Histórico Completo - Valek

 

       No final do século XVIII, a França de Napoleão Bonaparte impôs à Grã-Bretanha o chamado "Bloqueio Continental", que impedia os britânicos de fazer comércio com os demais países da Europa. No início do século XIX, o czar da Rússia e seus conselheiros perceberam que, sem o comércio com os britânicos, o país quebraria. Portanto, os russos deviam estar preparados para tomar medidas drásticas... e isso significava "peitar" a França, que significava desafiar Napoleão e o exército francês, que por sua vez significava que, em breve, milhares de franceses viriam à Rússia - e não seria pra tomar vodca.

       Obviamente, a Rússia preparou uma rede de espionagem, na tentativa de diminuir a grande diferença entre o poderio militar entre os dois países. As tropas de elite do exército russo começaram a aprender a língua francesa. Enquanto isso, o país se preparava para "receber" os franceses. A estratégia de defesa dos russos se basearia em três fatores: o tempo, a distância, e o que eles chamavam de "General Inverno" - o rigoroso inverno russo. Os franceses certamente não resistiriam a uma guerra longa, longe de casa e enfrentando o clima do leste europeu.

       Por volta de 1810, a Guarda Imperial francesa invadia a Rússia. A infantaria russa se defende como pode. As tropas de elite russas realizam os ataques mais arriscados, fazendo, entretanto, as mais importantes baixas. Numa dessas missões, uma tropa de elite do 12o Regimento de São Petesburgo estava encarregada de localizar e matar um importante comandante francês e sua guarda pessoal, que estavam baseados em Saratov. Dentre os soldados desta tropa, estava o jovem Valek Leshonok, de 18 anos.

       Valek e seus camaradas entraram em Saratov, vindo pelo rio Volga, que banha a cidade. Eles permaneceram escondidos, vigiando cada movimento das tropas francesas. Sua estratégia: como o regimento francês era muito grande, infiltrar-se-iam, usando uniformes do inimigo, esperando passarem despercebidos até chegarem perto o suficiente. Missão quase suicida... A noite chegou; eles fizeram suas últimas preces a Deus e partiram. Ao chegar próximo ao acampamento, no bosque de pinheiros, foram surpreendidos por uma patrulha francesa, que desconfiou deles e descobriu o disfarce. O combate foi rápido, e terrível; quase todos os soldados, de ambos os lados, morreram.

      Quase todos. Valek assistiu a todos os seus companheiros e inimigos cair. No entanto, ele fora ferido seriamente, e morreria em breve sem cuidados médicos. Andou alguns metros por entre os pinheiros e com o esforço, desmaiou. A última coisa que viu foi mais soldados chegando.

       Quando acordou, viu-se deitado numa cama... o mundo ainda balançava... não, ele estava em movimento... uma mulher ao lado... cruz vermelha na cabeça... uma enfermeira. Tornou a desmaiar... desmaiava e acordava várias vezes, estava com muita febre. Semanas mais tarde, concluiu que fora confundido com um soldado francês e mandado de volta para "casa", para a França, dispensado do serviço militar.

       Durante a viagem da Rússia até a França pouco falou - recomendações médicas - mas ouviu muitas coisas. Ouviu algumas notícias de guerra, fofocas de quartel... e percebeu que tinha sido confundido com um tal de Armand Lamarre. Resolveu adotar esse nome até segunda ordem, afinal, um "francês" chamado Valek em Paris não duraria 10 segundos. E ele agradeceu a Deus pelas aulas horríveis de francês que teve em São Petesburgo (imaginem militares russos dando aulas de francês no século XIX- deve ser traumático). Ele detestava essa língua podre, mas ela iria salvar sua vida.

      Chegando em Paris, ficou mais umas semanas no hospital. Enquanto se recuperava, decidiu que iria arrumar uma grana pra voltar pra casa. O único jeito seria trabalhando... Saindo do hospital, ele tentou arrumar um emprego e conseguiu um na construção civil. Passou vários meses trabalhando e levando uma vida muito simples... e pouco a pouco foi se acostumando àquela cidade, àquele país, àquela vida, que na verdade era muito melhor que a vida de fazendeiro ou militar na Rússia, que era mais simples ainda.

       Andando pela cidade, conheceu uma jovem chamada Anne Louise. Uma jovem tímida, recatada, de boa família. Com a permissão dos pais, namoraram durante um tempo, e logo se casaram. Anne Louise era uma "falsa feia" - ficava escondida atrás das largas roupas e da timidez, mas era realmente muito bonita por baixo daquilo tudo. Eles se amavam profundamente, qualquer um que os visse logo percebia, e esse amor fazia com que suportassem as dificuldades da vida simples que levavam.

       O inferno de Armand (Valek) começou quando conheceu Willermina, numa taverna parisiense que ele freqüentava à noite. Mina era uma mulher muito sedutora. Loiraça "belzebu", seios fartos que o corpete empurrava ainda mais pra cima, abusava do preto e do vermelho. E o cheiro dela... um coquetel de feromônios capaz de deixar um homem na beira do abismo da loucura. Assim que ela o viu, o desejou, e decidiu que o teria. Durante semanas, foi se aproximando lentamente dele, como um predador rodeando sua presa - primeiro só marcava presença; depois trocava algumas poucas palavras; depois um leve toque de pele; etc. Ele ia ficando louco, se pegava pensando nela do nada durante o dia; mas logo sacudia a cabeça e pensava em Anna Louise.

        Seus amigos não acreditavam que aquele mulherão dava mole pra ele. Pra piorar, ela era rica, e eles pobres (a galera rica ficava numa parte da taverna mais reservada). Até que uma noite ela resolveu partir pro ataque. Chegou até a mesa deles e lambeu a orelha dele, dizendo um "oi" baixinho no ouvido de arrepiar os cabelos do dedão do pé. Ele estava completamente enfeitiçado. Ela o levou pra cima, nos quartos do andar superior... ela o empurrou, fazendo-o sentar na cama, e já foi colocando o rosto dele nos seios dela. Ele tirou forças não sei de onde e conseguiu se afastar, balbuciando alguma coisa sobre a esposa.

        Mina ficou irada, e seu rosto mudou completamente; mas foi apenas por um segundo. Logo ela se acalmou, e com um sorriso, apenas disse "querido, você é meu... aceite o fato". Ele saiu correndo, chutando a porta, e foi pra casa. Chegando lá, Anna Louise dormia; ele a acordou e a tomou com violência. Só parou quando a chamou de Mina, e se deu conta disso. Anna começou a chorar, e ele saiu novamente de casa, desta vez para arejar a cabeça.

        Ele não conseguiu dormir, e foi direto pro trabalho. Pensou bastante e chegou à conclusão: devia pedir desculpas à Anna e fugir com ela, pra longe, bem longe daquela mulher demoníaca. Ao chegar em casa, à noite, chamou por Anna Louise... e a encontrou morta na cama, ainda com a camisola, e duas marcas no pescoço...

        Armand chorou muito, por muito tempo. Foi andando pela cidade, e parou na Pont Neuf, pensando em muitas coisas, dentre elas se matar ali mesmo. Até que seus pensamentos foram interrompidos pelo familiar perfume enebriante... lá estava ela, Mina, mais gostosa do que nunca. Perturbava-o sentir ao mesmo tempo tristeza pela morte de seu amor e desejo infinito pela loira à sua frente. Porém, ele estava fraco demais para resistir... ele apenas deixou-se levar pela magia da mulher. Logo estavam em outro lugar, não sabia dizer onde, e faziam sexo ardente, febril, literalmente alucinante. Até que uma dor lacinante em seu pescoço o fez despertar... Mina o mordera. Mas já era tarde pra fazer algo, sua vida se esvaía...  e enquanto agonizava, Mina cortou o próprio pulso e o oferecera, dizendo "é a sua única opção, meu querido. Beba ou morrerá. Beba e ficaremos juntos para sempre...".

        Armand, se agarrando ao fio de vida que lhe restava, tomou-lhe o braço e bebeu... e imediatamente sentiu seu corpo inteiro queimando intensamente, numa dor insuportável. Durante alguns dias, a dor ia e voltava... até que a dor deu lugar à fome, tão intensa quanto à dor. De súbito, sentiu uma pulsação forte na sua frente, e seguindo seus instintos, mordeu... e se saciou. Logo tomou consciência da situação. Estava na casa de Mina, e ela estava ali, sentada próxima a ele, segurando uma jovem, da qual ele bebeu o sangue todo.

        Depois que ele se acalmou, Mina explicou com detalhes e paciência, tudo que acontecera a ele, sobre os Vampiros, etc. A partir daí, os dois formaram uma dupla formidável... a princípio, Armand tentou lutar, mas o domínio dela sobre ele era absurdo... e passaram muitas décadas juntos; atacavam cidades francesas, organizando orgias de sangue. Sua fama alcançou distâncias consideráveis. 

        Porém, aquele sentimento dualista o atormentava seriamente. Com Mina, as coisas eram, ao mesmo tempo, dor e prazer. Sempre. Num breve momento de lucidez, ele lembrou da doçura de Anna Louise... quantos anos se passaram? Não sabia mais... já estavam no final do século XX. Quando dividiu seus pensamentos com Mina, brigaram feio... e então ela jogou-lhe na cara o que ele não sabia... ELA a havia matado... embora pareça óbvio agora, ele nunca havia pensado nisso, pois o tempo todo estava dominado pela magia de Mina, o tempo todo com a emoção sobrepujando a razão. De repente, o encanto se quebrou... Armand era dono de sua razão novamente. Numa acirrada briga vampírica, ele matou Mina. E não sentiu remorso.

        Armand saiu do apartamento deles, como se entrasse numa nova (morte-)vida. Que não durou muito... em três dias, quando saía para a Caçada, foi emboscado por caça-vampiros. Na verdade, eles já vinham seguindo ele e Mina... mas Armand adiantou o serviço, pra tristeza deles. Há muito que eles procuravam os dois, e vinham com intenção de fazê-los sofrer bastante. Eles traziam com eles um artefato antigo e poderoso, conhecida como Cruz de Nosferatu. A Ordem da qual pertenciam encontrou essa cruz há muito tempo, e junto com ela, um pergaminho que trazia, em forma de verso, um encantamento que seria capaz de "abrir as portas do inferno" para um vampiro.

        O ritual durava três dias e tinha que ser feito três vezes (total 9 dias). Com a Cruz no peito, Armand gritava durante todo o ritual... satisfeitos, ao final dos nove dias, decidiram dar o "golpe de misericórdia"... amarram Armand numa cruz e deixaram-no ao ar livre, para queimar ao sol da manhã... quando os primeiros raios de sol apareceram no horizonte, Armand começou a tremer de medo... e quando os raios atingiram-no, começou a gritar novamente... mas dessa vez, apenas por um minuto. Logo percebeu que... nada acontecera!

        O que os caça-vampiros não sabiam era que a Cruz de Nosferatu não servia para aquilo... o pergaminho em versos falava em "abrir as portas do inferno", mas eles interpretaram erradamente... Armand gritara de dor durante o ritual, mas não porque estava morrendo, e sim porque estava ficando MAIS FORTE! E mais "evil"... Quanta surpresa ele teve ao descobrir que o sol não tinha mais efeito nocivo sobre ele... rasgou as cordas facilmente e saiu por aí.

        Armand decidiu apagar os traços de sua antiga vida, na qual se tornou fraco e acomodado. A começar por adotar novamente seu antigo nome... Valek... o vampiro que anda sob o sol... Um novo "amanhecer" surgia. Porém, embora se sentisse mais forte que antes, sentia que estava fraco... Mas é claro, os caça-vampiros deram-no o mínimo de sangue para que ele sobrevivesse ao ritual. Bem, agora havia trabalho a ser feito - a Caçada estava para começar. 

        Foi seguindo o rastro dos caça-vampiros. Eles haviam sido descuidados - sentindo-se protegidos pelo amanhecer - portanto não foi difícil segui-los. Ele conseguiu alcançá-los, estavam andando pelo meio da rua, aproveitando o parco movimento, e provavelmente sentindo-se reis. Ele os estudou por um instante. Todos eles estavam armados, usando principalmente armas medievais - bestas, lanças, bastões. Ou seja, não tinham a menor chance... Valek avançou correndo. Os dois primeiros perderam as cabeças num golpe só. O terceiro sacou a besta, mas antes que pudesse apertar o gatilho, perdeu a arma - e o braço direito. Caiu no chão, em choque. O quarto correu, empunhando uma lança curta. Valek se esquiva, e dá-lhe um soco tão forte no peito que seu braço atravessa o corpo do infeliz, saindo pelas costas. O quinto e último foi burro o suficiente para olhar em seus olhos, ficando paralisado de medo; serviu de alimento para o vampiro, que sugou todo o sangue dele, até a última gota.

        Parou por um momento e admirou a cena: cinco corpos no meio da rua quase deserta. O único movimento era de uma testemunha (um garoto de cabelos verdes, piercings na cara e uma camisa do Judas Priest) tentando se esconder dentro de um Ford 75 conversível. Valek andou até o carro, pegou o garoto pela cabeça e o jogou do outro lado da rua. Entrou no carro, deu a partida, deu "play" no CD Player e sorriu demoníacamente ao ouvir Ripper Owens cantando "Jugulator".

        Valek aumentou o volume e partiu.

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