|
Lisboa, no final do sec. XV, caracterizava-se por um emaranhado confuso de ruas estreitas e de becos de forte tradi�ao islamica-"ruas havia que eram tao estreitas que nem uma bestade carga podia passar"-segundo Frei Agostinho de Santa Maria.
A atrac�ao de nacionais e estrangeiros, provocada pelo progressivo crescimento do comercio de ouro, escravos e marfim das costas de Africa e de a�ucar e madeiras da Ilha da Madeira, originou um surto demografico, que transformou a forma de vida e as exigencias urbanas de Lisboa. Este surto demografico, dificilmente contido pela Muralha Fernandina, criou situa�oes complexas a nivel urbano numa cidade eminentemente medieval.
Consciente da situa�ao critica da cidade (existencia de problemas de saneamento, de circula�oa e ate de controlo policial) e da necessidade premente de encontrar solu�oes, D. Manuel assina uma serie de cartas que estabelecem um conj. de regras para a renova�ao da cidade e que se estendem desde os materiais de constru�ao e modelos estruturais aos alinhamentos dasfachadas e ruas. Tentando atenuar os efeitos do crescimento demografico, este Rei determinou que " se derribem os olivais de muro adastro", fossem de quem fossem (Igreja, Mosteiro, Morgados ou grandes Senhores), e se processasse o seu loteamento para a constru�ao de casas. Estas medidas datadas dos principios do sec XVI para a urbaniza�ao das zonas rurais dentro dos muros da cidade, revelaram-se insuficientes perante o continuo crescimento demografico da cidade.
Com o centro da cidade a deslocar-se da zona do Pa�o de Alca�ova para as margens do Tejo e para poente com os aterros para a constru�ao da Ribeira das Naus, Lisboa tendia a alargar os seus limites, na direc�ao poente, zona onde se situavam os dominios de um fisico-astrologo da corte, enriquecido por benesses regias, Guedelha Pala�ano. Devido a sua sabedoria e influencia alargou e conservou os seus dominios, que se estendiam por toda a superficie ocupada pelo actual Bairro Alto e que compreendiam olivais, vinhas, pomares e courelas de cereais. Apos a morte do proprietario, a sua viuva, tenta aforar as suas terras a Filipe Gon�alves, estribeiro de D. Manuel. No entanto, em 1498, onze anos mais tarde, vende as herdades, nao ao seu aforador, mas a Luis Atouguia. O filho deste ultimo, Lopo de Atouguia, faz entao, em 1513, um acordo com os aforadores Bartolomeu de Andrade e sua mulher, que consistia no sub-aforamento das herdades em talhoes com o objectivo de constru�ao de casas. E foi o facto de existir um so proprietario que tornou possivel a harmonia do tra�ado no extenso territorio. Depois dos primeiros aforamentos, a obten�ao de um chao (6,75*13,50m) passou a ser regular, o que fez da zona extra-muros uma area praticamente urbanizada no sec XVII.
A divisao das propriedades em talhoes e hortas tera sido tambem um factor para a aplica�ao de uma malha ortogonal. Esta origem rural, ainda hoje transparece em muitos nomesde ruas, tais como: Rua da Vinha, da Horta Seca, das Parreira, da Hera, da Palmeira, do Jasmim, das Flores, etc.
Esta urbaniza�ao alcan�a grande sucesso atraves do convivio das diferen�as sociais entre os primeiros aforadores do inicio do sec XVI e os que lhe seguiram. Os 1� habitantes foram mareantes, mercadores e artifices, aos quais se juntaram posteriormente, os clerigos, capitaes de mares, aristocratas e burgueses.
Por seu turno, as pestes, as epidemias e os terramotos do sec. XVI-1531 e 1551- que abalaram a cidade intra-muros, fizeram com que a aristocracia e a burguesia decidissem implantar-se na nova cidade extra-muros, j� que esta possuia melhores condi�oes de habitabilidade. Ora a area de implanta�ao do Bairro Alto permitiu uma excelente exposi�ao solar, que foi explorada orientando o maior n� de espa�os publicos- ruas no sentido norte/sul-garantindo-se atraves da utiliza�ao dos declives existentes a evacua�ao detritos, pela lavagem das chuvas, bem como a circula�ao de ventos, o que permitia afastar os riscos de doen�as e pestes.
Outro factor atractivo e a facilidade de circula�ao para o novo meio de transporte da aristocracia e alta burguesia, o coche, pois o Bairro Alto tinha ruas amplas e direitas, o que nao havia na cidade dentro da muralha.
O Bairro Alto consolida-se urbanistica e arquitectonicamente durante o sec XVII, com uma planifica�ao estrutural moderna e inovadora, sendo a nivel social um bairro de pleno e constante convivio.
No inicio do sec. seguinte, o Bairro estava quase totalmente construido e a sua malha urbana alargada, gra�as a existencia de edificios de caracter religioso, palacios e casas.
As tavernas, hoje bares e pubs, eram vizinhas dos saloes e tertulias culturais como acontecia no sec. XVIII quando no Palacio do Cunhal das Bolas se faziam animadas reunioes, ilustradas pelo condeda Ericeira e pela Academia dos Generosos, ou num patio da rua da rosa se armava um "presepio das bonecas" para representar as obras dramaticas de Antonio Jose da Silva, o Judeu. A outra face do Bairro, nocturna e marginal, ganha fama pelos constantes assaltos a mao armada, conflitos e brigas, ou "esperas" - como as que os "capotes brancos" faziam aos " capotes pretos".
Com o sismo de 1755, a maior parte destas edifica�oes foram destruidas, nao obstante a sua estrutura e tra�adoterem permanecido ilesos. Posteriormente foram reconstruidos os edificios e restauradas as fachadas.
Apos o terramoto, as tipografias implantam-se no bairro, abrindo portas para os jornais e periodicos que ali se instalaram em meados de oitocentos. A fama ludica e acolhedora que hoje o Bairro tem(que sempre teve), foi tambem adquirida pela existencia de grande numero de botequins e famosos restaurantes-como o Tavares Rico (1789), o Tavares Pobre (1852), o Alfaia (1880)- onde se reuniam famosos literatos, artistas, politicos e jornalistas. O tipo de boemia e de trabalho nocturno modificaram-se, ja que agora as conversas tem por temas literatura, politica e as noticias. No sec XIX, as qualidades de intimidade e de privacidade tornam o bairro um centro de intelectuais e de artistas; Luisa Todi, Nicolau Tolentino e Bocage foram alguns dos que escolheram o Bairro para viver.
No inicio de novecentos, as residencias senhoriais transformaram-se em edificios habitados por varios inquilinos.Assim, progressivamente, a cidade foi crescendo e modificando-se, passando o bairro a ter uma vivencia e uma forma de estar muito proprias.
|
|