sempre perguntava sobre a famosa trilha do Vale do Pati a todas as pessoas que eu conhecia naquele lugar), ele foi informando vários detalhes e por final acabou nos levando até a casa de Pedro, irmão de Seu Eduardo, para perguntar se ele nos guiava até a casa de Seu Eduardo, ponto de referência dentro do Vale do Pati. Nesse lugar tem Camping e a esposa de Seu Eduardo, Sra Elenice, faz comida em forno a lenha para os hóspedes que preferem não fazer comida como eu, lá não tem luz, mas não faz falta alguma.
Não conseguimos achar Pedro, mas conheci dona Elenice que já estava em Andaraí para ir a feira no dia seguinte (segunda-feira), voltamos à pousada, tomamos banho e saímos para comer algo pois não tínhamos ingerido nada naquele dia e por fim almoçamos no bar que fica atrás da estatua da praça antiga (principal), a comida ali era melhor do que a do self-service que fica na frente da estátua (informações obtidas com o André primo que havia almoçado no dia anterior enquanto estávamos na trilha de Igatu), recebemos a notícia de que Pedro poderia guiar nosso grupo no dia seguinte para a trilha do Vale do Pati, e que além disso teríamos a oportunidade de conhecer Seu Eduardo na feira e, melhor, teríamos a oportunidade de levar nossas mochilas no lombo dos burros pela trilha sendo guiados por seu proprietário, Seu Eduardo. Dormi feliz da vida com o mundo, o dia foi perfeito, a trilha no dia antecedente àquele foi maravilhosa, aliás tudo estava perfeito até demais.
Andaraí – Bahia, 29 de Dezembro - Foi a segunda-feira chegar que as coisas começaram a mudar, o Pedro não apareceu com os burros, então fomos atrás de conhecer Seu Eduardo que nos confirmou sobre Pedro ter ido buscar os burros no pasto e que ele (seu Eduardo) não poderia nos levar naquele dia porque iria passar o dia na feira e somente retornaria ao Vale na terça-feira. Aquela situação foi me deixando agitado, o dia estava passando, aquela feira movimenta muito a cidade e estava ficando muito tarde. Pedro não aparecia com os burros quando encontrei Tinga, ele me deu a idéia de mudar os planos e procurar outro meio de chegar em Lençóis e depois passar o reveillon no Vale do Capão, o que seria bem legal por causa da proximidade com as comunidades alternativas que existem daquele lado. Fez uma boa propaganda do Vale do Capão, eu tinha imaginado em meus planos passar no Vale do Capão quando saísse da trilha do Vale do Pati por aquele lado, ou seja, a idéia era a de mudar o curso da viagem, em vez de entrar na trilha do Vale do Pati por Andaraí, que eu sabia ser bem melhor porque por Andaraí a trilha tem mais descida que subida, pois se você começar a travessia pelo lado do Vale do Capão tem que subir muito. Outro detalhe era que eu tinha marcado de encontrar Giulio no Vale do Capão para junto com ele terminar, sem data prevista, as minhas férias, uma vez que Giulio foi morar no Vale do Capão e por isso não teria que pagar estadia em sua casa. Pensei bem e levei a idéia para o Alexandre e o grupo que logo preferiu entrar em um jipe tipo 4X4 Pajero com destino a Lençóis passando pela trilha 4X4 de 33km entre Andaraí e Lençóis por R$180,00(carro e combustível divididos por 5), assim foi feito de imediato, o interessante é que esse caminho passa pelo meio do pantanal da Chapada conhecido como Pantanal Marimbus, onde os integrantes do eco-emotion/2003 atravessaram o pântano em caiaques. Todas as provas desse evento foram realizadas nessa parte da Chapada, avistamos de longe a cachoeira do Ramalho totalmente seca e depois paramos na bela Cachoeira do Roncador para um banho bem refrescante. Nesse lugar tivemos oportunidade de conhecer melhor a história de nosso motorista: Rui Saquarema, surfista da década de 60, uma figura daquelas muito loucas. Funcionário da prefeitura de Andaraí, dirige um ônibus escolar para a cidade de Igatu, resumindo, fiquei conversando com essa lenda viva a viagem inteira, pedi até para desligar o rádio do carro que a Luciana insistia em ouvir música baiana, tive uma daquelas aulas de vida sobre o aspecto de um revolucionário da década de 60, gente que não se conhece em cada esquina, nos passou muitos detalhes sobre as trilhas que seriam interessantes, lugares para se visitar e dicas de como conhecer melhor os lugares e gastar menos. O sujeito é muito malandro e conhece bem o lugar, sem falar na trilha que estávamos pois tinham vezes que o jipe parecia que ia virar de tão íngreme eram algumas passagens, tinha mesmo que ser de 4X4. Tem partes que é preciso passar por dentro de rio com água até a porta, sem falar nos buracos que entrava o carro inteiro e parecia não sair mais, foram varias tentativas em alguns desses imensos buracos provocados pela erosão nas margens dos rios.
Finalmente chegamos a Lençóis, Rui nos levou ao Camping Lumiar, dizem ser o melhor da cidade (R$8,00 diária), armamos as barracas e Rui se despediu de nosso grupo, aproveitamos bem o bom banho que este camping nos proporciona, chuveiro com muita água, realmente um bom banho. Saímos para conhecer a cidade de Lençóis que é muito bonitinha mesmo, parece cidade do interior de Minas misturado com Búzios e um toque de Parati pra finalizar, legal mas vida noturna não estava em meus planos, preferi fazer um lanche e passear um pouquinho. Visitei uma exposição de fotos bem no meio da grande rua que deveria ser uma praça, mas que virou centro da cidade. Logo conhecemos a locadora onde providenciamos de imediato o aluguel do carro para irmos aos passeios do dia seguinte ,voltamos para o camping e dormimos.
Lençóis – Bahia, Terça-feira dia 30 de Dezembro de 2003. Acordamos, tomamos café da manhã e partimos para a locadora de carros em busca de nosso meio de transporte, (R$60,00 + gasolina dividido p/ 5), sabíamos que nossos destinos eram Pratinha e Morro do Pai Inácio, mas o Nem (atendente e dono da locadora), nos disse para conhecer o Poço do Diabo antes de ir a Pratinha, que fica no caminho. Foi assim que nosso dia começou, paramos na beira da estrada em um lugar totalmente sinalizado e com infra-estrutura boa, descemos por uma trilha margeando o leito do rio que chega logo em um lago imenso de uns 30 metros de altura com uma tirolesa e um rapel.
Quanto mais seguíamos em direção ao lago uma nova e tão surpreendente vista do pequeno vale se apresentava mais bela que as outras, realmente um lugar lindo demais, eu não fazia idéia do quanto é bonito esse Poço do Diabo e as pessoas nem falam tanto assim dele, pulamos várias vezes em uma parte mais baixa do lago, em um ritmo tão frenético que os guias da tirolesa e do rapel vieram nos pedir para não pular porque estava perdendo a graça da tirolesa e do rapel, ninguém queria mais descer, não tinha mais graça. Fomos embora, pois ainda tínhamos que conhecer Pratinha, seguimos a estrada e o Alexandre, nosso motorista, tinha que dar uma de taxista carioca: Errou o caminho ampliando para uns 60km além do previsto, sem taxímetro mas com a gente pagando a gasolina.
Chegamos e pagamos um pedágio de R$ 5,00 por
pessoa, entramos no lugar onde servem um almoço ruim e cheio de abelhas voando
entre as mesas, CUIDADO COM AS ABELHAS.
Descemos uma pequena trilha leve e chegamos a entrada da gruta, nem demos muita atenção a ela. O lugar tem um lago paradisíaco de águas transparentes onde passamos várias horas apreciando. Por volta da 4horas saímos da Pratinha com a intenção de subir o Morro do Pai Inácio e apreciar lá de cima o pôr do sol.
Voltamos a Lençóis, entregamos o carro e combinamos de um motorista nos levar no dia seguinte pela manhã ao Vale do Capão no mesmo carro da locadora, o próprio Nem da locadora arrumou o motorista (R$ 90,00 – dividido por cinco), voltamos ao camping: Banho, lanche, tudo pronto de novo, cidade.
Passeamos bastante por Lençóis, aproveitei para comprar filmes fotográficos e conhecer tudo o que podia, tem uns bares bem interessantes e a cidade tem vida noturna bem freqüentada, voltei para o camping e dormi.
Lençóis – Bahia, 31 de dezembro de 2003 – quarta-feira. Acordamos, meu café da manhã novamente foi : Leite em pó diluído com pouca água em um copo de 500ml com banana em fatias e cheio até a boca de granola, muita granola. Aliás, eu passava o dia inteiro comendo granola, alimenta muito. Desmontamos nossas barracas pois o carro já estava nos aguardando quando saí do banheiro. Embarcamos as cinco mochilas e motorista no gol da locadora destino Vale do Capão, a essa altura da viagem eu já estava meio extasiado com tudo que tinha acontecido nos dias anteriores. Os lugares visitados, as belas imagens e em como a viagem estava dando tudo certo, a harmonia entre as pessoas nos mínimos detalhes, tudo se encaixava de maneira perfeita inclusive os custos de tudo estava bem atraente, esse era o último dia do ano, entrei em total reflexão. Tudo conspirava para que nossa passagem de ano fosse tão inovadora e diferente de tudo que eu imaginava, estávamos chegando ao tão falado e comentado Vale do Capão e suas comunidades alternativas, toda aquela história de que eu havia ouvido falar através de meu amigo Giulio sobre um lugar mágico onde comunidades inteiras preservam até campos abertos para o pouso de possíveis discos voadores, tantas histórias... Mas minhas intenções eram a de passar a noite de ano novo em um lugar calmo, sem fogos e sem a euforia de bêbados. Chegamos a cidade que é uma vila com casas antigas e bem preservadas, bem no meio dessa vila se abre uma pequena praça com direito a coreto tipo anfiteatro, nesse lugar houve apresentações de Capoeira e um grupo de circo de uma das comunidades, além de outras apresentações solos de pessoas que recitavam versos e poemas no meio do anfiteatro entre as apresentações mais demoradas.
Nós montamos nossas barracas no camping sempre-viva(diária de R$ 4,00). Tomamos um banho médio, senti falta do chuveiro de Lençóis, voltamos a cidade e caí no forro até a virada do ano que foi bem interessante, encontramos Jeysa e sua amiga Ana minutos antes da virada. Entrei no ano novo com bastante confiança em meus ideais e cercado de muita novidade, aliás esse foi um reveillon realmente inusitado, sempre passara o primeiro dia do ano na praia e esse seria meu primeiro ano no mato, embarquei em um forrozinho de primeira numa tradicional sala de reboco no meio do sertão baiano com direito a iluminação precária, melhor impossível. Depois ainda tive a oportunidade de encontrar meu amigo Giulio sentado numa mesa de bar na praça, conversamos um pouco, mas eu estava bem cansado e fui para o camping, eram 2:30h, preferi não prolongar o papo, estava tarde e tínhamos muito a conversar .
Vale do Capão – Bahia, 01 de Janeiro de 2004 - Quinta-feira.
Primeiro dia do ano e eu estava me sentindo diferente, sabia que estava num lugar diferente e mágico, deixei a magia do lugar tomar conta de todo meu corpo até em meus pensamentos, não sabia ao certo o que podia acontecer no próximo minuto, tudo era ótimo, lindo, maravilhoso. Decidimos subir a cachoeira da fumaça que tem esse nome porque a água não atinge o chão, vira fumaça antes de atingir seus 380 metros de altura, tem uma ponta de rocha que se precipita pelo abismo e dá vertigem ao chegar na beira, a grande maioria das pessoas não ficam de pé sobre ela por medo de cair, fica bem perigoso mesmo, o visual do lugar que segue destino ao Vale do Pati, é impressionante a altitude comparada a tudo que está por perto, a sensação de altura é impressionante apesar de ser 380 metros somente.
Iniciei a caminhada de volta para a cidade junto com o grupo, mas logo depois de uns dez minutos parei, dei uma desculpa esfarrapada e pedi para que eles continuassem sozinhos porque eu iria demorar um pouquinho. Queria mesmo estar sozinho na trilha por alguns minutos, por diversas vezes refleti sobre a possibilidade de entrar na trilha do Vale do Pati sozinho, refletia se isso seria suicídio ou não, estaria eu capacitado e provido de informações suficientes para entram numa trilha de no mínimo 60 KM de travessia por um Vale que não tem nada a não ser algumas casas com distâncias entre 20km umas das outras? Que risco poderia enfrentar sem a ajuda de um guia ou até mesmo um parceiro, pois companhia eu não teria, as pessoas do grupo não estavam nada interessadas em caminhar nem mais um metro, o camping sempre-viva fica a 1km da cidade, eles não estavam muito interessados a entrar numa trilha de 60 Km, decidiram ir embora da cidade logo no dia seguinte para outro lugar qualquer, mas não para a trilha do Vale do Pati, eu sabia que seria melhor assim, o desafio estava feito e não tinha outra saída, meu primeiro dia do ano começou com um desafio bem interessante, era tudo o que eu queria, um belo desafio nas mãos e uma mochila de 25 kg nas costas. Comuniquei minhas intenções ao grupo e recebi carta branca para desertar, encontrei Giulio na cidade, comemos uma pizza e batemos um longo e prazeroso papo que nos remeteu a infância e a discutir sobre questões bem recentes como modo de vida e em como estamos trabalhando para nossos futuros, esse meu amigo está morando no Vale do Capão, isso ao meu ver ainda é um sonho....
Voltei ao camping e dormi igual criança um sono cheio de esperança sobre o novo, e com muita expectativa na trilha, quantas perguntas estavam para serem respondidas *.
Acordamos com o mesmo ritual dos últimos dias: café da manha, desmontar as barracas e partir rumo a cidade, mas nesse dia nossos destinos eram diferentes: Alexandre, Flavia, André Primo e Luciana partiram num carro (tipo táxi) para Palmeiras.
Eu (Beto) estava bastante assustado com minha atitude solitária, olhei para os lados e não avistei nada ou ninguém conhecido, tudo era diferente e estranho, não sabia por onde começar. Devo admitir que o primeiro passo sozinho foi desafiador, logo que comecei a caminhada fiquei bem confiante e feliz por minha atitude, queria conhecer aquele lugar tão místico e comentado por pessoas tão especiais.
Da cidade até a entrada da trilha são 6,6 KM, ou seja, da praça até a placa que marca o inicio da trilha, a partir dessa placa são + ou - 60 KM de travessia como está escrito nessa mesma placa, até o Ibama tem dúvidas de quantos KM tem a travessia. O início fica num lugar chamado Bomba.
Durante os 6,6 KM de vila pude apreciar diversas casas bem interessantes e seus moradores sempre bem simpáticos, a vida por ali parece estar em sintonia total com o que existe de mais saudável e tranqüilo. Parei em uma pequena mercearia para beber água e descansar um pouco, perguntei ao senhor no balcão sobre a trilha e ele ficou assustado quando percebeu que eu pretendia fazer a travessia sozinho, o que me deixou novamente preocupado e ao mesmo tempo envaidecido, segui confiante, porém extremamente cauteloso, nesse dia eu estava muito confiante em meus pressentimentos, tudo conspirava para eu entrar na trilha, uma força tão grande que até agora escrevendo esse texto a sinto renovada e cada vez mais forte. Alguns minutos a frente encontrei uma nascente de água pura e aproveitei para encher novamente a garrafa de um litro d’água que havia comprado na mercearia atrás, somando assim dois litros de água na mochila, imaginei que seria mais do que suficiente, cheguei a achar um exagero por causa do peso e sobre as informações de que havia água por toda a trilha, mesmo assim enchi a garrafa e segui. Ao chegar na placa do Ibama encontrei um casal que me pediu para tirar sua foto, aproveitei e fiz o mesmo pedido, trocamos um rápido papo e iniciei a caminhada sem olhar para trás, logo nos primeiros minutos comecei a subir uma ladeira, mais a frente iniciou um zigue-zague pequeno, nesse momento com quase duas horas de caminhada encontrei um casal e sua filha descendo na direção contrária a minha. Paramos, eu me apresentei e trocamos algumas palavras: Perguntei sobre a água da trilha e ele me informou que havia água somente ao chegar nos Gerais do Vieira e que não viu nenhum boi enquanto esteve acampado lá em cima, nesse lugar eles tinham passado a noite de reveillon juntos e estavam retornando para o Vale do Capão, nos despedimos desejando feliz ano novo e boa caminhada, aquele encontro me deixou mais tranqüilo, afinal eram pessoas de idade avançada e a filha do casal aparentava uns 20 anos, transmitiram muita confiança de que eu chegaria ao destino desejado.
Uma hora depois cheguei a um campo bem aberto que acreditava ser o Gerais do Vieira, olhei para trás e percebi que estava bem alto, tirei uma foto, reconheci bem longe o acesso para a trilha da cachoeira da fumaça, contemplei a vista por mais alguns minutos e segui o Gerais na única trilha bem demarcada e óbvia até uma bifurcação tipo Y que, para a direita, está mais aberta. Fiquei perplexo, pois ninguém havia me falado nada sobre bifurcação alguma e principalmente nos Gerais do Vieira, lugar que eu mais questionei por ser uma planície de pelo menos 12KM, tinha sérias dúvidas de como me guiar por uma planície sem ponto de referência. E agora, o que fazer? Optei pelo que me pareceu mais óbvio e segui para a direita na parte mais aberta da trilha no intuito de encontrar vestígios que pudessem me assegurar de que estava no caminho certo, em 10 minutos de caminhada avistei um grupo de aproximadamente umas 20 pessoas em sentido contrário ao meu, mas estavam na trilha que seguia pela esquerda, naquele momento tive um sentimento de felicidade por encontrar alguém na trilha e ao mesmo tempo de tristeza por ter optado pela que me pareceu ser a trilha correta, atravessei para o lado esquerdo no meio da vegetação em direção ao grupo e em alguns minutos estávamos juntos, o primeiro da fila indiana era um guia local, que indagou-me com jeito surpreso sobre onde eu pretendia ir sozinho por aqueles campos, eu expliquei para ele quem eu era e sobre o que pretendia fazer com firmeza e determinação que fez com que ele mudasse até a maneira de me olhar. O grupo a sua volta logo percebeu minha determinação e ficou solidário sobre minha idéia, o que fez com que o guia deixasse de lado seus princípios e me informasse que eu estava na trilha certa, pois ele e seu grupo estavam voltando de um passeio até uma cachoeira que fica a uns 10Km daquele ponto, disse para eu voltar para a trilha da direita que essa sim era a trilha em direção ao Vale do Pati. Para vocês terem uma idéia de como fiquei feliz em saber que havia tomado a decisão certa, eu voltei para a trilha da direita correndo igual a um louco no meio do mato prometendo pra mim mesmo de que iria confiar mais em meus sentidos e atitudes, voltei para a trilha confiante e aliviado por ter tido uma informação correta proveniente de um guia local, tirei mais fotos e daí em diante cada vez que eu parava para tirar fotos eu marcava uma montanha a frente da trilha e outra atrás para ter sempre um ponto de referência para os dois lados, depois de muito tempo eu já não sabia mais o quanto tinham andado, pois não tinham relógio para saber as horas (eu tenho dois relógios citizen aqualand muito caros e bem bonitos, mas fiz questão de não saber as horas na Chapada Diamantina) acredito que tinha andado umas 7 ou 8 horas quando encontrei um guia local e seu único cliente, estavam os dois fazendo a travessia a partir de Andaraí de onde saíram. Apresentei-me, pedi informações sobre o quanto faltava para eu avistar o Vale e por fim nos despedimos com desejos de um ano novo bom para todos, cada pessoa que eu encontrava naquele lugar tinham um recado ou informação inusitada, como se fossem comentários sem sentido ou coerência, nunca sabiam a distância de um lugar ao outro ou quanto tempo levaria por que isso depende de vários parâmetros, tipo o quanto cada um está acostumado a andar e qual a sua velocidade em planos, subidas e descidas, que são muitas, principalmente quando acaba o Gerais do Vieira e a trilha começa a serpentear os morros.
Aquelas duas últimas pessoas não sabiam nem a quantos dias estavam andando na trilha, o guia não falava inglês e o cliente me pareceu ser um francês que falava um inglês nada britânico misturado com um espanhol horrível motivo pelo qual desisti de prolongar as despedidas e agradecimentos. Fui em direção ao que me pareceu óbvio pois a trilha até esse momento não fez bifurcações significativas e eu estava bastante confiante de estar certo, afinal aqueles dois últimos estavam saindo do Vale do Pati, então por mais loucos que fossem eles estavam no caminho certo e eu também. Continuei subindo e descendo por lugares que jamais se apagarão de minha memória, o visual da trilha é sempre grandioso, logo no início dos Gerais do Vieira já se tem a visão do paredão que se forma à direita da trilha e se prolonga até o final do primeiro vale, que vai até o cachoeirão por cima, formando uma parede em linha reta de pelo menos 400 metros de altura e alguns km de extensão, depois da queda que forma o tal cachoeirão ainda continua pelo outro lado do vale , terminando somente próximo a casa de Seu Eduardo a pelo menos uns 40 Km do seu início.
Aqueles dois preciosos litros de água terminaram e eu estava com sede, pois o sol não deu trégua por todo o trajeto, em alguns momentos nuvens esparsas minimizavam a ação expressiva do Rei Sol e eu não chegara a lugar algum; subia, descia e o pôr do sol chegava avisando que em pouco tempo seria noite, estava até estudando a possibilidade de acampar por ali mesmo caso a noite chegasse, foi quando avistei uma igreja no meio de um vale bem abaixo de onde eu estava, pensei de imediato: É nessa igreja que eu vou dormir, continuei pela mesma trilha por uma descida bem íngreme e em menos de 20 minutos estava na área da igreja, fui recebido por um cidadão com fala bem mansa e jeito de padre confinado naquele lugar por no mínimo uns 10 anos, joguei literalmente a mochila no chão e perguntei se podia dormir aquela noite ali, sentei no chão ao lado desse que me pareceu ser o padre.
E foi com um olhar bem lento e calmo que o sujeito virou-se pra mim e disse: “ Você quer um pouco de água amigo? “ , fiquei sentado conversando com o zelador do terreno paroquial, Sr. João, por pelo menos 1 hora, ele me ofereceu além da água, fogão a lenha para eu preparar meu miojo, banho, um colchão densidade 45 ( D45 ), lençol limpo, travesseiro de ............. com um perfume maravilhoso confeccionado somente no Vale do Capão, mais um cobertor. Tudo isso dentro de uma casa que pareceu ser o salão de festas da igrejinha, todo iluminado por velas num ambiente mais rústico que eu dormi em toda minha vida, todo esse conforto pela quantia de R$10,00 e seu João ainda reclamou que a maioria das pessoas não gostam de dormir ali, preferem ir para a casa do seu Wilsom, que fica meia hora a frente pela trilha. Eu não pensei meia vez, aceitei a proposta de imediato, pedi licença, entrei na casa e percebi que não estava sozinho, havia mais três pessoas naquele casebre, uma mulher que aparentava uns 50 anos, um casal de jovens com aparentes 25 anos no máximo. Ele um guia local, a menina, uma baiana com sotaque bem carregado e sua mãe uma mestre de Yoga a procura do local ideal para iniciar um retiro prolongado, ela havia ouvido falar muito bem do Vale do Pati e por isso estavam conhecendo o lugar.
Oportunidade ímpar para uma pequena mostra dos rituais da cultura oriental, relaxamento total para embarcar em um sono profundo que foi interrompido no meio da noite por uma chuva forte, não chovia há três meses na Chapada Diamantina.
03 de Janeiro de 2004, Sábado - Igrejinha - Vale do Pati - Chapada Diamantina – Bahia.
Nesse dia eu não acordei, apenas levantei da cama e continuei sonhando um sonho que não acabava, era real e eu estava no Vale do Pati, até o tradicional ritual matinal foi inusitado por causa de meus novos companheiros, fizeram café no forno a lenha com pães aquecidos e recheados com uma pasta bastante saborosa parecida com ricota.
Havia chovido bastante durante a noite e por conseqüência o Vale ainda estava tomado pelo nevoeiro, o guia me convidou para que eu seguisse junto com eles para a cachoeira do Funis e depois subir até o morro do Castelo, onde eles pretendiam passar a noite (dizem ser a vista mais bonita do Vale do Pati) e onde pode-se acampar com segurança, pois existem grutas no topo do morro bem longas onde é possível dormir usando somente o saco de dormir sem armar a barraca. Eu estava bastante inseguro sobre minha performance na caminhada, havia passado por momentos de cansaço intenso no dia anterior, não eram meus planos andar muitos quilômetros naquele dia, queria descansar um pouco mais e então sair bem devagar na direção da casa de Seu Eduardo para depois decidir se teria condições de subir o morro do castelo ou não. Ele é bem alto e tem ladeira bastante íngreme e imponente. O meu ritmo estava lento e por isso não me senti com segurança para segui-los, eles me pareceram muito bem preparados e dispostos, o que não era a minha realidade naquele momento, agradeci o convite, nos despedimos e então pude observá-los por alguns minutos na ladeira que sobe em frente a Igrejinha imprimindo um ritmo forte e constante, comprovando o que eu havia imaginado quando avaliei o grupo.
Fiquei satisfeito de ter optado por não ir junto, eu atrasaria o ritmo com certeza, aproveitei e fiquei mais alguns minutos arrumando melhor a mochila, conversei mais um pouco com Seu João e me despedi prometendo voltar um dia.
Segui pela ladeira em frente com a informação de que quando eu chegasse na parte mais alta daquele morro em frente, que era a tal ladeira, eu avistaria com certeza o Vale por inteiro e então o desceria com visão perfeita da trilha, o que não aconteceu porque o tempo estava totalmente fechado e eu não via nada por causa do nevoeiro. Depois de meia hora a trilha começou a descer e eu imaginei estar descendo em direção ao Vale do Pati, acabei por tomar um caminho errado que me levou a descer todo o morro que havia acabado de subir até encontrar um riacho, pensava estar no caminho certo, atravessei esse riacho, aproveitei e bebi água, tirei foto, passei por uma porteira e comecei a subir novamente outro morro para a direita, passei por outra porteira, cheguei no topo do morro e percebi que já estava andando a pelo menos duas horas e ainda não estava no Vale, mas sim que eu havia subido mais do que descido.
O lugar parecia ser um campo bem aberto com aparência de planície, a neblina foi se dissipando quando eu me dei conta que estava no meio de uma boiada com vários bois bem chifrudos olhando fixamente na minha direção, naquele momento tive a certeza de estar totalmente perdido, porque segundo as informações obtidas antes, diversas pessoas tinham comentado que o maior perigo nos Gerais do Vieira eram as boiadas e que nessa época do ano o fazendeiros transferem suas boiadas para os campos acima do Vale em direção a Mucugê, por cima do Vale do Pati.
Agora eu estava completamente perdido e no meio de uma boiada nada amigável, não consegui pensar com coerência e não parei de caminhar, mudei a direção para a esquerda a fim de sair do meio da boiada e depois que eu estivesse a salvo pensaria no que fazer. Ainda bem que os bois nem saíram do lugar porque eu fui parar no leito seco de um pequeno riacho para, depois de alguns minutos me recompondo, ter a certeza de ter perdido inclusive a trilha que eu estava.
Meu ponto de referência para achar a trilha de volta era a boiada ou nada, não teve jeito, tive que voltar para o meio dos bois para achar novamente a trilha e, quando a achei, já tinha perdido mais 1 hora, ou seja, 2 horas caminhando errado inconscientemente, mais 1 hora perdido e mais 2 horas para voltar: Tudo dava 5 horas perdidas naquele dia. Quando cheguei ao ponto em que havia passado direto e errado o caminho, a neblina já havia se dissipado por completo proporcionando uma visão maravilhosa do Vale do Pati, aí então pude tirar a foto do Vale por cima, em sua entrada.
Tenho refletido bastante sobre o tempo em que fiquei perdido, como reagi ao desespero, como me saí nessa situação e qual o significado dessa foto que eu tive a oportunidade de revelar por conseqüência do meu erro de direção......
Cinco horas depois encontrei o caminho certo, e agora o que fazer? Tinha dúvidas sobre o que fazer dali em diante, a casa de Seu Eduardo estava ainda a pelo menos uns 20 KM e eu já havia andado uns 13 Km de sobe e desce (depois eu confirmei no mapa a quilometragem do percurso perdido), descansei um pouco, bebi mais água, fiz um lanche e continuei a trilha num ritmo cadenciado, mas sem descansar muito. Apertei o ritmo e tentei recuperar o tempo perdido, nesse momento achei que tivesse perdido alguma coisa enquanto estava na trilha errada, não tive a noção do quanto eu aprendi e ganhei em experiência de vida sob a tensão daqueles momentos únicos, sinto saudades.....
Cheguei até uma pequena casa com um bom terreno bem na frente do morro do castelo, os nativos a chamam de prefeitura. A casa estava fechada e não tinham ninguém por perto, tirei algumas fotos, deitei na calçada da casa e, enquanto estava fazendo um lanche, observei quatro pessoas aproximando-se de onde eu estava por uma trilha que cruza o outro lado do morro do castelo, era o responsável pela prefeitura e três outros homens que depois reconheci um deles como sendo meu vizinho de barraca do camping Sempre-viva no Vale do Capão, cumprimentei a todos e percebi um cansaço anormal por parte de dois deles, antes de perguntar algo, Carlison já se dirigiu ao meu lado perguntando de onde estava vindo e para onde pretendia ir e etc,etc,etc... Respondi algumas de suas perguntas o que foi o suficiente para ele desistir de continuar a travessia na companhia de seus dois parceiros e pedir declaradamente para me seguir, eu ainda tentei explicar-lhe de que não sabia nada a respeito do caminho e que minhas informações sobre as trilha eram provenientes de fontes não muito confiáveis e que seria no mínimo arriscado seguir pelo meu caminho, o que não o demoveu de sua idéia de me seguir até a casa de Seu Eduardo.
Tornou-se uma companhia muito agradável, pois já estava a bastante tempo sem ter com quem conversar e para ele foi um alívio estar ao meu lado haja vista que os outros amigos com quem ele tinha entrado na trilha se perderam por diversas vezes, passaram por momentos bastante complicados e por fim ainda tiveram que dormir na chuva que havia caído na noite anterior ensopando tudo o que havia em suas mochilas, inclusive a barraca, que no total estava bem mais pesada. As passagens que ele me contou fizeram a minha história de perdido no meio da boiada parecer brincadeira de criança. Me encontrar tão bem aparentemente na prefeitura fez com que ele decidisse naquele momento seguir comigo pela trilha, mal sabia ele que eu havia me perdido por cinco horas.
Paramos em uma ponte que serve de ponto de referência para acessar a casa de Seu Eduardo, tiramos algumas fotos, batemos um papo sobre nossa viagem e continuamos até encontrarmos a casa de Seu Eduardo.
Logo que avistamos a casa percebemos uma grande quantidade de barracas a sua volta, havia bastante gente instalada por ali, reconheci seu Eduardo, cumprimente-o, apresentei meu amigo e eles já começaram a combinar em ir para Andaraí no dia seguinte, pois Carlisom precisava estar de volta no Vale do Capão no dia seguinte, Domingo, o que ao meu ver seria impossível. Encontrei dona Elenice e já fui pedindo um prato de comida, estava cheio de fome e não queria perder mais tempo, instalei-me em uma pequena casa com cinco camas e banheiro que fica um pouco acima da casa principal, não havia ninguém hospedado nessa casa e eu acabei por ficar instalado com toda privacidade em toda minha permanência.
Não perdi tempo e desci para o lago que se forma na frente da casa, próximo as barracas, o banho é bem tranqüilo e a água, bem limpa. Apenas tem cor escura por causa da quantidade demasiada de ferro por toda aquela região, tirei algumas fotos e percebi ao terminar o filme da máquina de que me restara um único filme de 36 poses.
Nesse momento conheci Jefel (Jéferson), ele questionou-me sobre um cordão que havia achado naquela hora bem próximo de onde eu estava. Ficamos conversando por alguns minutos enquanto eu mergulhava no lago, logo depois chegaram algumas pessoas de um outro grupo e por fim Carlisom apareceu reclamando de sua barraca molhada. A noite caiu rapidamente por causa da proximidade dos morros. Subi para a casa, armei minha pequena rede de escalada na ampla varanda da casa e fiquei por horas observando o céu e a lua quase cheia, que se completaria no dia 5 de janeiro. O visual do luar refletindo naqueles paredões de pelo menos uns 400 metros de altura em frente a casa foi paradisíaco, tinha até gnomo me olhando do meio do paredão em uma via que imaginei conquistar qualquer dia desses.
Um tempo depois ouvi na casa abaixo o resfulengo maroto da sanfona de seu Eduardo anunciando o início do primeiro forrozinho do ano, eu já sabia que seu Eduardo tocava sanfona e aos sábados acontece um forro com a galera que acampa por ali, todos se reúnem em frente a casa principal e seu Eduardo distribui cachaça do alambique de Atibaia para todos ou seja “for all” é grátis, desci observei a oferta feminina, conferi os casais e conheci Regiane que logo me apresentou ao restante do grupo. Não me lembro de ter ido dormir....
04 de Janeiro de 2004, Domingo - Vale do Pati – Casa do seu Eduardo – Chapada Diamantina – Bahia. Acordamos, café da manhã com direito a bolo de laranja, mandioca quente na manteiga, suco de abacaxi, bolo de cuzcuz com cobertura que até agora não sei de que era e mais um monte de comida. Carreguei um pouco de cada coisa num saco plástico e fiquei comendo aquelas delícias por toda a manhã. Minutos depois todos se reuniram em frente a casa principal, me despedi de Carlisom e então seguimos uma trilha por mais de uma hora, Vitor (filho de seu Eduardo) nos levou ao cânion do cachoeirão, passamos o dia nesse lugar, na minha opinião esse foi o lugar mais bonito de toda a viagem , uma cachoeira de 230 metros de altura com uma beleza única, não sei descrever o lugar, todo e qualquer comentário sobre esse lugar não representaria seu significado, desculpem, mas prefiro não comentar, imaginem suas proporções analisando suas fotos, a fauna do lugar é tão exclusiva que ficamos por horas observando um casal de gaviões com ninho no cume da cachoeira e um outro falcão com envergadura maior do que os homens que estavam no alto da cachoeira, alguns integrantes do grupo tinham binóculos e puderam comprovar seus detalhes e informações, pois eram todos especialistas (veterinários e biólogos integrantes da ong IPÊ). Voltamos no final da tarde contrariados por estarmos indo embora daquele paraíso, a todo momento alguém arrumava uma desculpa para não sair de onde estávamos, e o mais interessante é que ninguém reclamava de ficar mais um pouco e não estávamos nem aí para a caminhada de volta, que poderia ficar perigosa pois estávamos sem o guia Vitor que se encheu e foi embora.
Quando decidimos realmente ir embora, me levantei e comecei a seguir a trilha que desce direto o leito da cachoeira sem olhar para trás, isso foi o suficiente para me perder do grupo e ter que achar mais uma vez a trilha sozinho, e não foi nada difícil, os micos me indicaram o caminho. Chegando à casa de seu Eduardo relaxei no pequeno lago.
Na mesma noite, Beto(IPÊ) e Helinho(IPÊ) partiram de volta para o Vale do Capão por uma trilha que segue por cima dos Gerais dos Vieras no intuito de resgatar os carros do grupo que estavam estacionados por lá. Depois seguiram pela estrada passando por Lençóis para se encontrarem com o restante do grupo, que sairia da trilha por Andaraí, para finalmente seguirem viagem de volta.
Eu e o restante do grupo ficamos mais uma noite na casa de seu Eduardo para somente no dia seguinte terminar a trilha em direção a Andaraí.
Aproveitei a oportunidade e fui contemplar mais uma vez a vista na varanda da casa, embarquei no balanço da rede e acabei dormindo ali mesmo, no meio da noite entrei na casa por causa do vento frio do Vale.
05 de dezembro de 2004, Vale do Pati casa do seu Eduardo – Chapada Diamantina – Bahia.
Essa foi sem dúvida alguma minha melhor segunda-feira, acordei bem disposto, apreciei novamente o café da manhà de dona Elenice, arrumei a mochila e aguardei o restante do grupo estar pronto para partirmos. Nos despedimos das pessoas da outra ONG que ficaram no Vale por um período maior (obs:tinham gente pensando em trancar a faculdade e voltar somente no meio do ano), despedi-me de dona Elenice e seus filhos, desejando voltar em breve (sonho para junho ou julho), Alexandre, Karla, Jefel, Fernando, Regiane, Clarice e eu iniciamos nesse dia a pior parte da travessia. Nesse percurso tem que se subir a Ladeira do Império, trata-se de uma subida bem íngreme de pelo menos duas horas , mas que nem foi tão difícil assim, a pior parte pra mim foi descer o outro lado. Eu já não agüentava mais meus joelhos, reclamei bastante da descida, foram uns 18km de sol na cabeça ladeira acima, abaixo e nada de água, passamos por cima da cachoeira do Roncador (sem água), chegamos a Andaraí no auge da feira, nos instalamos na sorveteria Apolo para aguardar a chegada de Beto (IPÊ) e Helinho com os carros, passeamos bastante pela cidade, encontramos seu Eduardo e dona Elenice na feira e aproveitei para comprar uma garrafa de cachaça do mesmo alambique da que havia bebido no Vale. A noite chegou e encontrei Tinga, apresentei-o aos meus novos amigos e ficamos conversando na praça até de madrugada. Os meninos não apareceram com os carros e então pedimos autorização para dormir na varanda da sorveteria, resposta positiva e dormimos ali mesmo, armei minha rede entre duas pilastras da varanda e dormi apreciando a lua cheia.
06 de Dezembro de 2004, terça-feira – Andaraí – Chapada Diamantina – Bahia.
Acordei com o primeiro raio de sol que chegou em meu rosto, o café da manhã foi estilo cidade grande: padaria, café c/leite e pão na chapa, Jefell fez a barba no tradicional barbeiro da cidade, depois convenci todos a irem até a represa tomar um banho enquanto os carros não chegavam, mas Clarice e Fernando (descalço) ficaram, pois estavam bem cansados. O sol já estava bem forte, o asfalto estava quente e esse trajeto de 3km é feito pela estrada. Decidiram ficar aguardando os carros. Seguimos até a toca do Morcego, conversamos um pouco com o casal Morcego, ficamos por pouco tempo na represa, voltamos e logo depois os meninos chegaram com os carros. Arrumamos as bagagens com todo cuidado para sobrar espaço para mais um integrante, “EU”. Quase que eu não fui com eles, pois éramos em nove para dois carros, mais as mochilas de todos que não eram pequenas .
Seguimos destino Vitória da Conquista no intuito de acessar a BR 101 – litorânea, pois encontra-se em melhor estado de conservação e nossas intenção era dormir em Itaúnas-ES.
No meio do caminho passamos por Mucugê, onde tivemos a oportunidade de visitar seu famoso cemitério Bizantino, depois dormimos no meio do caminho em um hotel de beira de estrada em algum lugar que não sei, para no dia seguinte continuar viagem.
07 de Dezembro de 2004, quarta-feira – Em algum lugar que eu não sei o nome – Bahia – Brasil.
Acordamos, café da manha de hotel, seguimos viagem até Itaúnas, eu já conhecia Itaúnas de outros carnavais, mas do grupo todo só quem conhecia era a Regiane. Não deu outra: Ficamos instalados na casa mais em conta que arrumamos, mais barata que camping! À noite fomos para o do Bar do forró.
08 de Dezembro de 2004, quinta-feira – Itaúnas – Espírito santo.
Acordamos e fomos à praia direto sem direito a nada até a hora do almoço. Encontramos um veterinário do Tamar reeducando um gavião a viver em habitat natural, passeamos por toda a cidade e fomos embora no meio da tarde. A partir desse momento eu dirigi de Itaúnas até o Rio de Janeiro, refletindo sobre minha profissão de taxista estressado com o trânsito carioca. Meus amigos ainda seguiram para São Paulo, foi difícil me despedir de meus amigos Paulistas, eu já senti saudades deles antes de chegar em casa. Queria que a viagem tivesse continuado, mas sem dúvida alguma ainda terei oportunidade de reviver bons momentos como esses na companhia de pessoas tão agradáveis como essa gente do IPÊ.
Mas por enquanto estou em processo de readaptação ao mundo real.
Obrigado a todos vocês que me proporcionaram boa convivência nos dias mais maravilhosos de toda minha vida, nessa viagem que foi sem dúvida alguma a minha melhor experiência de vida e convivência em grupo.
Obrigado aos meus novos amigos: Nilsom (Tinga), Alexandre (IPÊ),
Karlinha, Regiane, Clarice, Fernando, Beto (IPÊ), Jéferson, Helinho, Seu
Eduardo, Dona Eleniçe, Carlisom, Beth (Harmonia), Diego, Jeysa e Ana.
Obrigado aos meus velhos amigos: André Primo, Luciana e Flavia.
E não tenho palavras para agradecer àqueles que me proporcionaram viver
tudo isso, os meus queridos irmãos: Alexandre Bonato e Giulio Lage.