É Tudo.

 

 

 

 

Claire sentara-se desta vez mais pesarosamente sobre a mesma cadeira em frente à sua anciã secretária. Batia com as pontas dos dedos na madeira envelhecida e ouvia-a ranger. Há muito tempo que não escrevia, tentou sacudir com um sopro o pó que cobri a sua máquina de escrever. Tinha cortado o cabelo pelo queixo na semana anterior, mas não se sentia bem assim. Pensava nisso enquanto se olhava, reflectida na cigarreira de porta que Thomas deixara esquecida da última vez que a visitara. Voltava o pescoço para deitar um breve e fugaz olhar pela janela, qual musicalidade soturna de filme a preto e cinzento... To Kill a Dead Man, era o que ouvia entoar na sua cabeça. Tinha o rosto magro, demasiado magro, tão magro que sentia já os contornos ósseos dos maxilares protuberantes. Sentia-se pálida, como se a pouco e pouco se fosse tornando translúcida, confundindo-se com o fumo azulado que se lhe esgotava por entre os dedos. Sofria o drama de não escrever. As suas mãos tremiam-lhe enquanto pairavam sobre as letras, e rebentava num choro compulsivo que durava noites a fio, se ousasse tentar esboçar um tímido pensamento. A exaustão abatera-se sobre ela essencialmente depois que ficou sozinha. Toda a sua casa lhe parecia grande demais, como se habitasse um gigantesco fantasma em forma de quatro paredes, desenhando uma prisão - era como se habitasse um gigantesco lugar ausente. Pensou nisso noites e noites a fio, esteve cerca de 11 semanas sem pregar olho, alimentando-se de café e cigarros, e de breves olhares pela janela para as ruas frias de Paris. Fingia que olhava uma janela com vista para o mar. mas no dia em que a encontramos, ela já não vê nada, finge apenas que olha. Recorda-se, como um aeroplano a rasar o oceano, do dia em que lhe estouraram os pensamentos dentro da cabeça e caiu estonteada, como morta, no meio do chão. Apenas sussurrava, entredentes o seu cansaço. Thomas veio, por duas ou três vezes, oferecer-lhe o abraço, segurar-lhe nas mãos e adormecer ao seu lado. Ela não se lembra sequer da presença dele, não se lembra de ele jamais ter lá estado, permanece apenas com um breve olhar cravado na sua retina, um olhar amargo e vermelho, petrificado de lágrimas, a pegar no chapéu e bater com a porta da rua, esquecendo a cigarreira de prata. Hoje, se Claire estivesse viva, lembrar-se-ia do seu aniversário, receberia um pulseira dentro de uma caixa de veludo azul e sentiria saudades de Thomas. Mas hoje Claire é apenas um corpo sentado e frente de uma secretária também moribunda. Estão acumuladas páginas e páginas em branco do livro que Claire nunca conseguiu escrever desde que P. morreu. Hoje, se conseguisse voltar a pensar, teria escrito... Amo-te. Adeus.

 

 

 

 

 

 

 

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