Histórico
- Pavo Kain

Numa pequena vila próxima à cidade de Leh, na Caxemira indiana, vivia um jovem
chamado Lakshmi Patkar. Lakshmi e os outros jovens de sua aldeia nunca
conheceram o sossego. A região fica na fronteira de Aksai Chin, que, em
1959, foi anexada à China, o que causou uma guerra curta, porém
brutal entre Índia e China, na década de 60. O pai de Lakshmi, e o pai de muitos
outros jovens morreram nesta guerra, obrigados pelo marajá a lutar pela Índia,
os "dominadores da vez". Portanto, o clima na vila sempre foi
tenso, pela proximidade com os chineses, embora a guerra tenha acabado havia décadas.
Ainda assim, os aldeões tentavam levar uma vida mais ou menos normal. Lakshmi, um jovem bonito e saudável, capturava a atenção de todas as moças da vila. Mas ele só tinha olhos para uma - a pequena Arundathi. Logo eles começaram a namorar, com o consentimento da mãe dela (afinal, o pai dela também morreu na guerra sino-indiana). Como eles se gostavam muito, logo se casaram, mas viviam uma vida simples, sem luxos, como todos os aldeões. Em 1981, Arundathi deu à luz a um menino, seu primeiro filho, Kain. A ele se seguiu Narmar, o segundo, em 1984.
Apesar da vida simples, Lakshmi e Arundathi eram muito felizes, principalmente por causa de seus filhos. Kain era saudável, feliz, brincava muito o tempo todo, mas também ajudava seu pai na lavoura. Num dia, Kain, aos sete anos, e seu irmãozinho Narmar resolveram se aventurar. Foram brincar na direção da fronteira chinesa, atraído pelo proibido. Obviamente eles não entendiam o perigo pelo qual passariam. Não sabiam quem eram os chineses, não sabiam o que era fronteira. Só sabiam que lá não poderiam ir. E assim foram. Chegaram até o limite do "conhecido", a parte que podiam ver da vila. Respiraram fundo e continuaram, indo por um caminho alternativo. Viram guardas chineses. Achavam que levariam uma bronca deles por estarem ali, portanto esperaram eles passarem. Foram até o acampamento militar chinês, e ficaram observando. Quando cansaram, retornaram pelo mesmo caminho. Depois de passar pela fronteira, encontraram Lakshmi, com um olhar furioso. Ele nada explicou, apenas deu em Kain a maior surra que ele já levou nessa vida.
Eis que num determinado dia, a vila foi atacada por um surto de varíola. Havia um médico na vila, mas não recursos. Algumas pessoas começaram a morrer. Arundathi também havia contraído a doença, quando os aldeões se reuniram para tentar fazer alguma coisa. A cidade indiana mais próxima, Leh, ficava longe demais, demoraria semanas para ir e voltar com os remédios - poderia ser tarde demais. Lakshmi sugeriu então que fossem até a fronteira pedir os remédios necessários. Era loucura. Por isso ele mesmo se voluntariou para o trabalho.
Ele se arrumou rápido e partiu, levando consigo outros dois amigos corajosos o suficiente. Chegaram à fronteira, e falaram com dois soldados chineses. Pediram os remédios de todas as formas, mas nada conseguiram. Tristes, já começavam a retornar, mas Lakshmi pensou em sua esposa, doente, que morreria sem tratamento. Ele cerrou os punhos e derrubou, a socos, os dois guardas. Saiu correndo, em direção ao acampamento chinês. Seus amigos tentaram impedi-lo, gritando, mas não ousaram ultrapassar a fronteira. Os guardas chineses correram atrás dele, e antes que ele pudesse chegar ao acampamento, foi fuzilado pelos soldados.
Os dois retornaram à vila, sem Lakshmi. Quando deram as más notícias, Arundathi chorou copiosamente, assim como o pequeno Kain. Mas ele logo pensou: ele acabara de perder o pai, mas não poderia perder também a mãe. Ainda precisavam obter os remédios. Encheu-se de coragem e simplesmente falou: "eu vou buscar os remédios". Os adultos acharam que ele estava louco, mas ele explicou que já estivera lá antes, e poderia ir novamente. Outra idéia louca, mas o tempo estava passando. O médico deu-lhe instruções para que reconhecesse os remédios. Kain preparou-se e foi sozinho em direção à fronteira, onde alguns meses antes havia se aventurado. Esperou novamente os guardas passarem, e passou, indo ao acampamento. Reconheceu a barraca do médico chinês, esperou que ele saísse e entrou, com muito medo, mas sem hesitar. Verificou os remédios - nenhum para varíola.
Kain não podia voltar pra casa de mãos abanando. Quantas pessoas contavam com ele? Resolveu adentrar ainda mais o território chinês. Porém, desta vez foi descoberto pelos guardas, e começou a correr. Na fuga, deu de cara com um monge chinês. Quando os guardas chegaram, os soldados e o monge conversaram, Kain observando atentamente, mas sem entender nada. Os guardas e eles foram embora, fazendo reverência. O monge virou-se para Kain.
"Qual o seu nome, pequeno?" disse o monge, em um hindi com sotaque carregado.
"Kain, senhor. Por que eles foram embora?"
"Porque eu falei pra eles que você era meu discípulo." Sorte para Kain que os guardas respeitavam muito os monges.
"Resolvemos um problema, mas agora temos outro." disse o monge.
"Qual?"
"Dizem que os monges não mentem... talvez seja verdade, talvez não. O que importa é que é nisso que os soldados acreditam, e foi isso que salvou a você e a mim. Então acho que você terá que ser meu discípulo, daqui pra frente, ou estamos encrencados."
"Não posso fazer isso, senhor. Tenho uma missão a cumprir."
Kain contou sobre a vila e a doença. O monge achou o menino muito corajoso para se aventurar em território inimigo. Kain concordaria em ser seu discípulo, mas apenas depois de ajudar seus compatriotas. O monge decidiu que iria ajudá-lo. Ele tinha passagem livre, embora limitada, pela fronteira, e seguiu com o garoto. Chegando na vila, Kain fora recebido com alegria, pois muitos não acreditavam no retorno do garoto. Quando viram o monge, ficaram com medo, achando ser alguma armadilha, já que ele era chinês. No entanto, tudo foi explicado, e postaram-se a trabalhar. O monge não tinha remédios, mas conhecia a doença. A varíola não tinha cura, mas havia um tratamento na medicina tradicional chinesa para amenizar as coceiras e as dores. Havia também um método de vacinação, que consiste na extração de pus das vesículas em estágio avançado de um doente e inocular em jovens fortes e sadios. Logo, os sobreviventes estavam de pé e aqueles que não contraíram a doença foram vacinados.
Depois desse episódio, Kain fora visto como um herói, assim como o monge. Porém, era chegada a hora de partir, e havia a promessa de partir com o monge. Kain despediu-se de sua mãe, que não estava triste, e sim orgulhosa, afinal, seu filho salvou a vila e partiria com um monge, uma oportunidade de receber educação que ela não podia dar. Enfim, Kain e o monge partiram, rumo à Aksai Chin.
O monge se chamava Nobo, e vivia sozinho. Nobo era um antigo cavaleiro de Athena, da constelação de Circinus. Ele já estava velho demais para a armadura sagrada, e, seguindo as ordens do Mestre do Santuário, deveria treinar um jovem para tornar-se Saint. O destino fez com que ele encontrasse Kain, prestes a morrer nas mãos dos soldados chineses. O menino tinha muita coragem para atravessar a fronteira. E além disso, havia algo mais naquele garoto. Um poder oculto. Um cosmo adormecido. Talvez ele fosse um bom candidato a Saint. Mas os guardas logo chegaram, não havia tempo para testá-lo, ele precisava decidir rápido. E o decidiu.
E ele não se arrependeria. Kain era dedicado no treinamento, que consistia em: educação (alfabetização, filosofia, línguas, culinária, sobrevivência nas montanhas), físico (corrida e combate) e mental/espiritual (respiração, meditação, cura, controle do cosmo e técnicas especiais de luta). A cada dia que passava, Kain se desenvolvia mais e mais.
Continua...