1596  -  1650   d.C.
 
 

Biografia

Hendrik  Willem  Van  Loon



 
 
 
 

         " Eis aqui o resumo da vida de René Descartes, resumo que escrevi para que Fritz refrescasse sua memória.

          René nasceu em 1596 numa aldeota da Touraine. Seu avô fôra médico e casara-se com a filha de um médico, O jovem René, por conseguinte, herdou seu amor à ciência. Mas o pai, Joaquim Descartes, preferira a carreira das leis e tinha (de acordo com uma velha tradição francesa) casado com a filha de um outro alto magistrado de lei. Após a morte da primeira esposa, Descartes pai casara-se novamente e mudara-se para a Bretanha e foi aí que René passou grande parte de sua mocidade.

          Enquanto isso, o pai obtivera um cargo que, automaticamente, e fazia membro da pequena nobreza. Era um hábito invariável na França dos tempos da monarquia, mas significava muito para o jovem René. Nunca esqueceu o que devia a seu título. Jamais alguém viveu procurando, com toda diligência e honestidade, fazer com que seus semelhantes conhecessem a verdade, mas nada havia de pessoal em tudo isso. Descartes era como certos doutores que conheço, que passam a vida em pesquisas e que, não raro, fazem descoberta do maior benefício para a humanidade. Mas nada os enraivece tanto quanto verem seus nomes ligados aos dos que desempenham o papel de bons samaritanos para com a raça humana. Não é a raça humana o que os interessa. E’ o comportamento de uma certa espécie de micróbio que os exaspera, e empenham-se em separá-lo e destrui-lo e o fato da humanidade lucrar com seus trabalhos é assunto que, absolutamente, não os interessa.

          E essa atitude da parte deles não é, de modo algum, uma pose. São perfeitamente sinceros em sua atitude de indiferença ante todas as emoções humanas e é essa qualidade que, talvez, os tenha tornado pesquisadores de tanto mérito. Não seriam tolerados mais do que cinco minutos como enfermeiros, mas num laboratório são magníficos. René Descartes pertencia antes àquele tipo, com exceção de ser muito mais religioso do que são os cientistas em geral. Quanto ao resto, mostrava a mesma indiferença para com seus semelhantes. Preferia prosseguir sua jornada só. Era pouco sociável, ou talvez seja melhor dizer que absolutamente não gostava da convivência alheia. Durante sua permanência de mais de vinte anos nos Países Baixos, cuidadosamente evitou aprender holandês a fim de não ser, por acaso, tentado a desperdiçar seu tempo valioso falando de uma e outra coisa com vizinhos que poderiam convidá-lo para fumar um amigável cachimbo juntos. Essa má vontade de aprender a língua de seu país de adoção poderá parecer uma excentricidade; mas foi o que permitiu a Descartes manter a reclusão social, que lhe foi tão preciosa para completar a tarefa que se impusera quando, após ter terminado seus "Wanderjahre" como estudante e como soldado, sentindo-se pronto ara atacar o enigma da existência.

          Esses "Wanderjahre", antes de tudo, o levaram de sua terra natal à Holanda. Aí a luta pela liberdade se converteu, gradualmente, num jogo de xadrez militar. Durante metade do ano ambos os partidos ficaram em seus quartéis de inverno, mas, assim que o tempo aqueceu mais, permitindo que se vivesse fora de casa, foram logo pôr cerco às cidades inimigas. Durante o século XVII um tal assalto era raramente considerado como uma violência, Por que matar o inimigo e correr o risco de ser morto quando se pode impor a vontade sobre eles (último objetivo de toda estratégia racional) por meios muito menos perigosos? Porque quando, graças a um complicado "plano de ataque", finalmente se consegue levá-lo a um ponto em que se lhe pode dizer: "Amanhã, meu nobre adversário, se eu fizer saltar minhas minas, perderá três contra-escarpas, cinco banquetas, quatro lunetas, nove redutos e dois bastiões enquanto que, na melhor, poderá apenas demolir-me duas milhas de trincheiras". O nobre adversário se for homem de senso, pegará um lápis e um papel e cuidadosamente fará os cálculos e se em conseqüência destes chegar à conclusão de que o outro tem razão, apresentar-lhe-á sua espada dizendo: "Monsieur ganhou e eu perdi, e agora vamos tomar um drink juntos e estabelecemos os termos de — atendimento honroso". Não é preciso dizer que para combater assim é preciso que seja um engenheiro de primeira. um matemático de alta qualidade. Por uma sorte incomparável os dois filhos de Guilherme o Taciturno, que lhe sucederam como lideres da recém-fundada República Holandesa, eram exímios em resolver tais enigmas, e uma verdade cedo se tornou conhecida em toda a Europa. Dos lugares mais distantes, os jovens ambiciosos, que queriam tornar-se militares profissionais, começaram a procurar a Holanda a fim de se especializarem com Esses famosos professores de estratégia.

          Em 1618, René Descartes chegou a Breda e alistou-se como um dos alunos de Maurício de Nassau, que estava então em Brabante preparando-se para campanhas futuras no sul da Holanda. Que tempos curiosos aqueles! A despeito de — acenadas guerras religiosas, a Europa ainda gozava aquela "unidade de civilização", que nascera das concepções medievais acerca de um superimpério político e religioso. Um outro século e meio devia escoar-se antes que uma noção exagerada de nacionalismo dividisse os países do continente naquelas pequenas nações hostis, cada uma das quais tentava desenvolver uma civilização e uma cultura próprias que se apresentavam em oposição à civilização e à cultura dos vizinhos. Mas, quando Descartes nasceu, pouca diferença fazia ter-se tido Estocolmo ou Nápoles, Viena ou Madrid, Londres ou Amsterdam como berço. Não somente alguém era sueco ou italiano, espanhol, austríaco ou holandês, mas "ïpso facto", era também o membro de uma espécie de clube supernacional, para o qual bastava a qualificação de ter nascido de pais honrados, de ter tido uma educação razoavelmente sólida, de falar um pouco de latim, o bastante para entender-se com os demais membros, de ter suficiente respeito pelos  próprios hábitos, costumes e preconceitos para poder deixar que os outros gozassem os mesmos privilégios sem tentar reformá-los.

          Isso, naturalmente era um entendimento bem pouco democrático, existiu por multo tempo e era uma parte tão importante da ordem de coisas existentes, que ninguém se sentia ofendido nem achava ser preciso um outro sistema que teria aberto as portas do clube a todos.

          Permita-me que lhe apresente René Descartes. Nasceu na crença católica dos franceses mas prestou serviços sob as ordena de um príncipe protestante alemão que era o chefe do exército holandês. Mal chegou ao quartel-general, viu-se logo como membro de uma feliz companhia internacional de estudantes militares, que se tinham reunido, procedentes de todas as partes da Europa, para estudarem a melhor estratégia e com o melhor de todos os professores. A fim de espantar os tédios do serviço de guarnição, esses jovens se metiam em provas e concursos de matemática, oferecendo prêmios às melhores soluções para um dado problema.
 

          Certo dia, o jovem Descartes, tentando decifrar um problema que fôra colado na porta de urna igreja, mas que, por acaso, tinha sido escrito em holandês, pediu a um estranho que o traduzisse para o francês ou o latim, o outro aquiesceu, porque também era um matemático e duvidava muito que o jovem pudesse resolver aquele enigma que parecia estar acima da competência dos melhores cérebros do exército. No dia seguinte cedo, Descartes trouxe-lhe a solução. Naturalmente, os dois se torraram amigos e o cadete francês foi para a cidade de Dordreeht, onde passaria algum tempo com seu novo amigo holandês, que era o diretor da escola de línguas clássicas naquela cidade e um matemático de reputação.

          Comparando os métodos, então usados na guerra, com os de nossos dias, podemos certamente aprender uma ou duas coisas com esses homens do século XVII.

          Partindo dos Países Baixos, Descartes dirigiu-se á Alemanha onde devia estar presente nas operações militares que foram o prelúdio da grande Guerra dos Trinta Anos. Depois de ter visitado a Áustria e a Boêmia, atravessou os Alpes e foi até a Itália. Tivera unia experiência estranha e "misteriosa" — uma espécie de visão — e sentia-se no dever de empreender uma peregrinação á aldeia de Loreto e lá render graças à Virgem Maria pela divina revelação que lhe fôra feita no vigésimo-terceiro ano de sua existência, enquanto estudava matemática na cidade de Uln no sul da Alemanha.

          O que lhe aconteceu na antiga cidade do Danúbio lança uma luz bem interessante sobre a estranha mistura de intelectualismo e devoção religiosa, que era tão típica daquela época: tinha-se então a cabeça cheia de fórmulas matemáticas dignas do século XX, mas os pés ainda enraizavam firmemente no solo de uma fé quase medieval, em geral eram mundanos a um ponto que nos faz tremer hoje em dia, e contudo podiam, ao mesmo tempo, perder-se em meditações divinas, que são igualmente incompreensíveis para o homem moderno.

          Lembremos que Descartes, que queria ser conhecido como o expoente da razão — o realizador do ideal de uma "clara et distincta perceptio rerum" (uma clara e distinta percepção de todas as coisas) — o homem que desejava reduzir todo o segredo da criação a algumas umas fórmulas matemáticas — lembremos que esse mesmo campeão corajoso e irreprimível da liberdade intelectual a era a capaz de engolir a lenda de Loreto, com anzol linha e tudo, e não via incongruência entre sua teoria sobre coordenadas e curvas e crença firme num milagre que desafiava completamente a lei da gravidade porque fôra para Loreto, pequena aldeia no Adriático a poucas milhas a leste de Ancona, porque a casa da Virgem Maria, originalmente situada em Nazaré, tinha sido transportada no fim do século XIII, quando se receou que os sarracenos pudessem conquistar Nazaré e destruir sua mui sagrada relíquia representada pela casa da Virgem Maria na época da Anunciação. Alguns anjos tinham-na, ousadamente, erguido e levado a salvo da Palestina para a Itália — não podia haver dúvidas a respeito. A fim de certificar-se de que era o edifício original, e não outro que fôra trazido para Loreto, o governador da Dalmácia mandara mensageiros a Nazaré para observarem se a casa, que estava anteriormente lá, ainda permanecia no mesmo lugar. Foram e ao voltarem declararam que ela desaparecera. Depois disso, quem ousava duvidar da autenticidade do milagre? Certamente que não seria René Descartes, o famoso matemático, posto que pudesse pôr em prática sua habilidade e verificar que seriam precisos anjos de força fora do comum para carregar tanta alvenaria (a casa fôra construída com pedras sólidas, de 9,24 metros de comprimento por 4,125 de largura e 4,455de altura) em toda a distância que separava a Palestina da Itália, e tudo isso apenas num par de horas.

          Há pouco falei em Ulm. Descartes estudou ali juntamente com um amigo matemático que também era um adepto entusiástico da Rosa-Cruz. Pode ser que tenha sido essa amizade com um homem que se perdia profundamente nas contemplações ocultas da fé Rosicruciana que fez com que fosse vitima de um ataque muito sério de melancolia. Ou talvez tenha sido a triste existência nessa antiga fortaleza sob o Danúbio. Ou ainda, ele podia sentir-se transtornado pela certeza de que estava a ponto de fazer uma descoberta que iria transformar a base de toda ciência. Suspeitava que os métodos que estabelecera para o estudo da geometria analítica, podiam também ser aplicados a todos os demais ramos da matemática, e a matemática para ele significava o começo e o fim de toda a criação, Mais um pouco de luz sobre o assunto e ele se ergueria como o fundador de um novo mundo intelectual. Mas a luz por que clamava veio sob a forma de três sonhos, que nada tinham que ver com a ciência.

          Antes de tudo, Descartes dirigiu-se a Franeker, estava coxeando, quando uma tempestade desencadeou-se e foi obrigado a refugiar-se numa igreja . No sonho n.0 2, que era mais ou menos a continuação do primeiro, ouviu terríveis ribombos do trovão, enquanto seu próprio corpo soltava fagulhas brilhantes. No sonho n.0 3, ele abria, por acaso, um volume de Decimus Magnus Ausonius, autor de uma viagem idílica e encantadora pelo Mosela um pequeno livro que fez por aquele rio o que os poemas musicais de Smetana fizeram pelo Moldava. O primeiro verso que lhe caiu sob os olhos foi o seguinte: "Que caminho seguirei agora na vida?"

          Quando Ausonius escreveu essas palavras, elas podiam não ter nenhuma significação, mas, certamente não são uma referência à sua alma imortal, pois esse poeta romano do século IV era tão pouco cristão que insultou seus contemporâneos convertidos, apresentando-lhes uma ode que ostentava o ultrajante título de "Cupido Crucificado". Provavelmente Descartes não sabia disso, mas mesmo que sou-
besse pouca diferença faria, em vista do estado de ânimo em que se achava quando teve a atenção despertada por aquele verso. Estava já com seus vinte e tantos anos. Até então, embora tivesse sido um estudante perfeito e possuísse conhecimentos sobre vários ramos do saber, ainda não fizera nada que tivesse valor duradouro. A questão que se lhe impunha era — que caminho devia seguir agora?

          Descartes esperava encontrar resposta a essa pergunta em Loreto e a achou. O bem-educado jovem aristocrata francês, que passara seu tempo pensando, vagamente, em seguir urna carreira militar ou em suceder a seu pai como advogado, tornou-se agora o grande cruzado de uma nova filosofia da vida — um sistema de pensamento — onde nada seria deixado ao acaso e onde a criação seria reduzida a poucas fórmulas matemáticas.

          A fim de pôr sua idéia em prática, como verificou claramente, era preciso retirar-se do convívio de seus semelhantes. Idéias que fazem época, raramente nascem em festas ruidosas e no torvelinho da vida social. Elas requerem silêncio e solidão para seu pleno desenvolvimento. Descartes estudou o mapa. Em que lugar se podia encontrar o ambiente mais indicado para uma vida calma de estudos e contemplação durante a primeira metade do século XVII? Pensou na Itália, mas era essencialmente um homem do norte. Detestava as tardes quentes e as noites sufocantes. Teve a certeza de que tal clima o mataria. Só havia uma escolha possível — os Países Baixos, banhados pelo Mar do Norte. E assim, após uma visita de adeus à terra natal, onde pôs seus negócios e em ordem, arranjando as coisas de modo a perceber uma mensalidade pequena mas segura (até os filósofos precisam comer) ele se dirigiu á Holanda. Lá chegou na primavera de 1629 e não deveria abandoná-la novamente senão poucos meses antes de soa morte, em 1650.

          Talvez com a única exceção de Beethoven, poucas pessoas mudaram tanto de residência como René Descartes. No caso desse francês, suas mudanças constantes não eram motivadas por disputas com proprietárias desonestas e com vizinhos inconvenientes. Não era de natureza desconfiada e, em regra, dava-se muito bem com seus semelhantes. Na verdade, como descobriria logo, até nessa terra onde não compreendia uma palavra da língua que falavam, dava-se até demasiadamente bem com todos. Seus bondosos vizinhos insistiam em visitar este estrangeiro tão só e o convidariam a aparecer para tomar um copo de cerveja. Eram, naturalmente, muito amáveis e muito encantadores, mas iriam perturbar-lhe o trabalho e, durante a última metade de sua vida, Descartes estava tão "inebriado pelo desejo de saber" que não tinha tempo a perder com as amenidades comuns da existência diária.

          Antes de tudo, Descartes dirigiu-se a Franeker, cídadezínha da Frisia. Os teimosos calvinistas daquela terra tinham fundado uma universidade própria onde podiam salvaguardar a juventude das heresias liberais que estavam sendo, então, abertamente ensinadas nas universidades de Leiden, Oxford e Utrecht e conservá-la dentro das limites das puras doutrinas calvinistas como eram compreendidas por seus contemporâneos da Frísia. Se aqueles excelentes homens tivessem suspeitado que estavam agasalhando cm seu seio o inventor do Cartesianismo, ficariam tão perturbados como os diretores da Universidade de Tenessee se tivessem descoberto que um certo jovem, chamado Darwin, ensinava ciências naturais aos estudantes do último ano. Descartes, entretanto, guardou suas idéias para si mesmo com tanto cuidado e foi tão reservado para com os colegas a respeito do objeto de seus estudos, que nunca foi molestado, embora passasse o tempo em Franeker terminando sua bem pouco ortodoxa "Regras para Direção do Espírito".

          Tendo terminado esse pequeno volume, Descartes atravessou o Zuiderzé e dirigiu-se a Amsterdam. Não, como teríamos suposto, para encontrar um editor, porque o livro não foi impresso senão meio-século depois de sua morte, mas para perder-se no único ambiente que lhe permitiria uma solidão completa —— uma cidade grande.

          Existe uma carta de Descartes sobre sua nova pátria. Hei de mostrar-lha algum dia. Ele é muito mais lisonjeiro do que um outro francês que, um século ou mais depois, dizia a um holandês: "sua cidade me faz lembrar o antigo Egito — palácios de mármore feitos para vacas". Não há nenhum traço dessa modalidade de espírito francês (que muitas vezes é difícil distinguir da grosseria comum) em nenhuma das cartas de Descartes. Mostra-se sempre grato para com aqueles que lhe ofereceram hospitalidade (virtude que é raramente encontrada nos estrangeiros), pois reconhecia que os holandeses muito tinham de fazer para dar-lhe a paz e a cabana que precisava para escrever seus livros. Eram eles que mantinham um exército na terra e uma frota nos mares para protegê-lo enquanto ele pescava e meditava - combinação da vida contemplativa com a ativa, que o levava à perfeição.
 

          Depois de viver cinco anos em Amsterdam, Descartes deixou súbtamente a capital e foi morar em Deventer, cidade onde Erasmo freqüentou a escola. Foi aí que, parece, misturou a "fisiologia aplicada" com seus estudos matemáticos, pois foi em Deventer que se tornou pai de uma criança a quem devidamente reconheceu, mas que morreu na idade de cinco anos. Mas, mesmo sem esse pequeno contratempo, Descartes teria achado algo para conservá-lo ocupado e interessado, porque 1633 foi um ano memorável a todos os cientistas. Foi o ano em que se deu o famoso incidente de Galileu com a Inquisição. Dezesseis anos antes, já a inquisição tinha julgado necessário aconselhar ao mundo douto que não se deixasse interessar demasiadamente pelos trabalhos daquele polonês altamente suspeito, Nicolau Copérnico, que, cerca de três quartos de século antes, tinha escrito um tratado onde sugeria que o sol, e não a terra, devia ser o centro de nosso universo, afirmativa que, naturalmente estava em flagrante contradição com o Livro da Gênesis. Desde então (Copérnico não ousara publicar sua teoria senão quando soube que estava morrendo) todo o mundo civilizado aceitara a nova teoria, do mesmo modo que qualquer pessoa inteligente dos tempos de Colombo não mais acreditava que a terra fosse plana. Entretanto, uma coisa era estar firmemente convencido da verdade desse fato e coisa bem diferente afirmá-lo em público. E agora Galileu estava em maus lençóis por causa de uma nova e perigosíssima heresia científica. Iriam os seus colegas, matemáticos e astrônomos, apresentar-se e intrepidamente desafiar as autoridades clericais tomando o partido dele?
          Muito poucos o fizeram, e sinto dizer que Descartes não figurava entre eles, embora estivesse numa posição quase ideal para fazer-se o campeão da nova idéia. Financeiramente era independente e enquanto vivesse nos Países Baixos ninguém poderia tocá-lo. Os Estados Gerais eram zelosos de sua autoridade e devemos dizer que nem um só refugiado, que tivesse invocado a hospitalidade desse país, jamais foi entregue ao Papa, ao imperador ou à Inquisição. Tais estrangeiros deviam evitar imiscuir-se na política local. Enquanto observassem essa regra muito simples, estavam a salvo e ninguém o ignorava.
          Mas quando Descartes foi obrigado a fazer uma escolha, resolvendo se tomaria partido por Galileu, que estava agora "sob custódia" (como diríamos hoje em dia) da Inquisição, ou contra ele, absteve-se e cuidou, mais do que nunca, em expressar suas idéias de tal forma que nada do que escrevesse pudesse ser considerado em contradição direta com o primeiro capitulo da Gênesis.

          Isso se nos afigura um ato indigno de um grande homem, mas talvez ele tivesse suas razões. Tinha uma finalidade na vida, finalidade superior a ele mesmo, superior a tudo mais. Pretendia enfeixar tudo o que sabia num só volume que devia ostentar o título modesto de "O Mundo" e que, como arquitetara originalmente, devia aceitar a teoria de Copérnico como fato estabelecido e como a base de todas as futuras teorias astronômicas. O volume, em sua concepção origina], jamais foi terminado. É-nos portanto impossível saber se ele realmente teve a coragem de desafiar a Igreja ou novamente se decidiria por uma espécie de meio-termo. Mas uma coisa é certa: ele pretendia escrever um livro assim e revelar ao mundo sua opinião definitiva sobre todas as questões momentosas da época. E faremos melhor crendo nessa última hipótese.
          Nesse ínterim, começou a queixar-se do velho mal. Havia muita gente perto dele e não podia trabalhar em paz. Mais uma vez arrumou tudo o que era seu e transportou-se para Utrecht, onde um de seus alunos era professor da universidade. Entretanto, lá devia descobrir que, quando se tratava de "caçar hereges" os protestantes eram tão entendidos no assunto quanto os católicos. Não porque tivesse sofrido qualquer interferência direta na sua liberdade pessoal. Não teria importância o amargor com que os padres calvinistas se encolerizassem contra esse estrangeiro e lhe perguntassem o que queria dizer com isto e com aquilo, os magistrados ali estavam para defendê-lo e proteger seus direitos. Contudo, Descartes detestava toda e qualquer luta e calmamente dirigiu-se para Leiden ( a Harvard do século XVII ) onde a atmosfera era notoriamente liberal ou ‘‘libertina" como se costumava dizer então, e onde estava certo de que seria deixado em paz.

          Foi durante esse período de sua vida em Leiden, que decorreu com intermitencias de 1636 a 1641, que publicou a primeira parte do "Discurso sobre Método", que devia ser a base de todas as suas explorações 1 futuras dentro do reino da metafísica.

          Já esteve em Rynsburg ou Endegeest? Eu já. São cidades pequenas perto de Leiden. Parecem-se com todas as outras aldeias da Província da Holanda meridional e poucas pessoas sabem seus nomes embora tenham desempenhado um papel muito importante na história holandesa. Durante a idade Média pertenceram ao mais rico mosteiro da metade norte dos Países Baixos. Esse mosteiro fôra suprimido pela Reforma e as aldeias e territórios, que anteriormente pertenciam ao estabelecimento clerical, tinham sido postos sob controle dos Estados da Província da Holanda. Esses Estados administravam seus recém-adquiridos territórios por meio de uma comissão. mais ou menos como a cidade de Washington é hoje administrada por urna comissão indicada pelo congresso. Essas duas aldeias, por conseguinte, ficavam sob a supervisão direta do governo central em Haia. A medida foi severa para os políticos locais, mas foi um presente de céu para una filósofo em busca de um lugar onde pudesse viver como lhe apetecesse, sem ser obrigado a dar contas de si a uma câmara de vereadores que não tinham a mais leve idéia sobre o que esse douto homem estava fazendo e que nunca tinham ido além do terceiro capítulo do Deuteronômio.
 

          Rynsburg e Endegeest eram, e são, pequenas aldeias, porém, seus nomes serão sempre lembrados em conexão com os de Descartes e Spinoza. Nossos antepassados, não acreditavam muito em democracia, igualdade e fraternidade, mas, no que dizia respeito liberdade, eram inflexíveis. Spinoza e Descartes arrogavam-se o direito de falar, pensar e escrever do modo que bem entendessem.
 

          De acordo com as cartas de Descartes os anos que passou ali no coração da província da Holanda, com o seu céu sempre diferente, seus prados tranqüilos, que convidam à contemplação calma a seus canais, onde se pode pescar e meditar sobre os mistérios da existência, foram os mais felizes de sua vida. Sempre que lhe vinha o desejo de ver seus semelhantes ele podia tomar o bote que levava a Amsterdam, a Leiden, a Haarlem, ou a Haia, passar algumas horas com os amigos, e voltar no mesmo dia. Em caso de correr perigo, devido As suspeitas de algum teólogo de uma próxima, ele podia asilar-se no seu bailiado, sabendo bem que Rynsburg era seu castelo e que Suas Altezas em Haia, nunca o entregariam a seus inimigos, sim  porque, por essa época tais inimigos não somente tinham surgido como também se haviam tornado bem ousados, chegando ao ponto de proceder abertamente contra esse perigoso papista que, embora se dissesse um servo fiel de sua própria Igreja, podia (se eram verdade os boatos que corriam sobre seus escritos) causar maior mal à ordem estabelecida por cada igreja do que uma dúzia de hereges de envergadura daquele abominável Michel Servet, que também atacara a religião sob o disfarce da ciência, embora, naturalmente, em seu caso, a verdade tivesse triunfado e o douto homem tivesse sido queimado vivo por ordem do próprio João Calvino.
 

          Três vezes, durante os vinte anos que passou na Holanda, Descartes visitou sua terra natal. Na primeira vez a viagem relacionou-se com a pequena propriedade que lhe proporcionava a independência de que todo filósofo necessita, porque, como Emerson devia observar pouco depois, "O homem de pensamento não deve cavar fossos". Na última ocasião, foi a Paris para estudar a possibilidade de ser indicado para um cargo na universidade local. Chegou, porém, à capital da França no momento em que os nobres franceses, exasperados por serem drasticamente "centralizados" pelo Cardeal Richelieu e por seu sucessor, cardeal Mazarino, estavam a ponto de desencadear uma guerra civil.
          Como era acima de tudo um homem pacifico a despeito de ser militar, Descartes não esperou que a luta começasse e apressou sua volta para a Holanda. Após essa última aventura começou a dar sinais de uma inquietação crescente. Apesar de terem falhado todos os ataques que foram dirigidos à sua doutrina da dúvida "De omnibus dubitandis" não mais se sentiu perfeitamente à vontade entre seus vizinhos holandeses. E posto que nada fizessem para perturbá-lo em espírito ou fisicamente, julgou que esse capítulo particular de sua vida chegava ao fim. Quando em 1649 recebeu um lisonjeiro convite da Rainha da Suécia para que o ilustre Monsieur Descartes fosse a seu país iniciar Sua Majestade nos princípios da alta matemática, resolveu aceitar.
 

          Não era a primeira vez que lhe pediam para deixar os Países Baixos e transportar-se a Estocolmo, mas, até então, sempre recusara ir, O que se sabia geralmente sobre a filha do grande Gustavo Adolfo não apresentava essa senhora em cores muito róseas. Atribuíam4he um cérebro decididamente masculino e muito brilhante, nus, em muitos outros respeitos, dizia-se que era muito extravagante (Informação exata. H. v. L.). Entretanto, ela era uma rainha de boa fé, e, no meio do século XVII, a proteção de uma cabeça coroada não era coisa de desprezar-se aereamente, e ainda mais tratando-se de um filósofo profissional a quem se atribuíam opiniões muito extraordinárias no campo da religião.

          Em setembro de 1649, René Descartes contemplou pela última vez as costas da Holanda. Após uma viagem tempestuosa num dos navios de linha de Sua Majestade (especialmente mandado para trazer o famoso filósofo), ele chegou à Suécia e dirigiu-se para a residência real. Cedo percebeu que nem tudo corria como pensara. A rainha Cristina não pretendia esconder seu famoso hóspede e Descartes muito ressentiu-se de ser apresentado como um monstro intelectual, em vez de um seríssimo homem de ciência.

          Além dessa desagradável publicidade, havia os terríveis hábitos de Sua Majestade em relação ao horário que observava. Descartes, como Berlioz alguns séculos mais tarde, pertencia àquele tipo de franceses que fazem da cama ao mesmo tempo, escritório, sala de estudos, de jantar e de visitas, e que, por conseguinte, passam a maior parte de seu tempo entre os travesseiros. Muito ao contrário, Sua Majestade, que herdara os hábitos matinais do pai, mandava vir seu filósofo particular às horas mais incríveis, cinco da manhã, para ter o prazer de entreter-se algumas horas antes de sua refeição frugal, às sete, numa conversa sobre matemática. Depois, havia outra peculiaridade ainda mais desastrosa, da grande Cristina. Tinha a mania do ar livre e adorava as temperaturas abaixo de zero. Imagine um francês que já se queixara dos quartos úmidos dos Países Baixos onde, ao menos, podia ter um pequeno fogão de turfa desde es começos de outubro até o fim de março. Tente pensar nessa pobre criatura sendo obrigada a conversar sobre a filosofia cartesiana com uma senhora sueca muito pouco atraente, ás cinco horas (ia de manhã, num quarto gelado, dalgum sombrio palácio de Estocolmo ou Upsala — e além do mais no mês de janeiro!

           É desnecessário dizer-lhe como terminou tudo isso. Um resfriado acompanhado de febre — em seguida uma pneumonia dupla —depois a morte. Após uma enfermidade que durou apenas dez dias, em 11 de fevereiro de 1650, René Descartes morreu. Tinha exatamente cinqüenta e quatro anos de idade."


 

 
 
 


BIBLIOGRAFIA





LOON, HENDRIK - Vidas  Ilustres
Editora Globo S.A. - 1958
Tradução : Marques Rebello.

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