CONFÚCIO
541 - 479 a.C.






          No ano 551 antes de Cristo, na província de Lu, cortada pelo rio Luan, perto da cidade de Lu-lung, na família K'ung nascia um menino, Passou a chamar-se Fu-tzu, o que significa, em chinês, mestre, pois era o desejo dos pais que se tomasse sábio. Mas jamais K'ung Fu-tzu chegou a sê-lo. A pobreza interessava-o muito mais que a sabedoria. Estudá-la, na China de então, era estudar a própria humanidade, e foi assim que K'ung Fu-tzu chegou a compreender a razão e a essência da vida: a virtude e a sabedoria.

          A virtude consistia em amar os seus semelhantes. A sabedoria significava compreendê-los. Mas nem a virtude nem a sabedoria imperavam então na China e foi em vão que K'ung Fu-tzu tentou divulgar estes conceitos, tão desprezados naqueles dias. Viveu frustrado e morreu frustrado, jamais realizando o que se propôs.

          Nunca chegou a supor que o que ensinava aos pobres das cidades e das aldeias se transformaria, muitos anos depois da sua morte em 479 a.C., numa das mais populares doutrinas da Ásia oriental, a ponto de influenciar a cultura e a civilização de centenas de milhões de pessoas.

          Os europeus, ao tomarem contato com os ensinamentos de K'ung Fu tzu, julgaram que se tratava de religião. Chamaram-na; do nome europeizado de K'ung Fu-tzu, Confúcio; de confucionismo. Mas a doutrina jamais chegou a ser religião no sentido ocidental do termo.

          Primeiro, porque não tem Deus: venera os ancestrais, reconhece a superioridade dos sábios ; mas é só.
          Segundo, porque não tem templos: cada lar é o templo onde se honram os antepassados da família (e só muito depois, para maior comodidade, é que se iniciou a construção dos templos locais, mas sem o sentido do lugar destinado à veneração de um ser supremo).
          Terceiro, por que não tem sacerdotes: o chefe da família é automaticamente sacerdote da família.
          E quarto, porque desconhece qualquer dogma ou livro santo: pode um só livro conter toda a sabedoria do mundo? E será possível excluir os sábios que podem surgir no futuro? Decerto, existe céu ; sobrenatural e misteriosa fonte da verdade e da bondade. Mas a sua essência escapa ao homem; que somente pode aproximar-se dela através da educação e do estudo.

          Assim, o estudo ; e não o céu, ou, como diríamos nós: não a religião ; é a autoridade suprema, pois só através do estudo é que o homem é capaz de desvendar, se bem que em parte, a essência da vida. A essência da vida é jen. Sen é uma palavra chinesa, monossilábica, como quase todas elas, e de significado múltiplo. Jen quer dizer: humanidade, bondade, compreensão, amor.

         O conceito do jen emana dos ancestrais, mas muda com o tempo. Nada sendo imutável, nada pode ser dogmático. A renovação dos valores é um dos pontos mais importantes do ensinamento deixado por Confúcio para a posteridade.

          Se o víssemos agora, em pessoa, achar-lhe-íamos o aspecto um tanto cômico, com as narinas largas, olhos oblíquos, com uma protuberância no alto da cabeça, a barba e o bigode caindo em três largas franjas. Vestia uma túnica que lembrava um quimono japonês. Era um homem de elevada estatura e de compleição vigorosa. Caçador incansável, músico inspirado, foi sobretudo um gênio no campo intelectual, Embora o mundo ocidental não tenha ainda alcançado todo o valor da sua perspicaz sabedoria, Confúcio ocupa um lugar destacado em toda a História da Humanidade. Foi o único homem que conseguiu moldar, com a sua influência, o pensamento e os hábitos de uma nação.

          Foi um dos mais notáveis mestres da arte de viver, e exerceu o seu magistério com singeleza insuperável. Não foi santo nem profeta. Não possuía a chave dos segredos do Universo, Embora se diga com freqüência que as suas teorias influíram na religião da China, a verdade é que se preocupou pouco com a religião ou com o conceito da vida eterna. O seu empenho mais ardente era conseguir que o homem agisse moralmente bem. Confúcio reuniu a sua doutrina num preceito, uma norma fundamental de conduta que tem o seu equivalente no Evangelho:

"Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti."

          Por vezes, os ensinamentos de Confúcio revelam-se singularmente análogos aos contidos nas Escrituras. Esta similaridade deu, aliás, matéria para um livro em que se estabelecem as analogias e as diferenças entre uns e outros. Por exemplo, o manda mento cristão: "Não julgues, se não quiseres ser julgado"; equivale à sentença de Confúcio segundo a qual, para julgarmos os outros, devemos servir-nos do nosso foro íntimo como termo de comparação. Não poderíamos ter nós cometido o mesmo pecado? Por outro lado, a contrastar com o preceito cristão de retribuir com o bem a quem nos faz mal, Confúcio sustentava que se devia responder "ao mal com a justiça e ao bem com a bondade."

          Confúcio mostrou, desde criança, grande inclinação para toda a espécie de ritos e cerimonias. Apreciava a música e sabia cantar e tocar alaúde e citara. Na idade madura, quis adestrar-se em tudo o que tivesse relação com a arte de viver; abandonou, então, a sua província natal de Lu e partiu para a capital, a fim de estudar com aplicação as leis da música e da etiqueta.

          Confúcio ganhava a vida como mestre. Não cobrava dos seus alunos uma importância fixa e ensinava gratuitamente os jovens pobres mas dotados. O que chegou até nós da sua doutrina devemo-lo às extensas compilações feitas pelos seus discípulos, sob a forma de máximas soltas e troços de conversa. Infelizmente, não formam um conjunto relacionado com a história da sua vida, como é o caso de Jesus, e de fato torna menos interessante a sua leitura.

          Também lhes falta a eloquência dos Evangelhos cristãos; mas Confúcio desconfiava dela. Em matéria de linguagem, sustentava; o que importa é exprimir a ideia. A sua prosa é, de fato, sempre tão linear e límpida como a destes ditames:

Aonde fores vai com todo o teu coração.

O maior dos defeitos é ter defeitos e não procurar corrigi-los.

Não te suponhas tão grande que os outros te pareçam pequenos.

          A sua inteligência tinha um pendor científico. Ao acentuar a necessidade da maleabilidade de espírito, de substituir o dogma pela investigação dos fatos, de evitar conclusões definitivas, adiantou-se mais de dois mil anos em relação á sua época.
          Foi ele quem primeiro formulou a norma que podemos considerar a regra de ouro da ciência: "Quando ignoramos umacoisa, reconhecer que a ignoramos é sabedoria." Desta forma, repudiava as crenças supersticiosas e a subordinação do pensamento ao desejo. Igual finalidade pretendia ao insistir na importância da sinceridade, não simplesmente no discurso mas também no diálogo íntimo de meditação. Para seguir o que ele chamava "o caminho da verdade", devemos procurar não nos enganarmos a nós mesmos. "O caminho da verdade", dizia, "é largo e fácil de descobrir. O mal está em que os homens não o procuram."

          Não se deve deduzir destas razões que Confúcio aconselhasse a frouxidão moral ou a auto-indulgência. Era um mestre tão rigoroso como exigente. Os seus discípulos deviam ser rápidos na percepção, precisos no juízo, ambiciosos nas aspirações intelectuais e possuidores de conhecimentos amplos que lhes servissem para exercer a autoridade e suficientemente generosos para usarem de demência.

         Também deviam adquirir dignidade, seriedade, firmeza de propósito, lealdade, bondade e atenção reverente aquilo a que se dedicarem.

          Tal como o faria Platão duzentos anos mais tarde, Confúcio traçou as traves-mestras de uma república ideal, que difere considerávelmente da sociedade que, posteriormente, o filósofo grego iria delinear. A república imaginada por Confúcio nasce da nostalgia de um mundo em que os homens viviam como membros de uma única família.

          Tal conceito era utópico, particularmente na China, nação na qual os vínculos familiares eram mais estreitos e exigentes do que em nenhuma outra. Pedir aos Chineses que tratassem todos os homens como seus irmãos era exigir demais. Muito embora o soubesse, Confúcio quis fazer com que o Mundo se encaminhasse para este ideal. E julgou que a única maneira de lhe dar forma seria confiar o desempenho dos principais cargos do governo a homens virtuosos e sábios.

          Tal como Platão, Confúcio lutou corajosamente toda a sua vida para que um dos príncipes feudais lhe confiasse um cargo importante na administração pública. Se bem que vários dos seus discípulos tenham sido chamados para exercer tais funções, não parece que ele houvesse alguma vez chegado
a alcançar posição superior à de um sábio mestre tido em grande estima pelos funcionários públicos.

          Embora Confúcio tenha viajado vários anos pela China acompanhado de um reduzido grupo de discípulos, na esperança de encontrar um monarca que lhe oferecesse a oportunidade de realizar as reformas com que sonhava, alguns traços do seu caracter contrariaram a sua própria ambição.

         Em primeiro lugar, falava com mais franqueza do que convém a um político, A um príncipe violento que pediu conselhos sobre a arte de governar os homens, limitou-se a responder: "Começa por aprender a governar-te a ti mesmo."

          Além disso, Confúcio não acreditava na aristocracia do sangue. Asseverava que "por natureza todos os homens são iguais."Se bem que, naquela época, não se concebesse a democracia tal como hoje é entendida, Confúcio sustentou"; porventura pela primeira vez na História ; que a verdadeira função do governo é velar não só pela prosperidade pública mas também pela felicidade do povo.

          Chamado de "doutrina da essência", o confucionismo não podia deixar de evoluir. E foi o próprio neto do seu criador ; Tzu Ssu (483-402 a.C.) ; que conjugou os princípios do jen com o "valor básico da existência: a harmonia". Só dentro da harmonia- dizia - ; é que pode existir a renovação positiva do homem. Mas, acreditando na bondade inata do homem, a doutrina pare cia desconhecer a existência dos elementos negativos e nocivos da vida.

          Esta parte foi complementada no século II a.C., com a introdução da filosofia In Yang. A vida humana, dizia então o filósofo Tung Chung' shu, desenrola-se, decerto, dentro da harmonia e almejando o jen, mas sempre dentro da1 grande luta cósmica entre a força negativa yin e a força positiva yang.
          É bom seguir yang e aproximar-se do jen, mas nenhum pecado existe ao seguir yin pois ambos fazem parte do Universo.

          E, a partir desta colocação do problema, o confucionismo foi proclamado doutrina oficial. Isso ocorreu em 136 a.C. Foram criadas universidades para formar sábios que seriam a base da sociedade. A doutrina foi, introduzida nas escolas, a fim de que todos pudessem aperfeiçoar-se e atingir o yen Mas, evoluindo, incorporou mais um princípio ; li, a razão; e já no século XVI, após o contato com os europeus, mais um; chi, força; assim passou a justificar todos os atos do homem, mesmo aqueles em que era negado o jen. A evolução do confucionismo foi barrada e fixada num conceito que diz:

"O céu é meu pai, a terra é minha mãe, todos os homens são meus irmãos, todas as coisas são minhas companheiras."

          E só se chega à perfeição quando se consegue unir em si o céu e a terra, os homens e as coisas, e viver a vida em sua plenitude, respeitando a plenitude dos outros, compreendendo que tudo no mundo é ligado com tudo e que tudo o que existe vem a ser a mesma coisa.

          Velho e cansado, pensando que a sua pregação fora inútil, Confúcio retirou-se para a sua terra natal. Aí viveu ainda alguns anos, dedicando-se ao ensino, e morreu convencido de que a sua vida fora um fracasso.

          Os discípulos choraram-no como a um pai. E, como derradeira homenagem, e porque na China era costume os filhos guardarem três anos de luto pelo progenitor, os discípulos empregaram todo este tempo inventariando e anotando as instruções do mestre.

          Estas compilações converteram-se na Bíblia do povo chinês. Mais do que Bíblia, tornou-se o tratado de civilidade, a origem das leis e do procedimento político pelas quais aspirava a guiar-se todo o bom príncipe.

          No século III antes de Cristo, déspotas brutais proscreveram e queimaram os textos de Confúcio e condenaram á morte os seus adeptos. Esta perseguição, porém, em vez de acabar com os discípulos da filosofia de Confúcio, multiplicou o seu número, tal como um temporal que em lugar de apagar as chamas de um incêndio as cativa e propaga. Mais tarde, reinou um Imperador sensato que adotou o confucionismo e lhe deu a aprovação oficial.

          Tantos livros se escreveram acerca da sabedoria de Confúcio que a vida inteira de um homem não seria suficiente para os ler.

          A simplicidade, a pureza, a elevação da arte de viver ensinada e praticada pelo mestre farão que o seu pensamento resplandeça perpetuamente.


 
 

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