Esfinge
Lúcio Mendes

“Olha que coisa mais linda

Mais cheia de graça

É ela menina

Que vem e que passa

Num doce balanço, a caminho do mar

...

Ah, se ela soubesse

Que quando ela passa

O mundo inteirinho se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor”

Garota de Ipanema

A primeira vez que eu a vi foi no parque. Domingo ensolarado, muito calor e pouca roupa, resolvi lagartear um pouco. Sentei na grama e comecei a escrever. Mania minha, parecia coisa de cego: sentar no chão e descrever o ambiente no papel. Eu lembro que estava olhando um mendigo, que prestava uma solitária homenagem para duas garotas distraídas, quando ela cruzou na minha frente.

Ela é linda! Uma beleza exótica que eu ainda não conhecia. Alta, magra, estilo modelo. Seus cabelos eram negros como o abismo que ela me jogou. Seu rosto felino, seus olhos amendoados, meu Deus, sua alma hipnótica me seqüestrou da razão. Lá vem ela de novo... abrindo seu sorriso... hipnotizando... a sua voz abençoa as palavras e os ouvidos, mesmo que sejam discursos do mais baixo calão possível. Trabalho duro, ter que engolir todo o meu anseio de beijar aquela boca carnuda.

Qual não foi a minha surpresa quando ela resolveu falar comigo –COMIGO!– dentre tantas pessoas naquela praça.

O tempo passou, a amizade cresceu... mas não pelo caminho que eu escolhi. Não. Ela nunca percebeu, e eu nunca tive coragem... de me declarar... de entregar o poema...

Os anos passaram, ela se mudou, eu me casei... mas o poema ainda está lá, guardado! Nem minha mulher, nem minha filha sabe dele, do meu poema da revelação.

Talvez um dia...

“Descobri o mistério

Do mistério

Da minha fascinação

Descobri o segredo

O enredo

Da sua sedução

Sedução estrangeira

No abismo, bem na beira

De mais um coração

Seus olhos de gato

É fato

Seu destino na mão

O poder do seu cetro

De certo

Tirou a razão

De mais outro

Dentre tantos

Pura ilusão

Sua história de vida,

Minha querida,

Na palma da mão

–A história de uma contramão

Princesa do Nilo

Sem grilo

E sem enganação

Rainha dos homens

Enigma central

Mistificação

Seu corpo de sereia

–E se acha feia–

É o caminho da perdição

Mas seu rosto de gato

É um artefato

Nas mãos do artesão

Gatinha brasileira

Sua beleza estrangeira

É pura comoção

A Dama do Egito

Não acredito!

É imaginação.

Conheço seus sonhos

Seus medos medonhos

A sua criação

Os traumas lhe forjaram

Eles não te amaram

Como a minha imaginação”

F     I        M

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