CHAVES: A SÉRIE

Passa desenho, estréia novela, lançam megaproduções, acaba o vinil, entra o CD, aparece o celular, chega a Internet, aposenta-se o vídeo cassete, pinta o DVD, troca o presidente, passam os anos, muda o mundo. Mas eles continuam lá, intactos, os mesmos de sempre, mas ao mesmo tempo mais hilariantes do que nunca, quase inéditos a cada cena já vista e revista. Esses são os incríveis personagens criados por Roberto Gómez Bolaños para as suas fantásticas séries humorísticas, campeãs de audiência há mais de três décadas, consagradas em quase todo o mundo. No Brasil, a história da TV nacional se divide em antes e depois de Chaves e Chapolin Colorado.

No Brasil
Quem nunca ouviu falar em "Chaves" está por fora dos acontecimentos marcantes da televisão brasileira pois, além de ser um dos maiores fenômenos televisivos que já foram ao ar no país, este seriado já divertiu quase três gerações de crianças e adolescentes, que cresceram assistindo a essa genial série humorística. E àqueles que pensam que "Chaves" não passa de um sucesso juvenil: saibam que há muitos marmanjos e idosos que não resistem às inúmeras trapalhadas encenadas na Vila mais famosa da América Latina e também se rendem aos vinte minutos mais cômicos do dia.

Embora haja muita gente que critique e não assuma assistir a essa série por puro preconceito banal, "Chaves", mesmo depois de quase vinte ininterruptos anos de transmissão pelo SBT, ainda dá um banho na concorrência que, sinceramente, tem uma programação baixa e por muitas vezes apelativa no horário em que Chespirito e seus companheiros vão ao ar. Pense bem, analise o "Vídeo Show", cuja única função é promover a Globo mais ainda, geralmente às custas das obscenidades artísticas; e quanto ao Vale a Pena Ver de Novo? Se acompanhar novela uma vez já é irritante, imagine virar "escravo global" e assistí-la duas vezes ou mais. E é claro que não podemos nos esquecer daquela corja de apresentadores dos vulgos programas "femininos" da tarde que disputam por audiência investindo em sensacionalismos famigerados, fofocas, babados do fastuoso meio artístico, casos populares alarmantes etc. "Chaves" é a única opção totalmente apropriada à gigantesca fatia de telespectadores infanto-juvenil desse horário que resta em toda a TV aberta, e que além de nos divertir bastante, faz o tempo passar sem a gente dar conta, ficando sempre no final dos episódios, aquele gostinho de "quero mais".

O sucesso de "Chaves" é tanto que, o programa da Ana Maria Braga - que antes era apresentado às 13:30h na Globo - teve que ser trocado de horário pois perdia constantemento nas medições do Ibope para o programa de Roberto Gómez Bolaños. A pseudo-novela "teen" "Malhação" também sofria da perda de telespectadores quando Chaves ia ao ar às 17:35h. E, além disso, os dezoito anos dessa série no SBT (teve sua estréia tupiniquim no início de 1984) provam que Silvio Santos tem um grande voto de confiança no seriado mexicano mais popular do mundo. Chaves é, sem dúvida uma das caras do SBT, ao lado da Hebe, Gugu Liberato, e do próprio Senor Abravanel. E pensar que tal série surgiu há trinta anos pode parecer brincadeira, mas não é.


História da série
Surgido como mais um quadro do programa "Chespirio" da emissora mexicana TIM, em 1971, o "Chavo del Ocho" - como é chamado o menino pobre na versão de áudio original - logo se tornou bem popular, ao lado de outro hilariante personagem também criado por Roberto G. Bolaños, o "Chapulín Colorado" (vale lembrar que tanto o personagem Chavo quanto o Chapulín eram interpretados por seu criador, Gómez Bolaños). Ambas as apresentações ganhariam, cada uma, sua própria série de meia hora, independentes do programa "Chespirito" (mesmo sendo séries próprias, livres dos antigos quadros exibidos em "Chespirito", tanto "Chavo" quano "Chapulín" exibem, durante algumas de suas temporadas iniciais, alguns quadros inéditos de outros personagens de Roberto G. Bolaños, como o do Dr. Chapatin). Cada série tinha um dia certo da semana a serem apresentadas, mas as duas eram transmitidas dentro do horário nobre mexicano.

 

No início, várias modificações foram sendo feitas dentro do programa e os personagens eram, geralmente, bastante mudados (dizem que há uma fase, bem no começo de Chaves e não exibida no Brasil, que a Dona Florinda ainda não usava os bobs no cabelo e que quase todos os personagens tinham um figurino diferente dos que viriam depois. Exemplos disso são o próprio Chaves, que antes usava um calção de jeans azul - isso pode ser constatado no episódio "Seu Madruga Leiteiro", um dos mais antigos do acervo do SBT - e que posteriormente foi trocado pelos amarelos e beges, e o Seu Madruga que, antes usava camiseta branca e nos primeiros episódios, uma calça social.) até chegarem aos que conhecemos.

Lá pelo ano de 1972 todos os personagens já teriam sua "função" definida no programa e todos os atores já teriam sido escolhidos. Já em 1973, agora na emissora chamada Televisa, "El Chavo del Ocho" espalha-se por quase toda a América Latina, ganhando considerável sucesso de audiência em todos os países onde é exibido. O sucesso atingiria o seu ápice, em quase toda a América Latina, de 1974-75 até 1978 - a maior parte dos episódios exibidos pelo SBT vão de 1973 até 1979. Grandes fatores que contribuíram muito para a queda da audiência do programa foram, respectivamente, a saída de Carlos Villagrán (o Quico) da série para estrelar alguns programas onde seu personagem seria o protagonista, na Venezuela e no Peru, em 1978 (nesses países suas séries foram "Niño de papel", "Federrico", "El circo de monsieur Cachetón" e "Kiko Botones") e, posteriormente, seria Ramón Valdéz (o Seu Madruga) que partiria do elenco, no ano de 1979, quando decidiu se aposentar das séries e da televisão. Ele regressaria à série "Chespirito" sete anos depois, em 1986, após sua participação nas séries de Carlos Villagrán, "¡Ah que Kico!" (série gravada no México) e "Federrico", em 1984, quando voltou à TV. Nessas condições, o seriado nunca mais teria o brilho de outrora, pois dois personagens queridíssimos pelo público haviam saído.

Chespirito e o resto da produção de "Chaves" precisavam a qualquer custo preencher o grande buraco vazio deixado pela saída de Carlos e Ramón, cujas participações no programa tinham sempre imenso destaque (eram mais do que coadjuvantes, eram praticamente outros protagonistas). Para isso aumentaram incrivelmente as participações do Nhonho e da Chiquinha e a Popis passou a ser mais vista nos episódios. Tudo isso para tentar suprir a falta de um Quico. Já para a ausência de um carismático e saudoso Seu Madruga, mudaram até a personalidade da Dona Florinda, que passou a ser mais bondosa (ficou um pouco mais "tonta" também) e bem menos nervosa. Além disso o personagem Jaiminho, o Carteiro foi criado para servir como mais um estepe, e a Dona Neves deixou de ser uma personagem secundária (e temporária) para se tornar o adulto responsável pela Chiquinha (para ela, inclusive, foram transferidos os 14 meses de aluguel atrasado do Seu Madruga, que na trama - exibida no Brasil, pelo menos - não teve uma explicação convincente de sua repentina saída). Mas a maior transformação que o seriado sofreu foi a criação de um restaurante para a Dona Florinda ser proprietária e o Chaves ser um empregado. Nessa época, o Seu Barriga, a Dona Clotilde e o Prof. Girafales aparecem em quase todos os capítulos. Resultado de toda essa paranóica tentativa de manter o povo ligado em o "Chaves": não deu certo. Já era certo desde a saída dos dois integrantes que a falta de um insubstituível Quico bochechudo, mimado, seu inconfundível choro e suas "gentalha! Gentalha!", "mamããããe!" e de um Seu Madruga (que exercia a função de quase pai para o Chaves) malandro e bondoso, com seus "tinha que ser o Chaves, de novo!", "e só não te dou outra porque..." e todas as cenas em que ele pulava em cima do chapéu já eram o bastante para danificar a série.

Em 1980, "Chaves" já estava fraco e as próximas temporadas (até 1983) não são exibidas pelo SBT. Conta-se que em algum desses anos Ramón Valdéz retorna ao elenco para gravar mais alguns episódios, mas não se sabe se são para o "Chaves" ou para o "Chespirito". Em 1983 é decretado o final da série de meia hora, e tanto "El Chavo del Ocho" quanto "El Chapulín Colorado" retornam, novamente, como quadros do programa de uma hora de duração "Chespirito", cujas gravações vão ao ar até o ano de 1994. Mesmo sendo gravados constantemente em "Chespirito", os episódios de "Chaves" já não tinham mais a mesma magia dos anos áureos. Os atores já estavam idosos e por isso não podiam mover-se com a mesma agilidade de antes e Carlos Villagrán nunca mais voltou. Os tristes falecimentos de Ramón Valdéz, em 1988, e Angelines Fernández, em 1994, contribuíram para o agravamento da situação de "Chespirito".

Mas mesmo assim, continuamos amando até hoje todos os personagens dessa magnífica série cômica - sem dúvida a melhor de todos os tempos. E será no coração dos fãs que Chaves e sua turma permanecerão vivos e alegres até o fim.





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