Capitulo 01

O anjo da morte

 

- Acorda! – disse pausadamente aproximando os lábios da orelha dele. Os olhos azuis de Nick se abriram pouco a pouco. – Nickolas Gene Carter! Acho que temos um assunto urgente a ser resolvido! – declarou placidamente sem demonstrar emoção alguma.

- Hã? – Nick arregalou os olhos assustado. –O que?

- Boa noite! Pelo que vejo já está recuperado do susto! Acredito que o que você viu realmente lhe meteu muito medo, mas eu não tenho tempo para isso... –Acredite! Por minha vontade eu não estaria aqui, mas... Tenho meus superiores... – voltando os olhos para o céu.

- Q-quem é você? – pálido e tremulo.

- Por que todos têm medo de mim? Faço tanto esforço para parecer amigável e cordial... – cruzando os braços. – Eu estava lá quando Jonathan Foster sofreu aquele acidente... Conheço você Nickolas e sei que não se assusta com tão pouco...

Os olhos de Nick se arregalaram ainda mais. Jonathan Foster tinha sido seu amigo de infância. O menino passava muito tempo com ele e os irmãos... Mas tragicamente, em um verão, quando Nick tinha 8 anos, enquanto brincavam numa casa da arvore improvisada, Jonathan acabara caindo e batendo a cabeça tendo morte instantânea. Ele tinha seis anos...

Aquilo era algo que ninguém, além dos pais e dos irmãos sabia. Nem mesmo seus companheiros conheciam aquela história. Ele jamais falava sobre isso por que se sentia culpado. Tinha sido em meio a uma brincadeira iniciada por ele que o garoto acabara se desequilibrando e caindo... Jamais se esquecera daquilo. Jamais se perdoara.

- Não foi culpa sua Nickolas! – olhando-o da mesma forma serena. – Jonathan tinha mesmo uma jornada curta, porém importante... Não se preocupe com isso... Não mais... – ela olhava-o firmemente.

Nick estava apavorado. Não só pelo que ela dizia, mas pela forma como o fazia. Nenhuma vibração na voz, sempre com aquela tranqüilidade assustadora. Seus olhos sequer mexiam. Não sorria, nem esboçava nenhuma reação facial. Parecia mais uma estátua de cera animada.

- Como sabe disso? Como sabe disso tudo? – ela olhou através da janela.

- Eu estava lá... Sempre estou lá... – ele enrugou a testa.

- O  quê? – com a voz trêmula.

- Ah! Sinto muito! Estou sendo demasiadamente estúpida com você... Afinal eu conheço você, mas você não me conhece. - ela sentou-se na poltrona, cruzando as pernas. –  Pois bem... Eu sou conhecida por muitos nomes... Falam tanto sobre mim quanto evitam lembrar minha existência... Mas eu tenho um nome: Mors! Do latim... - ela ainda não tinha nenhuma emoção no rosto ou na forma como se movia. Nick formou uma ruga intensa na testa.

- Mors?

- Oh! Desconhece o latim? Suponho que sim! Bem... Em sua língua seria... Morte! – nenhuma vibração na voz, nenhum brilho diferente no olhar.

- M-m-morte? – encolhendo-se na cama e sentindo como se o espírito quisesse escapar do corpo.

- Sim! Sou o anjo da morte... A própria  morte... A dona da ampulheta! Aquela que é soberana sobre a vida! A morte simplesmente!

A cada palavra que ela dizia ele se aterrorizava mais e mais. Ela, no entanto não esboçava reação alguma. Nem uma linha no rosto pálido, sequer uma leve curva nos lábios, nenhum movimento nos olhos... Absolutamente nada! Devagar ela levantou-se e aproximou-se dele, provocando uma reação ainda mais aterrorizada. Nick praticamente pulou para fora da cama, indo se esconder num canto do quarto, mantendo os braços à frente.

- Não Nickolas... Você não vai morrer... Não é por isso que estou aqui. Você me causou um grande problema bancando o profeta, sabia? - olhando-o firmemente. - Você interrompeu o curso apropriado das coisas...

- Quem é você? Do que você está falando? - finalmente ele parecia completamente desperto.

De repente ele sentiu que o corpo se anestesiava. O que estava vendo, ali em sua frente? O anjo da morte? A própria morte bem ali... No mesmo cômodo, há apenas alguns metros dele... Pouco a pouco o coração desacelerou e a respiração começou a normalizar. Ele procurou concentrar-se no semblante da garota...

- Porque todos têm medo de mim? Eu sempre tento ser tão agradável... – disse olhando-o insistentemente. - A primeira coisa que deve saber é que sou a porteira, a barqueira... E não a soberana do submundo como muitos acreditam. - ela não movia um único músculo da face, exceto os lábios. - O submundo tem seu próprio soberano e, acredite, ele não é nem tão simpático, nem tão cordial quanto eu!- andando pelo quarto. - Eu tenho meu próprio mundo! Um mundo intermediário entre o plano terrestre e o plano celeste. Meu trabalho é apenas e tão somente conduzir os espíritos de um lado para o outro. – gesticulando sem nenhum sorriso ou sombra disso. - E Nick, foi exatamente aí que você mexeu... - apontando o indicador para ele.

- Eu? O que eu fiz?- levando ambas as mãos ao peito.

- Bem... – cruzando os braços às costas. - No momento em que você teve sua visão, desestruturou o meu mundo, desintegrou os portais pelo qual sou responsável e... - pensando enquanto falava.

- E-eu fiz isso? - nervosamente levando a mão à boca.

- Infelizmente! Por algum motivo que desconheço você anteviu o acidente e acabou interferindo no andamento natural das coisas. Sinto muito, mas foi o responsável por iniciar algo que não acontecia há séculos... O jogo da morte... - sentando-se novamente.

- Oh Deus! Minha cabeça dói! Do que você está falando? Um jogo? - balançando a cabeça.

- É! O chefe... - disse apontando para cima. - Criou um mecanismo pra impedir que o mundo simplesmente se desintegrasse caso algum humano fizesse o que você fez, ou caso algum espírito conseguisse me sobrepujar...

- Mas o que eu fiz? - finalmente ficando ereto.

- Bem... Você simplesmente desequilibrou o mundo... - abrindo os braços sem aparentar maior preocupação.

- O quê? - sentindo uma leve vertigem.

- Em aproximadamente 5 horas o meu mundo deixara de existir, nas três horas seguintes os três mundos estarão com suas passagens instáveis e vulneráveis... Três horas depois não haverá barreiras entre os mundos... Daí em diante teremos 70 dias para reverter o processo ou...

- Ou? - trêmulo.

- É o fim da raça humana! Este plano será aniquilado! A força espiritual dos humanos é ínfima se comparada ao poder dos espíritos que estarão por aqui... Anjos, demônios e guerreiros do submundo... - ela continuava impassível.

- Por isso está aqui? Para consertar o que eu fiz? - assustado, aproximando-se de onde ela estava.

- Não exatamente! - fitando o chão e em seguida os olhos dele. - Preciso de você!

- De mim? - recuando. - E pra que?

- Como eu já disse daqui a poucas horas meu mundo vai desaparecer e com ele todo e qualquer traço de memória que eu tenho. Vou enfraquecer e adormecer... E quando eu acordar as únicas coisas que serei capaz de lembrar serão o meu nome e... Você!

- Eu? Mas por que eu? - recuando ainda mais.

- Por que você me jogou aqui! - ela levantou-se uma vez mais. - E Nick... Isso não é tudo...

- Por Deus... O que há mais?

- Você sabe que Ele não gosta que o fiquem chamando o tempo todo, não sabe? Então se possível, não faça mais isso.

- Ele? – franzindo a testa confuso. – Ele quem?

- Deus! Agora ouça... Enquanto eu estiver presa aqui, deixo de ser quem sou... Literalmente deixo de existir...

- Mas você é a morte!- assustado.

- Sim! Desde que caí não tenho poder algum sobre a vida... Ou seja, ninguém pode morrer!

- Mas isso não e perfeito? – com um sorriso confuso no rosto.

- Nick! Ao contrário do que todos os humanos pensam e desejam, eu existo por um motivo. Sou a porta de saída. Imagine um humano doente... Com uma doença grave e terminal... Um câncer, por exemplo. Sabe quanta dor suporta? Acaso imagina seu sofrimento?

- Oh... – franzindo a testa e quedando-se sentado em uma cadeira próxima.

- Sou aquela que delimita o fim da dor e do sofrimento... Em verdade, algumas culturas me tem  por uma benfeitora... – andando pelo quarto novamente.

- Nunca pensei desse modo...

- Ninguém nunca pensa... Até precisar... – seu rosto continuava sereno. – Mesmo um humano saudável, que envelhece, chega a um momento em que cessa seu entusiasmo... Ele já amou e foi amado; cuidou, criou, produziu... Enfim, sua missão neste plano acaba e ele se cansa. Alguns pedem para que eu venha apenas por terem vivido demais... – olhando-o demoradamente.

- Nossa! – fitando-a curiosamente.

- Surpreso? Há razão para tudo nesse universo...

- Sim... Compreendo... – ainda com  o rosto contraído.

- Pois bem... Eu... – ela levou a mão à cabeça de repente, quedando-se sentada em seguida.

- Tudo bem? – levantando-se e indo até ela.

- Não! Estou ficando cansada... Temos pouco tempo! O que você precisa fazer é ficar comigo e... – olhando-o firmemente. – Encontrar minha irmã e...

- Sua irmã? – afastando-se assustado.

- Sim! Vita! Minha alma gêmea... Minha irmã gêmea! Vita... Vida em latim. Minha oposta... E as guias... Auryn, Allyh e Ashy...

- Quem? – sacudindo a cabeça confuso.

- São os anjos que auxiliam na passagem dos espíritos entre os mundos. Funciona assim: Eu conduzo os espíritos daqui para o plano celeste. Vita faz o trabalho inverso... Auryn é o anjo dos sentimentos superiores, como amor, bondade, carinho... Ela cerca todo e qualquer espírito de carinho e acolhimento. Já a Allyh, é o anjo da espera, guarda sentimentos como esperança, confiança, fé...  Ela cuidar confortar os espíritos e faze-los sentirem-se seguros durante a troca de planos. Ashy  é o anjo da compreensão, ela detém com ela tristeza, medo, dor... É ela quem aplaca os sentimentos dolorosos e inferiores dos espíritos e também dos seu entes queridos na terra ou no plano celestial durante as transferências. Mas sem mim e sem Vita... Ninguém consegue fazer a passagem de qualquer dos lados...

- Quer dizer que ninguém pode nascer?

- Seu corpos sim... Mas suas almas não podem vir até eles... Vita e as outras perdem suas memórias no momento em que eu fechar meus olhos... Por isso preciso de você... Basta que você nos reúna e nossas lembranças retornarão e...

- Mas... – concentrado. – Se eu fizer isso...

- Já disse que você não morreria naquele acidente! O que teme?

- Mas e quanto aos outros? Vai matá-los? – assombrado.

- Em verdade não posso! Eles devem compreender e abdicar de suas vidas...

- Não! – gritou ele pondo-se de pé. -  Não posso deixar que morram!

- Garoto tolo! – com a mesma inexpressividade nos olhos. – Já estão mortos! Você não é Deus!

- Mas eles... – com a voz embargada. – São meus irmãos...

- Você não pode ter certeza que morreriam... Ou pode?

- Eu... – confuso. – Eu vi!

-  O que você viu? Ferimentos? Sangue? Dor? Ouça, já presenciei mortes instantâneas sem aviso ou sintoma e já vi homens serem alvejado bem o meio dos olhos e sobreviverem. – disse gesticulando. – Tudo é relativo...

- Mas você sabe, não sabe? – olhando-a com olhos estreitos.

- Sim! Eu sei sim! Eu sei quem deveria  ter morrido naquele acidente e quem sobreviveria... Eu estava acompanhando vocês, faz parte do meu trabalho...

- E então? – ela fitou-o longamente.

- Não posso dizer isso a você... Nickolas, você é o único com quem posso contar nesse momento...  Preciso mesmo de você!

Nick suspirou e olhou para fora por um instante. E se tudo não passasse de um sonho, como antes? Fechou os olhos apertando-os fortemente, mas quando os abriu deparou-se com os olhos negros da garota que ainda fitavam-no. O que ele faria? Se a ajudasse, poderia estar pondo em risco a vida dos seus amigos, sua família... E se não o fizesse... Colocaria em risco a vida da humanidade inteira... Suspiro uma vez mais.

- O que eu preciso fazer? – não tinha escolha afinal.

- Bem... – assentindo com a cabeça. – Ficar comigo em primeiro lugar! Mas devo adiantar que sou uma péssima humana!

- Como assim? – confuso.

- Minha personalidade não muda só por que perderei minha memória! Eu não sei sorrir, nem sentir coisa alguma... – sacudindo os ombros.

- Você não tem sentimentos?

- Não Nick! Eu sou a morte! Esqueceu?

- Mas... - sacudindo a cabeça.

- Não sou humana, nem tenho qualquer traço de humanidade... Por isso não sei sentir... È Vita que o faz bem... Seria humana se não fosse minha irmã... E, saiba que meu poder espiritual não desaparecera por completo...

- Oh meu D... – lembrou-se do que ela dissera antes. – E o que isso quer dizer?

- Quer dizer que mesmo sendo uma humana desmemoriada, ainda poderei ver e reconhecer espíritos, anjos e demônios!

- Ai!!! Minha cabeça dói muito! – passando a mão pela testa. – E como encontrarei as outras? – confuso.

- Fácil! Serão humanas desmemoriadas... Acredite! Você irá reconhecê-las quando as vir e, eu mesma serei capaz de reconhecê-las, não se preocupe com isso... – inclinou-se na cadeira. – Nick... Precisamos sair daqui...

- Não... Espera... Não estou pronto!

- E nem tem tempo para ficar! Vou apagar em pouco tempo... O que mais precisa saber?

- Tudo! O que vai acontecer enquanto você for... Humana?

- Muitas coisas! Tudo depende de quanto tempo vai levar até que eu encontre as outras e... – voltou a inclinar-se.

- Tudo bem? – agitado.

- Sono... –colocando a mão na testa. – Nickolas, o tempo está se esgotando. O que mais precisa saber?

- Eu... Eu... – confuso, andando de um lado para outro. – Tem mais alguma coisa que acredite que eu precise saber? – nervoso.

- Acredite em mim... Será confuso no primeiro momento... Mas vai se normalizar logo e... – deteve-se. – Agora creio que devemos sair daqui, a não ser que você queira me carregar no colo! – ele precipitou-se através da porta rapidamente. Ela seguiu-o caminhando lentamente.

Backstreet Fics ~ 2007 ~> In my dreams ~ #1version

By Luh Moon

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