Na vidraça
pressinto mil olhos da noite, metamorfoses de água, minúsculas lágrimas de
orvalho, escapando-se ao nevoeiro nocturno. está frio lá fora, pressinto-o com
estes dois olhos que observam a inquietude das ruas desertas. Não há vento que
em bale as árvores despidas, tudo o que vejo são corpos inertes, secos de
saudade. O chão está húmido, pressinto-o na luz espelhada dos candeeiros, como
se ecoasse passos vazios de quem já não passa. Observo as cores da noite com os
meus dois olhos e por instantes desapareço - torno-me pequenina. Tenho milhares
de olhos à minha volta, adormecidos nas janelas que contemplo, em frente à
minha. Pressinto ao longe o som dos navios cruzando o farol, talvez uma sirene,
o som de uma melodia mais triste que a meia-noite... passo as noites assim à
janela, tocando a solidão da vidraça, procurando uma outra luz; ou um olhar que
cruze o meu... mas de facto todos os olhares estão adormecidos, embalados pelas
suas tristezas. A noite torna-se toda azul, de veludo azul, espesso e morno
como o sangue. Cobre-me inteira, escorrego pelas entranhas dessa noite. Mais
uma vez mil olhos me observam, mil olhos que não vejo nem reconheço, que
pressinto nas paredes do medo, no êxtase do arrepio com que desapareço por
baixo dos lençóis vazios. Mil olhos dormem fingindo que estão acordados. Eu
fecho os meus fingindo que durmo. E sonho com um amor-perfeito que se deite ao
meu lado.