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Capítulo 07 - As razões dele, os motivos dela
No meio de toda aquela confusão, Lynda esquecera uma vez que não tinha um quarto para onde ir. Acabou voltando pelo mesmo caminho. Escolhera ficar com Apple. Talvez por considerar que ela, de todas, fosse a mais firme... Talvez por ela sempre tivesse um sorriso no rosto... Ou podia ser apenas por saber que aquela garota não conseguia dizer não a ninguém. Fosse o fosse, era para o quarto de Apple que ela iria. Sabia apenas que não queria e não podia ficar sozinha... Kevin estava ainda confuso. Não tinha certeza se estava certo, ou se quem tinha a razão, em todo aquele problema, era a namorada. Jogou-se sobre a cama, como se o corpo fosse um fardo pesado demais para ser carregado. Suspirou pesadamente. Queria que as respostas que precisava fossem algum daqueles artigos que se escolhiam por catálogo e se pediam por tele entrega. Por enquanto, o teto parecia ser um bom conselheiro. Apple estava tentando sinceramente comer alguma coisa... Precisava... Tinha passado a maior parte do dia com água e sucos. Sentia um enorme buraco crescente no estômago. Mas, por maior que fosse sua fome, não conseguia por nada sólido na boca. Parece que qualquer coisa que tentasse colocar para dentro, tomaria o caminho de volta imediatamente. Sentou-se no sofá, enfastiada e impaciente. Por que aquilo estava acontecendo com ela afinal? Passou a mão pelo rosto inconformada... AJ ficou por algumas horas mexendo em seu equipamento, tentando fazer músicas... Mas a única coisa na qual conseguia pensar, era aquela crise romântica. Sempre que parava, suspirava. A cesta de frutas em sua frente, não ajudava a esquecer. Apple... Por que ela tinha sido tão dura afinal? Ele ainda não conseguia compreendê-la por completo, apesar de querer fazê-lo com toda a sinceridade. Já fazia algum tempo que ninguém o fazia sentir-se como aquela garota fazia... Estava com medo. Cibele bateu a porta do quarto e percebeu-se sozinha. Não que isso a incomodasse de todo, mas não queria sentir-se daquele modo. Apanhou o controle remoto e ligou a TV. Sequer percebeu qual programa era exibido, tudo o que queria era algum som preenchendo o vazio daquele quarto. Mas o que adiantava? Nada parecia suficiente para preencher o vazio do seu coração? Seria esse realmente o fim de tudo? Deteve-se em pé no meio do quarto, olhando a cama... Por um momento pareceu esquecer tudo, até mesmo quem era... Brian dispensou a babá e observou o filho que dormia tranquilamente. Havia ainda mais esse inconveniente: explicar ao menino a ausência de Cibele. Como faria algo assim? Sequer ele entendia o que havia acontecido. Sua cabeça estava pesada, os olhos doíam. Ela tinha razão? Ele estava sendo demasiadamente negligente? Suspirou sem resposta. Não conseguia pensar sobre aquilo. Tudo parecia um intrincado sistema de linhas emaranhadas. Suspirou cansado, entrando no banheiro e fechando a porta. Juliette mal teve forças para fechar a porta. Tudo o que ela queria era dormir... Por horas e apagar da mente qualquer pensamento doloroso. Mas assim que se deitou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro, percebeu que não conseguiria afastar aqueles pensamentos de si. Mas não queria pensar! De que adiantava tudo aquilo? Resmungou, amassando o travesseiro violentamente. Por que aquilo tudo não podia simplesmente desaparecer? Howie sentou-se no sofá, apanhou o controle remoto do aparelho de som e ligou-o. Esticou o braço e agarrou o pequeno pote de vidro que continha uma variedade de balas. Depositou-o sobre as pernas e começou a comer seu conteúdo... Vazia... Sua cabeça estava completamente vazia. Repetia mentalmente as frases da música que estava ouvindo. Era tudo o que conseguia. Enfiar a mão no recipiente de balas, levar as balas a boca, cantarolar canções desconhecidas e suspirar... Era tudo do que se sentia capaz. Eleanor escolheu tomar um longo e relaxante banho, mas depois de despida e com a banheira cheia, tudo que o conseguiu fazer, foi sentar-se à borda e passar a mão pela água morno, observando as ondulações que provocava. Estava acontecendo mais uma vez, mas agora parecia doer ainda mais... Por quê? Por que tudo tinha que parecer assim tão difícil e complicado. Não queria sair dali, nem entrar na banheira... Não queria fazer nada... Absolutamente nada. Nick tentou jogar vídeo-game, ver TV, ouvir música, tomar banho, dormir, mas nada do que fazia parecia aquietá-lo. Tinha vontade de sair correndo pelos corredores do hotel, mas isso também parecia inútil. Suas pernas estavam pesadas demais. Sua cabeça estava pesada... Acabou sentando-se no chão, com as costas encostadas à cama. Estava sentindo-se inútil e oco. Um garotinho... Tinha receio de começar a chorar chamando pela mãe a qualquer momento. Todos eles pareciam envoltos numa massa densa de medo e confusão. Sentimentos completamente misturados: amor, indecisão, confusão. Todos sentiam as mesmas coisas. Amavam-se, mas naquele momento, parecia que amor não era o suficiente. De ambos os lados, parecia estar faltando compreensão, entendimento, identificação... Agora, tudo o que conseguiam fazer era pensarem uns nos outros, tentando imaginar o porquê de tudo aquilo, buscando sinceramente sentir o que o outro estava sentindo. Não era tarefa fácil. Por mais que se esforçassem, aquilo parecia algo impossível de se alcançar. Desejavam uma magia para que fossem capazes de, por alguns segundos, trocarem de lugar e experimentarem os sentimentos dos outros. Apple terminava de ajeitar a sua cama para finalmente dormir quando ouviu uma tímida batida na porta. Voltou-se e foi abri-la. Encontrar os olhos tristes e úmidos de Lynda encheu seu coração ainda mais de tristeza. Por algum motivo, oculto ao seu entendimento, sentia que era responsável por tudo aquilo. Bobagem sua! Suspirou e abriu a porta para a companheira, sem dizer palavra. Ainda em silencio, as duas seguiram para a cama e deitaram-se... Cada qual com uma violenta carga no coração. AJ também acabara decidindo que dormir seria a melhor saída naquele momento. Pouco adiantaria ficar remoendo fatos que pareciam indissolúveis. Mesmo assim, sua mente repetia sem pausa a mesma pergunta: estou mesmo sendo egoísta? Sem conseguir responder ou esquecer a questão que atormentava sua mente. Parecia um castigo. Há dias tinha em meio a suas coisas um anel que comprara para a namorada. Já tinha algum tempo que queria falar para ela o quanto era importante para ele. Mas faltara coragem. Tanto tinha cometido erros antes que agora pensara que devia pensar muito bem antes de assumir algum compromisso sério... Parecia mesmo estar sendo castigado por sua indecisão. Kevin já se revirava na cama há alguns minutos. Não conseguia esquecer as palavras da namorada. Sentia-se culpado e confuso. Queria muito abraça-la e dizer que tudo ficaria bem. Fechou fortemente os olhos, como se assim pudesse expulsar aqueles sentimentos e pensamentos de dentro de si. Mas era inútil. O que estava escapando ao seu entendimento? Por que de repente parecia haver tantos problemas? Não podia deixar de considerar que ele realmente estivesse sendo um gigantesco covarde, evitando enfrentar tudo o que vinha acontecendo em sua vida... Eleanor deitou-se e puxou o edredom quase sobre sua cabeça. Queria apenas a companhia do escuro e do silencio. Que sabe assim, espantaria para bem longe de si aquele medo fenomenal que parecia sacudir seus ossos. Parecia que tudo o que fazia, só servia para fomentar seu pavor. Encolheu-se na cama, colocando-se em posição fetal. No momento, dor era tudo que parecia ser capaz de sentir... Nick colocou a cabeça sobre o travesseiro, sentindo como se ambos fossem feitos de puro concreto. Tudo lhe parecia desconfortável naquele momento. A cama parecia ter espinhos ou pregos. Alguma coisa estava lhe escapando e isso o incomodava demais. Sentia-se extremamente impotente. Abraçou a si mesmo, apertando os próprios braços. Estava sentindo-se mais carente que o normal. Em verdade, estava com muito receio de que aquilo tudo acabasse sendo definitivo. Fechou os olhos deixando escapar uma lágrima quente e dolorida. Cibele amassou o travesseiro pela terceira vez e olhou a cama demoradamente. Tinha que dormir. Precisava dormir... Mesmo com a estranha sensação de que se fechasse seus olhos um gigante monstro imaginário viria devorá-la. Sentou-se na cama com algum receio e devagar inclinou a cabeça sobre o travesseiro. Não conseguia mais pensar em qualquer coisa. Precisava dormir... Era o que sua mente repetia sem pausa. Mas mesmo com os olhos pesados e doloridos, mesmo sentindo o corpo completamente sem forças, não conseguia sossegar o espírito. Brian finalmente conseguia deitar-se à cama. A companhia do filho era a única coisa boa... De resto, sentia como se seu corpo fosse um amontoado de músculos doloridos que pareciam querer se desintegrar a qualquer momento. Sua fonte latejava violentamente. Tudo o que queria era alívio. Mas se ele fosse culpado, não teria refrigério. Ele mesmo julgava merecer algum castigo por ser incapaz de fazer a sim mesmo feliz. Mesmo sem entender os motivos, sabia que algo estava errado... E ao que tudo indicava, ele estava errado. Juntou as mãos e pediu iluminação... Juliette ainda estava sentada na cama, com as costas recostadas em uma pilha de travesseiros e os pés enrolados no lençol. Só conseguia suspirar sem pausa... Dezenas de vezes... Como se em cada suspiro estivesse exorcizando seus medos e demônios. Mesmo assim, parecia que o tormento não a abandonava. Encolheu as pernas e abraçou os joelhos. Talvez com menor espaço, o medo se tornasse pequeno também... Não aconteceu... Howie acrescentou mais um lençol a cama. Estava frio. Mas por mais que tentasse se aquecer, parecia que o frio vinha diretamente do seu coração. Sendo assim, não importava o que fizesse, continuaria sentindo aquela sensação gélida. Encolhido ou estendido na cama, tudo o que conseguia sentir era frio e vazio. Suspirar parecia doloroso também. E cada vez que fechava seus olhos, a escuridão parecia vir acusá-lo de uma série de faltas. Não tinha saída afinal... Não conseguiria dormir em paz de modo algum... - Acha que... – iniciou Lynda, com o rosto virado para o travesseiro. - O quê? – questionou Apple olhando as sombras no teto. - Não... Nada... – suspirou. - Também está assustada? – perguntou Apple fechando os olhos. - Sim... Na verdade... Assustada demais... – iniciando um pranto silencioso. - Durma... Amanhã será um novo dia... – conclui suspirando longamente. – Eu espero! – pensou, fechando os olhos. Eleanor não sentiu quanto sua mente mergulhou no mundo dos sonhos. Tão exausto estava o seu corpo e espírito que simplesmente desligaram-se assim que seus olhos se fecharam. Desligados, mas não desconectados daquele turbilhão intimo que continuava agitando-se dentro dela. Até que o novo dia despontasse... Cibele finalmente adormeceu. Embora atormentada e inquieta, sentiu os olhos se fecharem pesadamente e o sono domina-la. Agora estava entregue aos pesadelos que toda aquela agitação iria proporcionar-lhe. Não havia lutas ou disfarces então... O dia seguinte seria totalmente novo... Mesmo com uma luz vacilante dançando no teto, Juliette acabou dormindo. Talvez tenha sido aquela luminosidade mesmo que iludira seus sentidos fazendo-os hibernar. Sem os sentidos vigilantes, mas com toda a sensibilidade do seu subconsciente acesa e alerta. Não importava o quanto estivesse entorpecida, aquilo parecia que permaneceria com ela até o dia seguinte... Os olhos de AJ se fecharam contra a vontade dele. Um cigarro foi esquecido, queimando sozinho no cinzeiro. O corpo mal coberto pelo edredom. Braços estendidos ao longo do corpo. O rosto contraído. Mesmo adormecido, continuava preocupado, abalado, atormentado, assustado. O corpo parecia agitado, mesmo desacordado. Não havia mesmo uma fuga para aqueles sentimentos... Não até que a luz do sol voltasse a brilhar... A luz da TV continuava iluminando o quarto de forma intermitente e oscilante, mas os olhos de Nick não acompanhavam mais os movimentos na tela de cristal. Seus pensamentos já estavam em outro lugar, além dos limites da consciência. Embora nesse lugar também não encontrasse maior segurança ou amparo, ao menos era um lugar onde podia esperar... Aguardar até as horas se passarem e o ciclo de um novo dia se iniciar... Sob o ressonar suave da criança ao seu lado, Brian viu seus sentidos serem embalados numa estranha canção de ninar. Adormeceu, desatando os laços da realidade e deixando-se abraçar por uma inconsciência embaraçada e trepidante. Mesmo em seu mundo resguardado, alguma coisa parecia quebrada e fora de lugar. Buscaria conserto logo que recebesse a oportunidade de um novo amanhecer... O sono veio de forma instantânea, assim que a mente de Kevin se esvaziou o suficiente. Fora o bastante para colocar sua mente em estado de repouso, mas não o bastante para aplacar toda a sorte de sensações de vibravam em seu espírito. Enquanto seu físico se aliviava da tensão acumulada, mergulhado naquele estado de inércia; seu espírito debatia-se entre dúvidas à espera do começou do dia seguinte... Depois de uma guerra intensa contra a exaustão, a vontade do corpo venceu a temor da mente. Howie acabou adormecendo abraçado ao travesseiro de forma defensiva, como se a qualquer momento pudesse ser atacado. Por seus próprios pensamentos e temores, talvez. Certamente que o letargo não era o suficiente para calar os gritos de sua alma. Mesmo assim, foi a melhor forma que seu espírito encontrou de aguardar até que amanhecesse... |
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