Histórico Completo: Sheridan

Verão de 2073. Hildeban não era mais um lugar seguro para Kenneth Sheridan, sua esposa Gwyndor, sua filha Ava e o recém-nascido John Phillip. Segundo boatos, Victor "Iceman" e seus asseclas estavam a caminho da cidade. Era novamente o momento de pôr o pé na estrada.
Nos últimos anos, Kenneth e sua família se mudaram diversas vezes, fugindo de Mégalos e passando por outras cidades, como Kerthalos e Mehan. Passou-se mais de uma década que o Principado de Araterre declararou sua independência, entretanto, ao que parece, a ira de Simon Menelaus II só fez aumentar. Desde que os primos de Kenneth foram coroados rei e rainha de Araterre, o Imperador de Mégalos ordenou que Victor "Iceman" assassinasse todos os familiares dos traidores, que estivessem radicados no Império. Victor, além de ser conhecido por ser impiedoso e não ter emoções, era um assassino fiel ao Imperador e extremamente determinado, o que significa que ele não descansaria até cumprir seu objetivo.
Sorte ou não, o importante é que agora poderiam viajar. Embora não fosse recomendável viajar com um bebê recém-nascido, com Gwyndor grávida seria bem pior. Em um dia, poderiam partir, de volta para o destino incerto. No dia seguinte, os quatro estavam na estrada, rumo ao sul. Cansados da vida itinerante e desolados com a possibilidade de terem que fugir por toda a vida, Kenneth resolveu que desta vez iriam para onde não os alcançariam: o reino de Araterre. Com certeza, lá seriam bem recebidos por seus familiares e viveriam novamente na realeza, e não na pobreza da vida clandestina dos últimos anos.
O caminho escolhido foi pelas estradas que levavam ao sul do Império. Embora o território estivesse em guerra nesta região, não podiam pegar transporte fluvial para o mar, pois obrigatoriamente deveriam passar pelo maior porto do Império, na capital Mégalos - o que seria extremamente perigoso. Por outro lado, se conseguissem chegar às terras controladas pelo Duque Flavius Alexander, estariam relativamente seguros.
Depois de algumas semanas de viagem, chegaram a Dekamera, conseguindo evitar os campos de batalha. Mais algumas semanas de viagem ininterrupta e chegariam a Zehan ou She´joor, onde poderiam finalmente tomar um navio para Araterre. A viagem transcorreu sem problemas. Ao chegar em Zehan, sem demora Kenneth procurou o capitão do primeiro navio disponível. O navio partiria para Sauvons no dia seguinte, entretanto o preço era alto demais, e ele não tinha como pagar toda a passagem. O próximo navio para Araterre só estaria previso para dali a um mês, e desejava partir logo. Então, deu a famosa "carteirada": disse que era da família real de Araterre, e que ao chegar em Sauvons, o capitão seria generosamente recompensado. Felizmente, o capitão aceitou.
No dia seguinte, embarcaram rumo à Sauvons. Durante à noite, Kenneth e sua filha Ava saíram para tomar um ar e ver o mar prateado pela luz da lua cheia. Gwyndor em breve se juntaria a ele. Entretanto, Kenneth encontra o capitão e mais dois marinheiros, que prontamente sacam suas armas. O capitão os havia traído assim que soube quem eram, e os delatou para Victor "Iceman", que seguia seu rastro desde Hildeban e pagou um bom dinheiro para infiltrar-se na tripulação. Victor esperou que estivessem em alto mar, para que pudessem jogar os corpos para os tubarões, eliminando qualquer possibilidade de investigação. Kenneth reconheceu Victor como um dos "marinheiros", e foi uma de suas últimas visões. Victor matou os dois e os jogou no mar.
Gwyndor estava a caminho e viu a cena. Aterrorizada, correu de volta às cabines, mas sabia que não podia escapar. Seguindo seu instinto materno, bateu em outra cabine, e, encontrando uma mulher, implorou para que entregasse John Phillip à família real arlesiana. Entregou-lhe também um cordão e um broche, suas únicas jóias, e as únicas coisas que a identificavam como membro da família real. Isso deveria garantir que o pequeno John Phillip fosse aceito. Então ela saiu e abandonou seu bebê, encontrando Victor e seus asseclas, que impiedosamente a assassinaram e a jogaram no mar. Entretanto, Victor não sabia sobre o bebê (só procurava Kenneth, sua esposa e filha), e como o capitão não havia prestado atenção nos demais membros, John Phillip escapou, rumo à Sauvons.
John Phillip chegou ao seu destino. O rei Arnoud ficou sabendo do brutal assassinato de seus primos, e o aceitou como filho adotivo. O próprio Arnold acabara de ter um filho da mesma idade, Michel, seu primogênito. Os dois cresceríam juntos, como irmãos. John Phillip passou então a ser chamado de Jean Phillipe de Sauvons, e a ser tratado como um príncipe, embora todos soubessem de sua origem, e que ele não herdaria o trono (e sim Michel e seus descendentes). Os dois, quando infantes, eram agitados, assim como qualquer criança; contudo, gozando do status de "príncipes", os dois aproveitavam para aprontar as maiores brincadeiras pra cima dos criados e demais súditos e escapar ilesos disto.
Onde estiverem, aposto que Kenneth e Gwyndor estavam felizes, pois seu filho teria uma vida feliz, com a melhor educação que poderia ter, e tudo que Ava não teve devido à vida itinerante. Michel e Jean Phillipe eram tutorados pelos maiores cientistas e filósofos do reino. Os dois se davam muito bem, faziam tudo juntos, exceto pelo treinamento marcial: Michel, por ser herdeiro ao trono, devia saber no mínimo brandir uma espada para comandar seus exércitos. Jean Phillipe não partilhava da obrigação, e preferia estudar em vez do treinamento militar. Aos 9 anos, Jean Phillipe conheceu uma pessoa fascinante que mudaria sua vida: o mago Remil. Remil tinha seus aposentos na torre do castelo, onde mantinha seus livros de magia e estudava. Jean Phillipe pediu permissão ao rei para estudar magia com Remil, e foi atendido. Jean Phillipe então tornou-se seu aprendiz. Não é preciso dizer que as brincadeiras que aprontavam tornaram-se cada vez mais complexas (e perigosas).
À princípio, como estudo geral em magia, Jean Phillipe começou a aprender as magias básicas de cada escola; porém, logo em seguida, começou a se interessar mais pelas magias da Escola do Fogo. Era deveras interessante como o homem podia dominar os segredos dos elementos, e o fogo era definitivamente o mais fascinante deles - um elemento ao mesmo tempo perigoso e purificador, não encontrado em abundância como os demais, e sim apenas nas condições mais extremas. Jean Phillipe "devorava" os livros desta Escola, e Remil ficava muito satisfeito com isso. Não demorou muito para Jean Phillipe adquirir a fama de aprendiz com grande potencial.
Com a chegada da adolescência, as coisas mudaram... as brincadeiras pararam, naturalmente, e se interessaram por outras coisas, especialmente aquilo que é a causa principal, se não for a única, do fim da amizade de dois irmãos: mulheres. Os dois puseram-se a caçar as meninas, a princípio competindo para ver quem era o melhor. Nenhum dos dois era especialmente bonito, mas os dois desfrutavam de seu status de realeza. Até que um belo dia, aos 17 anos, Jean Phillipe apaixonou-se perdidamente por uma belíssima jovem, chamada Amy. Qual a surpresa, quando ao contar para Michel, descobriu que ele também havia se apaixonado. Vamos ser sinceros, não era culpa deles, afinal a donzela acalmaria o mais perverso dos dragões. Os dois então engajaram-se numa disputa (amigável) pelo coração da donzela.
Cada minuto que passavam ao lado dela, mais perdidos encontravam-se em suas longas madeixas e belos olhos claros. A moça também adorava a companhia dos dois, e divertia-se até certo ponto pela disputa (qual mulher não gosta). Mas chegou um momento no qual o coração da donzela escolheu seu amado, e o escolhido fora Jean Phillipe. Numa tarde da primavera, os dois passeavam pelo campo, observando as belas flores que surgem nesta época. Michel os vira, e vira especialmente a forma com que a moça se postava frente a Jean Phillipe. Se ela ainda o tratasse como uma diversão, ele ainda aceitaria, pois tinha certeza que poderia ganhá-la; contudo, ele vira a paixão em seu olhar, no rubor de seu rosto e na maneira com que quase saltitava ao andar. Michel não suportava a idéia de que ela escolhera seu irmão Jean Phillipe. Então arquitetou seu plano.
Aos 17 anos, já havia uma certa pressão para que Michel casasse - ou pelo menos escolhesse sua noiva. Ele nunca dera atenção a isso antes, pois queria apenas se divertir, mas finalmente ele havia encontrado sua noiva perfeita. Era ela, Amy, filha do Duque de Thyssaud, uma nobre, e um casamento politicamente perfeito. Michel falou com o rei Arnaud e este consentiu. Estava decidido. Com o casamento arranjado, ninguém poderia afastá-lo de sua amada. Nem mesmo Jean Phillipe.
A notícia do noivado espalhou-se por todo o reino, e a cada dia que passava, a raiva de Jean Phillipe aumentava. Embora nada pudesse fazer contra um casamento arranjado, Jean Phillipe ainda mantinha as esperanças. Entretanto, sua raiva só aumentava, e isso refletia em seus afazeres cotidianos, como no estudo da magia. Remil, seu mestre, tentou dissipar seus sentimentos: "Jean Phillipe, elimine a raiva de seu coração! A raiva é inimiga da razão, e é a porta para o Caminho Escuro" (dejà vu). "O que entendes de amor, velho ignóbil?" retrucava Jean Phillipe. Quanto mais se aproximava do casamento, mais distante ficava Jean Phillipe, mais a raiva tomava conta de sua alma.
Na noite do casamento, Jean Phillipe quis sair da capital, para não presenciar o fim de suas esperanças. Mas como podia ficar longe do amor de sua vida? Furtivamente, visitou sua amada Amy em seus aposentos, onde se preparava para o casório. Amy dispensou as criadas, e beijou ternamente seu amado. A paixão tomou os dois de forma avassaladora, e então consumaram o mais sublime dos atos de amor. Ouviu-se então uma batida à porta, eram as criadas e a Duquesa de Thyssaud, Amy precisava terminar de se arrumar ou atrasaria a cerimônia. Jean Phillipe implorou que fugissem, mas Amy não teve a coragem. Jean Phillipe então saiu sorrateiramente pela janela, para evitar que sua amada fosse exposta como uma mulher desonrada. Acompanhando a cerimônia à distância, apenas pelo som, Jean Phillipe sentiu esvair de si aquilo que o mantinha são, aquilo que evitava que as trevas tomassem de vez a sua alma.
No dia seguinte, Jean Phillipe estava decidido a abandonar a capital, quem sabe o país, quando foi abordado por um estranho. Ele se apresentou como Drumsfar, e disse que procurava um pupilo, e que ele seria perfeito. Drumsfar disse-lhe como havia um vasto mundo mágico que Remil não poderia ensinar-lhe, e que estava disposto a abrir-lhe os olhos. Drumsfar, que era um Arcano Vermelho, já vinha observando Jean Phillipe secretamente há muito tempo, e sabia de seu potencial e sua capacidade. Drumsfar então mostra sua capacidade mágica para Jean Phillipe, mostrando algumas magias básicas de Necromancia, cativando seu espectador. Jean Phillipe aceita ser seu discípulo, e se prepara para partir; entretanto, Drumsfar o dissuade, e o convence a ficar. Com um discípulo na Corte, Drumsfar e os Arcanos Vermelhos tinham uma boa fonte interna de informações. Depois de algumas semanas, recebe-se a notícia de que a princesa está grávida, e exatos nove meses depois do casamento ela dá à luz à uma vigorosa menina, Dominique.

Depois de algum tempo, Jean Phillipe acaba rompendo com Remil, e se isola cada vez mais. As pessoas começam a reparar no seu comportamento estranho, e alguns boatos começam a surgir. Após alguns anos, Jean Phillipe prova o seu valor para seu mestre, e então é "promovido" - torna-se um verdadeiro Aprendiz, recebe seu robe azul e uma chave mágica, que dá acesso a uma das maiores maravilhas de toda Ytarria: a Grande Biblioteca. Neste momento, Jean Phillipe conhece um outro aprendiz de seu mestre: um mago chamado Clemente. E passa a conhecer mais profundamente os segredos da organização dos Arcanos Vermelhos, bem como seu verdadeiro propósito: acumular poder.
Com o passar do tempo, Jean Phillipe aprofunda-se nas Artes Necromânticas, encantado por elas assim como se encantou pelas magias de Fogo: era fascinante como, através da magia, o mago poderia transgredir a barreira entre o mundo físico e o espiritual, comunicando-se com os espíritos e seres extra-dimensionais, e aprendendo a controlá-los para um objetivo maior. Jean Phillipe ainda continuava a ver a princesa Amy eventualmente, nas cerimônias sociais da família real, e foi no décimo-segundo aniversário da princesa Dominique que a então Rainha Amy confidenciou a Jean Phillipe um segredo: Dominique é sua filha, e não do príncipe Michel (exatos nove meses depois do casamento, tá achando o quê). Este segredo Jean Phillipe carrega até hoje, e carregará para o túmulo se for preciso, visto que causaria grande desonra para a Rainha se isto fosse revelado.
E foi no dia da Grande Feira de Sauvons, no ano de 2104, que sua vida novamente foi revirada. Jean Phillipe estava nos arredores do castelo quando viu o ataque à cidade, perpetrado por diversas criaturas mágicas. Qual a sua surpresa ao ver os Arcanos Vermelhos por trás disso. Apenas neste momento, Jean Phillipe viu até que ponto os Arcanos Vermelhos iriam para conseguir seus objetivos, e viu que estava errado. Suas ações tinham sido guiadas pelo ódio que lhe tomou conta, e agora seus entes queridos, que lhe tomaram como um filho quando ficara órfão, estavam a perigo, ameaçados por seus próprios companheiros. E pior, ele tinha participado ativamente desta empreitada, fornecendo informações valiosas a seu mestre.
Jean Phillipe viu sua amada Amy e sua filha em perigo, e decidiu entrar em ação, adentrando o palácio e confrontando os invasores, seus companheiros Arcanos Vermelhos. Infelizmente, Jean Phillipe não encontrou a família real, exceto pelo caçula Patrick, que foi aparentemente salvo por um grupo desconhecido, que subiu pela torre em direção aos aposentos de Remil. Os Arcanos Vermelhos vieram a seu encontro, e ele viu não tinha chance, então tentou escapar, teleportando-se para longe dali. Entretanto, dois Arcanos o seguiram, com a intenção de matá-lo, e teriam conseguido, pois o encontraram e usaram magias poderosas. Seus algozes o deixaram para morrer e partiram; entretanto, Jean Phillipe milagrosamente sobreviveu, e conseguiu se curar. Assim que pôde ficar de pé, percebeu que não poderia mais permanecer na cidade, quiçá no país, pois os Arcanos Vermelhos não descansariam enquanto não o eliminassem pela traição, se descobrissem que ainda vivia. E ainda por cima, precisava achar Patrick, o jovem príncipe, embora não soubesse nem por onde começar. Percebeu também que não poderia andar por aí como "Jean Phillipe de Sauvons", pois seria facilmente reconhecido, e os Arcanos Vermelhos são ótimos em rastrear inimigos. A partir desse dia, assumiu novamente seu sobrenome original - Sheridan - adotando-o como pseudônimo, e partiu, em busca de Patrick de Sauvons e da grande aventura de sua vida.