1452-1519  d.C.
 

Breve  Biografia
 

Donald Cultross Peattie



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

«Uma vida bem vivida é uma vida longa.»
 

          "O autor da frase transcrita viveu, durante séculos, segundo este padrão, e não apenas uma vida, mas dez. Porque Leonardo da Vinci, além de ter sido um dos grandes artistas da Idade de Ouro da pintura, foi, também, um gênio científico de múltiplas facetas. Homem de espírito avançado, Leonardo nasceu no início dos tempos modernos, a que nós hoje chamamos Renascimento. Previu ou inventou muitas coisas que a ciência, depois dele, demoraria quatrocentos anos para investigar.

          As mais importantes descobertas de da Vinci permaneceram ignoradas nos seus manuscritos, que só muito recentemente foram compilados e publicados. Os colecionadores procuravam, avidamente, estes manuscritos, dos quais se perderam, talvez metade, porquanto eram valorizados não só pelo seu conteúdo, mas apenas pelo autógrafo do grande homem. Este interesse pelos autógrafos era já, em si mesmo, estranho, pois o escritor escrevia com a mão esquerda e tinha o hábito excêntrico de o fazer da direita para a esquerda. Para ler os seus manuscritos é necessário colocá-los diante de um espelho. Como era natural num homem de aptidões tão diversas e extraordinárias, mais tarde acabou por tornar-se ambidestro.

          Ao dotar esta criança de maneira tão brilhante, o Destino parece ter agido caprichosamente na eleição de seus progenitores.

A mãe, Catarina, de dezasseis anos, pertencia a uma família de camponeses; o pai, Piero da Vinci, era advogado. A Natureza tomou estes dois seres na sua mão de escultora, num ardente Verão da Toscana, e moldou a sua obra-prima que veio á luz em Anchiano, a 15 de Abril de 1452.

          Para evitar que Piero contraísse matrimonio com Catarina os pais apressaram-se a casá-lo com uma rapariga de boas famílias. Seguindo um costume da época, Piero da Vinci contribuiu com certa quantia para ficar como responsável pela criação do filho e perfilhou-o. Durante os primeiros anos da sua infância Leonardo foi filho único e, como tal, muito mimado. A sua beleza extraordinária e inteligência viva faziam com que facilmente lhe perdoassem os defeitos do seu caráter, de que nunca se corrigiu: possuía um certo egoísmo, tinha uma confiança ilimitada em si mesmo e era excessivamente sonhador.

         

Criado na residência familiar perto de Florença, o menino vagueava por entre aquela encantadora paisagem de pinheiros, regatos, penhascos e delicadas flores silvestres que iam mergulhando na sua alma infantil para emergir, anos depois, nessas maravilhas de paisagem com que ele viria a adornar os seus quadros.

          Gostava de música e sabia tocar muito bem; os versos vinham-lhe aos lábios naturalmente. A vida à sua volta era a sua mestra. Nunca lhe foi permitido conhecer a mãe, embora ele soubesse

da sua existência. Esta falta de ternura maternal infundiu no menino um anseio que veio mais tarde encontrar expressão nos seus quadros. Ele, que nunca conhecera o amor de mãe, rebuscou os mais belos tesouros do mundo — flores, cordeiros, árvores nobres e vetustas, montanhas — para deleite do Menino Deus nos braços de Sua Mãe.

          Ao descobrir os primeiros desenhos do filho, Piero da Vinci colocou-o, como aprendiz, no estúdio de Verrocchio, em Florença. Como este cultivava todas as artes em que Leonardo viria a ser mestre — pintura, escultura, arquitetura, música, geometria e história natural —, mestre e discípulo viram-se imediatamente ligados por uma simpatia mútua.

          Freqüentavam a oficina de Verrocchio outros jovens artistas— entre eles Boticelli, que se tornou amigo intimo de Leonardo. Juntos, discutiam teorias para modificar o mundo, altercavam entre si ou divertiam-se, domando cavalos, um dos desportos favo-ritos de Leonardo. Dizia-se que era tão forte que conseguia dobrar uma ferradura com uma só mão.

          Para Leonardo, a matemática, a física, a botânica e a anatomia não eram ciências independentes da arte mas sim parte integrante dela. Em sua opinião, não existiam diferenças essenciais entre a ciência e a arte. Ambas eram instrumentos por meio dos quais se descrevia o Universo criado por Deus.

          Quando pintava, Leonardo cobria com um manto de beleza a nudez fria das coisas. A profundidade dos seus conhecimentos e a sua técnica impecável ficavam eclipsadas pela ternura que revelava nele o homem enamorado da vida. Nada prova melhor o quanto ele a amava do que as centenas de páginas dos seus cadernos de esboços. Aqui, vêem-se as feições contorcidas de soldados que matam e morrem; ali, a expressão devota de uma jovem que ajoelha em oração; neste desenho vemos bem vincada a ansiedade nervosa dos tendões do pescoço de um velho mendigo; naquele outro, o autor captou a alegria inconsciente de uma criança a brincar. Diz-se que era capaz de seguir um dia inteiro qualquer pessoa que encontrasse na rua, de aspecto grotesco ou de traços perfeitos, só para a estudar. Visitava os hospitais para fixar a expressão de voracidade do bebê inocente ao peito da mãe; e, secretamente porque era ato mal visto na época dissecava cadáveres para que o seu pincel reproduzisse com fidelidade as «proporções divinas».


Às Vésperas do Nascimento
Um feto prstes a nascer, aparece o ventre materno neste desenho de Leonardo da Vince,

uma das primeiras reproduções exatas de uma parte da anatomia humana.

Os desenhos menores representam detalhes do útero.



 
 
 
 
 

         Na verdade, nenhuma ciência interessou tanto Leonardo como a anatomia. Demonstrou que os músculos são como alavancas e revelou que o olho é uma verdadeira lente. Asseverou que o coração funciona como uma bomba hidráulica e provou que o ritmo do pulso está sincronizado com o bater do coração. As múltiplas observações, colhidas nos hospitais, levaram-no à descoberta da arteriosclerose como uma das causas de morte na idade avançada.

          Foi, todavia, a sua perícia em tocar lira que, aos trinta anos. lhe valeu uma recomendação de Lourençoo de Mêdicis, O Magnífico, a Ludovico Sforza, O Mouro. Sforza, homem, traiçoeiro, brutal e prático, era um verdadeiro tirano de Milão. Ao ler a carta de Leonardo, pensou imediatamente que este poderia servir-lhe de muito, pois dizia-se inventor de uma ponte portátil, muito leve e de grande utilidade na perseguição do inimigo. Apresentava-se ainda como autor de uma bomba de sucção com a qual seria fácil, para os sitiadores, esvaziar o fosso do castelo sitiado.

          Os cadernos de da Vinci mostram que, em matéria de ciência militar, ele estava quase preparado para a Segunda Guerra Mundial. Sabia fundir canhões de trinta e três bocas, onze das quais podiam disparar ao mesmo tempo: desenhou balas cônicas e metralha; fabricou espoletas reguladas e granadas de mão; planeou o fabrico de bombas de gás e da máscara antigás; montou as suas peças de artilharia sobre rodas e inventou um canhão que se carregava pela culatra, para substituir os antigos e toscos canhões que se carregavam pela boca.


Catapulta  Gigante



 
 
 
 

         Ao sair da risonha Florença para a austera cidade de Milão, Leonardo verificou que os seus deveres incluíam a instalação da canalização para a casa de banhos da Duquesa, além da incumbência de pintar um retrato a óleo da fria e orgulhosa amante do Mouro. Dirigiu, além disso, a construção de um intrincado sistema de canais para a cidade e projetou ruas de nível duplo para diversos tipos de tráfego, que nunca chegaram a ser construídas. Como perito em engenharia militar, foi enviado aos Alpes, para organizar a defesa dos vales contra uma possível invasão vinda do Norte.

          Desta experiência nos Alpes e das recordações da sua meninice, nasceu a Virgem dos Rochedos onde a paisagem e a flora exaltam, com a sua doçura silvestre, a santidade da Virgem, do Anjo e do Menino, cujos dedos rosados lançam a bênção sobre S. João. companheiro dos seus jogos infantis.

          Esta tela foi encomendada por uma comunidade religiosa de Milão pela exígua quantia de vinte ducados. Porém, ao terminar a obra, Leonardo achou que ela valia cem. Os monges negaram-se a pagar mais e Leonardo ficou com o quadro. Os monges intentaram um processo e Leonardo combateu-os nos tribunais, durante vinte anos. Finalmente, o Rei da França comprou o quadro e colocou-o no seu palácio, o Louvre, em Paris. Para satisfazer os monges, Leonardo e os seus ajudantes pintaram outro quadro, cópia virtual do primeiro, e que se encontra hoje na National Gallery de Londres.

          Uma das obras-primas da arte universal, A Última Ceia, pintou-a da Vinci na parede do refeitório de um convento cuja argamassa não estava adaptada para esse fim. Passados vinte anos, uma mancha de umidade criou bolor, fato que alterou a pintura. Mais tarde, foi aberta uma porta nessa parede com a mais absoluta inconsciência. Quando os soldados de Napoleão invadiram a Itália, divertiram-se a disparar contra as figuras de Cristo e dos Apóstolos. Depois, gerações de "restauradores" adulteraram o fresco. A última restauração. que foi a melhor e a que mais respeitou o original, quase lhe devolveu a beleza primitiva. Porém, se não fossem os vários esboços preliminares do próprio da Vinci e as cópias feitas por outros artistas logo após a conclusão da obra, mal poderíamos aperceber-nos hoje da exaltação com que foi concebida e da perfeição com que foi executada A Última Ceia.


          Cada perda de um «Leonardo» (e muitos se perderam) representa uma calamidade no mundo da arte porque, na verdade, ele terminou muito poucos dos seus trabalhos, embora os esboços e estudos se contem aos milhares. Quando, por fim, se dispunha a pintar uma tela, trabalhava dias seguidos, durante os quais mal se alimentava. Muitas vezes, sentava-se em frente da obra um dia inteiro, para lhe acrescentar apenas três pinceladas, e na manhã seguinte era capaz de limpar tudo o que pintara até ai e começar de novo. Duvidamos que ele tenha chegado a considerar completo algum dos seus trabalhos; esta exigência para consigo próprio foi, talvez, a causa de ter assinado tão poucas obras.

          Antes da sua tentativa de conquistar o espaço, da Vinci estudou a razão por que os pássaros se elevam contra o vento para voar, e verificou que a disposição das asas os ajuda a subir mais verticalmente. Fazendo experiências com modelos de papel, previu a possibilidade das varias formas de manobras aéreas, para cuja realização redigiu instruções pormenorizadas.

          Os seus primeiros planos para a construção de uma maquina voadora assemelham-se, pela forma, a um morcego. Ele imaginava que as asas deviam bater no ar e, por isso, projetou uma fuselagem articulada, de couro cosido. Não contando com qualquer outra força além da do homem para impulsionar a maquina, imaginou o aviador deitado, com a face para baixo, e cortando o ar com o bater das asas.

          Leonardo foi o primeiro homem a idealizar uma hélice. No modelo que traçou, a hélice girava horizontalmente, com a fuselagem por baixo, como um helicóptero. A princípio, pensou que o aviador usaria pedais para fazer girar as pás da hélice, mas no modelo de cartão que veio a construir utilizou uma mola fortemente enrolada. Tal como ele o concebeu, o aparelho elevar-se-ia no ar, em linha reta. As suas teorias eram perfeitas mas, como não dispunha de um motor leve, nunca pôde ver realizado o seu projeto.

          Tentou, contudo, um vôo numa espécie de planador. O aparelho foi construído no alto de um edifício, com infinitas precauções e no maior segredo; a tentativa de o lançar, por fim, no ar, possivelmente com o próprio da Vinci pilotando, redundou em fracasso e, segundo parece, Leonardo não voltou a repetir a façanha.

          Desenhou, além disso, casas pré-fabricadas e portáteis, laminadoras, uma maquina de fazer parafusos, uma niveladora, uma máquina de fiar e uma draga. Foi também ele quem primeiro instalou uma agulha magnética num eixo horizontal, dando-nos, assim, a bússola, tal como a conhecemos hoje. Foi o inventor daquilo a que chamamos engrenagem diferencial e de um anemômetro ou indicador da força e velocidade do vento.

          Idealizou um escafandro e um salva-vidas. Concebeu submarinos de grande raio de ação mas destruiu os planos porque, em sua opinião, havia muita maldade nos corações humanos para que se lhes pudesse confiar um segredo de tal natureza sem que «praticassem assassinatos no fundo dos mares»!

          Da Vinci foi o primeiro cientista a concluir que os fósseis eram a marca de animais extintos que viveram quando as rochas em que se encontravam não passavam de sedimentos existentes no fundo do mar. «é que a Terra», disse ele aos homens, «não tem apenas cinco mil anos.» Os seus estudos de exploração geológica convenceram-no de que o rio Amo levara duzentos mil anos a formar as planícies marginais com as suas inundações.

          Um século antes de Galileu e da existência do telescópio, já Leonardo da Vinci concebera a idéia de que a Terra não é o centro do Universo, mas se move em torno do Sol, descrevendo uma órbita elíptica; considerava que a Terra é apenas um planeta, cuja importância no sistema solar não é maior do que a da Lua em comparação com a Terra; que os astros são mundos longínquos, muito maiores do que parecem, e que o Sol é apenas um desses mundos.

          Leonardo da Vinci chegou até a sugerir a teoria atômica da matéria e foi ao ponto de predizer os resultados que tal conhecimento podia trazer ao mundo, ao escrever: «Surgirá do solo algo cujo estrondo aterrador espantará quantos estiverem próximo, matará os homens com o seu sopro e devastará cidades e castelos. Parecerá aos homens que novas forças de destruição surgirão, sobre eles, dos céus e que chamas descerão das alturas.»

          Não causa surpresa que parecessem cansados os olhos que tanto viram e visionaram. A julgar pelo seu auto-retrato, feito à volta de 1510, Leonardo, aos cinqüenta e oito anos, apresentava o aspecto de um ancião venerável e pensativo mas um tanto desiludido. Era como se as muitas vidas que ele tentara viver lhe tivessem consumido a energia física.



Auto- Retrato

         Teve de fugir de Milão, aquando da invasão da cidade pelos Franceses e da expulsão dos Sforza. Refugiou-se em Mântua e, logo a seguir, fugiu para Veneza; passou algum tempo de desventura em Roma, voltou a Florença e, mal pôde fazê-lo sem riscos de maior, regressou a Milão. Durante os últimos anos que passou na cidade, como () Mouro se tivesse descuidado no pagamento do
seu salário, viu-se obrigado, para sobreviver, a aceitar trabalhos de toda a espécie, como engenheiro, e algumas encomendas soltas, como artista.

          Uma das suas incumbências foi o retrato de Lisa Gherardini, mulher de Francesco Giocondo, de Florença. a sua última grande obra, conhecida hoje por Mona Lisa ou a Gioconda. Apesar de ser uma dama distinta e rica, Mona Lisa veste severamente, de negro, e não usa jóias em sinal de luto pelo seu filho de tenra idade, que lhe morrera havia pouco. Tinha vinte e um anos quando Leonardo começou a pintar-lhe o retrato, mas este só foi terminado seis anos depois. Mona Lisa, sorrindo enigmaticamente para alguma visão, parece mais um sonho de da Vinci que tenha tomado forma corpórea do que o retrato de uma mulher real.

A  Mona  Lisa
ou  Gioconda
         É misterioso o fato de o quadro nunca ter sido entregue à cliente e modelo. Da Vinci levou-o consigo, como o mais precioso dos seus bens, quando aceitou o convite do Rei Francisco I de França para residir naquele país. Mais tarde, o Rei comprou-lhe o quadro, por doze mil francos, e colocou-o no Louvre. Leonardo gozou, na sua época, de extrema popularidade sem que fosse tido, contudo, em tão alta consideração como aquela de que hoje desfruta. O profundo respeito que atualmente devotamos aos seus conhecimentos científicos não se lhe conhece paralelo no seu tempo. Como artista, ele teve, sem dúvida, enorme reputação. Não lhe faltaram, no entanto, rivais; aliás, ele vivia nos tempos de Boticellí, Rafael e Miguel Ângelo. Mas o reconhecimento dos florentinos, do século XV, amantes da arte, seguia-o por toda a parte; quando se exibia algum dos seus esboços, a multidão apinhava-se para o ver, as Cidades-Estados de então e os senhores de grandes riquezas disputavam-no; os reis pediam-lhe. apenas, que adornasse a corte com a graça da sua presença.

          Os últimos anos da vida de da Vinci passou-os tranqüilamente, perto de Amboise, no centro da França. As pessoas que o visitavam e fingiam não notar as suas mãos paralisadas, achavam o seu espírito tão brilhante como nunca, absorvido agora num novo plano para um canal com fortes comportas, tendo miríades de sugestões nos seus manuscritos. Nunca a sua conversação havia sido mais versátil, a sua presença mais imponente nem o seu sorriso mais compreensivo.

          Talvez a própria morte tivesse também esse sorriso essa luz de mistério e de sabedoria que só da Vinci soube captar quando veio ao seu encontro, a 2 de Maio de 1519.

 
 
 
 
 
 

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