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Paletós, naftalina e carrapatos...
SEGUNDA - 26/09/2007
Bom, a banda The Ticks foi às compras. E não foram comprar instrumentos, discos ou algum outro componente de palco. Foram comprar roupas mesmo. Não deixa de ser uma preocupação de qualquer banda: o figurino. Acontece que a banda não foi se vestir na modinha. Até gostariam, mas o objetivo desta investida pelas ruas movimentadas de Porto Alegre foram os "brechós". E vocês ficariam impressionados com a coleção irreverente que se encontra dentro destes apertados filtros de moda puída. São roupas e acessórios de todo tipo, quase sempre muitos antigos, que desfilam em prateleiras, cabides e balcões, cada peça contando sua história, guardando um segredo antigo, inclusive um certo ar de respeito que todas as coisas antigas carregam consigo. Nostalgia e curiosidade.
A banda foi muito bem recebida em todas as lojas - exceto em uma onde a dona se mantinha num ar de importância desnecessário, como se ela mesma fosse uma raridade do próprio acervo, supervalorizando seu estoque e limitando os espaços de circulação pela loja, chique - e foram muitas lojas em muitas ruas e muita pernada.
Mesmo chovendo a cântaros, Porto Alegre se mantinha interessante e recheada de figuras transeuntes inusitadas. Um deles era um pedinte muito educado - desculpe por não lembrar o nome do vivente - que reclamava da chuva, alegando inclusive que ela chegava a afetar negativamente o seu rendimento semanal em cerca de R$ 200,00. Cidadão interessante.
Desde a hora que saímos da nossa cidade, rumo à capital gaúcha, cerca de 11 horas da manhã, o baterista Renan, que também era o motorista-conhecedor-de-ruas da banda, não parava de reclamar da necessidade, quase sofrível, de encontrar um banheiro - cá pra nós, o rapaz tem comido muita coisa por fora e uma hora o ciclo se completa. Estava apertado o menino. E com o negócio a ponto de romper a “aurora precursora do farol da divindade”, fez um tour por muitos dos banheiros públicos que ficavam no caminho costurado que fazia pela cidade. Até mesmo um, que ficava no Parque na Redenção, pela indicação de outro pedinte que, inclusive, deu boas referências do banheiro. Que nada, nosso baterista não aprovou. Foi lá, olhou e não gostou mesmo. Fomos em frente. E o negócio ficando feio pro Renan. O jeito foi encontrar o shopping mais próximo.
Solucionado o problema, voltamos aos brechós. Com praticamente só mulheres na gerência destas casas de moda nostálgica, ficamos bem à vontade para comprar. E compramos. O Rodrigo, baixista da banda, comprou um terno alaranjado que lhe caiu muito bem, no melhor estilo "bicheiro em começo de carreira". O Renan (que figura) gostava de tudo, mas não tinha o que lhe servisse. Tanto procurou que, enfim, encontrou um terno cinza riscado, muito estiloso. Era o Eric Cartman em uma versão evangélica. Já eu, fui mais fundo nos cabides e encontrei um terninho escuro muito interessante, que caiu tão bem em mim quanto encontrar um gato sem os bigodes. Não adianta, eu insisto em me parecer com um pastor ou, no máximo, um cobrador de ônibus quando coloco este tipo de roupa. Nada que um óculos escuro e uma boina não disfarcem. E o Maurício, guitarrista da banda The Ticks? Ah, o cara é muito sofisticado. Acreditem, ele não comprou nada. Sequer pegou firme as roupas na mão, quanto mais experimentar. Pra ele, nem o odor nostálgico característico dos brechós lhe convinham. Provavelmente culpa de uma renite mal resolvida. De qualquer forma, alguém precisa ser sensível nessa relação.
E assim a banda volta pra casa, satisfeita, para logo partir pra outro show, desta vez na cidade de Estância Velha. O não citado na aventura acima, Daniel, tecladista da banda, ficou em casa ocupado com os preparativos de sua festa de aniversário. Festa que a gente tocou, claro. Festa boa, gente boa, música boa. Ótimo fim pra um sábado bem produtivo. E que traça que nada, brechó é lugar de carrapato. Então voltaremos, com certeza. Abraços.
por Cristiano Rossi, guitarra e voz
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