Ioannes Paulus PP. II Dominum et vivificantem sobre o Espírito
Santo na Vida da Igreja e do Mundo
1986.05.18
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Benção
Veneráveis
Irmãos e Amados Filhos e Filhas Saúde e Bênção Apostólica!
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INTRODUÇÃO
1. A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n'Aquele «que é Senhor e dá a vida». É o que
ela proclama no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano, do nome
dos dois Concílios - de Niceia (a. 325) e de Constantinopla (a. 381) - nos
quais foi formulado ou promulgado. Nele se acrescenta também que o
Espírito Santo «falou pelos Profetas».
São palavras que a Igreja recebe da própria fonte da
sua fé, Jesus Cristo. Com efeito, segundo o Evangelho de São João, o
Espírito Santo é-nos dado com a vida nova, como Jesus anuncia e promete no
dia solene da festa dos Tabernáculos: «Quem tem sede, venha a mim; e beba
quem crê em mim. Como diz a Escritura, do seu seio fluirão rios de água
viva»1. E o Evangelista explica: «Jesus dizia isso referindo-se ao
Espírito, que haveriam de receber os que n'Ele acreditassem»2. É a mesma analogia da água usada por Jesus no
diálogo com a Samaritana, quando fala de «uma nascente de água a jorrar
para a vida eterna»3, e no colóquio com Nicodemos, quando anuncia a
necessidade de um novo nascimento «pela água e pelo Espírito» para
«entrar no Reino de Deus»4.
A Igreja, portanto, instruída pelas palavras de Cristo,
indo beber à experiência do Pentecostes e da própria «história
apostólica», proclama desde o início a sua fé no Espírito Santo, como n'Aquele que dá a vída, Aquele no qual o imperscrutável Deus uno e trino se comunica aos
homens, constituindo neles a nascente da vida eterna.
2. Esta fé, professada ininterruptamente pela Igreja,
precisa de ser incessantemente reavivada e aprofundada na consciência do
Povo de Deus. Neste último século isso aconteceu por mais de uma vez:
desde Leão XIII, que publicou a Carta Encíclica Divinum illud munus (a.
1897), inteiramente dedicada ao Espírito Santo, a Pio XII, que na Encíclica Mystici Corporis (a. 1943) se
referiu de novo ao Espírito Santo como sendo princípio vital da Igreja, na
qual opera conjuntamente com a Cabeça do Corpo Místico, Cristo5, até ao Concílio Ecuménico Vaticano II,
que fez notar a necessidade de uma renovada atenção à doutrina sobre o
Espírito Santo, como acentuava o Papa Paulo VI: «À cristologia e
especialmente à eclesiologia do Concílio deve seguir-se um estudo renovado
e um culto renovado do Espírito Santo, precisamente como complemento
indispensável do ensino conciliar»6.
Na nossa época, portanto, mais uma vez somos chamados pela fé da Igreja, fé antiga
e sempre nova, a aproximar-nos do Espírito Santo como Aquele que dá a vida. Neste ponto,
podemos contar com a ajuda e serve-nos também de estímulo a herança comum
com as Igrejas orientais; estas
preservaram cuidadosamente as riquezas extraordinárias do ensino dos
Padres sobre o Espírito Santo. Também por isso podemos dizer que um dos
mais importantes acontecimentos eclesiais dos últimos anos foi o XVI centenário do I Concílio de
Constantinopla, celebrado contemporaneamente em Constantinopla e em
Roma na solenidade do Pentecostes de 1981. O Espírito Santo, tendo-se meditado
na altura sobre o mistério da Igreja, apareceu então mais nitidamente como
Aquele que indica os caminhos que levam à união dos cristãos, ou melhor,
como a fonte suprema desta
unidade, que provém do próprio Deus e à qual São Paulo deu uma
expressão particular, com aquelas palavras que se usam frequentemente para
dar início à Liturgia eucarística: «A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo,
o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco»7.
Nesta exortação tiveram o seu ponto de partida e
inspiração, em certo sentido, as precedentes Encíclicas Redemptor hominis e Dives in misericordia, as quais
celebram o acontecimento da nossa salvação, que se realizou no Filho,
mandado pelo Pai ao mundo, «para que o mundo seja salvo por seu
intermédio»8 e «toda a língua confesse que Jesus Cristo é o
Senhor, para glória de Deus Pai»9. Dessa mesma exortação nasce agora a presente Encíclica sobre o Espírito
Santo, que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e
glorificado: Pessoa divina, Ele está no coração da fé cristã e é a fonte e
a força dinâmica da renovação da Igreja10. Ela foi haurida, ademais, das profundezas da herança do
Concílio. Os textos conciliares, efectivamente, em virtude do seu
ensino sobre a Igreja em si mesma e sobre a Igreja no mundo, estimulam-nos
a perscrutar cada vez mais o mistério trinitário do próprio Deus, seguindo
o itinerário evangélico, patrístico e litúrgico: ao Pai — por Cristo — no
Espírito Santo.
Deste modo, a Igreja responde também a certos apelos
profundos, que julga ler no coração dos homens de hoje: uma nova
descoberta de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito,
como foi apresentado por Jesus à Samaritana; a necessidade de adorá-lo «em
espírito e verdade»11; a esperança de encontrar nele o segredo do
amor e a força de uma «nova criação»12: sim, precisamente Aquele que dá a vida.
A Igreja sente-se chamada para esta missão de anunciar
o Espírito, ao mesmo tempo que, juntamente com toda a família humana se
aproxima do final do segundo
Milénio depois de Cristo. Tendo como cenário um céu e uma terra que
«passarão», ela sabe bem que adquirem uma particular eloquência as
«palavras que não hão-de passar»13, São as palavras de Cristo sobre o Espírito
Santo, fonte inexaurível da «água a jorrar para a vida eterna»14, como verdade e graça salvadoras. A Igreja
quer reflectir sobre estas palavras; ela deseja chamar a atenção daqueles
que crêem e de todos os homens para essas mesmas palavras, enquanto se vai
preparando para celebrar - come se dirá mais adiante - o grande Jubileu,
com que se assinalará a passagem do segundo para o terceiro Milénio
cristão.
As considerações que se seguem, naturalmente, não
pretendem perlustrar, de maneira exaustiva, toda a riquíssima doutrina
sobre o Espírito Santo, nem favorecer qualquer solução de questões ainda
em aberto. Elas têm como finalidade principal desenvolver na Igreja aquela
consciência com que ela «é impelida pelo mesmo Espírito Santo a cooperar
para que se realize o desígnio de Deus, que constituiu Cristo princípio de
salvação para o mundo inteiro»15.
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PRIMEIRA PARTE - O ESPÍRITO DO PAI E
DO FILHO, DADO À IGREJA
1. Promessa e revelação de Jesus durante a Ceia
pascal
3. Quando já estava iminente para Jesus Cristo o tempo
de deixar este mundo, ele anunciou aos Apóstolos «um outro
Consolador»16. O evangelista São João, que estava presente,
escreve que, durante a Ceia pascal no dia anterior à sua paixão e morte,
Jesus se dirigiu a eles com estas palavras: «Tudo o que pedirdes em meu
nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho ... Eu pedirei
ao Pai, e Ele vos dará um outro Consolador, para estar convosco para
sempre, o Espírito da verdade»17.
É precisamente a este Espírito da verdade que Jesus
chama o Paráclito — e Parákletos quer dizer
«consolador», e também «intercessor», ou «advogado». E diz que é «um
outro» Consolador, o segundo, porque ele mesmo, Jesus Cristo, é o primeiro
Consolador18, sendo o primeiro portador e doador da Boa
Nova. O Espírito Santo vem depois dele a graças a ele, para continuar no
mundo, mediante a Igreja, a obra da
Boa Nova da salvação. Desta continuação da sua obra por parte do
Espírito Santo, Jesus fala mais de uma vez durante o mesmo discurso de
despedida, preparando os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, para a sua
partida, isto é, para a sua paixão e morte na Cruz.
As palavras, a que faremos aqui referência,
encontram-se no Evangelho de São
João. Cada uma delas acrescenta um certo conteúdo novo ao anúncio e à
promessa acima referidos. E, ao mesmo tempo, elas estão encadeadas
intimamente entre si, não só pela perspectiva dos mesmos acontecimentos,
mas também pela perspectiva do mistério do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, o qual talvez em nenhuma outra passagem da Sagrada Escritura tenha
uma expressão tão relevante como aqui.
4. Pouco depois do anúncio acima referido, Jesus
acrescenta: «Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu
nome, ele vos ensinará todas as
coisas e vos recordará tudo o
que eu vos disse»19. O Espírito Santo será o Consolador dos
Apóstolos e da Igreja, sempre presente no meio deles — ainda que invisível
— como mestre da mesma Boa Nova que Cristo anunciou. Aquele «ensinará» ...
e «recordará» significa não só que Ele, da maneira que lhe é própria,
continuará a inspirar a divulgação do Evangelho da salvação, mas também
que ajudará a compreender o significado exacto do conteúdo da mensagem de
Cristo; que Ele assegurará a continuidade e identidade de compreensão
dessa mensagem, no meio das condições e circunstâncias mutáveis. Por
conseguinte, o Espírito Santo fará com que perdure sempre na Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos
ouviram do seu Mestre.
5. Para transmitirem a Boa Nova da salvação, os
Apóstolos estarão associados de uma maneira particular ao Espírito Santo.
Eis como Jesus continua a falar: «Quando vier o Consolador, que eu vos
enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. E
também vós dareis testemunho de mim, porque estais comigo desde o
princípio»20.
Os Apóstolos foram as testemunhas directas, oculares.
Eles «ouviram» e «viram com os próprios olhos», «contemplaram», e até
mesmo «tocaram com as próprias mãos» Cristo, como se exprime numa outra
passagem o mesmo evangelista São João21. Este seu testemunho humano, ocular e
«histórico» a respeito de Cristo andará ligado ao testemunho do Espírito
Santo: «Ele dará testemunho de mim». É no testemunho do Espírito da verdade que o
testemunho humano dos Apóstolos encontrará o seu mais forte sustentáculo. E, em seguida,
encontrará nele também o recôndito fundamento interior da sua
continuação entre as gerações dos discípulos e dos confessores de Cristo,
que se irão sucedendo ao longo dos séculos.
Sendo o próprio Jesus Cristo a suprema e mais completa
revelação de Deus à humanidade, é o testemunho do Espírito que
inspira, garante e convalida a sua fiel transmissão na pregação e nos
escritos apostólicos22, enquanto o testemunho dos Apóstolos lhe
proporciona a expressão humana na Igreja e na história da humanidade.
6. Isto é posto em evidência também pela estreita
correlação de conteúdo e de intenção com o anúncio e a promessa que
acabámos de mencionar, que se encontra nas palavras que vêm a seguir no
texto de São João: «Teria ainda muitas coisas para vos dizer, mas por
agora não estais em condições de as comprender. Quando, porém, Ele vier, o
Espírito da verdade, guiar-vos-á
para toda a verdade; porque
Ele não falará por si mesmo, mas de tudo o que tiver ouvido e
anunciar-vos-á as coisas que estão para vir»23.
Com as palavras precedentes Jesus apresenta o
Consolador, o Espírito da verdade, como Aquele que «ensinará e recordará»,
como Aquele que «dará testemunho» dele; agora diz: «Ele vos guiará para
toda a verdade». Este «guiar para toda a verdade», em relação com aquilo
que «os Apóstolos por agora não estão em condições de compreender», está
necessariamente em ligação com o
despojamento de Cristo, por meio da sua paixão e morte de Cruz, que
então, quando ele pronunciava estas palavras, já estava iminente.
Mas, em seguida, torna-se bem claro que aquele «guiar
para a toda a verdade» está em ligação não apenas com o «scandalum crucis» [o escandalo da
cruz], mas também com tudo o que Cristo «fez e ensinou»24. Com efeito, o mysterium Christi na sua
globalidade exige a fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente
na realidade do mistério revelado. O «guiar para toda a verdade»
realiza-se, pois, na fé e mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e é
fruto da sua acção no homem. O Espírito Santo deve ser em tudo isso o guia
supremo do homem, a luz do espírito humano. Isto é válido para os
Apóstolos, as testemunhas oculares que devem levar doravante a todos os
homens o anúncio do que Cristo «fez e ensinou» e, especialmente, da sua
Cruz e da sua Ressurreição. Numa perspectiva mais ampla e distante no
tempo, isto é valido também para todas as gerações dos discípulos e dos
confessores do Mestre, uma vez que deverão aceitar com fé e confessar com desassombro o
mistério de Deus operante na história do homem, o mistério revelado que
explica o sentido dessa mesma história.
7. Na economia da salvação, portanto, entre o Espírito
Santo e Cristo subsiste uma ligação íntima, em virtude da qual o Espírito
da verdade opera na história do homem como «um outro Consolador»,
assegurando de modo duradouro a transmissão e a irradiação da Boa Nova
revelada por Jesus de Nazaré. Por isso, no Espírito Santo Paráclito, o
qual continua incessantemente no mistério e na actividade da Igreja a
presença histórica do Redentor sobre a terra e a sua obra salvífica,
resplandece a glória de Cristo, como atestam as palavras de São João que
vêm a seguir: «Ele (isto é, o Espírito) glorificar-me-á, porque receberá do que é meu para vo-lo
anunciar»25. Com estas palavras é confirmado, mais uma
vez, tudo o que disseram os enunciados precedentes: «ensinará ...
recordará ..., dará testemunho». A suprema e completa auto-revelação de
Deus, que se realizou em Cristo — tendo dado testemunho dela a pregação
dos Apóstolos — continuará a ser manifestada na Igreja mediante a missão
do Consolador invisível, o Espírito da verdade. Quanto esta missão (do
Espírito) esteja intimamente ligada com a missão de Cristo e quanto
plenamente ela vá haurir na mesma missão de Cristo — consolidando e
desenvolvendo na história os seus frutos salvíficos — é expresso pelo
verbo «receber»: «receberá do que é meu para vo-lo anunciar». E Jesus,
como que para explicar a palavra «receber», pondo em evidência claramente
a unidade divina e trinitária da fonte, acrescenta: «Tudo quanto o Pai tem é meu; por
isso eu disse que Ele receberá do
que é meu para vo-lo anunciar»26. Recebendo «do que é meu», Ele vai, por isso
mesmo, haurir «daquilo que é do Pai».
Assim, à luz daquele «receberá» podem ser explicadas
ainda as outras palavras sobre o Espírito Santo, pronunciadas por Jesus no
Cenáculo antes da Páscoa, que são palavras significativas: «É melhor para
vós que eu vá, porque se eu não fôr, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, ensiar-vo-lo-ei. E
quando Ele tiver vindo convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à
justica e quanto ao juízo»27. Será conveniente voltar a estas palavras, com
uma reflexão à parte.
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2. Pai, Filho e Espírito Santo
8. É característica do texto joanino que o Pai, o Filho
e o Espírito Santo sejam nomeados claramente como Pessoas, a primeira
distinta da segunda e da terceira e estas também distintas entre si. Jesus
fala do Espírito Consolador, usando por mais de uma vez o pronome pessoal
«Ele». E, ao mesmo tempo, em todo o discurso de despedida, torna
manifestos aqueles vínculos que unem reciprocamente o Pai, o Filho e o
Paráclito. Assim, «o Espírito ... procede do Pai»28 e o Pai «dá» o Espírito29. O Pai «envia» o Espírito em nome do
Filho30, o Espírito «dá testemunho» do Filho31. O Filho pede ao Pai que envie o Espírito
Consolador32; mas, além disso, afirma e promete, em relação
com a sua «partida» mediante a Cruz: «Quando eu fôr, vo-lo enviarei»33. Portanto, o Pai envia o Espírito Santo com o
poder da sua paternidade, como enviou o Filho34; mas, ao mesmo tempo, envia-o, com o poder da
Redenção realizada por Cristo — e neste sentido o Espírito Santo é enviado
também pelo Filho: «enviar-vo-lo-ei».
Aqui neste ponto, é preciso notar que, se todas as
outras promessas feitas no Cenáculo anunciavam a vinda do Espírito Santo
para depois da partida de
Cristo, a que é referida por São
João no capítulo 16 vv. 7-8 inclui e acentua claramente a relação de
interdependência, que se poderia dizer causal, entre as manifestações de
um e de outro: «Quando eu fôr, enviar-vo-lo-ei». O Espírito Santo virá na
condição de Cristo partir, mediante a Cruz: virá não só em seguida, mas por causa da Redenção realizada
por Cristo, por vontade e obra do Pai.
9. Assim no discurso da Ceia pascal de despedida,
atinge-se — por assim dizer — o ápice da revelação trinitária. Ao
mesmo tempo, encontramo-nos no limiar de eventos definitivos e de palavras
supremas, que por fim se traduzirão no grande mandato missionário,
dirigido aos Apóstolos e, mediante eles, à Igreja: «ide, portanto, e
ensinai todas as gentes», mandato que contém, em certo sentido, a fórmula
trinitária do Baptismo: «baptizando-as em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo»35. A fórmula reflecte o mistério íntimo de Deus,
da vida divina, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, divina unidade da
Trindade. O discurso de despedida pode ser lido como uma preparação
especial para esta fórmula trinitária, na qual se exprime o poder
vivificante do Sacramento, que opera a participação na vida de Deus uno e
trino, porque confere a graça santificante ao homem, como dom
sobrenatural. Por meio dela o homem é chamado e «tornado capaz» de
participar na imperscrutável vida de Deus.
10. Na sua vida íntima Deus «é Amor»36, amor essencial, comum às três Pessoas
divinas: amor pessoal é o Espírito Santo, como Espírito do Pai e do Filho.
Por isso ele «perscruta as profundezas de Deus»37, como Amor-Dom incriado. Pode dizer-se
que, no Espírito Santo, a vida íntima de Deus uno e trino se torna
totalmente dom, permuta de amor recíproco entre as Pessoas divinas; e
ainda, que no Espírito Santo Deus «existe» à maneira de Dom. O Espírito
Santo é a expressão pessoal
desse doar-se, desse ser-amor38. É Pessoa-Amor. É Pessoa-Dom. Temos aqui uma
riqueza insondável da realidade e um aprofundamento inefável do conceito
de pessoa em Deus, que só a Revelação divina nos dá a conhecer.
Ao mesmo tempo, o Espírito Santo, enquanto
consubstancial ao Pai e ao Filho na divindade, é Amor e Dom (incriado) do
qual deriva como de uma fonte (fons
vívus) toda a dádiva em
relação às criaturas (dom criado): a doação da existência a todas as
coisas, mediante a criação; e a doação da graça aos homens, mediante toda
a economia da salvação. Como escreve o Apóstolo São Paulo: «O amor de Deus
foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi
dado»39.
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3. O dar-se salvífico de Deus no Espírito
Santo
11. O discurso de despedida de Cristo, durante a Ceia
pascal, está em particular conexão com este «dar» e «dar-se» do Espírito
Santo. No Evangelho de São João
descobre-se como que a «lógica» mais profunda do mistério salvífico,
contido no eterno desígnio de Deus, qual expansão da inefável comunhão do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. É a «lógica» divina, que leva do
mistério da Trindade ao mistério da Redenção do mundo em Jesus Cristo. A
Redenção realizada pelo Filho
nas dimensões da história terrena do homem — consumada aquando da sua
«partida», por meio da Cruz e da Ressurreição — é, ao mesmo tempo, transmitida ao Espírito Santo com
todo o seu poder salvífico: transmitida Àquele que «receberá do que é
meu»40. As palavras do texto joanino indicam que,
segundo o desígnio divino, a «partida» de Cristo é condição indispensável
para o «envio» e para a vinda do Espírito Santo; mas dizem também que
começa então a nova autocomunicação
salvífica de Deus, no Espírito Santo.
12. É um novo
princípio em relação ao
primeiro: àquele princípio primigénio do dar-se salvífico de
Deus, que se identifica com o próprio mistério da criação. Com efeito,
lemos já nas primeiras palavras do Livro do Génesis: «No princípio
criou Deus o céu e a terra ..., e o espírito de Deus (ruah Elohim) adejava sobre as
águas»41. Este conceito bíblico de criação comporta
não só o chamamento à existência do próprio ser do cosmos, ou seja, o dom da existência, mas comporta
também a presença do Espírito de Deus na criação, isto é, o início do
comunicar-se salvífico de Deus às coisas que cria. Isto aplica-se, antes de mais, quanto ao homem, o
qual foi criado à imagem e semelhança de Deus: «Façamos o homem à nossa
imagem, à nossa semelhança»42. «Façamos»: poderá, acaso, dizer-se que o
plural, usado aqui pelo Criador ao referir-se a si mesmo, insinua já, de
algum modo, o mistério trinitário, a presença da Santíssima Trindade na
obra da criação do homem? O leitor cristão, que já conheça a revelação
deste mistério, pode descobrir um seu reflexo também nessas palavras. Em
todo o caso, o conteúdo do Livro do
Génesis permite-nos ver na criação do homem o primeiro princípio do
dom salvífico de Deus, na medida daquela «imagem e semelhança» de si
mesmo, por Ele outorgada ao homem.
13. Parece, portanto, que as palavras pronunciadas por
Jesus no discurso de despedida devem ser relidas também em conexão com
aquele «princípio» tão longínquo, mas fundamental, que conhecemos pelo Livro do Génesis. «Se eu não for,
o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei». Ao
referir-se à sua «partida» como
condição da «vinda» do Consolador, Cristo relaciona o novo princípio
da comunicação salvífica de Deus no Espírito Santo com o mistério da
Redenção. Este é um novo princípio antes de mais nada, porque entre o
primeiro princípio e toda a história do homem — a começar da queda
original — se interpôs o
pecado, que está em contradição com a presença do Espírito de Deus na
criação e está, sobretudo, em contradição com a comunicação
salvífica de Deus ao homem. São Paulo escreve que, precisamente por
causa do pecado, «a criação ... foi submetida à caducidade..., geme e
sofre no seu conjunto as dores do parto até ao presente» e «aguarda
ansiosamente e revelação dos filhos de Deus»43.
14. Por isso Jesus Cristo diz no Cenáculo: «É bem para
vós que eu vá ...»; «Se eu fôr, enviar-vo-lo-ei»44. A «partida» de Cristo mediante a Cruz tem a
potência da Redenção; e isto significa também uma nova presença do
Espírito de Deus na criação: o novo princípio do comunicar-se de Deus ao
homem no Espírito Santo. «Porque vós sois seus filhos, Deus enviou aos
vossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá! Pai!» — escreve o
apóstolo São Paulo, na Carta aos
Gálatas45. O Espírito Santo é o Espírito do Pai, como testemunham
as palavras do discurso de despedida, no Cenáculo. Ele é, simultaneamente,
o Espírito do Filho: é o Espírito de Jesus Cristo, como
viriam a testemunhar os Apóstolos e, de modo particular, Paulo de
Tarso46. No facto de enviar este Espírito «aos nossos
corações» começa a realizar-se o que «a própria criação aguarda
ansiosamente» como lemos na Carta
aos Romanos.
O Espírito Santo vem «à custa» da «partida» de Cristo.
Se essa «partida», anunciada no Cenáculo, causava a tristeza dos Apóstolos47, — a qual devia atingir o seu ponto
culminante na paixão e na morte de Sexta-Feria Santa — contudo, a mesma
«tristeza havia de converter-se em alegria»48. Cristo, efectivamente, inserirá na sua
«partida» redentora a glória da ressurreição e da ascensão ao Pai.
Portanto, a tristeza através da qual transparece a alegria, é a parte que
cabe aos Apóstolos na conjuntura da «partida» do seu Mestre, uma partida
«benéfica», porque graças a ela havia de vir um outro «Consolador»49. À custa da Cruz, operadora da Redenção, vem
o Espírito Santo, pelo poder de todo o mistério pascal de Jesus Cristo; e
vem para permanecer com os Apóstolos desde o dia de Pentecostes, para
permanecer com a Igreja e na Igreja e, mediante ela, no mundo.
Deste modo, realiza-se definitivamente aquele
novo princípio da comunicação
de Deus uno e trino no Espírito Santo, por obra de Jesus Cristo, Redentor
do homem e do mundo.
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4. O Messias, «ungido com o Espírito
Santo»
15. Realizou-se também cabalmente a missão do Messias,
isto é, daquele que recebera a plenitude do Espírito Santo, em favor do
Povo eleito por Deus e de toda a humanidade. «Messias», literalmente,
significa «Cristo», isto é, «Ungido»; e na história da salvação significa
«ungido com o Espírito Santo». Esta era a tradição profética do Antigo
Testamento. Atendo-se a ela, Simão Pedro, em casa de Cornélio, diria: «Vós
conheceis o que aconteceu por toda a Judeia... depois do baptismo pregado
por João: como Deus ungiu com o
Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré»50.
Destas palavras de São Pedro, e de muitas outras
semelhantes51, é preciso remontar, antes de mais, à
profecia de Isaías, algumas
vezes chamada «o quinto evangelho», ou então «o evangelho do Antigo
Testamento». Isaías, fazendo alusão à vinda dum personagem misterioso, que
a revelação neotestamentária identificará em Jesus, liga a sua pessoa e a
sua missão a uma acção particular do Espírito de Deus — Espírito do
Senhor. São estas as palavras do Profeta:
«Despontará um rebento do tronco de Jessé, e um
renovo brotará da sua raiz. Sobre ele pousará o espírito do
Senhor, espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de
conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus,
o no temor do Senhor está a sua inspiração»52.
Este texto é importante para toda a pneumatologia do
Antigo Testamento, porque constitui como que uma ponte entre o antigo
conceito bíblico do «espírito», entendido primeiro que tudo como «sopro
carismático», e o «Espírito» como pessoa e como dom, dom para a
pessoa. O Messias da estirpe de David («do tronco de Jessé») é
precisamente essa pessoa, sobre a qual «pousará» o Espírito do Senhor. É
evidente que, neste caso, não se pode falar ainda da revelação do
Paráclito; todavia, com essa alusão velada à figura do futuro Messias,
abre-se, por assim dizer, o caminho que, uma vez demandado, vai preparando
a revelação plena do Espírito Santo na unidade do mistério trinitário, a
qual se tornará manifesta, finalmente, na Nova Aliança.
16. Esse caminho é o próprio Messias. Na Antiga Aliança
a unção tinha-se tornado o símbolo externo do dom do Espírito. O Messias,
bem mais do que qualquer outro personagem ungido na Antiga Aliança, é o
único grande Ungido pelo próprio
Deus. É o ungido no sentido de possuir a plenitude do Espírito de
Deus. Ele mesmo será também o mediador para ser concedido este Espírito a
todo o Povo. Com efeito, são do mesmo Profeta estas outras palavras:
«O espírito do Senhor Deus está sobre mim, Porque o
Senhor consagrou-me com a
unção; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a pensar as
feridas dos corações quebrantados, a proclamar a redenção para os
cativos, a libertação para os prisioneiros, a promulgar o ano de
misericórdia do Senhor»53.
O Ungido é também enviado «com o Espírito do
Senhor»: «Agora o Senhor Deus me envia juntamente com o seu
espírito»54.
Segundo o Livro
de Isaías, o Ungido e o Enviado juntamente com o Espírito do Senhor é
também o eleito Servo do
Senhor, sobre o qual repousa o Espírito de Deus:
«Eis o meu servo que eu amparo o meu eleito, no qual
a minha alma pôs a sua complacência; fiz repousar sobre ele o meu
espírito»55.
Como é sabido, o Servo do Senhor é revelado no Livro de Isaías como o verdadeiro
Homem das dores: o Messias que
sofre pelos pecados do mundo56. E, simultaneamente, é ele mesmo Aquele cuja
missão produzirá para toda a
humanidade verdadeiros frutos de salvação:
«Ele levará o direito às nações ...»57; e tornar-se-á «a aliança do povo à luz das
nações ...»58; «para que leve a minha salvação até aos
confins da terra»59.
Porque:
«O meu Espírito, que desceu sobre ti e as palavras
que te pus na boca não se apartarão dos teus lábios nem da boca da
tua descendência nem da boca dos descendentes dos teus
descendentes, diz o Senhor, desde agora e para sempre»60.
Os textos proféticos que acabam de ser apresentados
devem ser lidos por nós à luz do
Evangelho; o Novo Testamento, por sua vez, adquire um esclarecimento
particular da admirável luz contida nestes textos vétero-testamentários. O
Profeta apresenta o Messias como aquele que vem com o Espírito Santo, como
aquele que possui em si a plenitude
deste Espírito; e, ao mesmo tempo, é portador d'Ele para os outros, para Israel, para
todas as nações, para toda a humanidade. A plenitude do Espírito de Deus é
acompanhada por múltiplos dons, os bens da salvação, destinados de modo
particular aos pobres e aos que sofrem - a todos aqueles que abrem os seus
corações a esses dons: isso acontece, algumas vezes mediante as
experiências dolorosas da própria existência; mas, primeiro que tudo, por
aquela disponibilidade interior que vem da fé. O velho Simeão, «homem
justo e piedoso», com o qual estava o Espírito Santo, teve a intuição
disso, no momento da apresentação de Jesus no Templo, quando vislumbrou
n'Ele a «salvação preparada em favor de todos os povos» à custa do grande
sofrimento — a Cruz — que ele deveria vir a abraçar juntamente com sua
Mãe61. Disso tinha também e ainda melhor a intuição
a Virgem Maria, que havia concebido do Espírito Santo62, quando meditava no seu coração os
«mistérios» do Messias, ao qual estava associada63.
17. É conveniente sublinhar, aqui neste ponto, que o
«espírito do Senhor», que «se pousa» sobre o futuro Messias, é,
claramente, antes de mais nada um
dom de Deus para a pessoa deste Servo do Senhor. Mas ele não é uma
pessoa isolada e independente, pois opera por vontade do Senhor, com o
poder da sua decisão ou escolha. Se bem que à luz dos textos de Isaías a
obra salvífica do Messias, Servo do Senhor, inclua a acção do Espírito que
se desenrola mediante ele próprio, todavia no seu contexto
vétero-testamentário não é sugerida a distinção dos sujeitos ou das
Pessoas divinas, tais como subsistem no mistério trinitário e serão
reveladas depois no Novo Testamento. Quer em Isaías, quer em todo o Antigo
Testamento, a personalidade do Espírito Santo acha-se
completamente escondida:
escondida na revelação do único Deus, bem como no anúncio profético do
futuro Messias.
18. No início da sua actividade messiânica, Jesus Cristo socorrer-se-á deste
anúncio, contido nas palavras de
Isaías. Isso aconteceria na cidade de Nazaré, onde ele tinha
transcorrido trinta anos de vida, na casa de José, o carpinteiro, ao lado
de Maria, a Virgem sua Mãe. Quando lhe foi dada a ocasião de tomar a
palavra na Sinagoga, tendo abrido o Livro de Isaías, encontrou a
passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim; por
isso me consagrou com a unção»; e depois de ter lido este texto, disse aos
presentes: «Cumpriu-se hoje esta
passagem da Escritura que acabais de ouvir»64. Deste modo, confessou e proclamou ser Aquele
que «foi ungido» pelo Pai, ser o Messias, isto é, Aquele no qual tem a sua
morada o Espírito Santo como dom do próprio Deus, Aquele que possui a
plenitude deste Espírito, Aquele que marca o «novo princípio» do dom que
Deus concede à humanidade no Espírito Santo.
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5. Jesus de Nazaré, «elevado» no Espírito
Santo
19. Embora Jesus não seja recebido como Messias na sua
terra de Nazaré, todavia, ao iniciar a sua actividade pública, a sua
missão messiânica no Espírito Santo foi revelada ao Povo por João Batista, filho de
Zacarias e de Isabel. Ele anuncia, junto do Jordão, a vinda do Messias e
administra o baptismo de penitência. Ele diz: «Eu baptizo-vos com água,
mas vai chegar quem é mais forte do que eu, a quem eu não sou digno nem
sequer de desatar as correias das sandálias: ele baptizar-vos-á com o Espírito
Santo e com o fogo»65.
João Baptista anuncia o Messias — Cristo, não apenas
como Aquele que «vem» com o
Espírito Santo, mas como Aquele que também «é portador» do Espírito Santo,
como seria melhor revelado por Jesus no Cenáculo. João torna-se, quanto a
isto, o eco fiel das palavras de Isaías; palavras que, proferidas pelo
antigo Profeta, diziam respeito ao futuro, ao passo que no seu ensino, nas
margens do Jordão, constituem a introdução imediata à nova realidade
messiânica. João é não só profeta, mas também mensageiro: é o precursor de
Cristo. Aquilo que ele anuncia realiza-se diante dos olhos de todos. Jesus
de Nazaré vem ao Jordão para receber, também ele, o baptismo de
penitência. A vista do recém-chegado, João proclama: «Aí está o Cordeiro
de Deus, que vai tirar o pecado do mundo»66. E diz isso por inspiração do Espírito
Santo67 dando
testemunho do cumprimento da profecia de Isaías. Ao mesmo tempo
confessa a fé na missão redentora de Jesus de Nazaré. Nos lábios de João
Baptista as palavras «Cordeiro de Deus» encerram uma afirmação da verdade
quanto ao Redentor, não menos significativa que as palavras usadas por
Isaías: «Servo do Senhor».
Deste modo, com o testemunho de João junto do Jordão,
Jesus de Nazaré, rejeitado pelos próprios conterrâneos, é elevado aos olhos de Israel como
Messias, ou seja «Ungido» com o Espírito Santo. E o testemunho de João
Baptista é corroborado por um outro testemunho de ordem superior,
mencionado pelos três Evangelhos Sinópticos. Com efeito, quando todo o
povo tinha sido baptizado e no momento em que Jesus, recebido o baptismo,
estava em oração, «abriu-se o céu e o Espírito Santo desceu sobre ele em
forma corporal, como uma pomba»68; e, simultaneamente, ouviou-se uma voz vinda
do céu que dizia: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas
complacências»69.
É uma teofania
trinitária, que dá testemunho da exaltação de Cristo, por ocasião do
baptismo no Jordão. Ela não só confirma o testemunho de João Baptista, mas
revela uma dimensão ainda mais profunda da verdade acerca de Jesus de
Nazaré como Messias. Ou seja: o Messias é o Filho muito amado do
Pai. A sua exaltação solene não se reduz à missão messiânica do «Servo
do Senhor». A luz da teofania do Jordão, esta exaltação alcança o mistério
da própria Pessoa do Messias. Ele é exaltado porque é o Filho da
complacência divina. A voz do Alto diz: «o meu Filho».
20. A teofania do Jordão ilumina somente de modo fugaz
o mistério de Jesus de Nazaré, cuja actividade será toda ela desenvolvida
com a presença do Espírito Santo70. Este mistério viria a ser gradualmente
desvendado e confirmado por Jesus, mediante tudo o que «fez e
ensinou»71. Atendo-nos à linha deste ensino e dos sinais
messiânicos realizados pelo mesmo Jesus, antes do discurso de despedida no
Cenáculo, encontramos acontecimentos e palavras que constituem momentos
particularmente importantes dessa revelação progressiva. Assim o
evangelista São Lucas, que já tinha apresentado Jesus «cheio de Espírito
Santo» e «conduzido pelo Espírito ao deserto»72. faz-nos cientes de que, após o regresso dos
setenta e dois discípulos da missão que lhes fora confiada pelo
Mestre73, enquanto eles cheios de alegria lhe
relatavam os frutos do seu trabalho, nesse mesmo «momento Jesus exultou de alegria sob a acção
do Espírito Santo e disse: «Eu te dou graças, ó Pai, Senhor do céu e
da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e
as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do Teu
agrado»74. Jesus exulta pela paternidade divina: exulta
porque lhe foi dado revelar esta paternidade; exulta, por fim, por uma
como que irradiação e special da me sma paternidade divina sobre os
«pequeninos». E o Evangelista qualifica tudo isto como uma «exultação no
Espírito Santo».
Esta «exultação» impele Jesus, em certo sentido, a
dizer ainda algo mais. Ouçamos: «Todas as coisas me foram entregues por
meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o
quiser revelar»75.
21. Aquilo que durante a teofania do Jordão veio, por
assim dizer, «do exterior», do Alto, aqui provém «do interior», isto é, do mais íntimo do ser que é Jesus.
É uma outra revelação do Pai e do Filho, unidos no Espírito Santo. Jesus
fala só da paternidade de Deus e da própria filiação; não fala
directamente do Espírito que é Amor e, por isso, união do Pai e do Filho.
Não obstante, aquilo que ele diz do
Pai e de Si-Filho brota daquela plenitude do Espírito que está
nele mesmo e se derrama no seu coração, impregna o seu próprio «Eu»,
inspira e vivifica, a partir da profundeza do que Ele é, a sua acção.
Daqui esse seu «exultar no Espírito Santo». A união de Cristo com o
Espírito Santo, da qual Ele tem uma consciência perfeita, exprime-se nessa
«exultação», que torna «perceptível», de certa maneira, a sua fonte
recôndita. Dá-se assim uma especial manifestação e exaltação próprias do
Filho do Homem, de Cristo-Messias, cuja humanidade pertence à Pessoa do
Filho de Deus, substancialmente uno com o Espírito Santo na divindade.
Na magnífica confissão da paternidade de Deus, Jesus de
Nazaré manifesta-se também a si mesmo, o seu «Eu» divino: Ele é
efectivamente, o Filho «da mesma
substância» (consubstancial); e, por isso, «ninguém conhece quem é o
Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, aquele Filho que «por
nós, homens, e para nossa salvação» se fez homem, «por obra do Espírito Santo» e
nasceu de uma virgem, cujo nome era Maria.
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6. Cristo:Ressuscitado disse: «Recebei o Espírito
Santo»
22. É São Lucas que, graças à sua narração, nos leva a
aproximar-nos, o máximo que é possível, da verdade contida no discurso do
Cenáculo. Jesus de Nazaré, «elevado» no Espírito Santo, ao longo desse
discurso e colóquio, manifesta-se como Aquele que é «portador» do
Espírito, como Aquele que o deve trazer e «dar» aos Apóstolos e à
Igreja à custa da sua «partida» mediante a Cruz.
Com o verbo «trazer», aqui, quere-se dizer, primeiro que tudo, «revelar». No
Antigo Testamento, desde o Livro do
Génesis, o Espírito de Deus foi dado a conhecer, de alguma maneira,
antes de mais como «sopro» de
Deus que dá a vida, como «um sopro vital» sobrenatural. No Livro de Isaías é apresentado como
um «dom» para a pessoa do
Messias, como Aquele que repousa sobre ele, para ser, de dentro, o guia de
toda a sua actividade salvífica. Junto do Jordão, o anúncio de Isaías
revestiu-se de uma forma concreta: Jesus de Nazaré é aquele que vem com o Espírito Santo e o
«traz» como dom peculiar da sua própria Pessoa, para efundi-lo através da
sua humanidade: «Ele vos baptizará no Espírito Santo». 76 No Evangelho de São Lucas é confirmada e
enriquecida esta revelação do Espírito Santo, como fonte íntima da vida e da
acção messiânica de Jesus Cristo.
À luz daquilo que o mesmo Jesus diz no discurso do
Cenáculo, o Espírito Santo é revelado de um modo novo e mais amplo. Ele é
não só o dom à Pessoa (à Pessoa
do Messias), mas é também uma Pessoa-Dom! Jesus anuncia a sua
vinda como a de «um outro Consolador», o qual, sendo o Espírito da
verdade, guiará os Apóstolos e a Igreja «a toda a verdade». 77 Isto realizar-se-á em virtude da particular
comunhão entre o Espírito Santo e Cristo: «há-de receber do que é meu para
vo-lo anunciar». 78 Esta comunhão tem a sua fonte primária no Pai: «Tudo
quanto o Pai tem é meu; por isso eu vos disse que Ele há-de receber do que
é meu para vo-lo anunciar». 79 Provindo do Pai, o Espírito Santo é enviado
de junto do Pai. 80 O Espírito Santo foi enviado, primeiro, como dom para o Filho
que se fez homem, para se cumprirem as profecias messiânicas. Depois da «partida» de Cristo, do
Filho, segundo o texto joanino, o Espírito Santo «virá» directamente — é a sua nova
missão — para consumar a obra do Filho. Deste modo, será Ele quem levará à
realização plena a nova era da história da salvação.
23. Encontramo-nos no limiar dos acontecimentos
pascais. Vai completar-se a nova e definitiva revelação do Espírito Santo
como Pessoa que é o Dom, precisamente neste momento. Os eventos pascais — a paixão, a
morte e a ressurreição de Cristo — são também o tempo da nova vinda do Espírito
Santo, como Paráclito e Espírito da verdade. Eles constituem o tempo do
«novo princípio» da comunicação de Si mesmo da parte de Deus uno e trino à
humanidade, no Espírito Santo por obra de Cristo Redentor. Este novo
princípio é a Redenção do mundo: «Com efeito, Deus amou de tal modo o
mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito». 81 Ao «dar» o Filho, no dom do Filho, já se exprime a
essência mais profunda de Deus, o qual, sendo Amor, é a fonte inexaurível
da dádiva. No dom concedido pelo
Filho completam-se a revelação e a dádiva do Amor eterno: o Espírito Santo, que nas
profundezas imperscrutáveis da divindade é uma Pessoa-Dom, por obra do
Filho, isto é, mediante o mistério pascal de Cristo, é dado de uma maneira
nova aos Apóstolos e à Igreja e, por intermédio deles, à humanidade e ao
mundo inteiro.
24. A expressão definitiva deste mistério dá-se no dia da Ressurreição. Neste dia,
Jesus de Nazaré, «nascido da descendência de David segundo a carne» — como
escreve o apóstolo São Paulo — é «constituído Filho de Deus com todo o
poder, segundo o Espírito de santificação, mediante a ressurreição dos
mortos». 82 Pode dizer-se, assim, que a «elevação»
messiânica de Cristo no Espírito Santo atingiu o seu auge na Ressurreição,
quando ele se revelou como Filho de
Deus, «cheio de poder». E este poder, cujas fontes jorram da
imperscrutável comunhão trinitária, manifesta-se, antes de mais nada, pelo
duplo feito de Cristo Ressuscitado: realizar, por um lado, a promessa de
Deus já expressa pela boca do Profeta: «Dar-vos-ei um coração novo ...
porei dentro de vós um espírito novo, o meu espírito»; 83 e cumprir, por outro lado, a sua própria
promessa, feita aos Apóstolos com estas palavras: «Quando eu for, vo-lo
enviarei». 84 É Ele: o Espírito da verdade, o Paráclito
enviado por Cristo Ressuscitado para nos transformar e fazer de nós a sua
própria imagem de Ressuscitado. 85
Sucedeu que «na tarde desse dia, que era o primeiro da
semana, depois do sábado, estando fechadas as portas do lugar onde se
encontravam os discípulos, por medo dos judeus, veio Jesus, colocou-se no
meio deles e disse-lhes: "A paz seja convosco". Dito isto, mostrou-lhes as
mãos e o lado. E os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o
Senhor. Jesus disse-lhes de novo: "A paz seja convosco! Assim como o Pai
me enviou, também eu vos envio a vós". Dito isso, soprou sobre eles e
disse-lhes: " Recebei o Espírito
Santo"». 86
Todos os pormenores deste texto-chave do Evangelho de São João têm o seu
significado, especialmente se os relermos em conexão com as palavras
pronunciadas por Cristo no mesmo Cenáculo, no início dos acontecimentos
pascais. Estes eventos — o triduum
sacrum de Jesus, que o «Pai consagrou com a unção e enviou ao mundo» —
tiveram a sua consumação. Cristo, que «tinha entregado o espírito» sobre a Cruz, 87 como Filho do homem e Cordeiro de Deus, uma
vez ressuscitado, vai ter com os Apóstolos para «soprar sobre eles» com aquele
poder de que fala a Carta aos
Romanos. 88 A vinda do Senhor enche de alegria os
presentes: «A sua tristeza converte-se em alegria», 89 como Ele já lhes tinha prometido antes da sua
paixão. E sobretudo verifica-se o anúncio principal do discurso de
despedida: Cristo ressuscitado, como que dando início a uma nova criação,
«traz» aos Apóstolos o Espírito Santo.
Trá-lo à custa da sua «partida»; dá-lhes o Espírito como que através das
feridas da sua crucifixão: «mostrou-lhes as mãos e o lado». É em virtude
da mesma crucifixão que Ele lhes diz: «Recebei o Espírito Santo».
Estabelece-se assim uma íntima ligação entre o envio do Filho e o do Espírito
Santo. Não existe envio do Espírito Santo (depois do pecado original)
sem a Cruz e a Ressurreição: «Se eu não for, não virá a vós o Consolador».
90 Estabelece-se também uma íntima ligação entre a missão do
Espírito Santo e a missão do Filho na Redenção. Esta missão do Filho,
num certo sentido, tem o seu «cumprimento» na Redenção. A missão do
Espírito Santo «vai haurir» algo da Redenção: «Ele receberá do que é meu
para vo-lo anunciar». 91 A Redenção é totalmente operada pelo
Filho, como o Ungido, que veio e agiu com o poder do Espírito Santo,
oferecendo-se por fim em sacrifício supremo no madeiro da Cruz. E esta
Redenção, ao mesmo tempo, é constantemente operada nos corações e nas
consciências humanas — na história do mundo — pelo Espírito Santo, que é o
«outro Consolador».
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7. O Espírito Santo e o tempo da
Igreja
25. «Consumada a obra que o Pai tinha confiado ao Filho
sobre a terra» (cf. Jo 17, 4),
no dia do Pentecostes foi enviado o
Espírito Santo para santificar continuamente a Igreja, e, assim, os
que viessem a acreditar tivessem, mediante Cristo, acesso ao Pai num só
Espírito» (cf. Ef 2, 18). Este
é o Espírito da vida, a fonte de água que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4, 14; 7, 38-39); é Aquele por
meio do qual o Pai dá novamente a vida aos homens, mortos pelo pecado, até
que um dia ressuscite em Cristo os seus corpos mortais (cf.Rom 8, 10-11)». 92
É deste modo que o Concílio Vaticano II fala do nascimento da Igreja no dia de
Pentecostes. Este acontecimento constitui a manifestação definitiva
daquilo que já se tinha realizado no mesmo Cenáculo no Domingo da
Páscoa. Cristo Ressuscitado veio e foi «portador» do Espírito Santo para
os Apóstolos. Deu-lho dizendo: «Recebei o Espírito Santo». Isso que
aconteceu então no interior do Cenáculo, «estando as portas fechadas»,
mais tarde, no dia do Pentecostes, viria a manifestar-se publicamente
diante dos homens. Abrem-se as portas do Cenáculo e os Apóstolos
dirigem-se aos habitantes e peregrinos, que tinham vindo a Jerusalém por
ocasião da festa, para dar testemunho de Cristo com o poder do Espírito
Santo. E assim se realiza o anúncio de Jesus: «Ele dará testemunho de mim: e também vós dareis testemunho de
mim, porque estivestes comigo desde o princípio». 93
Num outro documento do Concílio Vaticano II lemos: «Sem
dúvida que o Espírito Santo estava já a operar no mundo, antes ainda que
Cristo fosse glorificado. Contudo, foi no dia de Pentecostes que ele
desceu sobre os discípulos, para permanecer com eles eternamente (cf. Jo 14, 16); e a Igreja apareceu
publicamente diante da multidão e teve o seu início a difusão do Evangelho
entre os pagãos, através da pregação».94
O tempo da
Igreja teve início com a «vinda», isto é, com a descida do Espírito
Santo sobre os Apóstolos, reunidos no Cenáculo de Jerusalém juntamente com
Maria, a Mãe do Senhor. 95 O tempo da Igreja teve início no momento em
que as promessas e os anúncios,
que tão explicitamente se referiam ao Consolador, ao Espírito da verdade,
começaram a verificar-se sobre os Apóstolos, com potência e com toda a
evidência, determinando assim o nascimento da Igreja. Disto falam em
muitas passagens e amplamente os Actos dos Apóstolos, dos quais nos
resulta que, segundo a consciência da primitiva comunidade — da qual São
Lucas refere as certezas — o
Espírito Santo assumiu a orientação invisível — mas de algum modo
«perceptível» — daqueles que, depois da partida do Senhor Jesus, sentiam
profundamente o terem ficado órfãos. Com a vinda do Espírito eles
sentiram-se capazes de cumprir a missão que lhes fora confiada.
Sentiram-se cheios de fortaleza. Foi isto precisamente que o Espírito
Santo operou neles; e é isto que Ele continua a operar na Igreja, mediante
os seus sucessores. Com efeito, a graça do Espírito Santo, que os
Apóstolos, pela imposição das mãos, transmitiram aos seus colaboradores,
continua a ser transmitida na Ordenação episcopal. Os Bispos, por sua vez,
depois tornam participantes desse dom espiritual os ministros sagrados,
pelo sacramento da Ordem; e providenciam ainda para que, mediante o
sacramento da Confirmação, sejam fortalecidos com ele todos os que tiverem
renascido pela água e pelo Espírito Santo. E assim se perpetua na Igreja
de certo modo, a graça do Pentecostes.
Como escreve o Concílio, «o Espírito Santo habita na Igreja
e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19); e neles ora e
dá testemunho da sua adopção filial (cf. Gál 4, 6; Rom 8, 15-16. 26). Ele introduz a Igreja no conhecimento
de toda a verdade (cf. Jo 16, 13), unifica-a na comunhão
e no ministério, edifica-a e dirige-a com os diversos dons hierárquicos e
carismáticos e enriquece-a com os seus frutos (cf. Et 4, 11-12; 1 Cor 12, 4; Gál 5, 22). Faz ainda com que a Igreja se mantenha sempre jovem,
com a força do Evangelho, renova-a continuamente e leva-a à perfeita união com o seu
Esposo». 96
26. As passagens que acabamos de recordar, da
Constituição Conciliar Lumen
Gentium, dizem-nos que, com a vinda do Espírito Santo, começou o tempo
da Igreja. Dizem-nos ainda que este tempo, o tempo da Igreja, continua.
Perdura através dos séculos e das
gerações. No nosso século, neste período em que a humanidade se tem
vindo a aproximar do termo do segundo Milénio depois de Cristo, este
«tempo da Igreja» teve uma sua particular expressão no Concílio Vaticano II, como
Concílio do nosso século. Sabe-se, com efeito, que ele foi, de maneira
especial, um Concílio «eclesiológico»: um Concílio sobre o tema da Igreja.
Ao mesmo tempo, porém, o ensino deste Concílio é essencialmente
«pneumatológico»: impregnando da
verdade sobre o Espírito Santo, como alma da Igreja. Podemos dizer que
no seu rico magistério o Concílio Vaticano II contém praticamente tudo o
«que o Espírito diz às Igrejas» 97 em função da presente fase da história da
salvação.
Seguindo como guia ao Espírito da verdade e dando
testemunho juntamente com Ele, o Concílio ofereceu uma especial confirmação da presença do
Espírito Santo Consolador. Tornou-o, em certo sentido, novamente
«presente» na nossa época difícil. A luz desta convicção, compreende-se
melhor a grande importância de todas as iniciativas que têm em vista a
actuação do Concílio Vaticano II, do seu magistério e da sua linha
pastoral e ecuménica. É neste sentido que devem ser bem consideradas e
avaliadas as Assembleias do Sínodo
dos Bispos que se foram sucedendo e que tiveram em vista fazer com que
os frutos da Verdade e do Amor — os frutos autênticos do Espírito Santo —
se tornem um bem duradouro do Povo de Deus na sua peregrinação terrena ao
longo dos séculos. É indispensável este trabalho da Igreja, visando a
avaliação e a consolidação dos frutos salvíficos do Espírito, doados
generosamente no Concílio. Para alcançar este objectivo é necessário saber
«discerni-los» com atenção de tudo aquilo que, contrariamente, possa
provir sobretudo do «príncipe deste mundo». 98 Este discernimento é tanto mais necessário,
na realização da obra do Concílio, quanto é um facto que este se abriu de modo muito amplo ao mundo
contemporâneo, como o demonstram claramente as importantes
Constituições conciliares Gaudium
et spes e Lumen
gentium.
Lemos, com efeito, na Constituição pastoral: «Eles (os
discípulos de Cristo) são uma comunidade de homens, congregados em Cristo
e que são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação para o Reino do
Pai; e são portadores de uma mensagem de salvação, que devem comunicar a
todos. É por isso que a mesma comunidade dos cristãos se sente real e
intimamente solidária com o género
humano e com a sua história». 99 «A Igreja sabe muito bem que só Deus, a quem
ela serve, satisfaz os desejos mais profundos do coração humano, o qual
nunca se sacia plenamente só com os bens terrestres». 100 «O
Espírito de Deus... dirige com admirável providencia, o curso dos tempos e
renova a face da terra». 101
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SEGUNDA PARTE - O ESPÍRITO QUE
CONVENCE O MUNDO QUANTO AO PECADO
1. Pecado, justiça e juízo
27. Quando Jesus, durante o discurso de despedida no
Cenáculo, anuncia a vinda do Espírito Santo «à custa» da própria partida e
promete: «Quando eu for, vo-lo enviarei», precisamente nesse contexto,
acrescenta: «E Ele, quando vier,
convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao
juízo». 102 O mesmo Consolador e Espírito da verdade —
que fora prometido como Aquele que «ensinará» e «recordará», como Aquele
que «dará testemunho» e como Aquele que «guiará para toda a verdade» — é
anunciado agora, com as palavras citadas, como Aquele que «convencerá o
mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo».
Parece ser também significativo o contexto. Jesus relaciona este
anúncio do Espírito Santo com as palavras que indicam a própria «partida»,
mediante a Cruz, e que, mais ainda, realçam a necessidade da mesma
«partida»: «É melhor para vós que eu vá; porque, se eu não for, o
Consolador não virá a vós». 103
Mas o que conta mais é a explicação que Jesus acrescenta
a estas três palavras: pecado, justiça e juízo. Com efeito, diz assim:
«Ele convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao
juízo. Quanto ao pecado, porque não crêem em mim; quanto à justiça, porque
eu vou para o Pai e não me vereis mais; e quanto ao juízo, porque o
príncipe deste mundo já está juIgado». 104 No pensamento de Jesus, o pecado, a justiça
e o juízo têm um sentido bem
preciso, diverso daquele que alguém pretendesse, porventura, atribuir
a tais palavras, independentemente da explicação de Quem fala. Esta
explicação indica também como deve ser entendido aquele «convencer o
mundo», que é próprio da acção do Espírito Santo. Aqui têm importância:
quer o significado de cada palavra, quer o facto de Jesus as ter unido
entre si na mesma frase.
«O pecado»,
nesta passagem, significa a incredulidade que Jesus encontrou no meio dos
«seus», a começar pelos próprios conterrâneos de Nazaré. Significa a
rejeição da sua missão, que levará os homens a condená-lo à morte. Quando
fala, em seguida, da «justiça»,
Jesus parece ter em mente aquela justiça definitiva, que o Pai lhe fará,
revestindo-o da glória da ressurreição e da ascensão ao céu: «Vou para o
Pai». No contexto do «pecado» e da «justiça» assim entendidos, «o juízo» significa, por sua vez,
que o Espírito da verdade demonstrará a culpa do «mundo» na condenação de
Jesus à morte de Cruz. No entanto, Cristo não veio ao mundo somente para o
julgar e condenar: Ele veio para o
salvar. 105 O convencer quanto ao pecado e quanto à
justiça tem como finalidade a salvação do mundo, a salvação dos homens. É
esta verdade, precisamente, que parece ser acentuada pela afirmação de que
«o juízo» afecta somente o «príncipe deste mundo», isto é,
Satanás, aquele que, desde o princípio explora a obra da criação contra a
salvação, contra a aliança e a união do homem com Deus: ele «já está
julgado» desde o princípio. Se o Espírito Consolador deve convencer o
mundo, exactamente quanto ao juízo, é para continuar nele a obra salvífica
de Cristo.
28. Queremos agora concentrar a nossa atenção
principalmente nesta missão do Espírito Santo, qual é a de «convencer o mundo quanto ao
pecado», mas respeitando, ao mesmo tempo, o contexto geral das
palavras de Jesus no Cenáculo. O Espírito Santo, que assume do Filho a
obra da Redenção do mundo, assume por isso mesmo a função de o «convencer
quanto ao pecado» em ordem à salvação. Este convencer realiza-se em constante referência à
«justiça», isto é, à salvação definitiva em Deus, à efectivação da
economia que tem como centro Cristo crucificado e glorificado. E esta economia salvífica de Deus
subtrai, em certo sentido, o homem ao «juízo, isto é, à condenação, com
que foi punido o pecado de Satanás, «príncipe deste mundo», aquele que,
por causa do seu pecado, se tornou «dominador deste mundo tenebroso».
106 É assim que, mediante esta referência ao
«juízo», se patenteiam vastos horizontes para a compreensão do «pecado»,
bem como da «justiça». O Espírito Santo, mostrando o pecado na economia da salvação,
tendo como fundo a Cruz de Cristo, (dir-se-ia «o pecado salvado»), leva
também a compreender como a sua missão é a de «convencer» mesmo quanto ao
pecado que já foi definitivamente julgado («o pecado condenado»).
29. Todas as palavras pronunciadas pelo Redentor no
Cenáculo, nas vésperas da sua Paixão, se inscrevem no tempo da Igreja.
Em primeiro lugar, as palavras que se referem ao Espírito Santo, como
Paráclito e Espírito da verdade: elas inscrevem-se, de um modo sempre
novo, em cada geração e em cada época. Isto é confirmado, quanto ao nosso
século, pelo conjunto dos ensinamentos do Concílio Vaticano II,
especialmente na Constituição
pastoral «Gaudium et spes». Muitas passagens deste documento indicam
claramente que o Concílio, abrindo-se à luz do Espírito da verdade, se
apresenta como o depositário
autêntico dos anúncios e das promessas feitas por Cristo aos Apóstolos
e à Igreja no discurso da despedida; de modo particular, daquele anúncio
segundo o qual o Espírito Santo deve «convencer o mundo quanto ao pecado,
quanto à justiça e quanto ao juízo».
Isto é indicado já no texto em que o mesmo Concílio explica como entende o
«mundo»: ele «tem diante dos olhos o mundo dos homens, ou seja, a
inteira familia humana, no contexto de todas aquelas realidades no meio
das quais ela vive; o mundo que é teatro da história do género humano,
marcado pelos esforços do homem, pelas suas derrotas e pelas suas
vitórias; o mundo que os cristãos acreditam ser criado e conservado pelo
amor do Criador; mundo caído, sem dúvida, sob a escravidão do pecado, mas
libertado por Cristo
crucificado e ressuscitado, com a derrota do Maligno, a fim de ser
transformado e poder alcançar, segundo os desígnios de Deus, a própria
realização». 107 Em conexão com este texto, muito sintético,
é necessário ler na mesma Constituição as outras passagens em que se
procura mostrar, com todo o
realismo da fé, a situação do pecado no mundo contemporâneo e também
explicar a sua essência, partindo de diversos pontos de vista. 108
Quando Jesus, nas vésperas da Páscoa, fala do Espírito
Santo como d'Aquele que «convencerá o mundo quanto ao pecado», por um
lado, deve dar-se a esta sua afirmação o alcance mais vasto possível, uma
vez que ela abrange todo o conjunto dos pecados na história da humanidade;
mas, por outro lado, quando Jesus explica que este pecado consiste no
facto de que «não crêem» n'Ele, tal alcance parece limitar-se àqueles que rejeitaram
a sua missão messiânica de Filho do homem, condenando-o à morte de Cruz.
Entretanto, é difícil deixar de notar como este alcance, mais «reduzido» e
circunscrito historicamente do significado do pecado, se alarga até
assumir uma amplidão universal, em
virtude da universalidade da obra da Redenção que se realizou por meio
da Cruz. A revelação do mistério da Redenção abre os caminhos para uma
compreensão assim, na qual todos os
pecados que se cometeram, em qualquer lugar e em qualquer momento, são
referidos à Cruz de Cristo, incluindo indirectamente, portanto, também o
pecado dos que «não acreditaram n'Ele», condenando o mesmo Jesus Cristo à
morte de Cruz.
É a partir deste indispensável ponto de vista que nos
importa voltar agora ao acontecimento do Pentecostes.
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2. O testemunho do dia de Pentecostes
30. No dia de Pentecostes, teve a sua mais exacta e
directa confirmação aquilo que fora
anunciado por Cristo no discurso da despedida; em particular, o anúncio de que estamos a tratar «O
Consolador ... convencerá o mundo quanto ao pecado». Nesse dia, sobre os
Apóstolos congregados no mesmo Cenáculo em oração, juntamente com Maria,
Mãe de Jesus, desceu o Espírito
Santo prometido, como lemos nos Actos dos Apóstolos: «Todos
ficaram cheios de Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas,
segundo o Espírito lhes concedia que se exprimissem» 109 «reconduzindo desse modo à unidade as raças
dispersas e oferecendo ao Pai as primícias de todas as nações». 110
Aparece clara, aqui, a relação entre o anúncio feito
por Cristo e este acontecimento. Entrevemos nele o primeiro e fundamental
cumprimento da promessa do Paráclito. Este, enviado pelo Pai, vem «depois» da partida de Cristo, «à
custa» da mesma. Trata-se de uma partida, primeiro, mediante a morte
de Cruz; e depois, passados quarenta dias após a ressurreição, mediante a
ascenção ao Céu. Nesse momento da ascensão, Jesus deu ainda aos Apóstolos
ordem «de não se afastarem de Jerusalém, mas de esperarem lá a realização
da promessa do Pai»; «sereis
baptizados no Espírito Santo, dentro de não muitos dias»; «recebereis
uma força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas
testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins
da terra». 111
Estas últimas palavras condensam um eco, ou uma
recordação, do anúncio feito no Cenáculo. E no dia de Pentecostes esse
anúncio realiza-se com toda a exactidão. Agindo sob o influxo do Espírito
Santo, recebido pelos Apóstolos quando estavam em oração no Cenáculo, São Pedro apresenta-se e fala
diante de uma multidão de pessoas de diferentes línguas, reunidas para a
festa. Proclama aquilo que, de certeza, não teria tido a coragem de dizer
anteriormente: «Homens de Israel,... Jesus de Nazaré — homem
acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais, que
Deus realizou no meio de vós por seu intermédio... depois de vos ser
entregue, segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o
pregastes na Cruz, por mão de
ímpios e o matastes. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o das angústias da
morte, pois não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio». 112
Jesus tinha predito e prometido: «Ele (o Espírito
Santo)... dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho de mim».
No primeiro discurso de São Pedro em Jerusalém, de forma bem clara tem o seu início esse testemunho:
o testemunho a respeito de Cristo, crucificado e ressuscitado. O
testemunho do Espírito Paráclito e dos Apóstolos. E no próprio conteúdo
desse primeiro testemunho, o Espírito da verdade, pela boca de São Pedro,
«convence o mundo quanto ao
pecado»: convence-o, antes de mais, quanto àquele pecado que é a
rejeição de Cristo, até à sua condenação à morte, até à Cruz no Gólgota.
Repetir-se-ão as proclamações de conteúdo análogo, segundo o texto dos Actos dos Apóstolos, noutras
ocasiões e em diversos lugares. 113
31. A partir deste primeiro testemunho do Pentecostes,
a acção do Espírito da verdade, que «convence o mundo quanto ao pecado» da
rejeição de Cristo, anda ligada
de modo orgânico com o testemunho
que deve ser dado do mistério pascal: do mistério do Crucificado e do
Ressuscitado. E nesta conexão o mesmo «convencer quanto ao pecado»
revela a própria dimensão salvífica. Trata-se, de facto, de um
«convencimento» que tem como finalidade não a mera acusação do mundo nem, menos
ainda, apenas a sua condenação;
Jesus Cristo veio ao mundo não para o julgar e condenar, mas sim para o salvar. 114 Isto é bem salientado já neste primeiro
discurso, quando São Pedro exclama: «Saiba toda a casa de Israel, com
absoluta certeza, que Deus constituiu como Senhor e Messias, esse Jesus
que vós crucificastes». 115 E, em seguida, quando as pessoas presentes
perguntaram a São Pedro e aos Apóstolos: «que havemos de fazer, irmãos?»,
o mesmo São Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um o
Baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados;
recebereis, então, o dom do Espírito Santo». 116
Deste modo, o «convencer quanto ao pecado» torna-se conjuntamente
um convencer quanto à remissão dos
pecados, pelo poder do Espírito Santo. São Pedro, no seu discurso em
Jerusalém, exorta à conversão, como Jesus exortava os seus ouvintes no
início da sua actividade messiânica. 117 A conversão exige a convicção do pecado e contém em si
o juízo interior da consciência; e este, sendo uma comprovação da acção do
Espírito da verdade no íntimo do homem, torna-se ao mesmo tempo o novo
princípio da generosa dádiva da graça e do Amor: «Recebei o Espírito
Santo». 118 Assim, neste «convencer quanto ao pecado»,
descobrimos uma dupla dádiva: o dom da verdade da consciência, com o dom
da certeza da redenção. O Espírito da Verdade é o Consolador.
O convencer quanto ao pecado, mediante o ministério do
anúncio apostólico na Igreja nascente, é referido — sob o impulso do
Espírito derramado no Pentecostes — ao poder redentor de Cristo
crucificado e ressuscitado. Assim se verifica a promessa relativa ao
Espírito Santo, feita antes da Páscoa: «Ele receberá do que é meu, para
vo-lo anunciar». Por conseguinte, durante o evento do Pentecostes, quando
São Pedro fala do pecado daqueles
que «não acreditaram» 119 e entregaram a uma morte ignominiosa Jesus
de Nazaré, ele dá testemunho da vitória sobre o pecado; uma vitória que se
consumou, em certo sentido, mediante o maior pecado que o homem podia
cometer: a morte de Jesus, Filho de
Deus, consubstancial ao Pai! De modo análogo, pois, como a morte do
Filho de Deus vence a morte humana: «Ero mors tua, o mors» [ó morte, eu
hei-de ser a tua morte], 120 assim o pecado de ter crucificado o Filho de Deus «vence» o pecado
humano! Vence aquele pecado que se consumou em Jerusalém, na
Sexta-feira Santa, como também cada pecado do homem. Com efeito, ao maior
pecado da parte do homem corresponde, no coração do Redentor, a oblação do supremo amor, que
supera o mal de todos os pecados dos homens. Com base nesta certeza, a
Igreja, na Liturgia romana, não hesita em repetir todos os anos, durante a
Vigília pascal, «O felix
culpa!» [Ó ditosa culpa!], no anúncio da Ressurreição que o diácono
faz com o canto do «Exultet».
32. Ninguém pode, todavia, «convencer o
mundo», o homem e a consciência humana quanto a esta verdade inefável
a não ser Ele mesmo, o Espírito da
Verdade. Ele é o Espírito, que «perscruta as profundezas de Deus».
121 Diante do mistério do pecado, é preciso
perscrutar «as profundezas de Deus» até onde for possível. Não basta
perscrutar a consciência humana, como mistério íntimo do homem; mas é
imprescindível penetrar no mistério íntimo de Deus, naquelas «profundezas
de Deus» que se resumem na síntese: «ao Pai — no Filho — por meio do
Espírito Santo». É exactamente o Espírito Santo que as «perscruta»; e
a elas vai buscar a resposta de
Deus ao pecado do homem. Com essa resposta encerra-se o processo de
«convencer quanto ao pecado», como o acontecimento do Pentecostes põe em
evidência.
Convencendo o «mundo» do pecado do Gólgota, da morte do
Cordeiro inocente, como aconteceu no dia do Pentecostes, o Espírito Santo
convence também de todos os pecados cometidos em qualquer lugar e em
qualquer momento na história do homem: Ele, com efeito, fez ver a sua conexão com a Cruz de
Cristo. O «convencer» é a demonstração do mal do pecado, de qualquer
pecado, em relação com a Cruz de Cristo. O pecado, quando mostrado com
esta relação, é reconhecido em toda
dimensão do mal que lhe é própria, como «mysterium iniquitatis» [o mistério
da iniquidade] 122 que em si mesmo contém e esconde. O homem
não conhece esta dimensão — não a pode conhecer absolutamente, separando-a
da Cruz de Cristo. Por isso, não pode ser «convencido» quanto a ela se não pelo Espírito Santo:
Espírito da verdade, mas também Consolador.
O pecado, de facto, mostrado em relação com a Cruz de
Cristo, é identificado
simultaneamente na plena dimensão do «mysterium pietatis» [mistério da
piedade], 123 como foi indicado na Exortação Apostólica
pós-sinodal Reconciliatio et
Paenitentia. 124 O homem também não conhece, de maneira
nenhuma, esta dimensão do pecado fora da Cruz de Cristo. E também não pode
ser dela «convencido» se não pelo
Espírito Santo: por Aquele que «perscruta as profundezas de Deus».
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3. O testemunho do princípio: a realidade
original do pecado
33. A dimensão do pecado a que acabamos de aludir é a
mesma que encontramos no testemunho do «princípio» anotado no Livro do Génesis: 125 no pecado que, segundo a Palavra de Deus
revelada, constitui o princípio e a
raiz de todos os outros. Encontramos-nos perante a realidade original
do pecado na história do homem, ao mesmo tempo que na globalidade da
economia da salvação. Pode dizer-se que nesse pecado tem início o «mistério da iniquidade»; mas que o
mesmo é também o pecado em relação ao qual o poder redentor do «mistério da piedade» se torna
particularmente transparente e eficaz. É o que exprime São Paulo, quando
contrapõe à «desobediência» do primeiro Adão a
«obediência» de Cristo, o
segundo Adão: «a obediência até à morte». 126
Atendo-nos ao testemunho do princípio, o pecado na sua
realidade original verifica-se na vontade — e na consciência — do homem,
primeiro que tudo como «desobediência»; isto é, como oposição da vontade
do homem à vontade de Deus. Esta desobediência original pressupõe a rejeição ou, pelo menos, o afastamento da verdade contida na
Palavra de Deus, que cria o mundo. Esta Palavra é o próprio Verbo, que
estava «no princípio junto de Deus», que «era Deus» e sem o qual «coisa
alguma foi feita de tudo o que existe», porque o «mundo foi feito por meio
d'Ele». 127 É o Verbo, que é também Lei eterna, fonte de
toda a lei, que regula o mundo e especialmente os actos humanos. Portanto,
quando Jesus Cristo, na véspera da sua Paixão, fala do pecado daqueles que
«não acreditam n'Ele», nestas
suas palavras, repassadas de sofrimento, há como que uma alusão longínqua àquele
pecado que, na sua forma original, se iriscreve obscuramente no
próprio mistério da criação. Aquele que fala é, de facto, não só o Filho
do homem, mas também Aquele que é «o Primogénito de toda a criatura»,
«porque n'Ele foram criadas todas as coisas: ... criadas por Ele, para Ele
estão orientadas todas as coisas». 128 À luz desta verdade, compreende-se que a
«desobediência», no mistério do princípio, pressupõe, em certo sentido, a
mesma «não-fé», aquele mesmo «não
acreditaram», que se repetirá em relação ao mistério pascal. Como
dizíamos, trata-se da rejeição ou, pelo menos, do afastamento da verdade
contida na Palavra do Pai. Esta rejeição exprime-se, na prática, como
«desobediência», por um acto realizado como efeito da tentação, que provém
do «pai da mentira». 129 Na raiz do pecado humano está, portanto, a
mentira como radical rejeição da
verdade contida no Verbo do Pai, mediante o qual se exprime a
omnipotência amorosa do Criador: a omnipotencia e conjuntamente o amor «de
Deus Pai, Criador do céu e da terra».
34. «O Espírito
de Deus», que segundo a descrição bíblica da criação, «adejava sobre
as águas», 130 indica o mesmo «Espírito que perscruta as
profundezas de Deus»: perscruta as
profundezas do Pai e do Verbo-Filho no mistério da criação. Não é
somente a testemunha directa do seu recíproco amor, do qual deriva a
criação, mas Ele próprio é esse Amor. Ele mesmo, como Amor, é o eterno Dom
incriado. N'Ele está a fonte e o
início de toda a boa dádiva para as criaturas. O testemunho do
princípio, que encontramos em toda a Revelação, começando pelo Livro do Génesis, é unânime quanto
a este ponto. Criar quer dizer chamar do nada à existência; portanto,
criar quer dizer doar a
existência. E se o mundo visível foi criado para o homem, é ao homem,
portanto, que o mundo é doado. 131 E, simultaneamente, o mesmo homem recebe na
sua própria humanidade, como dom, uma especial «imagem e semelhança» de Deus. Isto
significa estar dotado não só de racionalidade e liberdade, como
propriedade constitutiva da natureza humana, mas também de capacidade,
desde o princípio, para uma relação
pessoal com Deus, como «eu» e «tu» e, por conseguinte, capacidade de aliança, que se
verificará com a comunicação salvífica de Deus ao homem. Com este pano de
fundo da «imagem e semelhança de Deus», «o dom do Espírito» significa,
afinal, chamamento à amizade,
na qual as transcendentes «profundezas de Deus», são abertas, de algum
modo, à participação por parte do homem. O Concílio Vaticano II ensina:
«Deus invisível (cf. Col 1, 15;
1 Tim 1, 17), na riqueza do seu
amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15) e conversa com eles
(cf. Bar 3, 38), para os
convidar e os admitir à comunhão com Ele». 132
35. Por conseguinte, o Espírito, que «perscruta todas
as coisas, até mesmo as profundezas de Deus», conhece desde o princípio
«os segredos do homem». 133 Exactamente por isto, só Ele pode plenamente «convencer
quanto ao pecado» que se verificou no princípio, aquele pecado que é
raiz de todos os outros e o foco de irradiação da pecaminosidade do homem
na terra, que jamais se extingue. O Espírito da verdade conhece a
realidade originária do pecado, causado na vontade do homem por obra do
«pai da mentira» — daquele que já «está julgado». 134 O Espírito Santo convence, pois, o mundo
quanto ao pecado em relação com este «juízo»; mas constantemente orientando no sentido da
«justiça», que foi revelada ao homem juntamente com a Cruz de Cristo:
mediante a «obediência até à morte». 135
Somente o Espírito Santo pode convencer do pecado dos
primórdios do ser humano, exactamente Ele que é o Amor do Pai e do Filho,
Ele que é Dom, enquanto o pecado do
princípio humano consiste na mentira e na recusa do Dom e do Amor, os
quais decidem do princípio do mundo e do homem.
36. Segundo o testemunho do princípio — que encontramos
na Escritura e na Tradição, em continuidade com a primeira (e também mais
completa) descrição no Livro do
Génesis — o pecado na sua forma originária é entendido como
«desobediência», o que significa simples e directamente transgressão de uma proibição feita
por Deus. 136 Mas, à luz de todo o contexto, é também
evidente que as raízes desta desobediência devem ser procuradas em
profundidade na real situação do homem, globalmente considerada. Chamado à
existência, o ser humano — homem e mulher — é uma criatura. A «imagem de
Deus», que consiste na racionalidade e na liberdade, denota a grandeza e a
dignidade do sujeito humano, que é pessoa. Mas este sujeito pessoal, não obstante
isso, é sempre uma criatura: na
sua existência e essência depende do Criador. Segundo o Livro do Génesis, «a árvore do
conhecimento do bem e do mal» devia exprimir e lembrar constantemente ao
homem o «limite» intransponível para um ser criado. É neste sentido que
deve ser entendida a proibição da parte de Deus: o Criador proíbe ao homem
e à mulher comerem os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal. As
palavras da instigação, ou seja da tentação, como está formulada no texto
sagrado, induzem a transgredir essa proibição — isto é, a superar o «limite»: «Quando o
comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e tornar-vos-eis como Deus ("como
deuses"), conhecendo o bem e o mal». 137
A «desobediência» significa precisamente «passar além»
daquele «limite», que permanece
intransponível para a vontade e liberdade do homem, como ser criado. O
Deus Criador é, de facto, a única e definitiva fonte da ordem moral no
mundo por Ele criado. O homem não pode por si mesmo decidir o que é bom e
o que é mau — não pode «conhecer o bem e o mal, como Deus». Sim, no mundo
criado, Deus permanece a
primeira e soberana fonte para decidir sobre o bem e o mal,
mediante a íntima verdade do ser, a qual é reflexo do Verbo, eterno Filho,
consubstancial ao Pai. Ao homem, criado à imagem de Deus, o Espírito Santo
concede como dom a consciência,
a fim de que nela a imagem possa reflectir fielmente o seu modelo, que é,
a um tempo, a própria Sabedoria e a Lei eterna, fonte da ordem moral no
homem e no mundo. A «desobediência», como dimensão originária do pecado,
significa recusa desta fonte,
pela pretensão da parte do homem de se tornar fonte autónoma e exclusiva
para decidir sobre o bem e o mal. O Espírito que «perscruta as profundezas
de Deus» e que, ao mesmo tempo, é para o homem a luz da consciência e a
fonte da ordem moral, conhece em toda a sua amplitude esta dimensão do
pecado, que se inscreve no mistério do princípio humano. E não cessa de «convencer o mundo» disso mesmo em
relação com a Cruz de Cristo no Gólgota.
37. Segundo o testemunho do princípio, Deus na criação
revelou-se a si mesmo como omnipotência, que é Amor. Simultaneamente,
revelou ao homem que, como «imagem e semelhança» do seu Criador, ele é chamado a participar na verdade e no
amor. Esta participação significa uma vida em união com Deus, que é a
«vida eterna». 138 Mas o homem, sob a influência do «pai da
mentira» afastou-se desta participação. Em que medida? Não, certamente, na
medida do pecado de um espírito puro, na medida do pecado de Satanás. O
espírito humano é incapaz de atingir uma tal medida. 139 Na própria descrição do Génesis, é fácil notar a diferença de
grau entre o sopro do mal por parte daquele que é pecador (ou seja,
permanece no pecado) «desde o princípio» 140 e que já «está julgado», 141 e o mal da desobediência da parte do
homem.
Esta desobediência, todavia, significa sempre um voltar as costas a Deus e, num
certo sentido, o fechar-se da
liberdade humana em relação a Ele. Significa também certa abertura desta
liberdade — da consciência e da vontade humanas — para com aquele que é o
«pai da mentira». Este acto de opção consciente não é só «desobediência»,
mas traz consigo também uma certa
adesão à motivação contida na primeira instigação ao pecado e
incessantemente renovada ao longo de toda a história do homem sobre a face
da terra: «Deus sabe que no dia, em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos
olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo o bem e o mal».
Encontramo-nos aqui exactamente no centro do que
poderia chamar-se o «anti-Verbo», isto é, «a antiverdade». Com efeito, é
falseada a verdade do homem: de
quem é o homem e de quais são oslimites intransponíveis do seu ser
e da sua liberdade. Esta «antiverdade» é possível porque é ao mesmo tempo
«falseada» completamente a verdade sobre quem é Deus. Deus
criador passa a ser colocado em estado de suspeição, ou, melhor dito, em
estado de acusação directamente, na consciência da criatura. Pela primeira
vez na história do homem, aparece o perverso «génio da suspeição». Ele
procura «falsear» o próprio Bem, o
Bem absoluto, que exactamente na obra da criação se manifestou como o
Bem que se doa de modo inéfavel: como «bonum diffusivum sui», como Amor criador. Quem poderia «convercer» plenamente «do pecado»
isto é, dessa motivação da desobediência originária do homem, se não
Aquele único que é o Dom e a fonte de toda a dádiva, se não o Espírito,
que «perscruta as profundezas de Deus» e é o Amor do Pai e do Filho?
38. Realmente, apesar de tudo o que testemunha a
criação e a economia salvífica a ela inerente, o espírito das trevas 142 é capaz de mostrar Deus como inimigo da própria
criatura; e, primeiro que tudo, como inimigo do homem, como fonte de perigo e de ameaça para o
homem. Deste modo, é enxertado por Satanás na psicologia do homem o
gérmen da oposição relativamente Aquele que, «desde o princípio», há-de
ser considerado como inimigo do homem — e não como Pai. O homem é
desafiado para se tornar adversário de Deus!
A análise do pecado na sua dimensão originária indica
que, da parte do «pai da mentira», ao longo da história da humanidade irá dar-se uma constante pressão para
a rejeição de Deus por parte do homem, até ao ódio: «amor sui usque ad
contemptum Dei» [amor de si mesmo até ao desprezo de Deus] como se exprime
Santo Agostinho. 143 O homem será propenso a ver em Deus, antes
de mais nada, uma limitação para si próprio e não a fonte da sua
libertação e a plenitude do bem. Vemos isto confirmado na época moderna,
quando as ideologias ateias tendem a desarraigar a religião,
baseando-se no pressuposto de que ela determinaria a «alienação» radical do homem, como se este fosse
expropriado da sua humanidade quando, ao aceitar a ideia de Deus, lhe
atribui a Ele aquilo que pertence ao homem e exclusivamente ao homem!
Daqui nasce um processo de pensamento e de práxis histórico-sociológica,
em que a rejeição de Deus chegou até à declaração da sua «morte», o que é
um absurdo: conceitual e verbal! Mas a ideologia da «morte de Deus» ameaça
sobretudo o homem, como indica
o Concílio Vaticano II, quando, ao analisar a questão da «autonomia das
coisas temporais», escreve: «A criatura sem o Criador perde o sentido...
Mais ainda, o esquecimento de Deus faz com que a própria criatura se
obscureça». 144 A ideologia da «morte de Deus», pelos seus
efeitos, facilmente demonstra ser, tanto no plano da teoria como no de
prática, a ideologia da «morte do homem».
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4. O Espírito que transforma o sofrimento em amor
salvífico
39. «O Espírito, que perscruta as profundezas de Deus»,
foi chamado por Jesus, no discurso do Cenáculo, o Paráclito. Ele, de facto, desde o princípio «é invocado»
145 para «convencer o mundo quanto ao pecado».É
invocado, de modo definitivo, por meio da Cruz de Cristo. Convencer do
pecado quer dizer demonstrar o mal nele contido. Isto equivale a desvendar
o «mysterium iniquitatis»
[mistério da iniquidade]. Não é possível atingir o mal do pecado em toda a
sua dolorosa realidade sem «perscrutar as profundezas de Deus». O obscuro
mistério do pecado apareceu no mundo, desde o princípio, no quadro da
referência ao Criador da liberdade humana. E apareceu como um acto da
vontade da criatura-homem contrário à vontade de Deus: contrário a
vontade salvífica de Deus; ou melhor, manifestou-se em oposição à verdade,
com base na mentira já definitivamente «julgada» — mentira que colocou em
estado de acusação, em estado de permanente suspeição o próprio Amor
criador e salvífico. O homem seguiu o «pai da mentira», pondo-se contra o
Pai da vida e o Espírito da verdade.
O «convencer quanto ao pecado», portanto, não deveria
significar também revelar o
sofrimento, revelar a dor, inconcebível e inexprimível, que, por causa
do pecado, o Livro Sagrado, na sua visão antropomórfica, parece entrever
nas «profundezas de Deus» e, em certo sentido, no próprio coração da
inefável Trindade? A Igreja, inspirando-se na Revelação, crê e professa
que o pecado é of ensa a Deus.
O que é que, na imperscrutável intimidade do Pai, do Verbo e do Espírito
Santo, corresponde a esta «ofensa», a esta recusa do Espírito que é Amor e
Dom? A concepção de Deus, como ser necessariamente perfeitíssimo, exclui,
por certo, em Deus, qualquer espécie de sofrimento, derivante de carências
ou feridas; mas nas «profundezas de Deus» há um amor de Pai que, diante do
pecado do homem, reage, segundo a linguagem bíblica, até ao ponto de
dizer: «Estou arrependido de ter criado o homem». 146 «o Senhor viu que a maldade dos homens era
grande sobre a terra ... E o Senhor
arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra ... O Senhor disse:
"Estou arrependido de os ter
feito"». 147 Mas o Livro Sagrado, mais frequentemente,
fala-nos de um Pai que experimenta compaixão pelo homem, como que
compartilhando a sua dor. Esta imperscrutável e indizível «dor» de Pai, em definitivo,
gerará sobretudo a admirável economia do amor redentor em Jesus
Cristo, para que, através do «mistério da piedade», o amor
possa revelar-se mais forte do que o pecado, na história do homem. Para
que prevaleça o«Dom»!
O Espírito Santo, que, segundo as palavras de Jesus,
«convence quanto ao pecado», é o Amor do Pai e do Filho; e, como tal, é o
Dom trinitário e, simultaneamente, a eterna fonte de toda a dádiva divina
às criaturas. N'Ele, precisamente, nós podemos conceber como que
personificada e actuada de uma maneira transcendente a virtude da
misericórdia, que a tradição patrística e teológica, na linha do Antigo e
do Novo Testamento, atribui a Deus. No homem, a misericórdia inclui a dor
e a compaixão pelas misérias do próximo. Em Deus, o Espírito que é Amor
faz com que a consideração do pecado humano se traduza em novas dádivas do
amor salvífico. D'Ele, na unidade com o Pai e o Filho, nasce a economia da
salvação, que enche a história do homem com os dons da Redenção. Se o
pecado, rejeitando o amor, gerou o «sofrimento» do homem que, de algum
modo, se estendeu a toda a criação, 148 o Espírito Santo entrará no
sofrimento humano e cósmico com uma nova efusão de amor, que redimirá o
mundo. E nos lábios de Jesus Redentor, em cuja humanidade se concretiza o
«sofrimento de Deus», ressoará com frequência uma palavra em que se
manifesta o Amor eterno e cheio de misericórdia: «Misereor» (tenho compaixão).
149 Assim, «o convencer quanto ao pecado», por
parte do Espírito Santo, torna-se um manifestar diante da criação
«submetida à caducidade» e, sobretudo, no mais íntimo das conciências
humanas, que o pecado é vencido
pelo sacrifício do Cordeiro de Deus: este tornou-se «até à morte» o servo obediente que, reparando a
desobediência do homem, opera a
redenção do mundo. É deste modo, que o Espírito da verdade, o Paráclito,
«convence quanto ao pecado».
40. O valor redentor do sacrifício de Cristo é expresso
com palavras muito significativas pelo autor da Epístola aos Hebreus, o qual,
depois de ter recordado os sacrifícios da Antiga Aliança, em que «o sangue
dos cordeiros e dos touros ... santifica quanto à pureza da carne»,
acrescenta: «Quanto mais o sangue de Cristo, em virtude de um Espírito eterno se
ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência
das obras mortas, para servir o Deus vivo!». 150 Embora conscientes de que outras
interpretações são possíveis, as nossas considerações sobre a presença do
Espírito Santo em toda a vida de Cristo levam-nos a reconhecer neste texto
como que um convite a reflectir sobre a presença do mesmo Espírito também
no sacrifício redentor do Verbo Incarnado.
Reflictamos primeiro sobre as palavras iniciais que
tratam deste sacrifício; depois, separadamente, sobre a «purificação da
consciência» que ele opera. Trata-se de facto, de um sacrifício oferecido
«em virtude de» (=por obra de)
um Espírito eterno», que dele «recebe» a força do «convencer quanto ao
pecado» em ordem à salvação. É o mesmo Espírito Santo de que Jesus Cristo será «portador» para
os Apóstolos no dia da sua ressurreição, segundo a promesa do Cenáculo,
apresentando-se a eles com as feridas da crucifixão, e que lhes «dará» «para a remissão dos
pecados»: «Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os
pecados, ser-lhes-ão perdoados». 151
Nós sabemos que «Deus ungiu com o Espírito Santo e com
o poder a Jesus de Nazaré», como dizia Simão Pedro em casa do centurião
Cornélio. 152 Conhecemos o mistério pascal da sua
«partida», segundo o Evangelho de
Sao João. As palavras da Epístola aos Hebreus explicam-nos,
agora, de que maneira Cristo «se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus», e
como fez isto «em virtude de um Espírito eterno». No sacrifício do Filho
do homem, o Espírito Santo está presente e age tal como agia na sua
concepção, na sua vinda ao mundo, na sua vida oculta e no seu ministério
público. Segundo a Epístola aos
Hebreus, na caminhada para a sua «partida», através do Getsémani e do
Gólgota, o próprio Jesus Cristo se
abriu totalmente na sua humanidade à acção do Espírito-Paráclito que,
do sofrimento, faz emergir o eterno amor salvífico. Ele, portanto, foi
«atendido pela sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a
obedecer pelos sofrimentos suportados». 153 Deste modo, a Epístola demonstra como a humanidade, submetida ao pecado
nos descendentes do primeiro Adão, se tornou em Jesus Cristo perfeitamente submetida a Deus e a
ele unida, e, ao mesmo tempo, cheia de misericórdia para com os homens.
Aparece assim uma nova humanidade
que, em Jesus Cristo, mediante o sofrimento da Cruz, retornou ao amor,
traído por Adão com o pecado. Esta nova humanidade reencontra-se na mesma
fonte divina do dom original: no Espírito que «perscruta ... as
profundezas de Deus» e que é ele próprio Amor e Dom.
O Filho de Deus, Jesus Cristo — como homem — , na
oração ardente da Sua paixão, permitiu ao Espírito Santo, que já tinha
penetrado até ao mais profundo a sua humanidade, transformá-la num sacrifício
perfeito mediante o acto da sua morte, como vítima de amor na Cruz.
Foi Ele, sozinho, quem fez esta oblação. Como único Sacerdote,
«ofereceu-se a si mesmo sem mácula a Deus». 154 Na sua humanidade Ele era digno de se tornar
um tal sacrifício, porque Ele
só era «sem mácula». Mas ofereceu-o «em virtude de um Espírito
eterno»: o que equivale a dizer que o Espírito Santo agiu de um modo
especial nesta autodoação absoluta do Filho do homem, para transformar o
sofrimento em amor redentor.
41. No antigo Testamento, por mais de uma vez se fala
do «fogo do céu», que queimava as oferendas apresentadas pelos homens.
155 Por analogia, pode dizer-se que o Espírito
Santo é «fogo do céu» que age no
mais profundo do mistério da Cruz. Provindo do Pai, Ele encaminha para
o Pai o sacrifício do Filho, introduzindo-o na divina realidade da
comunhão trinitária. Se o pecado gerou o sofrimento, agora o sofrimento de
Deus em Cristo crucificado adquire, pelo Espírito Santo, a sua plena
expressão humana. Encontramo-nos assim diante de um mistério paradoxal de
amor: em Cristo, sofre um Deus rejeitado pela sua própria criatura: «Não
crêem em mim!»; mas, ao mesmo tempo, à profundeza deste sofrimento — e indirectamente à
profundeza do próprio pecado «de não ter acreditado» — o Espírito Santo vai buscar uma nova medida do dom
feito ao homem e à criação desde o princípio. Nas profundezas do
mistério da Cruz está operante o Amor, que reconduz o homem a participar
novamente na vida, que está no próprio Deus.
O Espírito Santo como Amor e Dom desce, em certo sentido, ao próprio
coração do sacrifício que é oferecido na Cruz. Referindo-nos à
tradição bíblica podemos dizer: Ele
consuma este sacrifício com o fogo do Amor, que une o Filho ao Pai na
comunhão trinitária. E dado que o sacrifício da Cruz é um acto próprio de
Cristo, também neste sacrifício Ele «recebe» o Espírito Santo. E recebe-o
de tal modo, que depois Ele mesmo — e Ele somente com Deus Pai — o pode «dar» aos Apóstolos, à Igreja e à
humanidade. Ele só o «envia» de junto do Pai. 156 Ele só se apresenta diante dos Apóstolos
reunidos no Cenáculo, «sopra sobre eles» e diz: «Recebei o Espírito Santo.
Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados», 157 como tinha preanunciado João Baptista: «Ele
baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com O fogo». 158 Com estas palavras de Jesus o Espírito Santo
é revelado e ao mesmo tempo é
tornado presente como Amor que está operante no mais profundo do
mistério pascal, como fonte do poder salvífico da Cruz de Cristo, como Dom
da vida nova e eterna.
Esta verdade sobre o Espírito Santo é expressa quotidianamente na Liturgia romana, quando o
Sacerdote, antes da comunhão, profere estas palavras significativas:
«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que, por vontade do Pai, cooperando o Espírito Santo,
destes vida ao mundo pela vossa morte ...». E na Oração Eucarística III,
referindo-se à mesma economia salvífica, o Sacerdote pede a Deus que o
Espírito Santo «faça de nós uma of
erenda permanente» que lhe seja agradável.
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5. «O sangue que purifica a
consciência»
42. Dissémos que, no ponto culminante do mistério
pascal, o Espírito Santo é
definitivamente revelado e tornado presente de uma maneira nova. Cristo
ressuscitado diz aos Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo». Deste modo, é revelado o Espírito Santo,
porque as palavras de Cristo constituem a confirmação das promessas e dos
anúncios do discurso do Cenáculo. E por isso mesmo o Paráclito é tornado presente de uma maneira
nova. Ele, na realidade, actuava já desde o início no mistério da criação
e ao longo de toda a história da Antiga Aliança de Deus com o homem. A sua
acção foi plenamente confirmada pela missão do Filho do homem como
Messias, que veio pelo poder do Espírito Santo. No ápice da missão
messiânica de Jesus, o Espírito Santo torna-Se presente no mistério pascal
em toda a sua subjectividade
divina: como Aquele que deve continuar agora a obra salvífica radicada no
sacrifício da Cruz. Esta obra, sem dúvida, foi confiada por Jesus a
homens: aos Apóstolos e à Igreja. No entanto, nestes homens e por meio
deles, o Espírito Santo permanece o transcendente sujeito protagonista da
realização desta obra, no espírito do homem e na história do mundo: Ele, o
Paráclito invisível e, simultaneamente, omnipresente! O Espírito que
«sopra onde quer». 159
As palavras pronunciadas por Cristo ressuscitado, no
«primeiro dia depois do sábado», dão particular relevo à presença do
Paráclito-Consolador, como Aquele que «convence o mundo quanto ao
pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo». Só com esta referência se
explicam, efectivamente, as palavras que Jesus põe em relação directa com
o «dom» do Espírito Santo aos Apóstolos. Ele diz: «Recebei o Espírito
Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados;
àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». 160 Jesus assim confere aos Apóstolos o poder de
perdoar os pecados, para que eles o transmitam aos seus sucessores na
Igreja. Todavia, este poder, concedido aos homens, pressupõe e inclui a
acção salvífica do Espírito Santo. Tornando-Se «luz dos corações» 161 — isto é, das consciências — o Espírito
Santo «convence quanto ao pecado», ou seja, leva o homem a conhecer o seu mal e, ao
mesmo tempo, orienta-o para o
bem. Graças à multiplicidade dos seus dons — pelo que Ele é invocado
como o «septiforme» — o poder salvífico de Deus pode atingir toda a
espécie de pecados do homem. Na realidade, como diz São Boaventura, «todos
os males são destruídos, ao mesmo tempo que são proporcionados todos os
bens». 162
Sob o influxo do Consolador, realiza-se, portanto, a conversão do coração humano, que é
a condição indispensável para o perdão dos pecados. Sem uma verdadeira
conversão, que implica uma contrição interior, e sem um sincero e firme
propósito de mudança, os pecados permanecem «não-perdoados» (retidos),
como diz Jesus e, com Ele, toda a Tradição da Antiga e da Nova Aliança.
Com efeito, as primeiras palavras pronunciadas por Jesus no início do Seu
ministério, segundo o Evangelho de São Marcos, são as seguintes:
«Convertei-vos e acreditai no Evangelho». 163 Temos uma confirmação desta exortação no
«convencer quanto ao pecado» que o Espírito Santo empreende, de uma
maneira nova, em virtude da Redenção operada pelo Sangue do Filho do
homem. Por esta razão a Epístola
aos Hebreus afirma que este «sangue purifica a consciência». 164 Portanto, este sangue abre ao Espírito Santo, em certo
sentido, o caminho para o íntimo do homem, isto é, para o santuário das
consciências humanas.
43. O Concílio Vaticano II recordou a doutrina católica
sobre a consciência, ao falar da vocação do homem e, em particular, da
dignidade da pessoa humana. É a
consciência, precisamente, que determina de modo específico essa
dignidade. Ela, efectivamente, é «o
centro mais secreto do homem, o santuário onde ele se encontra a sós
com Deus, cuja voz ressoa no seu íntimo». Voz que, claramente ... «ressoa
aos ouvidos do coração: faz isto, evita aquilo». Tal capacidade de ordenar
o bem e proibir o mal, inserida pelo Criador no homem é a propriedade principal do sujeito
pessoal. Mas, ao mesmo tempo, «no fundo da sua consciência o homem
descobre a presença de uma lei, que ele não impôs a si mesmo, mas à qual
deve obedecer». 165 A consciência, portanto, não é uma fonte autónoma e
exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela
está inscrito profundamente um princípio de obediência
relacionado com a norma
objectiva, que fundamenta e condiciona a conformidade das suas
decisões com os mandamentos e as proibições que estão na base do
comportamento humano, como já transparece naquela página do Livro do Génesis, a que fizemos
referência. 166 Precisamente neste sentido, a consciência é
o «santuário íntimo» onde «a voz de
Deus se faz ouvir». E é a «voz de Deus» sempre, mesmo quando o homem
reconhece exclusivamente nela o princípio da ordem moral de que
humanamente não se pode duvidar, eventualmente sem referência directa ao
Criador: a consciência encontra sempre o seu fundamento e a sua
justificação nesta referência.
O «convencer quanto ao pecado», sob o influxo do
Espírito da verdade, de que fala o Evangelho, não pode realizar-se no
homem por outro meio que não seja o da consciência. Se a consciência for
recta, ela servirá «para resolver
segundo a verdade os problemas morais, que se apresentam tanto na vida
individual, como na vida social». Então, «as pessoas e os grupos sociais
estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as
normas objectivas da moralidade». 167
O fruto da consciência recta é, primeiro que tudo, o chamar pelo seu nome o bem e a
mal, como faz, por exemplo, a mesma Constituição pastoral a que
acabámos de aludir: «Tudo aquilo que se opõe à própria vida, como sejam os
homicídios de qualquer espécie, os genocídios, os abortos, a eutanásia e
mesmo o suicídio voluntário; tudo aquilo que constitui uma violação da
integridade da pessoa humana, como sejam as mutilações, as torturas morais
ou físicas, as pressões psicológicas; tudo aquilo que ofende a dignidade
do homem, como sejam as condições infra-humanas de vida, as prisões
arbitrárias, as deportações, a escravatura, a prostituição, o comércio de
mulheres e de jovens, ou ainda as condições de trabalho degradantes, que
reduzem os operários a meros instrumentos de lucro, sem ter em conta a sua
personalidade livre e responsável». E, depois de ter chamado pelo seu nome
os múltiplos pecados tão frequentes
e difundidos no nosso tempo, acrescenta: «Todas estas coisas e outras
semelhantes são, na verdade, uma infâmia; ao mesmo tempo que corrompem a
civilização humana, desonram mais os que a elas se entregam do que aqueles
que sofrem a injúria; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador».
168
Ao chamar pelo nome os pecados que mais desonram o
homem, e demonstrando que eles são um mal moral que influi negativamente
sobre qualquer balanço do progresso da humanidade, o Concílio apresenta
tudo isso como uma etapa «de uma luta dramática entre o bem e o mal, entre
a luz e as trevas», que caracteriza «toda a vida humana, quer individual
quer colectiva». 169 A Assembleia do Sínodo dos Bispos de 1983, sobre a
reconciliação e a penitência, apresentou ainda em termos mais precisos o
significado pessoal e social do pecado do homem. 170
44. No Cenáculo, na véspera da sua Paixão, e depois na
tarde da Páscoa, Jesus Cristo apelou para o Espírito Santo como para
Aquele que testemunha que na
história da humanidade o pecado continua a existir. Todavia, o pecado
está submetido ao poder salvífico da Redenção. O
«convencer o mundo quanto ao pecado» é algo que não pára pelo facto de ele
ser chamado com o seu nome e identificado por aquilo que é, em toda
extensão da sua natureza. Ao convencer o mundo quanto ao pecado, o Espírito da verdade encontra-se com
a voz das consciências humanas.
Dessa maneira se chega a por à mostra as raízes do pecado, que se
encontram no íntimo do homem, como também evidencia a Constituição
pastoral já citada: «Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo
contemporâneo estão ligados com un desequilíbrio mais fundamental,
que se enraíza no coração do
homem. São muitos os elementos que se combatem no próprio homem. Por
um lado, como criatura, ele experimenta as suas múltiplas limitações; por
outro lado, sente-se ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida
superior. Atraído por muitas solicitações, ele vê-se a todo o momento
constrangido a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda,
fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria
fazer». 171 O texto conciliar faz aqui referência às
palavras de São Paulo que são bem conhecidas. 172
O «convencer quanto ao pecado», que acompanha a
consciência humana todas as vezes que ela reflecte em profundidade sobre
si mesma , leva, pois, à descoberta das raízes do mesmo pecado no homem,
como também dos condicionamentos da própria consciência no curso da
história. Reencontramos assim a realidade originária do pecado, da qual já
falamos. O Espírito Santo «convence
quanto ao pecado» em relação ao mistério do princípio, indicando o
facto de que o homem é um ser-criado e que, portanto, está
em total dependência ontológica e ética do Criador, e recordando, ao mesmo
tempo, a condição pecadora hereditária da natureza humana. Mas o Espírito
Santo-Consolador «convence quanto ao pecado» sempre em relação com a Cruz de
Cristo. Nesta relação, o cristianismo rejeita toda a «fatalidade» do
pecado. «Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa, com
efeito, toda a história humana; começado nas origens do mundo, durará,
como diz o Senhor, até ao último dia», conforme ensina o Concílio. 173 «Mas
o Senhor em pessoa veio para libertar o homem e dar-lhe a força».
174 O homem, portanto, longe de se deixar
«enredar» na sua condição de pecador, apoiando-se na voz da própria
consciência, «deve combater sem tréguas para aderir ao bem; nem pode
conseguir a sua unidade interior se não a preço de grandes esforços e com
a ajuda da graça de Deus».
175 O Concílio justamente encara o pecado como
factor da ruptura, que pesa
tanto sobre a vida pessoal como sobre a vida social do homem; mas, ao
mesmo tempo, recorda vigorosamente a possibilidade da vitória.
45. O Espírito da verdade, que «convence o mundo quanto
ao pecado», encontra-se com os esforços da consciência humana, de que
falam os textos conciliares de maneira muito sugestiva. Estes esforços da consciência determinam
também os caminhos das conversões humanas: voltar as costas ao pecado,
para reconstruir a verdade e o amor no próprio coração do homem. Sabe-se
que a consciência não só manda
ou proíbe, mas julga à luz das
ordens e proibições interiores. Ela é também a fonte dos remorsos: o homem sofre
interiormente por causa do mal cometido. Não será este sofrimento como que
um eco longínquo daquele «arrependimento por ter criado o homem», que o
Livro Sagrado, com uma linguagem antropomórfica, atribui a Deus? Um eco
daquela «reprovação» que, inscrevendo-se no «coração» da Santíssima
Trindade, se traduz na dor da Cruz, na obediência de Cristo até à morte,
em virtude do amor eterno? Quando o Espírito da verdade, que «convence o
mundo quanto ao pecado», permite à consciência humana participar naquela dor, então a
dor da consciência torna-se particularmente profunda, mas também
particularmente salvífica. E assim, mediante um acto de contrição
perfeita, opera-se a conversão autêntica do coração: é a «metánoia»
evangélica.
Os esforços do coração humano, os esforços da
consciência, graças aos quais se opera esta «metánoia» ou conversão, são o
reflexo do processo pelo qual a
reprovação é transformada em amor
salvífico, que sabe sofrer. O dispensador escondido desta força de
salvação é o Espírito Santo: Ele, que é chamado pela Igreja «luz das
consciências», penetra e enche as «profundezas dos corações» humanos.
176 Mediante esta conversão no Espírito Santo, o
homem abre-se ao perdão e à
remissão dos pecados, como testemunham as palavras pronunciadas por
Jesus na tarde da Páscoa. E em todo este admirável dinamismo da
conversão-remissão, é comSrmada a verdade daquilo que escreve Santo
Agostinho sobre o mistério do homem, ao comentar as palavras do Salmo: «Um abismo chama outro abismo».
177 É exactamente em relação a esta
«profundidade abissal» do homem, da consciência humana, que se cumpre a
missão do Filho e do Espírito Santo. O Espírito Santo «vem» em virtude da «partida» de
Cristo no mistério pascal; vem em cada caso concreto de
conversão-remissão, em virtude do sacrifício da Cruz: nele, realmente,
«o sangue de Cristo... purifica a nossa consciência das obras mortas, para
servir o Deus vivo». 178 Cumprem-se assim, continuamente, as palavras
sobre o Espírito Santo apresentado como «um outro Consolador», as palavras
dirigidas no Cenáculo aos Apóstolos e indirectamente a todos: «Vós o
conheceis porque Ele habita entre
vós e em vós estará». 179
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6. O pecado contra o Espírito Santo
46. Tendo em conta tudo o que temos vindo a dizer até
agora, tornam-se mais compreensíveis algumas outras palavras
impressionantes e surpreendentes de Jesus. Poderemos designá-las como as palavras do «não-perdão».
São-nos referidas pelos Sinópticos, a propósito de um pecado particular,
que é chamado «blasfêmia contra o Espírito Santo». Elas foram expressas na
tríplice redacção dos Evangelistas do seguinte modo:
São Mateus:
«Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia
contra o Espírito Santo não será perdoada. E àquele que falar contra o
Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, a quem falar contra o Espírito
Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro». 180
São Marcos:
«Aos filhos dos homens serão perdoados todos os pecados e todas as
blasfêmias que proferirem; todavia, quem blasfemar contra o Espírito
Santo, jamais terá perdão, mas será réu de pecado eterno». 181
São Lucas:
«E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem,
perdoar-se-á; mas a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo, não lhe
será perdoado». 182
Porquê a «blasfêmia» contra o Espírito Santo é
imperdoável? Em que sentido
entender esta «blasfemia»? Santo Tomás de Aquino responde que se trata
da um pecado «imperdoável por sua própria natureza, porque exclui aqueles
elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados». 183
Segundo uma tal exegese, a «blasfêmia» não consiste
propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que
Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em
virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se «convencer
quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem carácter salvífico,
ele rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que
se efectuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue
de Cristo: o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».
Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos
pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas
«obras mortas», no pecado. E a «blasfêmia contra o Espírito Santo»
consiste exactamente na recusa
radical de aceitar esta remissão, de que Ele é o dispensador íntimo e
que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se
Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado nem
nesta vida nem na futura, é porque esta «não-remissão» está ligada, como à sua causa, à «não-penitência», isto é, à recusa
radical a converter-se. Isto equivale a uma recusa radical de ir até às
fontes da Redenção; estas, porém, permanecem «sempre» abertas na economia
da salvação, na qual se realiza a missão do Espírito Santo. Este tem o
poder infinito de haurir destas fontes: «receberá do que é meu», disse
Jesus. Deste modo, Ele completa nas almas humanas a obra da Redenção,
operada por Cristo, distribuindo os seus frutos. Ora a blasfêmia contra o
Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu
pretenso «direito» de perseverar no
mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem
fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria
conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que
considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação
de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não
permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou e abrir-se às
fontes divinas da purificação das consciências e da remissão dos
pecados.
47. A acção do Espírito da verdade, que tende ao
salvífico «convencer quanto ao pecado», encontra no homem que esteja em
tal situação uma resistência interior, uma espécie de impermeabilidade da
consciência. um estado de alma que se diria endurecido em razão de uma
escolha livre: é aquilo que a Sagrada Escritura repetidamente designa como
«dureza de coração». 184 Na nossa época, a esta atitude da mente e do
coração corresponde talvez a perda
do sentido do pecado, à qual dedica muitas páginas a Exortação
Apostólica Reconciliatio et
Paenitentia. 185 Já o Papa Pio XII tinha afirmado que «o
pecado do século é a perda do sentido do pecado». 186 E esta perda vai de par com a «perda do
sentido de Deus». Na Exortação acima citada, lemos: «Na realidade, Deus é
a origem e o fim supremo do homem, e este leva consigo um gérmen divino.
Por isso, é a realidade de Deus que desvenda e ilumina o mistério do
homem. É inútil, pois, esperar que ganhe consistência um sentido do pecado
no que respeita ao homem e aos valores humanos, quando falta o sentido da
ofensa cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro sentido do pecado».
187
É por isso que a Igreja não cessa de implorar de Deus a
graça de que não venha a faltar nunca a rectidão nas consciências humanas,
que não se embote a sua sensibilidade sã diante do bem e
do mal. Esta rectidão e esta sensibilidade estão profundamente ligadas à
acção íntima do Espírito da verdade. Sob esta luz, adquirem particular
eloquência as exortações do Apóstolo: «Não extingais o Espírito!». «Não
contristeis o Espírito Santo!». 188 Mas sobretudo, a Igreja não cessa de
implorar, com todo o fervor, que
não aumente no mundo o pecado designado no Evangelho por «blasfêmia
contra o Espírito Santo»; e, mais ainda, que ele se desvie da alma dos
homens — e como repercussão, dos próprios meios e das diversas expressões
da sociedade — deixando espaço para a abertura das consciências,
necessária para a acção salvífica do Espírito Santo. A Igreja implora que
o perigoso pecado contra o Espírito Santo ceda o lugar a uma santa di
sponibilidade para aceitar a missão do Consolador, quando Ele vier para
«convencer o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao
juízo».
48. Jesus, no seu discurso de despedida, uniu estes três domínios do «convencer», como
componentes da missão do Paráclito: o pecado, a justiça e o juízo. Eles
indicam o âmbito do «mistério da piedade», que na história do homem se
opõe ao pecado, ao mistério da iniquidade. 189 Por um lado, como se exprime Santo
Agostinho, está o «amor de si mesmo levado até ao desprezo de Deus»; por
outro, «o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo». 190 A Igreja continuamente eleva a sua oração e
presta o seu serviço, para que a história das consciências e a história
das sociedades, na grande família humana, não se rebaixem voltando-se para o
pólo do pecado, com a rejeição dos mandamentos de Deus «até ao
desprezo do mesmo Deus»; mas, pelo contrário, se elevem no sentido do amor em
que se revela o Espírito que dá a vida.
Aqueles que se deixam «convencer quanto ao pecado» pelo
Espírito Santo, deixam-se também convencer quanto «à justiça e quanto ao
juízo». O Espírito da verdade que vem em auxílio dos homens e das
consciências humanas, para conhecerem a verdade do pecado, ao mesmo tempo
faz com que conheçam a verdade da
justiça que entrou na história do homem com a vinda de Jesus Cristo.
Deste modo, aqueles que, «convencidos quanto ao pecado», se convertem sob
a acção do Consolador, são, em certo sentido, conduzidos para fora da
órbita do «juízo»: daquele «juízo» com o qual «o Príncipe deste mundo já
está julgado». 191 A conversão, na profundidade do seu mistério
divino-humano, significa a ruptura de todos os vínculos com os quais o
pecado prende o homem, no conjunto do «mistério da iniquidade». Aqueles
que se convertem, portanto, são conduzidos para fora da órbita do «juízo»
pelo Espírito Santo», e introduzidos na justiça, que se
encontra em Cristo Jesus, e está n'Ele porque a «recebe do Pai», 192 como um reflexo da santidade trinitária.
Esta justiça é a do Evangelho e da Redenção, a justiça do Sermão da
Montanha e da Cruz, que opera a «purificação da consciência» mediante o
Sangue do Cordeiro. É a justiça que o Pai faz ao Filho e a todos aqueles que
Lhe estão unidos na verdade e no amor.
Nesta justiça o Espírito Santo, Espírito do Pai e do
Filho, que «convence o mundo quanto ao pecado», revela-se e torna-se
presente no homem, como Espírito de
vida eterna.
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TERCEIRA PARTE - O ESPÍRITO QUE DÁ A
VIDA
1. Motivo do Jubileu do ano 2000: Cristo, «que
foi concebido do Espírito Santo»
49. O pensamento
e o coração da Igreja voltam-se para o Espírito Santo, neste final do
século XX e na perspectiva do terceiro Milénio depois da vinda de
Jesus Cristo ao mundo, ao mesmo tempo que começamos a olhar para o grande
Jubileu, com o qual a mesma Igreja irá celebrar o acontecimento. Essa
vinda, de facto, coloca-se na escala do tempo humano, como um
acontecimento que pertence à história do homem sobre a terra. A medida do
tempo, usada comummente, determina os anos, os séculos e os milénios,
segundo decorrem antes ou
depois do nascimento de Cristo. Mas é necessário ter presente também
que este acontecimento significa, para nós cristãos, segundo o Apóstolo, a
«plenitude dos tempos», 193 porque, nele, a história do homem foi
completamente penetrada pela «medida» do próprio Deus: uma presença
transcendente no «nunc», no
Hoje eterno. «Aquele que é, que era e que há-de-vir»; Aquele que é «o Alfa
e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim». 194 «Com efeito, Deus amou tanto o mundo que lhe deu o
seu Filho unigénito, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça
mas tenha a vida eterna». 195 «Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou
Deus o seu Filho, nascido de mulher... para que nós recebêssemos a adopção
de filhos». 196 E esta Incarnação do Filho-Verbo deu-se «por obra do Espírito Santo».
Os dois Evangelistas, aos quais ficámos a dever a
narração do nascimento e da infância de Jesus de Nazaré, exprimem-se da
mesma maneira sobre este ponto. Segundo São Lucas, perante a
anunciação do nascimento de Jesus, Maria pergunta: «Como se realizará isso
se eu não conheço homem?» E recebe esta resposta: «O Espírito Santo
descerá sobre ti e a potência do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso, aquele que vai nascer será santo e chamar-se-á Filho de Deus».
197
São Mateus
narra directamente: «Ora o nascimento de Jesus foi assim: estando Maria,
sua mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha
concebido por virtude do Espírito Santo». 198 José, perturbado por este estado de coisas,
recebeu num sonho a seguinte explicação: «Não temas receber contigo Maria,
tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à
luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo
dos seus pecados». 199
Assim, a Igreja professa desde as suas origens o mistério da Incarnação,
mistério-chave da sua fé, referindo-se ao Espírito Santo. O
Símbolo dos Apóstolos exprime-se deste modo: «O qual foi concebido
pelo Espírito Santo e nasceu de Maria Virgem». Não diversamente atesta o
Símbolo
Niceno-Costantinopolitano: «Incarnou por obra do Espírito Santo no
seio da Virgem Maria e se fez homem».
«Por obra do Espírito Santo» fez-se homem Aquele que a
Igreja, com as palavras do mesmo Símbolo, proclama ser consubstancial ao
Pai: «Deus de Deus, Luz da Luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado». Fez-se homem
«incarnando no seio da Virgem Maria». Eis o que se cumpriu «ao chegar a
plenitude dos tempos».
50. O grande
Jubileu, com que se concluirá o segundo Milénio, para o qual a Igreja
se está a preparar já, tem directamente um perfil cristológico: trata-se,
efectivamente, de celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo,
porém, ele tem um perfil
pneumatológico, dado que o mistério da Incarnação se realizou «por
obra do Espírito Santo». «Operou-o» aquele Espírito que — consubstancial
ao Pai e ao Filho — é, no mistério absoluto de Deus uno e trino, a
Pessoa-Amor, o Dom incriado, que é fonte eterna de toda a dádiva que
provém de Deus na ordem da criação, o princípio directo e, em certo
sentido, o sujeito da autocomunicação de Deus na ordem da graça. O mistério da Incarnação constitui o
ápice da dádiva suprema, dessa autocomunicação de Deus.
Com efeito, a concepção e o nascimento de Jesus Cristo
são a obra maior realizada pelo Espírito Santo na história da criação e da
salvação: a graça suprema — «a
graça da união» — fonte de todas as outras graças, como explica Santo
Tomás. 200 O grande Jubileu relaciona-se com esta graça
e também, se penetrarmos na sua profundidade, com o artífice desta obra, a
Pessoa do Espírito Santo.
À «plenitude dos tempos» corresponde, efectivamente,
uma particular plenitude da autocomunicação de Deus uno e trino no
Esptrito Santo. Foi «por obra do Espírito Santo» que se realizou o
mistério da união hipostática,
ou seja, da união da natureza divina com a natureza humana, da divindade e
da humanidade, na única Pessoa do Verbo-Filho. Quando Maria, no momento da
anunciação, pronuncia o seu «fiat»: «Faça-se em mim segundo a tua
palavra», 201 ela concebe de modo virginal um homem, o Filho do homem, que é o Filho de Deus. Graças a
esta «humanização» do Verbo-Filho, a autocomunicação de Deus atinge a sua
plenitude definitiva na história da criação e da salvação. Esta plenitude
adquire uma densidade particular e uma eloquência muito expressiva no
texto do Evangelho de São João:
«O Verbo fez-se carne». 202 A Incarnação de Deus-Filho significa que foi
assumida à unidade com Deus não apenas a natureza humana, mas também,
nesta, em certo sentido, tudo o que
é «carne»: toda a humanidade, todo o mundo visível e material. A
Incarnação, por conseguinte, tem também um significado cósmico, uma
dimensão cósmica. O «gerado antes de toda criatura», 203 ao incarnar-se na humanidade individual de
Cristo, une-se, de algum modo, com toda a realidade do homem, que também é
«carne» 204 e, nela, com toda a «carne», com toda a
criação.
51. Tudo isto se realiza «por obra» do Espírito Santo;
e, por conseguinte, faz parte do conteúdo do grande Jubileu futuro. A
Igreja não pode preparar-se para esse Jubileu de outro modo que não seja no Espírito Santo.
Aquilo que «na plenitude dos tempos» se realizou por obra do Espírito
Santo, só por sua obra pode emergir agora da memória da Igreja. É por sua
obra, que isso pode tornar-se presente na nova fase da história do homem
sobre a terra: o ano 2000 depois do nascimento de Cristo.
O Espírito Santo, que com a sombra da sua potência
cobriu o corpo virginal de Maria, dando assim início à maternidade divina nela,
ao mesmo tempo tornou o seu coração perfeitamente obediente pelo que
respeita àquela autocomunicação de Deus, que superava qualquer conceito e
todas as faculdades do homem. «Bem-aventurada aquela que acreditou»: 205 assim foi saudada Maria, pela sua parente
Isabel, também ela «cheia do Espírito Santo».206 Nas palavras de saudação àquela que «acreditou» parece
delinear-se um contraste longínquo (mas, na realidade, muito próximo) com
relação a todos aqueles de quem Cristo dirá que «não acreditaram». 207 Maria entrou na história da salvação do
mundo mediante a obediência da fé. E a fé, na sua essência mais
profunda, é a abertura do
coração humano diante do Dom: diante da autocomunicação de Deus no
Espírito Santo. São Paulo escreve: «O Senhor é espírito, e onde está o
espírito do Senhor, aí há liberdade». 208 Quando Deus uno e trino se abre ao homem no
Espírito Santo, esta sua «abertura» revela e, ao mesmo tempo, doa à
criatura-homem a plenitude da liberdade. Esta plenitude manifesta-se de um
modo sublime na fé de Maria, pela sua «obediência de fé»; 209 sim, verdadeiramente, «bem-aventurada aquela
que acreditou»!
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2. Motivo do Jubileu: manifestou-se a
graça
52. No mistério da Incarnação, a obra do Espírito, «que dá a
vida», atinge o seu vértice. Não é possível dar a vida, que está em
Deus de um modo pleno, senão fazendo dela a vida de um Homem, como é Cristo na sua
humanidade personalizada pelo Verbo na união hipostática. Ao mesmo tempo,
com o mistério da Incarnação jorra, de um modo novo, a fonte dessa vida divina na história
da humanidade: o Espírito Santo. O Verbo «gerado antes de toda a
criatura», torna-se «o primogénito entre muitos irmãos» 210 e torna-se assim também a cabeça do Corpo
que é a Igreja — que nascerá da Cruz e será revelada no dia do Pentecostes
— e, na Igreja, a cabeça da humanidade: dos homens de cada nação, de todas
as raças, de todos os países e culturas, de todas as línguas e
continentes, todos eles chamados à salvação. «O Verbo fez-se carne,
(aquele Verbo no qual) estava a
vida e a vida era a luz dos homens... A quantos o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos
de Deus». 211 Mas tudo isto se realizou e se realiza
incessantemente «por obra do Espírito Santo».
«Filhos de Deus» são, com efeito — como ensina o
Apóstolo — «todos aqueles que são
movidos pelo Espírito de Deus». 212 A filiação pela adopção divina nasce nos
homens sobre a base do mistério da Incarnação; e, portanto, graças a
Cristo, que é o Filho eterno. Todavia, o nascer ou renascer dá-se quando Deus Pai «envia aos nossos
coracões o Espírito do seu Filho». 213 É então que, na verdade, «recebemos o
espírito de adopção filial, pelo qual bradamos: "Abbá, ó Pai!"». 214 Portanto, esta filiação divina, enxertada na
alma humana com a graça santificante, é obra do Espírito Santo. «O próprio
Espírito atesta ao nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se somos
filhos, somos igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de
Cristo». 215 A graça santificante é no homem o princípio
e a fonte da vida nova: vida divina, sobrenatural.
A dádiva desta vida nova é como que a resposta
definitiva de Deus ao grito do Salmista, no qual ecoa, de certo modo, a
voz de todas as criaturas: «Se enviais o vosso Espírito, serão criados e
renovais a face da terra». 216 Aquele que, no mistério da criação, dá ao homem e ao cosmos a vida sob as suas múltiplas formas,
visíveis e invisíveis, renova-a
ainda pelo mistério da Incarnação. A criação é assim completada pela
Incarnação e, desde esse momento, penetrada pelas forças da Redenção, que
investem a humanidade e a criação inteira. É o que nos diz São Paulo, cuja
visão cósmico-teológica parece retomar os termos do antigo Salmo: a
criação «aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus»,
217 ou seja, daqueles que Deus, tendo-os
«conhecido desde sempre», também os «predestinou para serem conformes à
imagem do seu Filho». 218 Dá-se, assim, uma «adopção filial»
sobrenatural dos homens, da qual é origem o Espírito Santo, Amor e Dom. Como tal Ele é dado com prodigalidade
aos homens. E na superabundâcia do Dom incriado tem início, no coração
de cada homem, aquele particular dom criado, mediante o qual os
homens «se tornam participantes da natureza divina». 219 Deste modo, a vida humana é impregnada pela
participação na vida divina e adquire também ela uma dimensão divina,
sobrenatural. Tem-se assim a vida nova, pela qual, como participantes do
mistério da Incarnação, «os homens ... têm acesso ao Pai no Espírito
Santo». 220 Existe, pois, uma estreita dependência de
causalidade entre o Espírito,
que dá a vida, e a graça
santificante, com aquela vitalidade sobrenatural multiforme
que dela deriva no homem: entre o Espírito incriado e o espírito humano
criado.
53. Pode dizer-se que tudo isto é abrangido no âmbito do
grande Jubileu, acima
mencionado. Com efeito, impõe-se ir além da dimensão histórica do facto,
considerado somente à superficie. É necessário chegar a atingir, no
próprio conteúdo cristológico do facto, a dimensão pneumatológica,
abarcando com o olhar da fé o conjunto dos dois milénios da acção do Espírito da
verdade, o qual, ao longo dos séculos, indo haurir do tesouro da
Redenção de Cristo, foi dando aos homens a vida nova, realizando neles «a
adopção filial» no Filho unigénito e santificando-os, de tal modo que eles
podem repetir com São Paulo: «Recebemos o Espírito que vem de Deus». 221
Mas ao considerar este motivo do Jubileu, não é
possível limitar-se aos dois mil anos decorridos desde o nascimento de
Cristo. Énecessário retroceder no
tempo, abarcar toda a acção do Espírito Santo mesmo antes de Cristo,
desde o princípio, em todo o
mundo e, especialmente, na economia da Antiga Aliança. Esta acção, de
facto, em todos os lugares e em todos os tempos, ou antes, em cada homem,
desenrolou-se segundo o eterno desígnio de salvação, no qual ela anda
estreitamente unida ao mistério da Incarnação e da Redenção; este mistério
já tinha exercido a sua influência naqueles que acreditavam em Cristo que
havia de vir. Isto é atestado, de modo particular, na Epístola aos Efésios. 222 A graça, portanto, comporta um carácter
cristológico e, conjuntamente, um carácter pneumatológico, que se realiza
sobretudo naqueles que expressamente aderem a Cristo: «N'Ele (em Cristo)
... fostes marcados com o selo do Espírito Santo, que fora prometido, o
qual é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção».
223
No entanto, sempre na perspectiva do grande Jubileu,
também devemos alargar as nossas vistas para mais longe, «para o largo»,
conscientes de que «o vento sopra onde quer», segundo a imagem usada por
Jesus no colóquio con Nicodemos. 224 O Concílio Vaticano II, centrando a atenção
sobretudo no tema da Igreja, recorda-nos a acção do Espírito Santo mesmo
«fora» do corpo visível da
Igreja. Ele fala precisamente de «todos os homens de boa vontade, no
coração dos quais invisivelmente opera a graça. Na verdade, se Cristo
morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber,
a divina, nós devemos manter que o Espírito Santo oferece a todos, de um
modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério
pascal». 225
54. «Deus é espírito, e os seus adoradores em espírito e verdade é que devem
adorá-lo». 226 Jesus pronunciou estas palavras num outro
dos seus colóquios: aquele que teve com a Samaritana. O grande Jubileu,
que será celebrado no final deste Milénio e no início do seguinte, deve
constituir um forte apelo dirigido a todos aqueles que «adoram a Deus em
espírito e verdade». Deve ser para todos uma ocasião especial para meditar
no mistério de Deus uno e trino que, em si mesmo, é absolutamente
transcendente em relação ao mundo, de modo especial em relação ao
mundo visível; é, na realidade, Espírito absoluto: «Deus é espírito».
227 Mas, simultaneamente e de um modo admirável,
não só está próximo deste
mundo, mas está aí presente e,
em certo sentido, imanente,
compenetra-o e vivifica-o por dentro. Isto é válido, em especial, quanto
ao homem: Deus está no íntimo do seu ser, como pensamento, consciência e
coração; é uma realidade psicológica e ontológica que levava Santo
Agostinho, ao considerá-la, a dizer de Deus: «interior intimo meo» [mais íntimo
do que o meu íntimo]. 228 Estas palavras ajudam-nos a compreender
melhor as que Jesus dirigiu à Samaritana: «Deus é espírito». Somente o
Espírito pode ser «mais íntimo do
que o meu íntimo», quer no ser quer na experiência espiritual; só o
Espírito pode ser a tal ponto imanente ao homem e ao mundo, permanecendo
inviolável e imutável na sua transcendência absoluta.
Mas, em Jesus Cristo, a presença divina no mundo e no
homem manifestou-se de uma maneira nova e sob forma visível. N'Ele,
verdadeiramente, «manifestou-se a graça». 229 O amor de Deus Pai, dom, graça infinita e
princípio de vida, tornou-se patente em Cristo e, na sua humanidade,
tornou-se «parte» do universo, do género humano e da história. Esta
«manifestação» da graça na história do homem, mediante Jesus Cristo,
realizou-se por obra do Espírito Santo, que é o princípio de toda a acção salvífica
de Deus no mundo: Ele, «Deus escondido», 230 que como Amor e Dom «enche o universo».
231 Toda a vida da Igreja, tal como se irá
manifestar no grande Jubileu, significa um caminhar ao encontro de Deus
escondido, ao encontro do Espírito, que dá a vida.
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3. O Espírito Santo no conflito interior do
homem: a carne tem desejos contrários aos do espírito e o espírito desejos
contrários aos da carne
55. Da história da salvação resulta, infelizmente, que
essa proximidade e presença de Deus ao homem e ao mundo, essa admirável
«condescendência» do Espírito, depara, na nossa realidade humana,
com resistência e oposição.
Como são eloquentes, sob este ponto de vista as palavras proféticas
daquele ancião, chamado Simeão, que, «movido pelo Espírito», veio ao
Templo de Jerusalém, para anunciar, diante do recém-nascido de Belém, que
«Ele é destinado a ser ocasião de queda e de ressurgimento para muitos em
Israel, a ser sinal de
contradição». 232 A oposição a Deus, que é Espírito invisível,
nasce já, em certa medida, no plano da radical diversidade do mundo em
relação a Ele; ou seja, da «visibilidade» e «materialidade» do mundo em
confronto com Ele, que é «invisível» e «Espírito, no sentido absoluto»; da
sua essencial e inevitável imperfeição em confronto com Ele, Ser
perfeitíssimo. Mas a oposição torna-se conflito, rebelião no campo ético,
por causa do pecado que se
apodera do coração humano, no
qual «a carne... tem desejos contrários aos do espírito e o espírito
desejos contrários aos da carne». 233 O Espírito Santo deve «convencer o mundo»
quanto a este pecado, como dissemos.
É São Paulo quem descreve, de modo particularmente
eloquente, a tensão e a luta, que agitam o coração humano. «Eu digo-vos —
lemos na Epístola aos Gálatas —
: Procedei segundo o Espírito e não
dareis satisfações aos desejos da carne. Pois a carne tem desejos
contrários aos do espírito, e o espírito, desejos contrários aos da carne;
há oposição radical entre eles; é por isso que não fazeis o que
quereríeis». 234 No homem, porque é um ser composto, espírito e corpo, já
existe uma certa tensão, trava-se uma certa luta de tendências entre o
«espírito» e a «carne». Mas esta luta, de facto, faz parte da herança do
pecado, é uma consequência do mesmo pecado e, simultaneamente, uma sua
confirmação. É algo que faz parte da experiência quotidiana. Assim escreve
o Apóstolo: «Ora, as obras da
carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem...
embriaguez, orgias e coisas semelhantes a estas». São os pecados que se
poderiam qualificar como «carnais». Mas o Apóstolo ainda acrescenta
outros: «inimizades, discórdias, ciúmes, disputas, divisões, facciosismos,
invejas». 235 Tudo isto constitui «as obras da carne».
A estas obras, porém, que são indubitavelmente más, São
Paulo contrapõe «o fruto do Espírito», que é «caridade, alegria, paz,
paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e temperança».
236 Do contexto, resulta com clareza que, para o
Apóstolo, não se trata de discriminar e condenar o corpo que, juntamente
com a alma espiritual, constitui a natureza do homem e a sua
subjectividade pessoal. Ele quis tratar sobretudo, das obras, ou melhor,
das disposições estáveis — virtudes e vícios — moralmente boas ou más, que são fruto de submissão (no primeiro caso) ou,
pelo contrário, de resistência
(no segundo caso) à acção salvífica
do Espírito Santo. Por isso o Apóstolo escreve: «Se, portanto, vivemos
pelo espírito, caminhemos também segundo o espírito». 237 E numa outra passagem: «De facto, os que
vivem segundo a carne ocupam-se das coisas da carne; ao contrário, os que
vivem segundo o espírito ocupam-se das coisas do espírito». «Vós, porém
... viveis segundo o espírito se é que o Espírito de Deus habita em vós».
238 A contraposição que São Paulo estabelece
entre a vida «segundo o espírito» e a vida «segundo a carne» dá origem a
uma ulterior contraposição: entre a
«vida» e a «morte». «Os desejos da carne levam à morte, enquanto que
os desejos do Espírito levam à vida e à paz». Daqui a advertência: «Se
viverdes segundo a carne, por certo morrereis; mas, se pelo Espírito
fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis». 239
Se pensarmos bem, estamos perante uma exortação a viver na verdade, ou
seja, segundo os ditames da consciência recta; e, ao mesmo tempo, trata-se
de uma profissão de fé no Espírito da verdade, Aquele que dá a vida. O
corpo, efectivamente, «está morto por causa da pecado, mas o espírito vive
por causa da justificação»; «portanto... somos devedores, mas não para com a carne para vivermos
segundo a carne». 240 Nós somos devedores sobretudo para com Cristo, que no mistério pascal
operou a nossa justificação, obtendo-nos o Espírito Santo. «Na verdade,
fomos comprados por um alto preço». 241
Nos textos de São Paulo sobrepõem-se e compenetram-se
reciprocamente a dimensão
ontológica (a carne e o espírito), a dimensão ética (o bem e o mal
moral) e a dimensão
pneumatológica (a acção do Espírito Santo na ordem da graça). As suas
palavras (especialmente nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas) levam-nos a conhecer e a
sentir ao vivo o vigor daquela tensão e daquela luta, que se trava no
homem, entre a abertura à acção do Espírito Santo e a resistência e
oposição a Ele, ao seu dom salvífico. Os termos ou pólos em contraposição,
aqui são: da parte do homem, as suas limitações e pecaminosidade, pontos
nevrálgicos da sua realidade psicológica e ética; e, da parte de Deus, o
mistério do Dom, o incessante
doar-se da vida divina no Espírito Santo. A quem caberá a vitória? Aquele
que souber acolher o Dom.
56. Infelizmente, a resistência ao Espírito Santo, que
São Paulo sublinha, na dimensão
interior e subjectiva, como tensão, luta e rebelião que acontece no
coração humano, assume, nas várias épocas da história e, especialmente, na
época moderna, a sua dimensão
exterior, concretizada no conteúdo da cultura e da civilização, como
sistema filosófico, como ideologia
e como programa de acção e de formação dos comportamentos humanos.
Esta dimensão exterior encontra a sua expressão mais importante no materialismo, tanto na sua forma
teórica — enquanto sistema de pensamento — como na sua forma prática,
enquanto método de leitura e de avaliação dos factos e, ainda, como
programa dos comportamentos correspondentes. O sistema que mais
desenvolveu esta forma de pensamento, de ideologia e de práxis, e que o
levou às extremas consequências no plano da acção foi o materialismo
dialéctico e histórico, ainda hoje reconhecido como substancia vital do
marxismo.
Por princípio e de facto, o materialismo exclui radicalmente a presença e a
acção de Deus, que é espírito, no mundo e, sobretudo, no homem, pela razão
fundamental de que não aceita a sua
existência, sendo em si mesmo e no seu programa um sistema ateu. O
ateismo é fenómeno impressionante do nosso tempo, ao qual o Concilio
Vaticano II dedicou algumas páginas significativas. 242 Embora não se possa falar do ateismo, de
modo unívoco, nem se possa reduzi-lo exclusivamente à filosofia
materialista — dado que existem várias espécies de ateismo e talvez se
possa afirmar que, com frequência, se usa a palavra num sentido equívoco —
o certo é que um verdadeiro
materialismo, no sentido próprio do termo tem um carácter ateu, quando é
entendido como teoria explicativa da realidade e assumido como
princípio-chave da acção pessoal e social. O horizonte dos valores e dos fins
do agir, que o materialismo determina, está estreitamente ligado com a
interpretação de toda a realidade como «matéria». Se, por vezes, também
fala do «Espírito» e das «questões do espírito», no campo, por exemplo da
cultura ou da moral, fá-lo apenas enquanto considera certos factos como
derivados (epifenómenos) da
matéria, a qual, segundo este sistema é a única e exclusiva forma do ser.
Daqui se segue que, segundo esta interpretação, a religião só pode ser
entendida como uma espécie de «ilusão idealista», que deve ser combatida
dos modos e com os métodos mais apropriados, conforme os lugares e as
circunstancias históricas, para eliminá-la da sociedade e do próprio
coração do homem.
Pode dizer-se, portanto, que o materialismo é o
desenvolvimento sistemático e coerente da «resistência» e oposição
denunciadas por São Paulo quando escreve: «A carne ... tem desejos
contrários aos do espirito». Esta realidade conflitual, no entanto, é
recíproca, como põe em realce o mesmo Apóstolo, na segunda parte do seu
aforismo: «o espírito tem
desejos contrários aos da carne». Quem quiser viver segundo o Espírito ,
na aceitação e correspondência à sua acção salvifica, não pode deixar de
rejeitar as tendências e pretensões, internas e externas, da «carne»,
também na sua expressão ideológica e histórica de «materialismo»
anti-religioso. Sobre este pano de fundo, tão característico do nosso
tempo, devem ser postos em evidência os «desejos do espírito» na
preparação para o grande Jubileu, como apelos que ecoam na noite de um
novo período de advento, no termo do qual, como há dois mil anos, «todo o
homem verá a salvação de Deus». 243 Está nisto uma possibilidade e uma
esperança, que a Igreja confia aos homens de hoje. Ela sabe que o encontro
ou o choque entre os «desejos contrários ao espírito» — que caracterizam tantos aspectos da
civilização contemporânea, especialmente em alguns dos seus ambientes
- e os «desejos contrários aos da carne» — com o facto de Deus se ter
tornado próximo de nós, com a sua Incarnação e com a comunicação sempre
nova de si mesmo no Espírito Santo — podem apresentar, em muitos casos, um
carácter dramático e virem a redundar, talvez, em novas derrotas humanas.
Mas a Igreja acredita firmemente que, da parte de Deus, haverá sempre um
comunicar-se salvífico, uma vinda salvífica e, se for o caso, um salvífico
«convencer quanto ao pecado», por obra do Espírito.
57. Na contraposição paulina do «espírito» e da «carne»
encontra-se inscrita também a contraposição da «vida» à «morte». Trata-se
de um grave problema, acerca do qual é necessário dizer, de imediato, que
o materialismo, como sistema de pensamento, em todas as suas versões,
significa a aceitação da morte como
termo definitivo da existência humana. Tudo o que é material é
corruptível e, por isso, o corpo humano (enquanto «animal») é mortal. Se o
homem, na sua essência, é simplesmente «carne», então a morte permanece
para ele uma fronteira e um termo intransponível. Compreende-se assim como
se possa dizer que a vida humana é exclusivamente um «existir para
morrer».
Deve acrescentar-se que, no horizonte da civilização
contemporânea — especialmente onde ela se apresenta mais desenvolvida, no
sentido técnico-científico — os
vestígios e os sinais de morte tornaram-se particularmente presentes e
frequentes. Basta pensar na corrida aos armamentos e no perigo que ela
comporta de uma autodestruição nuclear. Por outro lado, para todos se tem
tornado cada vez mais manifesta a grave situação de vastas regiões do
nosso planeta, marcadas pela indigência e pela fome, que são portadoras de
morte. Não se trata só de problemas meramente económicos; mas também e,
acima de tudo, de problemas éticos. E no entanto, no horizonte da nossa
época, adensam-se «sinais de morte» ainda mais sombrios: difundiu-se o
costume — que em algumas partes corre o risco de se tornar como que uma
instituição — de tirar a vida a seres humanos ainda antes do seu
nascimento, ou antes de atingirem o termo natural da morte. E mais ainda:
apesar de tantos esforços nobres em favor da paz, deflagraram e prosseguem
novas guerras, que privam da vida ou da saúde centenas de milhares de
seres humanos. E como não recordar os atentados à vida humana por parte do
terrorismo organizado, até mesmo em escala internacional?
E isto, infelizmente, é só um esboço parcial e
incompleto do quadro de morte
que está em vias de composição na nossa época, ao mesmo tempo que
nos vamos aproximando cada vez mais do final do segundo Milénio cristão.
Mas das tintas sombrias da civilização materialista e, em particular, dos
«sinais de morte» que se multiplicam no quadro sociológico-histórico, em
que ela se desenvolveu, não se ergue, porventura, uma nova invocação, mais
ou menos consciente, ao Espírito que dá a vida? Em todo o caso, mesmo
independentemente da amplitude das esperanças ou dos desesperos humanos,
bem como das ilusões ou dos logros derivados do desenvolvimento dos
sistemas materialistas de pensamento e de vida, permanece a certeza cristã de que
o Espírito sopra onde quer, de que nós possuímos «as primícias do
Espírito» e de que, por consequência, poderemos ter de sujeitar-nos aos
sofrimentos do tempo que passa, mas «gememos em nós mesmos aguardando... a
redenção do nosso corpo». 244 ou seja, de todo o nosso ser humano, que é
corporal e espiritual. Sim, gememos, mas numa expectativa carregada de
esperança indefectível, porque Deus, que é Espírito, se aproximou
precisamente deste ser humano. Deus Pai enviou «o próprio Filho em carne
semelhante à carne pecadora e, para expiar o pecado, condenou o pecado na
carne». 245 No ponto culminante do mistério pascal, o
Filho de Deus, feito homem e crucificado pelos pecados do mundo,
apresentou-se no meio dos Apóstolos, após a Ressurreição, soprou sobre
eles e disse: «Recebei o Espírito Santo». Este «sopro» continua sempre. E assim
«o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza». 246
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4. O Espírito Santo no fortalecimento do «homem
interior»
58. O mistério da Ressurreição e do Pentecostes é
anunciado e vivido pela Igreja, herdeira e continuadora do testemunho dos
Apóstolos acerca da Ressurreição de Jesus Cristo. Ela é a testemunha
permanente desta vitória sobre a morte, que revelou o poder do Espírito
Santo e determinou a sua nova vinda, a sua nova presença nos homens e no
mundo. Com efeito, na Ressurreição de Cristo, o Espírito Santo-Paráclito
revelou-se sobretudo como aquele que dá a vida: «Aquele que ressuscitou
Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do
seu Espírito, que habita em vós». 247 Em
nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja anuncia a vida, que se manifestou
para além das fronteiras da morte, a vida que é mais forte que a
morte. Ao mesmo tempo, ela anuncia aquele que dá esta vida: o Espírito
vivificante; anuncia-o e coopera com ele para dar a vida. Na verdade,
«embora o... corpo esteja morto por causa do pecado.... o espírito está
vivo por causa da justificação», 248 operada por Cristo Crucificado e
Ressuscitado. Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja põe-se ao
serviço da vida que provém do próprio Deus, em estreita união com o
Espírito e em humilde cooperação com Ele.
Em razão precisamente desse serviço o homem torna-se de maneira sempre nova
o «caminho da Igreja», como já tive ocasião de dizer na Encíclica
sobre Cristo Redentor 249 e repito agora nesta sobre o Espírito Santo.
A Igreja, unida ao Espírito Santo, está cônscia, mais do que ninguém, do
homem interior, dos traços que
no homem são mais profundos e essenciais, porque espirituais e
incorruptíveis. É a este nível que o Espírito enxerta a «raiz da
imortalidade», 250 da qual desponta a vida nova, ou seja, a
vida do homem em Deus, que, como fruto da divina autocomunicação salvífica
no Espírito Santo, só pode desenvolver-se e consolidar-se sob a acção do
mesmo Espírito. Por isso, o Apóstolo dirige-se a Deus em favor dos fiéis,
a quem declara: «Do bro os joelhos diante do Pai ... que Ele vos
conceda... que sejais poderosamente corroborados, pelo seu Espírito, na
vitalidade do homem interior». 251
Sob a influência do Espírito Santo, este homem
interior, quer dizer «espiritual», amadurece e fortalece-se. Graças à
comunicação divina, o espírito humano que «conhece os segredos do homem»
encontra-se com o «Espírito que perscruta as profundezas do próprio Deus».
252 E neste Espírito, que é o Dom
eterno, Deus uno e trino abre-se ao
homem, ao espírito humano. O sopro recôndito do Espírito divino faz
com que o espírito humano, por sua vez se abra, diante de Deus que se abre
para ele, com desígnio salvífico e santificante. Pelo dom da graça, que
vem do Espírito Santo, o homem entra «numa vida nova», é introduzido na
realidade sobrenatural da própria vida divina e torna-se «habitação do
Espírito Santo», «templo vivo de Deus». 253 Com efeito, pelo Espírito Santo, o Pai e o
Filho vêm a ele e fazem nele a sua morada. 254 Na comunhão de graça com a Santíssíma
Trindade dilata-se «o espaço vital» do homem, elevado ao nível
sobrenatural da vida divina. O homem vive em Deus e de Deus, vive
«segundo o Espírito» e «ocupa-se das coisas do Espírito».
59. A íntima relação com Deus, no Espírito Santo, faz
com que o homem também se compreenda de uma maneira nova a si mesmo a à
sua própria humanidade. É realizada, assim, plenamente, aquela imagem e
semelhança de Deus, que o homem é desde o princípio. 255 Esta verdade íntima do homem deve ser
continuamente redescoberta à luz de Cristo, que é o protótipo da relação
com Deus; e, na mesma verdade, deve ser igualmente redescoberta a razão de
o homem não poder «encontrar-se plenamente a não ser no dom sincero de si
mesmo», ao conviver com os outros homens, como escreve o Concílio Vaticano
II; isso acontece justamente por motivo da semelhança com Deus, a qual
«torna manifesto que o homem, é a única criatura sobre a terra a ser
querida por Deus por si mesma», com a sua dignidade de pessoa, mas também
com a sua abertura à integração e à comunhão com os outros. 256 O conhecimento efectivo e a realização plena
desta verdade do ser dão-se só por
obra do Espírito Santo. O homem aprende esta verdade de Jesus Cristo e
põe-na em prática na própria vida por obra do Espírito Santo, que Ele nos
deu.
Neste caminho — no caminho de um am adurecimento
interior assim, que inclui a descoberta plena do sentido da humanidade —
Deus torna-se íntimo ao homem e penetra, cada vez mais profundamente, em
todo o mundo humano. Deus uno e
trino, que «existe» em si mesmo como realidade transcendente de Dom
interpessoal, ao comunicar-se no
Espírito Santo como dom ao homem, transforma o mundo humano, a partir
de dentro, a partir do interior dos corações e das consciências. Neste
caminho, o mundo, participante do Dom divino, torna-se — como ensina o
Concílio — «cada vez mais humano, cada vez mais profundamente humano»,
257 ao mesmo tempo que, nele, vai amadurecendo,
através dos corações e das consciências dos homens, o Reino no qual Deus
será definitivamente «tudo em todos», 258 como Dom e como Amor. Dom e Amor: é esta a
eterna potência do abrir-se de Deus uno e trino ao homem e ao mundo, no
Espírito Santo.
Na perspectiva
do ano 2000 depois do nascimento de Cristo, importa conseguir que um
número cada vez maior de homens «possam encontrar-se plenamente... através
do dom sincero de si». Trata-se, pois, de fazer com que, sob a acção do
Espírito-Paráclito, se realize, no nosso mundo, um processo de verdadeiro
amadurecimento na humanidade, na vida individual e na vida comunitária;
foi em ordem a isso que o próprio Jesus, «quando pedia ao Pai "que todos
sejam um, como eu e tu somos um" (Jo 17, 21-22) ... nos sugeriu que
existe uma certa semelhança
entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na
carídade». 259 O Concílio insiste nesta verdade sobre o
homem; e a Igreja vê nela uma indicação particularmente vigorosa e
determinante das próprias tarefas apostólicas. Sendo o homem, de facto, «o
caminho da Igreja», este caminho passa através de todo o mistério de
Cristo, modelo divino do homem. Neste caminho, o Espírito Santo,
consolidando em cada um de nós «o homem interior», faz com que o homem
cada vez mais «se encontre plenamente através do dom sincero de si». Pode
afirmar-se que nestas palavras da Constituição pastoral do Concílio está
resumida toda a antropologia
cristã: a teoria e a prática fundamentadas no Evangelho, onde o homem,
descobrindo em si mesmo a pertença a Cristo e, n'Ele, a própria elevação à
dignidade de «filho de Deus», compreende melhor também a sua dignidade de
homem, precisamente porque é o sujeito da aproximação e da presença de
Deus, o sujeito da condescendência divina, na qual está incluída a
perspectiva e até mesmo a própria raiz da glorificação definitiva. Então
pode repetir-se, com verdade, que é «glória de Deus o homem que vive, mas
a vida do homem é a visão de Deus»: 260 o homem, ao viver uma vida divina, é a
glória de Deus; e o dispensador escondido desta vida e desta glória é o
Espírito Santo. Ele — afirma o grande Basílio — «simples na sua essência,
mas manifestando multiformemente a sua virtude... difunde-se, sem sofrer
diminuição alguma, e está presente a cada um daqueles que o podem receber,
como se existisse só ele, ao mesmo tempo que infunde em todos a graça em
plenitude». 261
60. Quando os homens descobrem, sob a influência do
Paráclito, esta dimensão divina do seu ser e da sua vida, quer como
pessoas quer como comunidades, estão em condições de libertar-se dos diversos
determinismos, que resultam principalmente das bases materialistas do
pensamento, da práxis e da sua relativa metodologia. Na nossa época, estes
factores conseguiram penetrar até ao mais íntimo do homem, naquele
santuário da consciência, onde o Espírito Santo continuamente faz entrar a
luz e a força da vida nova segundo a «liberdade dos filhos de Deus». O
amadurecimento do homem nesta vida nova é impedido pelos condicionamentos
e pressões, que exercem sobre ele as estruturas e os mecanismos dominantes
nos diversos sectores da sociedade. Pode dizer-se que, em muitos casos, os
factores sociais, em vez de favorecerem o desenvolvimento e a expansão do
espírito humano, acabam por arrancá-lo à genuína verdade do seu ser e da
sua vida — sobre a qual vela o Espírito Santo — para o sujeitar ao
«príncipe deste mundo».
O grande Jubileu do ano 2000 contém, pois, uma mensagem
de libertação por obra do Espírito Santo, o único que pode ajudar as
pessoas e as comunidades a libertarem-se dos antigos e dos novos
determinismos — guiando-as com a «lei do Espírito que dá a vida em Cristo
Jesus» 262 — descobrindo e actuando, deste modo, a
medida plena da verdadeira liberdade do homem. Com efeito, — como escreve
São Paulo — «onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade». 263 Esta revelação da liberdade e, por
conseguinte, da verdadeira dignidade do homem, adquire uma particular
eloquência para os cristãos e para a Igreja em situações de perseguição —
quer em tempos passados quer actualmente: porque as testemunhas da Verdade
divina, neste caso, tornam-se uma comprovação viva da acção do Espírito da
verdade, presente no coração e na consciência dos fiéis; e, não poucas
vezes, selam com o próprio martírio a suprema glorificação da dignidade
humana.
Mesmo nas condições normais da sociedade, os cristãos,
quando testemunhas da autêntica
dignidade do homem, contribuem, pela sua obediência ao Espírito Santo
para a multiforme «renovação da face da terra», colaborando com os seus
irmãos em ordem à realização e valorização de tudo o que é bom, nobre e
belo 264 no progresso actual da civilização, da
cultura, da ciência, da técnica e dos outros sectores do pensamento e da
actividade humana. E fazem-no como discípulos de Cristo, o qual — escreve
ainda o Concílio — «constituído Senhor pel a sua ressurreição... actua no
coração dos homens pela virtude do
seu Espírito, não só suscitando neles o desejo do mundo futuro, mas,
por isso mesmo, inspirando, purificando e fortalecendo também as generosas
aspirações com as quais a família humana procura tornar mais humana a
própria vida e, para esse fim, submeter toda a terra». 265 Assim, eles afirmam ainda mais a grandeza do
homem, criado à imagem e semelhança de Deus, grandeza que é iluminada pelo
mistério da Incarnação do Filho de Deus; este, na «plenitude dos tempos»,
por obra do Espírito Santo, entrou na história e manifestou-se verdadeiro
homem: Ele, «gerado antes de toda a criatura» e «por meio do qual existem
todas as coisas e nós igualmente existimos».266
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5. A Igreja, sacramento da íntima união com
Deus
61. Aproximando-se o final do segundo Milénio, que deve
recordar a todos e como que tornar de novo presente o advento do Verbo
quando chegou a «plenitude dos tempos», a Igreja, uma vez mais, deseja penetrar na própria essência da sua constituição divino-humana e da
sua missão, que lhe permite
participar na missão messiânica de Cristo, conforme o ensino e o projecto,
que permanecem válidos, do Concílio Vaticano II. Nesta mesma linha,
podemos remontar até ao Cenáculo, onde Jesus Cristo revela o Espírito
Santo como Paráclito, como Espírito da verdade, e fala da sua própria
«partida», mediante a Cruz, como condição necessária para a «vinda» do
mesmo Espírito. «É melhor para vós que eu vá, porque se eu não for, o
Consolador não virá a vós; mas, se eu partir, enviar-vo-lo-ei». 267 Vimos que este anúncio teve a sua primeira
realização já na tarde do dia de Páscoa e, em seguida, durante a
celebração do Pentecostes em Jerusalém: desde então para cá, ele continua
a realizar-se mediante a Igreja, na história da humanidade.
A luz deste anúncio adquire pleno significado também o
que Jesus disse, ainda no
decorrer da última Ceia, a propósito da sua nova «vinda». É
significativo, de facto, que Ele anuncie, no mesmo discurso do adeus, não
só a sua partida, mas também a sua nova vinda. Diz exactamente: «Não vos
deixarei órfãos; voltarei para
junto de vós». 268 E no momento da despedida definitiva, antes
de subir ao céu, repetirá, de uma forma ainda mais explícita: «E eis que
eu estou convosco»; e estou
«todos os dias, até ao fim do mundo». 269 Esta nova «vinda» de Cristo — este seu vir
continuamente para estar com os Apóstolos, com a Igreja, este seu «estou
convosco até ao fim do mundo» — não modifica, certamente, o facto da sua
«partida»; segue-se a ela, depois de concluída a missão messiânica do
mesmo Cristo na terra; e dá-se no
âmbito do preanunciado envio do
Espírito Santo e inscreve-se, por assim dizer, no íntimo da sua própria missão.
No entanto, realiza-se por obra do
Espírito Santo, o qual faz com que Cristo, que partiu, venha agora e
sempre de uma maneira nova. Este voltar de Cristo, por obra do Espírito
Santo, e a sua constante presença e acção na vida espiritual actualizam-se
na realidade sacramental. Nesta
realidade, Cristo, que partiu na sua humanidade visível, vem, está
presente e actua na Igreja de uma forma tão íntima, que faz dela o seu
Corpo. E como tal, a Igreja vive, opera e cresce «até ao fim do mundo». E
tudo isto se realiza por obra do Espírito Santo.
62. A expressão sacramental mais completa da «partida»
de Cristo, por meio do mistério da Cruz e da Ressurreição, é a Eucaristia. Nela, todas as vezes
que é celebrada, realiza-se sacramentalmente, a sua vinda, a sua presença
salvífica: no Sacrifício e na Comunhão. Realiza-se por obra do Espírito
Santo e no ambito da sua própria missão. 270 Mediante a Eucaristia, o Espírito Santo leva a efeito aquele
«fortalecimento do homem interior», de que fala a Epístola aos Efésios. 271 Mediante a Eucaristia, as pessoas e as
comunidades, sob a acção do Paráclito-Consolador, aprendem a descobrir o
sentido divino da vida humana, lembrado pelo Concílio Vaticano II: aquele
sentido, pelo qual Jesus Cristo «revela plenamente o homem ao próprio
homem», sugerindo «uma certa semelhança entre a união das pessoas
divinas e a união dos filhos de
Deus na verdade e na caridade». 272 Tal união exprime-se e realiza-se, de modo
particular, mediante a Eucaristia, na qual o homem, participando no
sacrifício de Cristo, que a celebração actualiza, aprende também a
«encontrar-se ... no dom ... de si», 273 na comunhão com Deus e com os outros homens,
seus irmãos.
Por isso, os primeiros cristãos, desde aqueles dias que
se seguiram à descida do Espírito Santo, «eram assíduos à fracção do pão e
à oração», formando assim uma comunidade unida no ensino dos
Apóstolos.274 «Reconheciam», desse modo, que o seu Senhor
Ressuscitado, que já subira aos céus, voltava ao meio deles, na comunidade eucarística da
Igreja e por meio dela.. Guiada
pelo Espírito Santo, a Igreja, desde os inícios, exprimiu-se e confirmou-se a si mesma mediante a
Eucaristia. E assim foi sempre, em todas as gerações cristãs, até aos
nossos dias, até a esta vigília do completamento do segundo Milénio
cristão. É certo que temos de verificar, infelizmente, que este último
Milénio decorrido foi o Milénio das grandes separações entre os cristãos.
Por isso, todos aqueles que crêem em Cristo, a exemplo dos Apóstolos,
deverão pôr todo o empenho em conformar o pensamento e as obras à vontade
do Espírito Santo, «princípio de unidade da Igreja», 275 a fim de que todos os baptizados num só
Espírito para constituir um só corpo se redescubram irmãos, unidos na
celebração da mesma Eucaristia, «sacramento de piedade, sinal de unidade,
vínculo de caridade». 276
63. A presença eucarística de Cristo — o seu
sacramental «eu estou convosco» — permite à Igreja descobrir, cada vez mais
profundamente o próprio
mistério, como atesta toda a eclesiologia do Concílio Vaticano II,
segundo o qual «a Igreja é em Cristo como que o sacramento, ou sinal, e o
instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género
humano». 277 Como
sacramento, a Igreja desenvolve-se sobre o fundamento do mistério
pascal da «partida» de Cristo, vivendo da sua «vinda» sempre nova por obra
do Espírito Santo, que vai realizando a sua missão de Paráclito-Espírito
da verdade. É este precisamente o mistério essencial da Igreja, como
professa o Concílio.
Se em virtude da criação, Deus é Aquele em que todos
nós «vivemos, nos movemos e existimos», 278 o poder da Redenção, por sua vez,
perdura e desenvolve-se na história do homem e do mundo como que num duplo
ritmo, cuja fonte se encontra no Pai eterno. Por um lado, é o «ritmo» da missão do Filho, que veio ao
mundo, nascendo de Maria Virgem por obra do Espírito Santo; por outro
lado, é também o «ritmo» da missão
do Espírito Santo, tal como foi revelado definitivamente por Cristo.
Por causa da «partida» do Filho, o Espírito Santo veio e vem continuamente
como Consolador e Espírito da verdade. No âmbito da sua missão, como que
no íntimo da presença invisível do Espírito, o Filho, que «partira» no
mistério pascal, «vem» e está continuamente presente no mistério da Igreja; e
ora se oculta, ora se manifesta na sua história, mas sem deixar de
conduzir sempre o seu curso. Tudo isto acontece, de maneira sacramental,
por obra do Espírito Santo, o qual, indo haurir das riquezas da Redenção
de Cristo, continuamente dá a vida. Tomando consciência cada vez mais viva
deste mistério, a Igreja apreende melhor a sua identidade, sobretudo como
sacramento.
Assim acontece também porque, por vontade do seu
Senhor, a Igreja desempenha o
seu ministério salvífico para
com o homem por meio dos diversos Sacramentos. O ministério sacramental,
todas as vezes que é realizado, comporta em si o mistério da «partida» de
Cristo mediante a Cruz e a Ressurreição, em virtude da qu al vem o
Espírito Santo. Vem e actua: «dá a vida». Os Sacramentos, de facto,
significam a graça e conferem a graça: exprimem a vida e dão a vida. A
Igreja é a dispensadora visível
dos sinais sagrados, enquanto o Espírito Santo age nos mesmos como o
dispensador invisível da vida que eles significam. Em união com o Espírito
está presente e age Cristo Jesus.
64. Se a Igreja é «o sacramento da íntima união com
Deus», ela é tal em Jesus Cristo, em quem esta mesma união se actua como
realidade salvífica. Ela é tal
em Jesus Cristo, por obra do Espírito Santo. A plenitude da realidade
salvífica, que é Cristo na história, difunde-se, de modo sacramental,
pelo poder do Espírito
Paráclito. Neste sentido o Espírito Santo é o «outro Consolador», o
novo Consolador, uma vez que, pela sua acção, a Boa Nova toma corpo nas
consciências e nos corações humanos e expande-se na história. Em tudo
isto, é o Espírito Santo que dá a vida.
Quando empregamos a palavra «sacramento» em referência
à Igreja, devemos ter presente que a sacramentalidade da Igreja, no
texto conciliar, aparece distinta daquela que é própria dos Sacramentos em
sentido estrito. Lemos, efectivamente: «A Igreja é ... como que um sacramento, ou sinal,
e instrumento da íntima união com Deus». Mas o que conta e emerge do
sentido analógico em que a palavra é empregada nos dois casos é a relação
que a Igreja tem com o poder do Espírito Santo, que é o único que dá a
vida: a Igreja é sinal e instrumento da presença e da acção do Espírito
vivificante.
O Vaticano II acrescenta que a Igreja é «um sacramento ... da unidade de todo o
género humano». Trata-se, evidentemente, da unidade que o género
humano — em si mesmo diferenciado de muitos modos — tem de Deus e em Deus. Ela radica-se no
mistério da criação e adquire uma dimensão nova no mistério da Redenção,
em ordem à salvação universal. Dado que Deus quer «que todos os homens se
salvem e cheguem ao conhecimento da verdade», 279 a Redenção compreende todos os homens e, de
certo modo, toda a criação. Nesta
mesma dimensão universal da salvação, o Espírito Santo actua, em
virtude da «partida» de Cristo. Por isso, a Igreja, radicada mediante o
seu próprio mistério na economia trinitária da salvação, com toda a razão
se compreende a si mesma como «sacramento da unidade de todo o género
humano». Ela tem consciência de o ser pelo poder do Espírito Santo, de que
ela é sinal e instrumento na actuação do plano salvífico de Deus.
Deste modo se
realiza a «condescendência» do Amor infinito da Santíssima Trindade:
Deus, Espírito invisível, aproxima-se do mundo visível. Deus uno e trino
comunica-se ao homem no Espírito Santo, desde o princípio, graças à sua
«imagem e semelhança». Sob a acção do mesmo Espírito, o homem e, por intermédio dele, o mundo criado, redimido por Cristo,
aproximam-se dos seus destinos
definitivos em Deus. A Igreja é «o sacramento, ou sinal, e o
instrumento» desta aproximação dos dois pólos da criação e da Redenção,
Deus e o homem. A mesma Igreja opera nos entido de restabelecer e
fortalecer a unidade do género humano nas próprias raízes: na relação de
comunhão que o homem tem com Deus, como seu Criador, seu Senhor e seu
Redentor. É uma verdade fundada no ensino do Concílio, que podemos
meditar, explicar e aplicar, em toda a amplitude do seu significado ,
neste período da passagem do segundo para o terceiro Milénio cristão. É
grato para nós tomar consciência cada vez mais viva do facto de que,
dentro da acção desenvolvida pela Igreja na história da salvação, inscrita
na história da humanidade, está presente e a agir o Espírito Santo, Aquele
que anima com o sopro da vida divina, a peregrinação terrena do homem e
faz convergir toda a criação, toda a história, para o seu termo último, no
oceano infinito de Deus.
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6. «O Espírito e a Esposa dizem:
"Vem!"»
65. O sopro da vida divina, o Espírito Santo,
exprime-se e faz-se ouvir, da
forma mais simples e comum, na
oração. É belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze,
aí está presente o Espírito Santo sopro vital da oração. É belo e salutar
reconhecer que, se a oração se encontra difundida por todo o universo,
igualmente difundida é a presença e a acção do Espírito Santo, que
«insufla» a oração no coração do homem em toda a gama incomensurável das
mais diversas situações e das condições, umas vezes favoráveis, outras
vezes contrárias à vida espiritual e religiosa. Em muitos casos, sob a
acção do Espírito, a oração sobe do coração do homem, apesar das
proibições e das perseguições, e mesmo malgrado as proclamações oficiais,
afirmando o carácter a-religioso ou até ateu na vida pública! A oração
continua a ser sempre a voz de todos os que aparentemente não têm voz; e
nesta voz ecoa, sem cessar, aquele «forte clamor» atribuído a Cristo pela
Epístola aos Hebreus. 280 A oração é também a revelação do abismo que é o
coração do homem: uma profundidade que vem de Deus e que somente Deus pode preencher,
precisamente pelo Espírito
Santo! Lemos em São Lucas: «Se vós, portanto, embora sendo maus,
sabeis oferecer coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai
celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!». 281
O Espírito Santo é o Dom, que vem ao coração do homem
ao mesmo tempo que a oração. Na
oração Ele manifesta-se, antes de mais e acima de tudo, como o Dom, que
«vem em auxílio da nossa fraqueza». É o magnífico pensamento desenvolvido
por São Paulo na Epístola aos
Romanos, quando escreve: «Nós nem sequer sabemos o que devemos pedir
como nos convém; mas o próprio Espírito Santo intercede por nós, com
gemidos inexprimíveis». 282 Assim o mesmo Espírito Santo não só nos leva
a rezar, mas também nos guia «de dentro» na oração, suprindo à nossa
insuficiência e remediando a nossa incapacidade de rezar: está presente na
nossa oração e confere-lhe a dimensão divina. 283 «Aquele que perscruta os corações
(Deus) sabe quais são os desejos do Espírito, porque Ele intercede
pelos santos em conformidade com Deus». 284 A oração, por obra do Espírito Santo,
torna-se a expressão cada vez mais amadurecida do homem novo que, através
dela, participa na vida divina.
A nossa época
difícil tem particular necessidade da oração. Se no decorrer da
história, ontem como hoje, homens e mulheres em grande número deram
testemunho da importancia da oração — consagrando-se ao louvor de Deus e à
vida de oração, sobretudo nos mosteiros, com grande proveito para a Igreja
— nestes últimos anos vai crescendo também o número das pessoas que, em
movimentos e grupos cada vez mais desenvolvidos, põem a oração em primeiro
lugar e nela procuram a renovação
da vida espiritual. Trata-se de um sintoma significativo e consolador,
uma vez que desta experiência tem derivado uma contribuição real para a
retomada da oração entre os fiéis, os quais, desse modo, foram ajudados a
melhor considerarem o Espírito Santo como Aquele que suscita nos corações
uma profunda aspiração à santidade.
Em muitas pessoas e em muitas comunidades amadurece a
consciência de que, mesmo com todo o progresso vertiginoso da civilização
técnico-científica e não obstante as reais conquistas e as metas
alcançadas, o homem está ameaçado,
a humanidade está ameaçada. Diante deste perigo, e mais ainda ao
experimentar a inquietude perante uma real decadência espiritual do homem,
pessoas individualmente e comunidades inteiras, como que guiados por um
sentido interior da fé, buscam a força capaz de erguer de novo o homem, de
o salvar de si mesmo, dos seus próprios erros e das ilusões que tornam
nocivas, muitas vezes, as suas próprias conquistas. E assim descobrem a
oração, na qual se manifesta o «Espírito que vem em auxílio da nossa
fraqueza». Deste modo, os tempos em que vivemos aproximam do Espírito
Santo muitas pessoas, que retornam à oração. E eu confio que todas possam
encontrar no ensino da presente Encíclica alimento para a sua vida
interior e consigam fortalecer, sob a acção do Espírito Santo, o seu
empenho dé oração, em consonancia com a Igreja e com o seu Magistério.
66. No meio dos problemas, das desilusões e das
esperanças, das deserções e dos retornos desta nossa época, a Igreja continua fiel ao mistério do seu
nascimento. Se é um facto histórico que a Igreja saiu do Cenáculo no
dia do Pentecostes, também pode dizer-se que, em certo sentido, ela nunca
o abandonou. Espiritualmente, o acontecimento do Pentecostes não pertence
só ao passado: a Igreja está sempre no Cenáculo, que traz no seu coração.
A Igreja persevera na oração,
como os Apóstolos, juntamente com
Maria, Mãe de Cristo, e com aqueles que, em Jerusalém, constituíam o
primeiro núcleo da comunidade cristã e aguardavam, orando, a vinda do
Espírito Santo.
A Igreja persevera na oração com Maria. Esta união da
Igreja orante com a Mãe de Cristo faz parte do mistério da mesma Igreja,
desde os seus inícios: nós vemos Maria presente neste mistério, como está
presente no mistério do seu Filho. O Concílio no-lo diz: «A Santíssima
Virgem... envolvida pela sombra do poder do Espírito Santo ... deu à luz o
Filho, que Deus estabeleceu como primogénito entre muitos irmãos» (cf. Rom 8, 29), isto é, entre os
fiéis, em cuja regeneração e formação ela coopera com amor materno». Ela,
pelas suas «graças e funções singulares... está intimamente unida à
Igreja: é figura da Igreja».
285 «A Igreja, contemplando a sua misteriosa
santidade e imitando a sua caridade, ... torna-se também ela mãe»; e «à
imitação da Mãe do seu Senhor, conserva, pela graça do Espírito Santo,
virginalmente íntegra a fé, sólida a esperança, sincera a caridade: também
ela (isto é, a Igreja) é virgem
que guarda... a fé jurada ao Esposo». 286
Compreende-se, assim, o sentido profundo do motivo pelo
qual a Igreja, em união com a Virgem Maria, se volta continuamente como
Esposa para o seu divino Esposo, conforme atestam as palavras do
Apocalipse, citadas pelo Concílio: «O Espírito Santo e a Esposa dizem ao
Senhor Jesus: Vem!». 287 A oração da Igreja é esta invocação
incessante, na qual o Espírito intercede por nós: de certo modo, Ele
próprio pronuncia essa invocação com a Igreja e na Igreja. O Espírito, de facto, é
dado à Igreja, a fim de que, pelo seu poder, toda a comunidade do Povo de
Deus, por mais ramificada que seja na sua diversidade, se mantenha na
esperança: naquela esperança em que já «fomos salvos». 288 É a esperança escatológica, a
esperança da realização definitiva em Deus, a esperança do Reino eterno,
que se actua pela participação na vida trinitária. O Espírito Santo,
concedido aos Apóstolos como Consolador, é o guarda e o animador desta
esperanca no coração da Igreja.
Na perspectiva do terceiro Milénio depois de Cristo,
quando «o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: Vem!», esta sua
oração, como sempre, reveste-se de um denso alcance escatológico,
destinado a dar também plenitude de sentido à celebração do grande
Jubileu. É uma oração voltada para os destinos salvíficos, para os quais o
Espírito Santo abre os corações com a sua acção, ao longo de toda a
história do homem sobre a terra. Ao mesmo tempo, porém, esta oração orienta-se para um preciso
momento da história, em que é posta em relevo a nova «plenitude dos
tempos», momento que soará no ano 2000. A Igreja tenciona preparar-se para esse Jubileu no Espírito Santo, tal como, pelo
Espírito Santo foi preparada a Virgem de Nazaré, em quem o Verbo se fez
carne.
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CONCLUSÃO
67. Queremos concluir estas considerações situando-nos
no coração da Igreja e no coração do homem. O caminho da Igreja passa
através do coração do homem, porque nele está o lugar recôndito do encontro salvífico com o Espírito
Santo, com Deus escondido, e porque exactamente aí o Espírito Santo se
torna «nascente de água que jorra para a vida eterna». 289 Ele chega aí, ao coração do homem, como
Espírito da verdade e como Consolador, Intercessor e Advogado
— especialmente quando o homem, ou a humanidade, se encontra diante do
juizo de condenação do «acusador», acerca do qual no Apocalipse se afirma que «acusa os
nossos irmãos na presença do nosso Deus dia e noite». 290 O Espírito Santo não cessa nunca de ser o guarda da esperança no coração do
homem: da esperança de todas as criaturas humanas, e especialmente
daquelas que «possuem as primícias do Espírito», e «aguardam a redenção do
seu corpo». 291
O Espírito Santo, na sua misteriosa ligação de divina
comunhão com o Redentor do homem, é Quem dá continuidade à sua obra: Ele
recebe do que é de Cristo e transmite-o a todos, entrando incessantemente
na história do mundo através do coração do homem. É aí que ele se torna —
como proclama a Sequência litúrgica da Solenidade do Pentecostes —
verdadeiro «pai dos pobres,
distribuidor dos dons e luz dos corações»; torna-se: «hóspede amável
das almas», que a Igreja saúda, sem cessar, no limiar da intimidade de
cada homem. Ele, efectivamente, traz «descanso e refrigério» no meio dos
esforços, do trabalho dos braços e das mentes humanas; traz «descanso» e
«alívio» nas horas de calor ardente do dia, no meio das preocupações, das
lutas e dos perigos de todas as épocas; e traz, por fim, a «consolação»,
quando o coração humano chora e é tentado pelo desespero.
Por isso, a mesma Sequência litúrgica exclama: «Sem a
tua potência divina nada há no
homem, nada que seja inocente». Só o Espírito Santo, de facto,
«convence do pecado», do mal, com o objectivo de restabelecer o bem no
homem e no mundo humano: para «renovar a face da terra». Por isso, Ele
realiza a purificação de tudo o que «deturpa» o homem, de «tudo o que é
sórdido»; cura as feridas mesmo as mais profundas da existência humana;
transforma a aridez interior das almas em campos férteis de graça e de
santidade. O que é «duro — abranda-o», o que é «frio — aquece-o», o que
está «desencaminhado - reconduze-o aos caminhos da salvação». 292
Rezando assim, a Igreja professa sem cessar a sua fé:
há no nosso mundo criado um
Espírito, que é um Dom incriado. É o Espírito do Pai e do Filho: como
o Pai e o Filho, Ele é incriado, imenso, eterno, omnipotente, Deus e
Senhor. 293 Este Espírito de Deus «enche o universo», e
tudo o que é criado reconhece nele a fonte da própria identidade e nele
encontra a própria expressão trancendente, a ele se dirige e espera-o e invoca-o
com todo o seu ser. Para ele se volta, como Paráclito, Espírito da verdade
e do amor, o homem que vive de
verdade e de amor e que, sem a fonte da verdade e do amor, não pode viver. Para ele se volta
a Igreja, que é o coração da humanidade, a fim de invocar para todos e a
todos dispensar aqueles dons do Amor, que por meio dele «foi
derramado nos nossos corações». 294 Para ele se volta a Igreja ao longo dos
caminhos escarpados da peregrinação do homem sobre a terra: e pede, pede
incessantemente a rectidão dos actos humanos, como sua obra;
pede a alegria e a consolação,
que só ele, verdadeiro consolador, pode trazer descendo ao mais profundo
dos corações humanos; 295 pede a graça das virtudes, que são
merecedoras da glória celeste, pede a salvação eterna, na comunicação
plena da vida divina, à qual o Pai eternamente «predestinou» os homens,
criados por amor à imagem e semelhança da Santíssima Trindade.
A Igreja, com o seu coração, que inclui em si todos os
corações humanos, pede ao Espírito Santo a felicidade que só em Deus tem a
sua completa realização: a alegria que «ninguém pode tirar», 296 a alegria que é fruto do amor e, portanto, de Deus
que «é Amor»; pede «a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo», nas
quais, segundo São Paulo, consiste o «Reino de Deus». 297
Também a paz é
fruto do amor: a paz interior, que o homem afadigado procura no íntimo
do seu ser; a paz que a humanidade, a família humana, os povos, as nações,
os continentes pedem com trepidante esperança de obtê-la, na perspectiva
da passagem do segundo ao terceiro Milénio cristão. Uma vez que o caminho da paz passa, afinal, através
do amor, e tende a criar uma civilização do amor, a Igreja fixa o
olhar naquele que é o Amor do Pai e do Filho e, não obstante as ameaças
crescentes, não cessa de ter confiança, não deixa de invocar e de servir a paz do homem
sobre a terra. A sua confiança fundamenta-se naquele que, sendo o
Espírito-Amor, é também o Espírito
da paz, e não cessa de estar presente no nosso mundo humano, no
horizonte das consciências e dos corações humanos, para «encher o
universo» de amor e de paz.
Diante dele ajoelho-me, no final destas considerações,
implorando que, como Espírito do Pai e do Filho, nos conceda a todos a bênção e a graça, que desejo
transmitir, em nome da Santíssima Trindade, aos filhos e filhas da Igreja
e a toda a família humana.
Dado em Roma,
junto de São Pedro, a 18 de Maio, Solenidade do Pentecostes, do ano de
1986, oitavo ano do meu Pontificado.
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1 Jo 7, 37 s.
2 Jo 7, 39.
3 Jo 4, 14; Cf. CONC. ECUM. VAT. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen
gentium, 4.
4 Cf. Jo 3, 5.
5 Cf. LEÃO XIII,
Encíclica Divinum illud munus
(9 de Maio de 1897): Acta
Leonis, 17 (1898), PP. 125-148; PIO XII, Encíclica Mystici Corporis (29 de Junho de
1943): AAS 35 (1943), PP.
193-248.
6 Audiência Geral de 6 de
Junho de 1973: Insegnamenti di
Paolo VI, XI (1973), P. 477.
7 Missal Romano; e Cf. 2 Cor 13, 13.
8 Jo 3, 17.
9 Flp 2, 11.
10 Cf. CONC. ECUM. VAT.
II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 4; JOÃO PAULO II,
Alocução aos participantes no
Congresso Internacional de Pneumatologia (26 de Março de 1982), 1: Insegnamenti V/1 (1982), P. 1004.
11 Cf. Jo 4, 24.
12 Cf. Rom 8, 22; Gál 6, 15.
13 Cf. Mt 24, 35.
14 Jo 4, 14.
15 CONC. ECUM. VAT. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen
gentium, 17.
16 allon paràcleton Jo 14, 16.
17 Jo 14, 13. 16 s.
18 Cf 1 Jo 2, 1.
19 Jo 14, 26.
20 Jo 15, 26 s.
21 Cf. 1 Jo 1, 1-3; 4, 14
22 «As verdades reveladas
por Deus, que estão contidas ou espressas nos livros da Sagrada Escritura,
foram escritas por inspiração do Espírito Santo»; e portanto, a Sagrada
Escritura deve ser «lida e interpretada com o auxílio do mesmo Espírito,
mediante o qual foi escrita»: CONC. ECUM. VAT II, Const. dogm. sobre a
Divina Revelação Dei Verbum,
11. 12.
23 Jo 16, 12 s.
24. Act 1, 1.
25 Jo 16, 14.
26 Jo 16, 15.
27 Jo 16, 7 s.
28 Jo 15, 26.
29 Jo 14, 16.
30 Jo 14, 26.
31 Jo 15, 26.
32 Jo 14, 16.
33 Jo, 16, 7.
34 Cf. Jo 3, 16s., 34; 6, 57; 17, 3. 18.
23.
35 Mt 28, 19.
36 Cf. 1 Jo 4, 8. 16.
37 1 Cor 2, 10.
38 Cf. S. TOMÁS DE
AQUINO, Summa Theol. Ia, qq.
37-38.
39 Rom 5, 5.
40 Jo 16, 14.
41 Gén 1, 1 s.
42 Gén 1, 26.
43 Rom 8, 19-22.
44 Jo 16, 7.
45 Gál 4, 6; cf. Rom 8, 15.
46 Cf. Gál 4, 6; Flp 1, 19; Rom 8, 11.
47 Cf. Jo 16, 6.
48 Cf. Jo 16, 20.
49 Cf. Jo 16, 7.
50 Act 10, 37 s.
51 Cf. Lc 4, 16-21; 3, 16; 4, 14; Mc 1, 10.
52 Is 11, 1-3.
53 Is 61, 1 s.
54 Is 48, 16.
55 Is 42,1.
56 Cf. Is 53, 5-6. 8.
57 Is 42, 1.
58.Is 42, 6.
59 Is 49, 6.
60 Is 59, 21.
61 Cf. Lc 2, 25-35.
62 Cf. Lc 1, 35.
63 Cf. Lc 2, 19. 51
64 Cf. Lc 4, 16-21; Is 61, 1 s.
65 Lc 3, 16; cf. Mt 3, 11; Mc 1, 7s.; Jo 1, 33.
66 Jo 1, 29.
67 Cf. Jo 1, 33 s.
68 Lc 3, 21 s.; cf. Mt 3, 16; Mc 1, 10.
69 Mt 3, 17.
70 Cf. S. BASÍLIO, De Spiritu Sancto, XVI, 39: PG 32,
139.
71 Act 1, 1.
72 Cf. Lc 4, 1.
73 Cf. Lc 10, 17-20.
74 Lc 10, 21; cf. Mt 11, 25 s.
75 Lc 10, 22; cf. Mt 11, 27.
76 Mt 3, 11; Lc 3, 16.
77 Jo 16, 13.
78 Jo 16, 14.
79 Jo 16, 15.
80 Cf. Jo 14, 26; 15, 26.
81 Jo 3, 16.
82 Rom 1, 3 s.
83 Ez 36, 26 s.; Cf. Jo 7, 37-39; 19, 34.
84 Jo 16, 7.
85 Cf. S. CIRILO DE
ALEXANDRIA, In Joannis
Evangelium, lib. V, cap. II: PG 73, 755.
86 Jo 20, 19-22.
87 Cf. Jo 19, 30
88 Cf. Rom 1, 4.
89 Cf Jo 16, 20.
90 Jo 16, 7.
91 Jo 16, 15.
92 CONC. ECUM. VAT. II,
Const. dogm. sobre a Igreja Lumen
gentium, 4.
93 Jo 15, 26 s.
94 Decreto sobre a
actividade missionária da Igreja Ad
Gentes, 4.
95 Cf. Act 1, 14.
96 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 4. Há
toda uma tradição patrística e teológica quanto à união íntima entre o
Espírito Santo e a Igreja; esta união é apresentada algumas vezes sob a
analogia da relação existente entre a alma e o corpo do homem: cf. S.
IRENEU, Adversus haereses, III,
24, 1. SC 221, pp. 470-474; S. AGOSTINHO, Sermo 267, 4, 4: PL 38, 1231; Sermo 268, 2: PL 38, 1232; In Johannis evangelium tractatus,
XXV, 13; XXVII, 6: CCL 36, 266, 272 s.; S. GREGÓRIO MAGNO, In septem psalmos poenitentiales
expositio, psal. V, 1: PL 79, 602; DIDIMO DE ALEXANDRIA, De Trinitate, II, 1: PG 39, 449
s.; S. ATANÁSIO, Oratio III contra
Arianos, 22, 23, 24: PG 39, 368 s., 372 s.; S. JOÃO CRISÓSTOMO, In Epistolam ad Ephesios, Homil.
IX, 3: PG 62, 72 s. SANTO TOMÁS DE AQUINO sintetizou a tradição patrística
e teológica precedente, apresentando o Espírito Santo como o « coração » e
a « alma » da Igreja: cf. Summa
Theol. III, q. 8, a. 1, ad 3; In symbolum Apostolorum Expositio,
a. IX; In Tertium Librum
Sententiarum, Dist. XIII, q. 2, a. 2, quaestiuncula 3.
97 Cf. Apoc 2, 29; 3, 6. 13. 22.
98 Cf. Jo 12, 31; 14, 30; 16, 11.
99 Gaudium et spes, 1.
100 Ibid., 41.
101 Ibid., 26.
102 Cf. Jo 16, 7 s.
103 Jo 16, 7.
104 Jo 16, 8-11.
105 Cf. Jo 3, 17; 12, 47.
106 Cf. Ef 6, 12.
107 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 2.
108 Cf. Ibid., 10, 13, 27, 37, 63, 73, 79
e 80.
109 Act 2, 4.
110 Cf 5. IRENEU, Adversus haereses III, 17, 2; SC
211, pp. 330-332.
111 Act 1, 4. 5. 8.
112 Act 2, 22-24.
113.Cf. Act 3, 14 s., 4, 10. 27s.; 7, 52,
10, 39; 13, 28s. etc.
114 Cf. Jo 3, 17; 12, 47.
115 Act 2, 36.
116 Act 2, 37 s.
117 Cf. Mc 1, 15.
118 Jo 20, 22.
119 Cf. Jo 16, 9.
120 Os 13, li Vg; cf. 1 Cor 15, 55.
121 Cf. 1 Cor 2, 10.
122 Cf. 2 Tess 2, 7
123 Cf. 1 Tm 3, 16.
124 Cf. Reconciliatio et Paenitentia (2 de
Dezembro de 1984), nn. 19-22: AAS 77 (1985), pp. 229-233.
125 Cf. Gén 1-3.
126 Cf. Rom 5, 19; Flp 2, 8.
127 Cf. Jo 1, 1. 2. 3. 10.
128 Cf. Col 1, 15-18.
129 Cf Jo 8, 44.
130 Cf. Gén 1, 2.
131 Cf. Gén 1, 26 28- 29
132 Const. dogm. sobre a
Divina Revelação Dei Verbum, 2.
133 Cf. 1 Cor 2, 10 s.
134 Cf. Jo 16, 11.
135 Cf. Flp 2, 8
136 Cf Gén 2, 16 s.
137 Gén 3, 5.
138 Cf. Gén. 3, 22: sobre a « árvore da
Vida »; Cf. também Jo 3, 36- 4,
14; 5, 24; 6, 40. 47; 10, 28; 12, 50; 14, 6; Act 13, 48, Rom 6, 23; Gál 6, 8; 1 Tim 1, 16; Tit 1, 2; 3, 7; 1 Pdr 3, 22; 1 Jo 1, 2; 2, 25; 5, 11. 13; Apoc 2, 7.
139 Cf. S. TOMÁS DE
AQUINO, Summa Theol. Ia-IIae,
q. 80, a. 4 ad 3.
140 1 Jo 3, 8.
141 Jo 16, 11.
142 Cf. Ef 6, 12; Lc 22, 53.
143 Cf. De Civitate Dei, XIV, 28: CCL 48,
451.
144 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 36.
145 Em grego o verbo é
parakaleiu = invocar, chamar a si.
146 Cf. Gén 6, 7.
147 Gén 6, 5-7.
148 Cf. Rom 8, 20-22.
149 Cf. Mt 15, 32, Mc 8, 2.
150 Hebr 9, 13 s.
151 Jo 20, 22 s.
152 Act 10, 38.
153 Hebr 5, 7 s.
154 Hebr 9, 14
155 Cf. Lev 9, 24; 1 Rs 18, 38; 2 Crón 7, 1.
156 Cf.Jo 15, 26.
157 Jo 20, 22 s.
158 Mt 3, 11.
159 Cf Jo 3, 8
160 Jo 20, 22 5.
161 Cf. Sequêcia Veni, Sancte Spiritus.
162 S. BOAVENTURA, De septem donis Spiritus Sancti,
Collatio II, 3: Ad Claras Aquas, V, 463.
163 Mc 1, 15.
164 Cf. Hebr 9, 14.
165 Cf. Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 16.
166 Cf. Gén 2, 9. 17.
167 CONC. ECUM. VAT. II,
Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 16.
168 Ibid., 27.
169 Cf. Ibid., 13.
170 Cf. JOÃO PAULO II,
Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de
Dezembro de 1984), 16: AAS 77
(1985), PP. 213-217.
171 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 10.
172 Cf. Rom 7, 14-15- 19.
173 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 37.
174 Ibid., 13.
175 Ibid., 37.
176 Cf. Sequência do
Pentecostes: « Reple cordis intima
».
177 Cf. S. AGOSTINHO, Enarr. in Ps. XLI, 13: CCL 38,
470: « Que espécie de abismo é este e qual é o abismo que invoca? Se
abismo quer dizer profundidade, não pensamos nós, porventura, que o
coração do homem é um abismo? O que há, efectivamente, que seja mais
profundo do que este abismo? Os homens podem falar, podem ser vistos
através das acções que fazem com os seus membros, podem ser ouvidos quando
falam; e, no entanto, de quem poderemos nós penetrar o pensamento, ou de
quem poderemos nós sondar o coração? ».
178 Cf. Hebr 9, 14.
179 Jo 14, 17.
180 Mt 12, 31 s.
181 Mc 3, 28 s.
182 Lc 12, 10.
183 S. TOMÁS DE AQUINO,
Summa Theol. IIa-IIae, q. 14,
a. 3; cf. S. AGOSTINHO, Epist.
185, 11, 48-49: PL 33, 814-815; S. BOAVENTURA, Comment. in Evan. S. Luc: cap.
XIV, 15-16: Ad Claras Aquas, VII, 314 s.
184 Cf. Sl 81 [80], 13; Jer 7, 24; Mc 3, 5.
185 JOÃO PAULO II,
Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de
Dezembro de 1984), n. 18 AAS
(1985), PP.224-228.
186 PIO XII,
Radiomensagem ao Congresso Catequístico Nacional dos Estados Unidos da
América, em Boston (26 de Outubro de 1946): Discorsi e Radiomessaggi, VIII
(1946), 288.
187 JOÃO PAULO II,
Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de
Dezembro de 1984), n. 18 AAS 77
(1985), PP. 225 s.
188 1 Tes 5, 19; Ef 4, 30.
189 Cf. JOÃO PAULO II,
Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de
Dezembro de 1984), nn. 14-22: AAS 77 (1985), pp. 211-233.
190 Cf. S. AGOSTINHO, De Civitate Dei, XIV, 28: CCL 48,
451.
191 Cf. Jo 16, 11.
192 Cf. Jo 16, 15.
193 Cf. Gál 4, 4.
194 Apoc 1, 8; 22, 13.
195 Jo 3, 16.
196 Gál 4, 4 s.
197 Lc 1, 34 s.
198 Mt 1, 18.
199 Mt 1 , 20 s.
200 Cf. S. TOMÁS DE
AQUINO, Summa Theol. IIIa, q.
2, aa. 10, 12 q.6, a.6; q. 7, a. 13.
201 Lc 1, 38.
202 Jo 1, 14.
203 Col 1, 15.
204 Cf. por exemplo, Gén 9, 11; Dt 5, 26, Jó 34, 15; Is 40. 6; 52, 10; Sl 145 [144], 21; Lc 3, 6; 1 Pdr 1, 24.
205 Lc 1, 45.
206 Cf. Lc 1, 41.
207 Cf. Jo 16, 9.
208 2 Cor 3, 17
209 Cf. Rom 1, s.
210 Rom 8, 29.
211 Cf. Jo 1, 14. 4. 12 s.
212 Cf. Rom 8, 14
213 Cf. Gál 4, 6; Rom 5, 5: 2 Cor 1, 22.
214 Rom 8, 15.
215 Rom 8, 16 s.
216 Cf. Sl 104 [103], 30.
217 Rom 8, 19.
218 Rom 8, 29.
219 Cf. 2 Pdr 1, 4.
220 Cf. Ef 2, 18; Const. dogm. sobre a
Divina Revelação Dei Verbum, 2.
221 Cf. 1 Cor 2, 12.
222 Cf. Ef 1, 3-14
223 Ef 1, 13 s.
224 Cf. Jo 3, 8.
225 Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22; cf. Const.
dogm. sobre a Igreja Lumen
gentium, 16.
226 Jo 4, 24.
227 Ibid.
228 Cf. S. AGOSTINHO, Confess. III, 6, 11: CCL 27, 33.
229 Cf. Tit 2, 11.
230 Cf. Is 45, 15.
231 Cf. Sab 1, 7.
232 Lc 2, 27- 34.
233 Gál 5, 17.
234 Gál 5, 16 s.
235 Cf. Gál 5, 19-21.
236 Gál 5, 22 s.
237 Gál 5, 25.
238 Cf. Rom 8, 5. 9.
239 Rom 8, 6. 13.
240 Rom 8, 10. 12.
241 Cf. 1 Cor 6, 20.
242 Cf. Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 19. 20. 21.
243 Lc 3, 6; cf. Is 40, 5.
244 Cf. Rom 8, 23.
245 Rom 8, 3.
246 Rom 8, 26.
247 Rom 8, 11.
248 Rom 8, 10.
249 Cf. Enc. Redemptor hominis (4 de Março de
1979), n. 14: AAS 71 (1979),
PP. 284 S.
250 Cf. Sab 15, 3.
251 Cf. Ef 3, 14-16.
252 Cf. 1 Cor 2, 10 s.
253 Cf. Rom 8, 9; 1 Cor 6, 19.
254 Cf. Jo 14, 23; S. IRENEU, Adversus haereses V, 6, 1: SC 153,
PP. 72-80; S. HILÁRIO, De
Trinitate, VIII, 19. 21: PL 10, 250. 252; S. AMBRÓSIO, De Espiritu Sancto, I, 6, 8: PL
16, 752 s.; S. AGOSTINHO, Enarr.in
Ps. XLIX, 2: CCL 38, 575 s. S. CIRILO DE ALEXANDRIA, In Joannis Evangelium, lib. I; II:
PG 73, 154-158; 246; lib. IX: PG 74, 262; S. ATANÁSIO, Oratio III contra Arianos, 24: PG
26, 347 S.; Epist. I ad
Serapionem, 24: PG 26, 586 s.- DIDIMO DE ALEXANDRIA, De Trinitate II, 6-7: PG 39,
523-530; S. JOÃO CRISÓSTOMO, In
epist. ad Romanos homilia XIII, 8: PG 60, 519; S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theol. Ia, q. 43, aa. 1,
3-6.
255 Cf. Gén 1, 26 s.; S .TOMÁS DE
AQUINO, Summa Theol. Ia, q. 93,
aa. 4. 5. 8.
256 Cf . Const. past
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 24; cf. também n.
25.
257 Cf. Ibid., 38, 40.
258 Cf. 1 Cor 15, 28.
259 Cf. Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 24.
260 Cf. S. IRENEU, Adversus haereses, IV, 20, 7: SC
100/2, p. 648.
261 S. BASÍLIO, De Spiritu Sancto, IX, 22: PG 32,
110.
262 Rom 8, 2.
263 2 Cor 3, 17.
264 Cf. CONC. ECUM. VAT.
II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 53-59.
265 Ibid., 38.
266 1 Cor 8, 6.
267 Jo 16, 7.
268 Jo 14, 18.
269 Mt 28, 20.
270 É o que exprime a
«Epiclese» antes da Consagração: « Santificai estes dons, derramando sobre
eles o vosso Espírito, de modo que se convertam, para nós, no Corpo e
Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo » (Oração Eucarística II).
271 Cf. Ef 3, 16.
272 Cf. Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 23.
273 Ibid.
274 Cf. Act 2, 42
275 CONC. ECUM. VAT. II,
Decr. sobre o Ecumenismo Unitatis
redintegratio, 2.
276 S. AGOSTINHO, In Johannis Evangelium Tractatus
XXVI, 13: CCL 36, 266. Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. sobre a Sagrada
Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 47.
277 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 1.
278 Act 17, 28.
279 1 Tim 2, 4.
280 Cf. Hebr 5, 7.
281 Lc 11, 13.
282 Rom 8, 26.
283 Cf. ORIGENES, De orctione, 2: PG 11, 419-423.
284 Rom 8, 27.
285 Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 63.
286 Ibid., 64.
287 Ibid., 4; cf. Apoc 22, 17.
288 Cf. Rom 8, 24.
289 Cf. Jo 4, 14; Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium, 4.
290 Cf. Apoc 12, 10.
291 Cf. Rom 8, 23.
292 Cf. Sequência Veni, Sancte Spiritus.
293 Cf. Símbolo Quicumque: DS 75.
294 Cf. Rom 5, 5.
295 Convém lembrar aqui
a importante Exortação Apostólica Gaudete in Domino, publicada pelo
Sumo Pontífice Paulo VI, de v. m., a 9 de Maio do Ano Santo de 1975:
permanece com todo o seu valor, de facto, o convite que aí se exprime,
para « implorar do Espírito Santo este dom da alegria » e também para «
saborear a alegria propriamente espiritual, que é um fruto do Espírito
Santo »: AAS 67 (1975), pp.
289; 302.
296 Cf. Jo 16, 22.
297 Cf. Rom 14, 17; Gál 5, 22.
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