A BEIRA INTERIOR 
       Sistema de cidades.       Comentario geográfico.             Por Juan Vicente Santamaría

Na região centro de Portugal, aquela zona mais interior, pegada à fronteira é denominada BEIRA INTERIOR, ou na linguagem mais tradicional "Beira Baixa" por contraposição à Beira Alta, de maior altitude e separada pela "muralha" da Serra da Estrela.

Falando do grave problema do despovoamento, o decrescimo de população que sofrem as zonas interiores, raianas, embora um olhar atento sobre os últimos censos de população de distritos como Guarda, Castelo Branco, Bragança, Viseu, Portalegre seja desolador, é certo que a perda de população dos nucleos rurais do interior é imparável (emigração à Europa ou às cidades do litoral ), mas a Beira Interior tem a vantagem de contar com alguns nucleos urbanos de dimensão meia: é o sistema de cidades conformado por Guarda, Covilhã e Castelo Branco, incluindo num nivel algo inferior ao Fundão. Esta zona, sobre tudo a chamada "Cova da Beira", é um corredor de pasagem norte-sul muito importante, além de ter uma riqueza agrícola e uma tradição industrial de longa data. Estas cidades podem funcionar como um polo de atraçãao regional, com o desenvolvimento da industria ou dos serviços, que ajudem a reter e fixar a populaçao.

Alguns leitores atentos poderam perguntar: muitos galos para um só curral? E evidente que a suma
de esforços precisa-se, mas é inevitavel uma certa rivalidade entre cidades vizinhas e de uma dimensao similar.

De dimensao similar ... mas com potencialidades distintas: Castelo Branco souve criar um tecido empresarial muito dinámico e os limites da sua influencia estao a crescer. Covilha, sem esquecer o sector industrial, remontou a crise dos lanificios erguendo-se como o grande centro de serviços da subregiao da Cova da Beira ( UBI, Hospital da Beira Interior), entanto que a Guarda, continuando a tradiçao industrial das ultimas décadas, terá as maiores potencialidades para um futuro. Sim, hoje é básico uma boa infraestrutura de comunicaçao ( rodoviaria, ferroviaria, redes telemáticas, suministro de energía electrica, de gaz natural para as industrias ). Castelo Branco acordou nos anos 90 com a possibilidade de ter uma estaçao no comboio de Alta Velocidade Lisboa – Madrid, mas só foi um sonho.
Mais realista é a próxima Autoestrada da Beira Inteior (2003), muito importante e que comunicará a zona com Lisboa com maior rapidez. Ora, nesta altura ja podemos dizer que a Guarda posui uma localizaçao excepcional: a única estrada importante de direçao Leste – Oeste do centro do pais passa por Guarda: a IP-5 (Guarda – Viseu – Aveiro). Certamente que é a unica; poden consultar uma carta de estradas: a rota Covilha – Coimbra é simplesmente uma quimera, e mesmo a comunicaçao Castelo Branco – Coimbra é muito deficiente.

     
       
                As principais estradas da Beira Interior

Nao só isto, senao que a IP-5 a partir da Guarda e a fronteira (Vilar Formoso) comunica com a rota mais importante de tránsito entre Portugal e França e o resto de Europa: a N-620 espanhola direçao Salamanca – Valladolid – Burgos – Vitoria – Fronteira francesa. Todo o tráfego por estrada entre Europa e Portugal deverá pasar por Guarda, de onde derivará para Lisboa (Autoestrada da Beira Interior) ou para Porto ou Centro litoral. Por tanto a Guarda é zona de localizaçao industrial, de logística dos transportes (Plataforma logística) e nao espanta haver conhecido nos dados fornecidos pelo último censo (2001) que a cidade aumentou em quase 5.000 novos residentes, algo invulgar nas zonas do interior. Por outro lado, entre este sistema de cidades e a fronteira extende-se cada vez mais um verdadeiro vazio demográfico. As aldeias perdem populaçao sem remedio. Alguns dados fornecidos pelo último censo: Sabugal perdeu mais de 2000 residentes nos últimos 10 anos, o concelho de Idanha-a-nova outros 2000, Pinhel quase 1800, Almeida 1600, Penamacor 1500 ... Do outro lado da fronteira acontece o mesmo: é curioso observar um mapa; a estrada N-630 também de direçao norte-sul (Gijón – Sevilla) pasa pelas unicas cidades importantes antes da fronteira: Zamora, Salamanca, Béjar, Plasencia, Cáceres. De aquí para oeste, para a fronteira, kilómetros e kilómetros com as mesmas aldeias despovoadas e ausencia de cidades de alguma importancia (Ciudad Rodrigo, perto de Vilar Formoso, é o unico núcleo de alguma importancia, embora seja de pequena dimensao).

Ora, esta perda de populaçao nas zonas rurais traz algumas vantagens. Os poucos que ficam nas aldeias, vivem melhor, podem alugar mais terras, beneficiar de subsídios agrícolas da U.E., fondos estruturais comunitarios, etc.

Em suma, as cidades do interior funcionam como mercado para vastas zonas rurais. Aquí entra em jogo a competencia e a rivalidade para atrair e inclusive fixar populaçao. No século XXI terá muita importancia o "marketing" das cidades. É preciso potenciar a imagem das cidades, da sua qualidade ambiental, infraestruturas, ensino superior, ocio e lazer, comercio, etc., para atrair potenciais "clientes", seja quem só quer fazer compras numa loja especializada, ir ao cinema, fazer turismo, ou um investidor que quer implantar uma industria.

Com o mercado único e a moeda unica europeia (euro) no 2002, ja nao há fronteiras. Vou contar algo que vai deliciar os leitores guardenses. Publicado num jornal de Salamanca ("La Gaceta") que por ventura recebe-se na hemeroteca da minha cidade. Era uma entrevista a um velho camponés de uma aldeia raiana da provincia de Salamanca. Toda uma vida passada no campo, com o gado, e nem sequer esteve nunca na capital da provincia, Salamanca. Entao o jornalista pregunta-lhe:
-" E vocé nao se arrependeu de nao ter visto mundo, de nao visitar uma grande cidade?" Olha – respondeu- eu ja visitei uma grande cidade ....." - Conte lá como foi. – " Quando eu era jovem, um dia foi de bicicleta até Fuentes de Oñoro, deixei-a na estaçao e apanhei um comboio ... até Guarda. A visitei todo o día, e pela noite voltei a minha aldeia". Nao é extraordinario? Se calhar para ele Guarda era como ter visitado Nova Iorque. Imaginem a propaganda entre os vizinhos da sua aldeia _" ja visitei uma cidade : Guarda".

Um dos aspectos do marketing das cidades é a presença na Internet. Neste campo a Beira Interior está acima da media: Instituiçoes públicas e privadas ( 0 "site" da C.M. de Castelo Branco é excelente, a rede promovida pela UBI, etc) a Guarda com tres semanarios on-line (O Interior, Nova Guarda e Terras da Beira) em funcionamento desde há varios anos, frente a um só de Castelo Branco (Reconquista, on-line desde há poucos meses) e um semanario da UBI (Urbi et Orbi). Para quando o Noticias da Covilha ou Jornal de Fundao on-line? Sem esquecer o trabalho da empresa guardense Dom Digital.

Uma última referencia ao desporto: o Futebol. Hoje em dia, ter uma equipa na 1ª Liga constitui um factor de publicidade e de presença nos mass media muito importante para uma cidade. Infelizmente
a situaçao nao é tao boa aquí; com a Desportiva Guarda desaparecida no verao de 2001, o Benfica Castelo Branco e o Sp. Covilha transitam pela 2ª B a procura de recuperar o esplendor que, nomeadamente o Sp. Covilha, atingira há muitos anos.

Nada mais, se teve a paciencia de ler este comentario geográfico até o final e gostou, entao amigo leitor, nao darei por mau empregado o tempo que levei a escrever. Obrigado pela sua visita.

TEXTO: Juan Vicente Santamaría. 2001

                                                                
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