IRÃ
Lúcio Mendes

 

            Pedro acorda. Está todo suado. Aquele sonho de novo. De pé, caminha até o banheiro. Suas pernas estão moles, sua cabeça pesada. O sono o arrasta pela casa. Ele quer dormir mas tem receio, quase um medo de sonhar de novo. Suas mãos tremem enquanto ele lava o rosto. É sempre assim, pensa ele, não se pode nem beber um pouquinho que já começam os pesadelos. Ele olha para a garrafa de whiskey caída ao lado da cama, gotejando um nada deste néctar moribundo. Pedro, sentindo a Skywalker Simphony tocando a marcha imperial em sua cabeça, fala em alto e bom som que nunca mais vai beber. Ele sabe que é mentira, e resolve não pensar mais nisso. Pega seu casaco, põe seu tênis, decide sair, precisa de ar.

O sonho é sempre o mesmo: num deserto, uma sombra o persegue, e sempre alcança, então se funde nele e depois se separa diferente, e quando Pedro vai olhar para a sombra transformada... acorda.

É madrugada lá fora. O vento se impõe. Pedro levanta a gola do seu casaco e segue firme, sem destino, pelas ruas de uma cidade que ele não reconhece mais. Pedro está longe de casa agora. As ruas estão escuras. Os cãers latem ao longe. Vultos nos becos e em sua imaginação fazem Pedro apertar o passo. Ele tem medo de acordar alguém. Está um frio de sacudir as orelhas, e Pedro se dá conta que se aquecer agora virou uma prioridade.

Ele caminha, pensativo, pelas ruas de Florianópolis. Sua cabeça está muito longe, no mundo dos sonhos mais precisamente. Ele está convencido de que há um nexo entre a mente e a matéria que é a chave de seu sonho. Sua intenção agora é achar um especialista para lhe ajudar. Ele está procurando alguém agora. Um pirralho lhe chama atenção:

-Ei, tio! É legal ter um amigo, né?

-Hein? Tá maluco, moleque? Não sou teu tio nem teu amigo! Passa fora, vai!

Pedro tem a impressão de que os olhos do garoto estão ficando azulados.

-Ih, tio, já vi tudo! Tás precisando de uma consulta com Marcião pra resolver o teu pobrema.

-Marcião?

Pedro sente um estranho poder neste nome, apesar de nunca tê-lo ouvido. Sua curiosidade fica atiçada: quem será este tal Marcião? Pedro resolve seguir o garoto. Um pressentimento lhe diz que isso tudo tem algo a ver com seus sonhos.

O garoto – que Pedro descobre se chamar Se’ec – se embrenha nas ruelas do bairro Estreito com uma desenvoltura que deve surpreender até os traficantes do local. Pedro fica meio preocupado com a volta tortuosa no meio daqueles barracos, e se lembra de seu professor de História, quando lhe contou a história do labirinto do Minotauro, e não pode deixar de sorrir ao imaginar a mãe do dito cujo, fantasiada de vaca, se engraçando para um touro no pasto. De repente, seus pensamentos são desviados para uma agitação de pessoas em uma pracinha precária. Algo está acontecendo lá. Parece um filme de Zalman King, com arretos por todos os lados, mulheres de topless correndo atrás de homens com a pica de fora, alguns casais nos balanços com garotas de saia sentadas no colo de seus namorados com os zíperes abertos em um sugestivo e embalado sobe-e-desce, mulheres dançando na boca de um garrafão de vinho usando os shorts de suas filhas, uma alisando a bunda e o peito da outra, e em um canto, alguns homens em fila com as calças e as bermudas arriadas até os joelhos, o primeiro engatado em uma cadela da raça Rotweiller, o segundo engatado no primeiro, o terceiro no segundo, e assim por diante...

-Mas o que é isso? –pergunta incrédulo Pedro, vendo coisas que outrora julgava impossíveis.

-Essa aqui é a festa do mel. Quer brincar um pouco por aqui antes de falar com Marcião? –os olhos do garoto estavam definitivamente mais azuis. Pedro mal conseguia disfarçar seu incômodo.

-NÃO!!! Quer dizer, não, obrigado. Prefiro falar primeiro com esse Marcião.

Pedro vai seguindo Se’ec no meio daquela gente, nervoso, apreensivo até, desviando de tudo o que era suspeito ou diferente, enfim chegando a uma casa de aparência simples, branca, com um muro de tijolos à vista à meia altura. Como que adivinhando a chegada dos visitantes, a porta se abre, revelando –surpreendentemente– uma casa igualmente simples, parecida com aquelas que eram visitadas pelo Gugu Liberato. Se’ec guia Pedro até o quarto principal. Em frente à porta fechada, Pedro reconsidera sua idéia de descobrir o que há por trás de seus sonhos. Ele decide ir embora, quando Se’ec se vira pra ele, seus olhos completamente azuis, cintilantes, quase que fosforecentes.

-Entre!

A voz do garoto sai distorcida, parecendo um vídeo avacalhado em câmera lenta, com a diferença de que não estava em câmera lenta, e aquilo não era um vídeo.

-Entre! Marcião o espera!

Pedro olha a porta fechada à sua frente. Sua impressão é de que ela o está desafiando. Um cheiro forte de incenso invade suas narinas quando ele gira a maçaneta. Sua ressaca – que ele havia esquecido até – volta com força total. Parece que ondas de fogo navegam seu cérebro. Pedro põe as mãos na cabeça. A dor o derruba, de joelhos, em frente à uma pequena mesa de escritório. Sua cabeça está baixa, seus olhos semicerrados. Ele grita, e mal pode escutar a sua própria voz. Pedro sente alguém o agarrar, mas não pode dizer com certeza se isto é real. Ele sente sua consciência indo longe, longe, para a escuridão, até que desfalece. Marcião, na verdade uma mulher de proporções incomuns naquela região, assiste a tudo com uma expressão grave em seu rosto. Pedro convulsiona por alguns instantes e pára, e não se mexe, e empalidece, e falece. Não há mais esperança pra ele.

*                                 *                      *

Sociedade Espírita Nossa Senhora do Aterro, madrugada de sexta para sábado. Os poucos vizinhos que não freqüentam o lugar estão acostumados com o barulho até de madrugada, mas não do jeito que está hoje. Alguma coisa diferente está acontecendo. Já passam das três horas da manhã e ainda se ouvem muitos gritos e risadas histéricas, e uma fumaça vermelha incessante traduz para todo o bairro que alguma coisa grave está acontecendo naquele local. Um morador mais recente liga para a polícia pela quarta vez, e pela quarta vez seu pedido por uma patrulha é ignorado. Os policiais têm medo daquele local. Eles contam histórias de amigos e colegas que enlouqueceram depois que foram pra lá.

Lua nova, noite escura. E como se não bastasse ainda há a neblina. Quinze metros tem o horizonte nesta noite. As brumas dão um toque angelical aos postes, com suas auréolas de luz refletida. O silêncio é sepulcral. Nenhum cão, nenhum gato no cio, nenhum carro e nem mesmo um ébrio cantador mostram vida à beira mar. Dos poucos carros parados do meio-fio, apenas um Fiat Uno branco se destaca na paisagem. O pára-brisa ainda guarda a marca do limpador no sereno e, pra quem não consegue ouvir o rádio sintonizado no programa Pijama Show da Rádio Atlântida, o desembaçador traseiro denuncia a tocaia de Paulo Tessalonicense, detetive particular por correspondência e taxista por sobrevivência. Do outro lado da rua, a uns dez metros dele, uma casinha simpática, quase acima de qualquer suspeita, chama a atenção por estar com todas – TODAS – as luzes apagadas. Nem a varanda consegue fugir do breu impenetrável que a neblina acoberta. Pintado com letras grandes na parede da casa, o nome do estabelecimento: Sociedade Espírita Nossa Senhora do Aterro.

“Opa! Sim! Opa! Vamos a mais uma ligação de nossos ouvintes. Quem fala?”

Tópico estranho, aquele, perguntar pras pessoas se elas realmente gostariam de ver alguma pessoa falecida viva de novo na sua frente. Paulo não estava gostando muito daquilo, mas fazer o quê, se a antena do seu carro estava quebrada e o toca-fitas estava ocupado mastigando o seu especial do Roberto Carlos. O vento começa a sibilar no carro. Só nessas horas ele se lembra de trocar as borrachas das portas. O frio começa a invadir e os pés de Paulo ficam congelados. Ele resolve ir para casa, e arranca o seu carro dali, sem ver que a luz da varanda se acendeu. Paulo sobe a avenida Ivo Silveira com o pé no fundo. A pista molhada reflete a luz dos faróis do Uno. O barulho do motor lembra uma vez que ele deixou cair uma colher no liquidificador. Amanhã ele vê isso. Ele está mais tranqüilo agora, pois a neblina está se dissipando rapidamente à sua frente, mas o cansaço não o deixa perceber que ela se fecha novamente assim que ele passa. Ele vê a placa de um posto de gasolina e, instintivamente, olha para o marcador de combustível no painel. Vazio. Estranho, já que ele encheu o tanque na véspera por conta de um dentista que não queria que a esposa soubesse que ele come a secretária. Um caso padrão.

O Uno entra no posto e pára. O motor morre, o rádio é desligado. A janela desce, aguardando algum frentista perdido naquele frio da madrugada. O posto está vazio e a neblina espessa. Paulo olha o marcador de novo: meio tanque. Ele se convence de que é melhor ir para casa dormir. Liga o carro e arranca. E pára de repente, assustado com aquela mulher enorme que apareceu do nada na sua frente.

*                   *                      *

Marcião está concentrada. Sua mente está muito longe dali. Longe do seu corpo. Em posição de lótus, à frente do detetive Paulo, ambos em uma mandala, Marcião começa as suas orações, em sussurros que se mesclam ao ribombar dos batuques. Paulo não as escuta, e nem ao barulho à sua volta. Seus olhos estão fechados e ele só consegue escutar ao seu próprio coração. De repente, o pulso pára. Tudo silencia. Paulo resolve abrir os olhos e se lembra de um filme que viu, Matrix. Bom filme! À sua frente uma imensidão branca de nada. Absolutamente. Nem atrás e nem acima. Ele procura o chão e se descobre flutuando.

-Estranho, não? – Marcião surge atrás dele.

-Bizarro, eu diria! Onde estamos?

-Com certeza já ouvisse falar de pessoas que morrem e voltam à vida e relatam uma luz branca ou um túnel branco, certo? Pois bem, elas conseguem voltar porque não chegam a entrar neste túnel, aqui, onde nós estamos agora, bem no meio dele.

-Estamos mortos?

-Sim e não! Detetive Paulo Tessalonicense, o senhor está aqui para descobrir o paradeiro de Pedro Inglomad. Pois bem, sinto dizer-lhe que Pedro Inglomad está morto. Foi possuído por uma entidade chamada Topr’Kus. Assim que eu...

-Peraí! Demônios não existem, porra!

-...e nem este túnel, certo? Deixe-me terminar. Assim que eu descobri isto, mandei um mensageiro trazê-lo pra mim, só que Topr’Kus descobriu a tempo e matou o corpo de Pedro Inglomad. Detetive Paulo Tessalonicense, o senhor quer continuar esta jornada para salvar a quintessência de Pedro Inglomad e devolvê-la ao seu corpo mortal?

-por que me trouxe aqui? Por que precisa da minha ajuda?

-O senhor é uma pessoa obstinada, senhor Paulo Tessalonicense. Bem mais do que imagina. Está tão sintonizado com a aura de Pedro Inglomad que a sua própria aura se modificou. Senhor Paulo Tessalonicense, o senhor se tornou uma sósia exata de Pedro Inglomad, o que nos possibilita achá-lo nos domínios de Topr’Kus. O senhor vai me ajudar? Vai continuar nesta jornada?

-Sósia? Como é que eu posso ser sósia de um negão de cabeça raspada? E eu não quero ir pro inferno por causa de cinqüenta pila. Como é que eu saio daqui, porra!

-Como o senhor acha que é o inferno, senhor Paulo Tessalonicense? Com caldeiras borbulhantes e tridentes afiados? E como seria o céu? Um jardim calmo e verdejante? Isso tudo são invenções humanas, baseadas em desejos e angústias. Por que os anjos têm que ser bons, senhor Paulo Tessalonicense? E por que os demônios têm que ser de pura maldade? Não poderiam ser apenas dois times diferentes? É muito fácil escolher entre o bem e o mal, senhor Paulo Tessalonicense, mas como se escolhe entre o bem e o bem? Eu não estou lhe pedindo para ir até o “inferno” comigo, senhor Paulo Tessalonicense. Eu apenas estou lhe pedindo ajuda para salvar um am...

O corpo de Marcião, subitamente, jaz aos pés do detetive, e logo começa a esmaecer. No mundo real, a correria toma conta da casa de umbanda. Parece que o vizinho novo tinha conhecidos na DP. Em meio ao fogo cruzado, Marcião leva três tiros nas costas, tombando por cima de Paulo e protegendo-o com sua banha. Se’ec convulsiona em outra sala e cai inerte. Em seguida levanta, corre até o corpo de Paulo e o tira dali, indo se esconder na garagem de um vizinho. No túnel branco, Paulo Tessalonicense corre, mas não tem certeza se está se movendo. Sua mente tangencia a insanidade. Ele desiste, se encolhe, e começa a chorar como o Bambi do desenho.

*                   *                      *

Parque Moinhos de Vento, Porto Alegre, domingo de verão, tarde. Chama a atenção o homem de aparência meio rude, estilo roceiro de periferia, caminhando de mãos dadas com aquele garoto pardo de olhos extremamente azuis. Os dois se cansam de passear e resolvem sentar em um barzinho ao lado do antigo Cine Coral. O homem olha para o garoto e um sorriso de orgulho nasce em seus lábios.

-Quem imaginaria, cara Marcião...

-Se’ec! Por favor!

-Está bem, cara Se’ec, quem imaginaria este desfecho para Topr’Kus? Será que ele ainda não desconfia que é o detetive que está em seus domínios agora?

-Não se esqueça, caro Pedro, de que você é o detetive agora. E por favor, não diga mais o nome daquele maldito!

-Está bem. Está bem. GARÇOM!!! Uma Skol aqui, por favor!

A tarde cai, e em algum lugar de alguma dimensão, Paulo Tessalonicense chora, sem mais esperanças de voltar ao mundo real.

F       I          M

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